Um sonho – Ivan Turgueniev

Um sonho

Ivan Turgueniev

I

Eu morava com minha mãe numa cidadezinha marítima e acabara de fazer 17 anos. Minha mãe não tinha nem 35 — casara-se bem jovem. Meu pai morrera quando eu entrava em meu sétimo ano, mas lembrava-me muitíssimo bem dele.

Mamãe era uma loura, de compleição frágil, com um rosto agradável, mas sempre triste, uma voz cansada e surda, gestos tímidos. Já fora célebre pela beleza e, desde então, nada perdera de seu encanto, apesar das marcas do tempo. Nunca vi olhos mais profundos, mais doces e mais melancólicos que os seus, cabelos mais finos e vaporosos, mãos mais graciosas. Eu a adorava e ela me amava…

Entretanto, nossa existência não era das mais felizes; um mal secreto, imerecido e incurável parecia estar corroendo minha mãe. E não era a dor de ter perdido meu pai, que amara apaixonadamente e de quem guardava devotadamente a lembrança no fundo do coração… Não, era uma coisa muito diferente, uma espécie de aflição inexplicável que eu distinguia de modo confuso, mas sem sombra de dúvida, ao olhar para seus olhos ternos e imóveis, seus lábios belos e fechados, marcados por um vinco amargo.

Mamãe me amava, disse eu; apesar disso, acontecia de ela me rejeitar como se minha presença se tornasse para ela subitamente insuportável. Inspirava-lhe verdadeira repulsa; ela se arrependia em seguida, me apertava de encontro ao coração, chorando, e me suplicava que a perdoasse. Eu atribuía essa espécie de acesso a sua saúde frágil, a sua dor… Não seria devido, em vez disso, a seu próprio caráter, a seus impulsos maldosos e até criminais, que afloravam em mim, embora raramente?… Não acredito, pois os dois fenômenos não coincidiam jamais.

Minha mãe se vestia sempre de preto, como se continuasse a guardar luto, mas vivíamos bem, dentro de nossas posses. Nossos amigos eram pouco numerosos.

II

Eu era a única preocupação de mamãe, e nossas duas existências for- mavam uma só unidade, por assim dizer. Essas relações entre pais e filhos nem sempre são recomendáveis… Podem até se tornar nefastas. Junte-se a isso eu ser filho único… e a maioria das crianças que estão no meu caso não recebem uma educação normal. Ao educá-las, os pais pensam demais em si mesmos… Isso não é bom. Eu não era nem mimado nem malcriado (dois defeitos que assaltam todos os filhos únicos), mas meu sistema nervoso fora arruinado prematuramente. Aliás, em geral, minha saúde deixava muitíssimo a desejar; herdara isso de minha mãe, com quem me parecia muito, sob todos os pontos de vista.

Evitava a companhia dos meninos de minha idade, a vida social e mesmo minha própria mãe. Meus prazeres preferidos eram a leitura, os passeios solitários e o devaneio, sobretudo o devaneio! Não me perguntem com que sonhava, pois não saberia dizer. Algumas vezes, parecia que estava diante de uma porta meio fechada, atrás da qual se escondiam mistérios insondáveis… Eu estava lá, inquieto, trêmulo, me perguntando o que havia do outro lado… não ousava de modo algum atravessar a soleira da porta… Esperava… Esperava de novo e assim continuava, ou então… dormia.

Se tivesse a menor inclinação poética me poria certamente a escrever versos; se fosse devoto, me tornaria monge… Não era nem um nem outro, eis porque continuava a sonhar — e a esperar.

III

Já assinalei que me sucedia de dormir sob a influência de devaneios confusos. Dormia muito, em geral, e os sonhos desempenhavam, na minha vida, um papel considerável: eu os tinha quase toda noite. Não os esquecia nunca, atribuía-lhes um sentido secreto e profético, tentava explicá-los a mim mesmo. Havia os que voltavam regularmente, e isso me surpreendia sempre. Um de meus sonhos, sobretudo, me perturbava mais que os outros. Eu caminhava ao longo de uma ruela estreita e mal pavimentada, margeada por casas vetustas, de tetos pontiagudos. Estava à procura de meu pai, que não morrera e se escondia em uma dessas estranhas construções. Eu penetrava debaixo de um pórtico baixo e sombrio, atravessava um patiozinho atravancado de tábuas e lenha e entrava enfim numa espécie de mansarda, precariamente iluminada por duas lucarnas redondas. Meu pai se mantinha de pé no meio da peça, vestindo um roupão, e fumava cachimbo. Mas não se parecia, em absoluto, com meu verdadeiro pai: era alto, magro, moreno, com um nariz aquilino, olhos sombrios e penetrantes, contando cerca de quarenta anos. Estava irritado comigo por tê-lo encontrado e eu, de minha parte, não estava nada feliz com o encontro: só experimentava um sentimento de surpresa e mesmo estupefação. O homem se desviou de mim e começou a resmungar alguma coisa, percorrendo a peça em passos miúdos… Em seguida, se afastou pouco a pouco, sem parar de resmungar e lançando olhares para trás, por sobre o ombro… As paredes da peça se distanciavam e se fundiam numa névoa… Atemorizado ante a idéia de perder meu pai mais uma vez, eu corria atrás dele, mas não o via mais, embora ouvisse sempre seu resmungo irritado, um resmungo rabugento… Meu coração se apertava, eu acordava e não conseguia readormecer… Todo o dia seguinte, pensava nesse sonho e não achava para ele, como é evidente, explicação satisfatória.

IV

No mês de junho, nossa cidadezinha sempre conheceu uma retomada de animação: numerosos navios iam atracar no porto, e rostos desconhecidos circulavam nas ruas. Eu passeava com prazer ao longo do cais, em frente aos restaurantes e às hospedarias, examinando os rostos dos marinheiros e dos visitantes de além-mar, instalados à sombra das cortinas de tela e bebendo em pequenos goles a cerveja que lhes era servida em copos de estanho.

Durante um desses passeios, um homem, numa mesa de calçada de restaurante, atraiu irresistivelmente minha atenção. Mantinha-se imóvel sobre a cadeira, de braços cruzados no peito, envolto num longo sobretudo negro, usando chapéu de palha. Mechas de cabelo raras e frisadas desciam baixo sobre sua fronte, quase à altura do nariz; seus lábios se crispavam sobre a embocadura de um cachimbo curto. Sua silhueta, seus traços, sua tez amarelada, crestada, tudo me parecia tão familiar que não pude me impedir de parar em frente a ele e de me perguntar quem ele era, onde já o tinha visto. Tendo sentido meu olhar pesando sobre si, ele ergueu seus olhos sombrios e penetrantes… Abafei um grito…

Esse homem era meu outro pai, o que procurava em sonho!

Não podia me enganar, pois a semelhança era de fato evidente demais. O próprio sobretudo evocava pela cor e pregas o roupão no qual aparecera para mim.

— Será que estou dormindo? — perguntei-me — … Não… o dia está claro, o burburinho da multidão de passantes me rodeia, o sol brilha alto no céu azul… E o ser não é um fantasma, mas um homem como eu.

Avistei uma mesinha vaga, lá me instalei, pedi cerveja e jornais e me pus de vigia.

V

A fim de melhor observar meu estranho vizinho sem chamar sua atenção, me escondi atrás do jornal.

O homem quase não se mexia, mal reerguendo, de vez em quando, a cabeça pesada que voltava logo a cair sobre o peito. Tinha jeito de estar à espera de alguém… Eu continuava olhando, bebia-o com os olhos… Por momentos, me pareceu que era um joguete de minha imaginação e que não havia nenhuma semelhança real, em absoluto, entre esse indivíduo e meu “outro pai”… Mas não, bastava que fizesse um gesto ou virasse ligeiramente a cabeça para que eu o reconhecesse e abafasse um novo grito de estupefação.

Ele terminou por perceber minha indiscrição, me olhou primeiro com surpresa, depois com despeito, fez menção de se levantar e deixou cair a bengala, que apoiara na mesinha. Eu me precipitei para agarrá-la e entregá-la a ele. Meu coração batia como se fosse explodir.

Agradeceu-me com um sorriso forçado, aproximou seu rosto do meu, ergueu as sobrancelhas e entreabriu os lábios, como se alguma coisa o houvesse intrigado.

— Você é muito educado, rapaz — disse ele com uma voz brusca, nasal e gritada. — Isso é raro, hoje em dia. Permita que o felicite: vejo que recebeu uma excelente educação.

Não sei mais o que respondi, mas o gelo estava quebrado. Soube que era um compatriota, recém-chegado de volta da América, onde vivera longos anos e para onde esperava retornar. Declarou ser o Barão de… não me lembro mais de quê e, aliás, não ouvi direito, naquele momento. De modo parecido com meu “outro pai”, terminava tudo que dizia por uma espécie de resmungo indistinto.

O barão quis saber meu nome… Ao ouvi-lo, seu rosto exprimiu de novo a mais viva surpresa. Em seguida, perguntou-me se fazia muito tempo que me encontrava na cidade e com quem morava. Respondi-lhe que vivia com minha mãe.

— E o senhor seu pai?

— Meu pai morreu há muito tempo.

Então, informou-se do nome de batismo de minha mãe, pôs-se a rir acanhadamente, desculpando-se logo a seguir e me explicando que não devia fazer caso disso, que era um tique trazido da América e que, em geral, era um grande excêntrico. No momento de nos separarmos, exprimiu o desejo de saber nosso endereço. Dei-lhe o endereço.

VI

A perturbação que me invadira no início de nossa conversa terminara por se dissipar; no momento, estava surpreso por conhecê-lo, e só. Sem dúvida, não gostava do sorrisinho de troça que flutuava no canto dos lábios do Sr. Barão quando me fazia perguntas, nem de seus olhos inquisidores que me furavam como verrumas… Havia, ao mesmo tempo, em seu olhar, algo de cruel e de protetor… algo assustador. Esse olhar, eu nunca vira em sonho.

Curioso rosto o seu: gasto, murcho, cansado e, no entanto, jovem. Desagradavelmente jovem! Além disso, meu “outro pai” não tinha na testa a cicatriz profunda que riscava a do barão, e não percebida por mim no início de nossa conversa.

Mal tivera tempo de indicar a meu novo conhecido o nome de nossa rua e o número da casa, quando um negro alto, envolto numa capa, que lhe dissimulava toda a parte de baixo do rosto, se aproximou, por trás, de meu vizinho e lhe tocou o ombro. O outro se voltou murmurando:

— Ah! Ah! Enfim!
Depois me cumprimentou com um leve sinal de cabeça e desapareceu no interior do estabelecimento com o negro.

Resolvi esperar sua volta: não para falar com ele (não sabia mais o que lhe dizer), mas sim pôr à prova minha impressão inicial. Uma meia-hora se passou, depois uma hora… Nada de barão… Fui a sua procura, atravessei todos os salões, mas não o encontrei em parte alguma: devia ter partido muito tempo antes, com o negro, pela porta dos fundos.

Sentindo um pouco de dor de cabeça, decidi tomar ar e percorri o cais até a vegetação do parque municipal, lá plantado fazia uns dois séculos. Após haver perambulado cerca de duas horas sob os grandes plátanos, voltei para casa.

VII

Mal transpusera a entrada do vestíbulo, nossa criada se precipitou ao meu encontro, com a fisionomia toda desfeita. Suspeitei que uma infelicidade houvesse acontecido em minha ausência…

Efetivamente, uma hora antes, minha mãe, que ficara trancada no quarto, dera um grande grito, e a criada, acudindo de imediato, a encontrara deitada sobre o soalho, sem sentidos. Ao cabo de alguns minutos, mamãe voltara a si, mas fora obrigada a guardar o leito. No momento, tinha um ar estranho e assustado, não falava, não respondia a nenhuma pergunta, olhava em volta e estremecia.

O médico, chamado de urgência por nosso jardineiro, prescreveu uma poção calmante. Nem a ele mamãe quis dizer nada. O jardineiro julgava ter visto, alguns segundos após o grito de minha mãe, um homem que atravessava a toda pressa o canteiro de flores e se dirigia ao portão principal. (Nós morávamos numa casinha de um andar, cujas janelas davam para um jardim razoavelmente grande). Não pudera distinguir seus traços, mas o homem era alto, magro, usava chapéu de palha enterrado até os olhos e uma sobrecasaca de abas longas…

“É o bardo!”, pensei imediatamente.

O jardineiro o perseguira, mas não conseguira alcançá-lo, ainda mais que a criada o chamara para enviá-lo ao médico.

Entrei no quarto de minha mãe. Estava deitada na cama, mais branca que o travesseiro no qual repousava a cabeça. Ela me reconheceu, sorriu fracamente e estendeu a mão. Acomodei-me à cabeceira da cama e perguntei o que se passara. No começo, ela não queria responder nada, mas, como insisti, confessou ter visto alguma coisa que a assustara terrivelmente.

— Alguém entrou aqui? — inquiri.
— Ah, não! — protestou ela —, mas tive a impressão de ver… um fantasma…

Calou-se e cobriu os olhos com as mãos. Tive vontade de revelar-lhe tudo que o jardineiro me contara, de narrar o meu encontro com o barão… Não sei por que, as palavras se detiveram à beira de meus lábios. Todavia, não consegui me impedir de observar que os fantasmas não tinham, em geral, o hábito de circular à luz do dia…

— Ah, me deixe! — murmurou ela — não me torture… Um dia você vai saber de tudo…

Calou-se de novo. Suas mãos estavam geladas, seu pulso rápido e ir- regular. Eu a fiz tomar sua poção e me afastei para não incomodar.

Ficou deitada até a noite, imóvel e silenciosa. Por vezes, suspirava, abria os olhos e voltava a fechá-los, assustada.

Nós nos perguntávamos tudo que lhe acontecera.

VIII

Ao cair da noite, minha mãe sofreu um leve acesso de febre e me mandou embora, mas, em vez de me retirar para meu quarto, resolvi deitar sobre um divã, na peça vizinha. De 15 em 15 minutos, me levantava, me aproximava de sua porta na ponta dos pés e escutava… Um silêncio de morte. Contudo, duvido muito que mamãe tenha fechado os olhos nessa noite.

De manhã cedo, me apresentei diante dela: seu rosto estava inflamado e seus olhos brilhavam com um clarão peculiar.

À tarde, pareceu estar melhor, mas, à noite, a febre voltou a subir cada vez mais.

Até lá, guardara um mutismo obstinado; de repente, se pôs a falar num tom irregular e arquejante. Isso não era delírio, pois o que dizia tinha sentido, embora carecesse de elos lógicos. Um pouco antes da meia-noite, ela se ergueu bruscamente sobre o travesseiro (eu me mantinha sentado à cabeceira) e se lançou a uma longa confissão. Nem uma vez me olhou; de vez em quando, bebia um gole d’água, pousava o copo com um gesto irritado, agitava fracamente as mãos… Às vezes, também, se detinha, fazia um esforço sobre si mesma e retomava o fio da narrativa… E eu tinha a impressão de que falava dentro de uma espécie de sonho, como se não se desse conta do que fazia, como se alguma outra pessoa a substituísse ou forçasse a sair de seu mutismo.

IX

— Escute bem o que vou dizer… Você não é mais criança, e está na hora de saber de tudo… Tempos atrás, eu tinha uma grande amiga… Ela se casou com um homem por quem estava apaixonadamente enamorada, e eles viveram felizes. Depois do primeiro ano de união, resolveram ir a São Petersburgo por algumas semanas, para se divertirem um pouco. Hospedados num grande hotel, passavam todas as noites no teatro ou num baile. Minha amiga era muito bem feita de corpo, era muito atraente e os jovens a cortejavam, um rapaz principalmente… um oficial. Ele a seguia como uma sombra onde quer que fosse; a moça sentia pesar sobre ela o olhar de seus olhos negros, cruéis, espinhosos. Nunca tentou ser apresentado, nem lhe dirigir a palavra, contentando-se em fitá-la com insolência maliciosa.

“Cansada de suportar essa peculiar perseguição, minha amiga se pôs a suplicar a seu marido que partissem, já que os prazeres da capital não a tentavam mais.

“Uma noite, ficou sozinha, pela primeira vez, pois seu esposo se deixara levar para um clube por um grupo de oficiais do mesmo regimento que o homem dos olhos cruéis… Primeiro, ela decidiu esperar a volta do companheiro; depois, vendo que demorava, mandou embora sua camareira e foi se deitar… De repente, viu-se invadida por uma estranha sensação de pavor e começou a tremer pelo corpo todo. Tivera a impressão de perceber um leve barulho atrás da parede, como um cão arranhando uma porta. Virou os olhos. Uma lamparina piscava no ângulo oposto; todas as paredes eram estofadas… Subitamente, o tecido se mexeu, se ergueu, se deslocou… E o homem de olhos cruéis pareceu sair da parede, todo vestido de preto!

“Ela quis gritar, mas nenhum som saiu da garganta, paralisada pelo terror. O homem saltou sobre ela, como uma fera, e jogou-lhe alguma coisa sobre a cabeça, alguma coisa sufocante, pesada, de cor branca… Que se passou em seguida? Não me lembro mais… Não me lembro mais de nada! Parecia um assassinato… Quando a névoa se dissipou e eu… e minha amiga recobrou os sentidos, não havia mais ninguém na peça. Durante muito tempo, não teve forças para gritar… Enfim, soltou um berro estridente… e tudo se anuviou de novo…

“Reconheceu o rosto do marido inclinado sobre ela, ansioso… Seus companheiros o haviam retido no clube até duas horas da manhã… Ele começou a fazer perguntas, mas ela não quis lhe dizer nada… Depois sentiu-se mal… No entanto, sozinha no quarto, teve forças para examinar a parede e descobriu uma porta secreta atrás do estofo…

“De repente, percebeu que estava sem aliança, uma velha relíquia familiar, um curioso anel, ornado por sete estrelas de ouro alternando com estrelas de prata.

“Seu marido percebeu também a falta e lhe perguntou o que era feito do anel; como ela não pôde evidentemente responder nada, achou que o perdera, procurou-o em todos os cantos e não o encontrou. Fortemente abalados pelos últimos acontecimentos, decidiram abandonar a capital o mais rapidamente possível e se puseram a caminho assim que o médico permitiu a minha amiga se locomover…

“Mas imagine!… No próprio dia de sua partida, cruzaram, na rua, com dois enfermeiros levando sobre uma maca um homem que acabara de ter o crânio fendido por um golpe de sabre… E a vítima não era outro senão o estranho visitante noturno… Fora morto durante uma partida de cartas!

“Minha amiga se refugiou no campo, tornou-se mãe pela primeira vez… viveu alguns anos ainda com seu marido. Ele nunca soube de nada. Aliás, que poderia dizer-lhe? Ela mesma ignorava tudo…

“Mas eles não saborearam nunca mais a felicidade de antes: um peso inexplicável, uma tristeza sem nome assombrava sua existência… não tiveram outros filhos… e esse filho…”

Minha mãe estremeceu, e escondeu o rosto entre as mãos.

— Diga-me com toda a franqueza — recomeçou ela com energia re- dobrada —: minha amiga era culpada? Ela podia se censurar alguma coisa? Fora punida, mas não tinha o direito de clamar diante do próprio Deus que o castigo lhe era imerecido?… Por que sucede então que ela seja devorada por remorsos, como criminosa e que, depois de longos anos, seu passado ainda a assuste?… Macbeth matara Banquo — nada de espantoso que o espectro de sua vítima nunca tenha cessado de persegui-lo… enquanto eu…

A essa altura, suas palavras se tornaram tão confusas que nada pude compreender… No momento, delirava; eu não tinha dúvida.

X

Deixo a vocês a tarefa de imaginar a impressão que me produziu a confissão de minha mãe. Desde as primeiras palavras, compreendera que ela falava de si mesma, e seus lapsos só aumentaram essa convicção… Fora pois meu pai que me aparecera em sonho, depois na realidade! Não fora morto, como acreditara mamãe, mas somente ferido… Viera vê-la e fugira, assustado com seu terror!

De repente, entendi tudo: os acessos de repulsa passageira que eu inspirava em minha mãe, sua tristeza, nosso isolamento voluntário… A minha cabeça girava e eu fazia vãos esforços para ficar calmo. Um pensamento sobretudo me obcecava: estava resolvido a reencontrar o homem que era meu pai! Por quê? Com que objetivo? Sentia-me impotente para precisá-lo, mas sentia que precisava revê-lo e que isso era para mim uma questão de vida ou de morte!

Na manhã seguinte, minha mãe parecia voltar a si: a febre baixara, e ela conseguira dormir. Eu aproveitava para confiá-la à guarda dos empregados e de nossos vizinhos e me pus em campo.

XI

Para começar, fui ao restaurante onde encontrara o barão. Ninguém o conhecia ou prestara atenção nele: era só um cliente de passagem. O proprietário havia notado bem o negro, pois sua silhueta estranha não podia passar despercebida, mas era incapaz de me informar a seu respeito e de me dizer onde residia. Deixando o local, ao acaso, me pus a perambular pelas ruas e ao longo do cais, entrando em todos os cafés, mas em lugar nenhum descobri quem apresentasse a menor semelhança com o barão ou com seu companheiro!… Ignorando o nome de meu verdadeiro pai, não tinha nem mesmo o recurso de me dirigir à polícia; contudo, avistei dois representantes da força pública e lhes prometi uma grande recompensa se conseguissem reencontrar a pista dos dois personagens que lhes descrevi da melhor maneira possível (minha conduta não deixava de despertar sua surpresa e mesmo sua suspeita). Continuei minhas investigações até à refeição do meio-dia e voltei para casa esgotado. Minha mãe estava de pé; uma espécie de surpresa sonhadora se mesclava com sua tristeza habitual e me trespassava dolorosamente o coração. Passei a noite em sua companhia e não falamos em absoluto: ela pôs as cartas e eu as olhei sem nada dizer. Nenhuma vez sequer aludiu a sua confissão, nem aos recentes acontecimentos. Alguém diria que fizéramos uma combinação tácita de esquecê-los… Mamãe parecia irritada por ter erguido o véu… Talvez também não se lembrasse muito bem do que me revelara em seu delírio e contasse com minha generosidade… De fato, eu a poupava e ela percebia, ainda que continuasse evitando me olhar.

Toda a noite, não pude fechar o olho.

Uma tempestade súbita agitou o mar. O vento fazia os vidros tremerem. Lamentos e uivos desesperados reverberavam no ar, como se alguma coisa estourasse, bem lá em cima, e roçasse, a gemer, os tetos das casas. De madrugada, consegui enfim pegar no sono… De repente, pareceu-me que alguém entrava no quarto e me chamava em voz baixa. Ergui a cabeça e não vi ninguém. Coisa estranha, não fiquei em absoluto assustado: ao contrário, experimentei um sentimento de reconforto, como se tivesse, agora, a certeza de chegar a meus fins! Vesti-me rápido e saí.

XII

A tempestade silenciara, mas seus últimos sobressaltos sacudiam ainda a atmosfera. O dia mal nascera; eu não cruzava com ninguém na rua, mas percebia destroços de chaminés, telhas, tábuas e galhos de árvore que enchiam abundantemente o solo… “Pobres navegadores!”, disse a mim mesmo pensando em todos que haviam passado a noite no mar. Tomei a direção do porto, mas uma força irresistível me fez desviar. Dez minutos mais tarde, me encontrava num bairro que nunca visitara antes. Avancei sem pressa, mas sem me deter também, presa de uma estranha sensação: tinha o pressentimento de algo que era extraordinário, impossível, mas que sobreviria apesar de sua inverossimilhança.

XIII

E, subitamente, tudo se realizou! A uns vinte passos diante de mim, percebi o negro que viera reencontrar o barão na mesa ao ar livre do restaurante. Envolto em sua capa negra, pareceu surgir do chão, me virou as costas e se afastou através da estreita passagem! Quis alcançá-lo, mas ele apressou o passo e desapareceu na primeira esquina. Corri o mais que pude, atingi a extremidade da ruela e… ó prodígio! Diante de mim, uma via longa, estreita e deserta, a bruma da manhã a cobre de um véu de chumbo que meus olhos conseguem no entanto penetrar… Eu a vejo toda, até o fim, e posso contar as casas… Nenhum ser vivo, fora ou numa janela… O negro alto desaparecera tão súbito quanto chegara… Fico estupefato, pelo espaço de um instante somente, pois uma outra impressão expulsa a primeira: reconheço essa ruela muda e morta! É a rua de meu sonho! Tremo de frio, pois o alvorecer está glacial, mas retomo a marcha para a frente, sem sombra de apreensão.

Procuro em volta de mim… Eis minha casa, lá, à direita, avançando pela calçada, com seu portão ornado de um lado e do outro de chifres de carneiro… As lucarnas não são redondas, mas retangulares… pouco importa… bato à porta… uma vez… duas vezes… três vezes, cada vez mais forte… Ela se abre lentamente, como um maxilar que boceja, e range surdamente nos gonzos. Uma jovem criada me encara, de cabelos desgrenhados e olhos mal despertos. Acaba de se levantar.

— É aqui que mora o Barão? — pergunto-lhe.
Enquanto isso, examino o patiozinho… Nenhuma dúvida possível, é esse… as mesmas tábuas e toras que vi em sonho.

— Não — me responde ela —, o Barão não mora aqui.

— Como?… É impossível!

— Não está mais aqui. Partiu ontem.

— Para onde?

— Para a América.

— Para a América! — repeti sem querer. — Disse se tinha a intenção de voltar?

A criada me lançou um olhar cheio de desconfiança.
— Ignoro… Pode ser que o sr. Barão não volte nunca mais. — Ele passou muito tempo aqui?
— Não, pouco mais de uma semana. Agora, não está mais. — Como é o nome do Barão?
A moça me fitou com ar surpreso.

— Não sabe seu nome?… A gente o chama de Senhor Barão, simples- mente… Ei. Pierrot, vem dar uma olhada aqui — gritou ela ao ver que eu fazia menção de ultrapassar a soleira. — Aqui tem um rapaz me fazendo um monte de perguntas!

A silhueta desajeitada de um operário grandalhão avançou através do patiozinho.

— O que há? O que está querendo? — perguntou-me ele numa voz rouca. Depois de me escutar, aborrecido, repetiu palavra por palavra tudo que me dissera a criada.

— Mas quem mora então aqui? — indaguei.

— Nosso patrão.

— Quem é?

— Um marceneiro. Só há marceneiros nesta rua.

— Poderia vê-lo?

— Não. Está dormindo.

— Posso entrar na casa?

— Não.

— Será que poderia ver seu patrão um pouco mais tarde?

— Por que não? É claro que poderá vê-lo, como todo mundo… é um comerciante. Vá, rapaz; seria melhor você voltar depois.

— E o outro, o negro? — disse eu de repente.
O empregado nos olhou com estupefação; para mim, primeiro; depois para a criada.

— Um negro? Que negro? — murmurou enfim. — Vá, rapaz, vá. Volte outra hora. Se precisa ver o patrão…

Afastei-me. A porta fechou-se atrás de mim, bruscamente, pesadamente, mas sem ranger, como antes.

Marquei cuidadosamente a disposição dos lugares, mas não quis ainda voltar para casa.

Estava decepcionado: tinha me acontecido alguma coisa de extraordinário, de inconcebível; por que precisara terminar tão estupidamente, sem mais nem menos? Em vez de reencontrar a mansarda que conhecia bem, e meu pai, o barão, com seu roupão e seu cachimbo, dera com um marceneiro, um homem como os outros, que todo mundo podia ver, a quem eu podia até encomendar móveis, se me desse na telha…

E meu pai retornara para a América! Que faria, agora? Contar tudo a minha mãe ou me calar e apagar em mim a menor lembrança desse encontro?

Decididamente, não queria admitir que acontecimentos tão sobrenaturais pudessem ter um fim banal, sem graça! Eu seguia direto em frente, longe da cidade.

XIV

Caminhava de cabeça baixa, vazio de idéias e de sensações, curvado sobre mim mesmo.

Um ruído surdo, igual e irritado me tirou de meu devaneio. Ergui a cabeça e descobri o mar que bramia a uns cinqüenta passos de mim. Meus pés escavavam a areia das dunas. Agitadas pelos últimos sobressaltos da tempestade noturna, as ondas se encapelavam até o horizonte e vinham morrer lentamente no litoral raso. Prossegui depressa e ladeei a faixa que a maré traçara sobre a areia amarela, pontilhada de restos de algas, de moluscos e de espadanas, cujas bizarras sinuosidades desenhavam arabescos caprichosos. Gaivotas de asas pontiagudas surgiam do abismo das ondas, voejavam, como grandes flocos de neve, no céu cinzento e nublado, voltavam para baixo bruscamente, pareciam saltar de crista em crista e se perdiam de novo, semelhantes a centelhas prateadas, no meio das listras de espuma branca. Logo percebi algumas que ficavam dando voltas obstinadamente em torno de uma pedra graúda, jogada lá como para mobiliar a monotonia da praia. Espadanas selvagens saíam em punhados irregulares de um lado do rochedo e, um pouco mais longe, lá onde a vegetação desgrenhada sustentava a areia das dunas, uma massa sombria, oblonga, arredondada, de pequenas dimensões, se recortava em negro sobre o fundo claro… Olhei mais atentamente… Sem dúvida, havia uma forma imóvel, estendida bem perto da rocha… Seus contornos se tornavam mais nítidos à medida que me aproximava…

Não estava a mais de trinta passos, somente…
Um corpo humano; provavelmente o de um afogado, arremessado à praia. Atravessei rapidamente a distância que ainda me separava dele.

O barão!… Meu pai… Parei, petrificado, compreendendo de súbito que desde o despertar fora guiado por uma força misteriosa… E, durante alguns instantes, não houve nada em minha alma além do murmúrio regular do mar e um terror mudo diante do destino que se apoderara de mim…

XV

Estava deitado de costas, levemente de lado, com o braço esquerdo atirado para trás da cabeça e o direito dobrado sob o corpo. O limo pegajoso abraçava suas pernas, calçadas com botas de marinheiro; sua jaqueta curta, de cor azul, esbranquiçada pelo sal, não estava nem um pouco desabotoada; um foulard vermelho apertava estreitamente seu pescoço. Seu rosto bronzeado, voltado para o céu, parecia escarnecer de leve, e o lábio superior, deformado pelo rictus da morte, deixava à mostra dentes miúdos e regulares; as pupilas, apagadas e molhadas, mal se destacavam do branco dos olhos semi-cerrados; os cabelos, manchados de espuma, estavam espalhados na areia, pondo a nu sua ampla testa riscada por um traço violáceo; o nariz, delgado e pontiagudo, dividia como uma marca de alabastro o ocre das faces côncavas.

A tempestade fizera seu trabalho. O homem nunca mais veria a costa da América. Aquele que atacara minha mãe e destruíra toda sua existência, meu pai — sim, meu pai! —, não tinha mais dúvida — jazia a meus pés, no limo. Eu experimentava, ao mesmo tempo, uma intensa satisfação, piedade, repulsa e horror… uma espécie de horror duplo diante do que via e do que acontecera. Impulsos maldosos, criminais, como os que já assinalei a vocês, tomavam posse de meu ser e me sufocavam… “Eis aí”, me dizia eu, “eis a quem os devo!”

Sem fazer um movimento, observava o cadáver, à espreita de um brilho nas pupilas vitrificadas, um tremor nos lábios azulados… Nada. Tudo estava imóvel. As próprias espadanas pareciam petrificadas e as gaivotas fugiam do lugar em que a maré jogara o corpo. Nenhum destroço de naufrágio. O espaço ilimitado, o vazio, o deserto. Somente ele, e eu, e o mar bramindo ao longe…

Olhei para o outro lado, atrás de mim — a mesma desolação, nenhum sinal de vida, colinas estúpidas e inertes. Não queria abandonar o corpo nesse limo, servindo de pasto a vorazes peixes e pássaros; uma voz interior me ordenou que fosse buscar homens — como se pudesse encontrá-los nesse deserto! —, transportar o morto para um abrigo… De repente, um terror inominável tomou conta de mim. Pareceu-me que este cadáver sabia que eu viria, que ele mesmo havia organizado este último encontro, acreditei ouvir um resmungo surdo e familiar… Afastei-me alguns passos… lancei um último olhar a meu pai… Alguma coisa brilhava num dedo de sua mão esquerda… A aliança de minha mãe. Ainda me lembro quanto me custou voltar sobre meus passos, sofrer o contato gelado dos dedos imóveis. arrancar o anel, fechando os olhos e cerrando os dentes…

Enfim, eu o tenho. Atiro-me para a frente, impetuosamente, e algo me persegue e me agarra…

XVI

Todas essas emoções deviam estar estampadas em meu rosto quando voltei para casa, pois minha mãe se levantou para ir a meu encontro e me encarou com tanta insistência que, depois de ter em vão tentado balbuciar algumas palavras confusas, só consegui estender-lhe a aliança sem outra explicação. Ela empalideceu terrivelmente e seus olhos se arregalaram imóveis e assustadores, como os do outro. Depois soltou baixinho um grito, pegou o anel, titubeou, caiu sobre meu peito e se retesou, com a cabeça jogada para trás, me olhando com seus olhos de demente.

Enlacei-a afetuosamente e lhe contei tudo, em voz baixa, sem me apressar: meu sonho, meu encontro… e todo o resto… Ela me escutou sem me interromper: só o seu peito me pareceu se erguer com mais força, enquanto seus olhos readquiriam vida.

Quando parei, ela colocou a aliança em seu anular e fez questão de procurar seu chapéu e sua mantilha. Como lhe perguntei aonde tinha intenção de ir, ela me encarou com surpresa, tentou responder, mas em vão, estremeceu várias vezes, esfregou as mãos, como para se reaquecer, e proferiu enfim, com esforço:

— Vamos… lá!

— Aonde, mãe?

— À praia… Quero vê-lo… Devo vê-lo… Tenho de identificá-lo… Procurei dissuadi-la, mas ela foi tomada por uma verdadeira crise de nervos e tive que me submeter.

XVII

Eis-me de novo sobre a duna, mas não estou mais sozinho. O braço de minha mãe se apóia sobre o meu. A maré bateu em retirada e vai silenciar, mas seu bramido surdo continua terrível e maléfico. Eis o rochedo e as espadanas. Procuro com os olhos a massa oblonga e não vejo nada. Nós nos aproximamos e eu diminuo, sem querer, meus passos… Onde está o homem morto?… Só as hastes das espadanas sobressaem na areia amarela, já seca.

O rochedo… Nada de cadáver… Mas a praia guardou a marca do corpo, dos braços, das pernas… Ao redor, as espadanas foram pisadas e se distinguem traços de passos que atravessam a duna e se perdem de repente nas rochas de sílex.

Trocamos um olhar e cada um ficou assustado com o que leu no rosto do outro…

Será que conseguiu se levantar e ir embora?

— No entanto, ele estava bem morto, não é, quando você o viu? — perguntou-me minha mãe, em voz baixa.

Só consegui balançar a cabeça afirmativamente. Não haviam se passado três horas desde que descobrira o corpo do barão… Alguém o levara? Nesse caso, era absolutamente necessário reencontrá-lo, saber o que acontecera.

Mas, primeiro, tinha que cuidar de mamãe.

XVIII

Enquanto andávamos, a febre voltou, mas ela foi capaz de se dominar. O desaparecimento do corpo a abalou definitivamente, e receei que perdesse a razão.

A muito custo, reconduzi-a para casa, fiz com que se deitasse e chamei o médico com urgência. Logo que voltou a si, minha mãe exigiu que me pusesse imediatamente à procura “daquele homem”. Forcei-me a isso, mas não obtive nenhum resultado apesar de todos os meus esforços. Estive várias vezes na delegacia, empreendi investigações em todas as cidades vizinhas, coloquei anúncios nos jornais, mas em vão.

Soube, no fim das contas, que o corpo de um afogado, arremessado à praia, fora transportado a um lugarejo das redondezas. Precipitei-me até lá, mas cheguei tarde demais: já o haviam enterrado e, aliás, a descrição do morto não correspondia à de meu pai.

Outras informações me fizeram saber que o navio a bordo do qual o barão teria embarcado chegaria ao destino, ainda que o tivessem considerado perdido por bastante tempo. Não sabendo mais o que fazer, recorri ao negro e lhe ofereci uma grande soma, por meio dos jornais, para que se desse a conhecer.

Um dia em que estava ausente, um negro alto, envolto numa capa preta, se apresentou em nossa casa, mas se afastou depois de fazer algumas perguntas à criada e nunca mais reapareceu.

Perdi qualquer vestígio de… meu pai, irremediavelmente desaparecido na noite e no silêncio.

Não falamos mais sobre ele com mamãe. Uma só vez mamãe me per- guntou por que não lhe contara meu sonho mais cedo e acrescentou quase imediatamente:

— Então, ele é realmente… — Sem chegar ao fim de seu pensamento.

Mamãe ficou muito tempo doente. Depois de curada, nossas relações não voltaram a ser as mesmas do passado. Ela ficava constrangida em minha presença — constrangida é bem a palavra — e esse sentimento não a abandonou mais até o último suspiro. E eu não podia ajudá-la.

É certo que o tempo apaga tudo, e as lembranças mais trágicas acabam perdendo a força; mas se uma sensação de constrangimento se estabelece entre dois íntimos, nada mais pode dissipá-la!

Não mais revi o sonho que me assustava tanto e não “procuro” mais meu pai. Contudo, ainda me acontece de ouvir, quando durmo, gemidos distantes, lamentos lancinantes, que repercutem atrás de um muro que não consigo escalar, e me dilaceram o coração. Choro, de olhos fechados, e não compreendo se é um homem que soluça ou o mar que uiva para a morte, irritado… De repente, o som se torna um resmungo rabugento — e eu acordo, com o terror na alma.