A Tempestade – Charles e Mary Lamb

A Tempestade
Charles e Mary Lamb

 

Havia uma certa ilha no mar cujos únicos habitantes eram um velho, de nome Próspero, e sua filha Miranda, moça belíssima. Fora tão nova para a ilha que não tinha lembrança da visão de nenhum outro rosto que não fosse o de seu pai.

Moravam numa caverna ou abrigo, feito na pedra, dividido em vários aposentos, um dos quais Próspero chamava de seu gabinete; lá guardava seus livros, que tratavam principalmente de magia, um assunto, naquela época, muito estudado por todos os homens de saber: e o conhecimento de tal ciência mostrou-se utilíssimo para ele; tendo sido jogado por estranho acaso nessa ilha, encantada por uma bruxa chamado Sycorax, que lá morrera pouco tempo antes de sua chegada. Próspero, por meio de sua ciência, libertou muitos bons espíritos que Sycorax aprisionara nos corpos de grandes árvores, por terem se recusado a executar suas ordens maléficas. Estes pacatos espíritos foram daí por diante obedientes à vontade de Próspero. Deles, era chefe Ariel.

O alegre duende Ariel nada tinha de nocivo em sua natureza, a não ser o fato de sentir excessivo prazer em atormentar um feio monstro chamado Caliban, que lhe causava ressentimento por ser o filho de sua velha inimiga Sycorax. Esse tal Caliban. Próspero achara nos bosques, uma estranha coisa disforme, de aparência bem menos humana que um macaco: levou-o para sua casa no abrigo, e ensinou-o a falar; e Próspero foi gentilíssimo com ele, mas a má índole herdada por Caliban de sua mãe Sycorax não o deixou aprender nada de bom ou útil: portanto, foi usado como escravo, para pegar madeira e fazer as tarefas mais trabalhosas; e Ariel era encarregado de compeli-lo a tais serviços.

Quando Caliban ficava preguiçoso e negligenciava seu trabalho. Ariel (que era invisível a todos os olhos menos os de Próspero) chegava escondido e o beliscava e, às vezes, tombava-o em cima da lama; e então, com o aspecto de um macaco, fazia caretas para ele. Depois, agilmente mudando de forma para a aparência de um ouriço, se estendia caído na frente de Caliban, que receava ter os pés descalços furados pelos espinhos pontiagudos dos ouriços. Com um monte de truques vexatórios desse tipo. Ariel costumava atormentá-lo, sempre que Caliban negligenciava o trabalho que Próspero mandava fazer.

Com esses poderosos espíritos obedientes a sua vontade. Próspero podia, através deles, comandar os ventos e as ondas do mar. Por ordem sua deram origem a um violento temporal, no meio do qual mostrou a sua filha um grande navio, lutando com as selvagens ondas do mar que a todo momento ameaçavam devorá-lo, contando-lhe que estava cheio de seres vivos como eles.

— Meu querido pai — disse ela —, se, com sua mágica, fez acontecer esse horrível temporal, tenha piedade de sua triste sina. Veja! O barco vai ser estraçalhado. Pobres almas! Todos perecerão. Se eu tivesse poder, faria o mar sumir debaixo da terra, em vez de destruir o bom navio, com todas as preciosas almas dentro dele.

— Não fique tão assustada, minha filha Miranda — disse Próspero —, não houve dano; dei as ordens de tal modo que nenhuma pessoa no navio sofra ferimento algum. O que fiz foi pensando em você, minha querida criança. Você ignora quem você é, de onde veio e de mim só sabe que sou seu pai e moro nesta pobre caverna. Consegue se lembrar de uma época antes de ter vindo para este abrigo? Acho que não, pois não tinha nem três anos de idade.

— É claro que consigo! — replicou Miranda.

— Através de quê? — perguntou Próspero. — De alguma outra casa ou pessoa? Diga-me o que consegue lembrar, minha criança. Miranda disse:

— Parece a recordação de um sonho… Mas não tive, certa vez, quatro ou cinco mulheres cuidando de mim?

Próspero respondeu:
— Teve, sim, e até mais. Como é que isso ainda está na sua cabeça?

Lembra-se de como veio para cá?

— Não, senhor — disse Miranda —, não me lembro de mais nada.

— Doze anos atrás — continuou Próspero —, eu era duque de Milão; você era uma princesa, minha única herdeira. Eu tinha um irmão mais moço, cujo nome era Antônio, a quem tudo confiei; e como me encontrava em recolhimento e profundo estudo, comumente deixava a administração de meus negócios de Estado para seu tio, meu falso irmão (pois assim de fato ele provou ser); eu, negligenciando todos os objetivos mundanos, enterrado entre os livros, dediquei todo o meu tempo ao aperfeiçoamento da mente. Meu irmão Antônio, ficando assim de posse de meu poder, começou a se achar o verdadeiro duque. A oportunidade que eu dera a ele de se tornar popular entre meus súditos despertou em sua má índole uma orgulhosa ambição de me privar do ducado: o que logo efetuou, com ajuda do rei de Nápoles, um poderoso príncipe, que era meu inimigo.

— Então eles não nos destruíram nessa hora?

— Minha criança — respondeu o pai —, eles não ousaram, tal era o amor que meu povo me devotava. Antônio nos transportou a bordo de um navio, e quando atingimos algumas léguas em alto-mar colocou-nos num barquinho, sem equipamento, nem vela, nem mastro: lá nos deixou, pensou ele, entregues à morte. Mas um gentil nobre de minha corte, certo Gonzalo, que me estimava, havia por sua conta posto no barco água, provisões, roupa e alguns livros que eu apreciava acima de meu ducado.

— Ó meu pai — disse Miranda —, que problema eu devo ter sido para o senhor, nessa época!

— Não, meu amor — disse Próspero —, você era um querubim que me preservou. Seus inocentes sorrisos me fizeram resistir contra os infortúnios. Nossa comida durou até virmos parar nesta ilha deserta, e desde então meu grande deleite tem sido ensinar você. Miranda, e ver que tem tirado bom proveito de minhas lições.

— Deus lhe pague, meu querido pai — disse Miranda. — Agora, por favor, me conte a razão de gerar essa tempestade no mar.

— Saiba então — disse o pai dela — que, por meio desse temporal, meus inimigos, o rei de Nápoles e meu cruel irmão vieram dar às praias desta ilha.

Assim dizendo. Próspero tocou de leve a filha com sua varinha mágica, e ela adormeceu logo, pois o espírito Ariel acabava de se apresentar diante do mestre, para contar sobre a tempestade e sobre o destino que

dera à tripulação do navio e, embora os espíritos fossem sempre invisíveis para Miranda. Próspero não achava conveniente ela ouvi-lo a conversar (conforme pareceria) com o ar vazio.

— Bem, meu bravo espírito — disse Próspero para Ariel —, como se desincumbiu da tarefa?

Ariel deu uma vívida descrição do temporal, e dos terrores dos marinheiros; e de como o filho do rei. Ferdinando, foi o primeiro a se jogar no mar; e da maneira como seu pai pensou ter visto o querido filho engolido pelas ondas, perdido.

— Mas está a salvo — disse Ariel — num canto da ilha, sentado de braços cruzados, a lamentar com tristeza a perda do rei, seu pai, que ele supõe afogado. Nenhum cabelo de sua cabeça sofreu dano, e sua vestimenta principesca, embora encharcada pelas ondas do mar, parecem mais novas que antes.

— Assim é que é o meu delicado Ariel — disse Próspero. — Traga-o até aqui; minha filha precisa ver esse jovem príncipe. Onde está o rei meu irmão?

— Eu os deixei procurando Ferdinando — respondeu Ariel —, a quem eles tinham pouca esperança de achar, pensando tê-lo visto morrer. Da tripulação do navio não falta ninguém; embora cada um se julgue o único sobrevivente; e o navio, mesmo invisível para eles, está a salvo no porto.

— Ariel — disse Próspero —, teu encargo foi conscienciosamente desempenhado; mas ainda há mais trabalho.

— Mais trabalho? — perguntou Ariel. — Permita-me lembrar-lhe, amo, que prometeu minha liberdade. Por favor, lembre-se, prestei bom serviço, não contei mentira, não cometi erros, servi-o sem má vontade nem resmungo.

— Essa não! — disse Próspero. — Você não se recorda de que tormento libertei você. Esqueceu a repugnante bruxa Sycorax, que com a idade e a inveja quase se curvou em duas? Onde ela nasceu? Fale; conte-me.

— Em Argel — disse Ariel.

— É mesmo? __ disse Próspero. — Preciso relatar o que você foi e acho que não se lembra. A bruxa Sycorax, por suas feitiçarias, terríveis demais para o ouvido humano, foi banida de Argel e aqui deixada pelos marinheiros; e por ser você um espírito delicado demais para executar suas ordens maléficas, ela aprisionou você dentro de uma árvore, onde o encontrei em prantos. Desse tormento, lembre-se, eu livrei você.

— Perdoe-me, caro amo — disse Ariel, envergonhado por parecer tão ingrato; vou obedecer a suas ordens.

— Faça isso — disse Próspero —, e o colocarei em liberdade. — Então deu as ordens para o que ele ainda tinha a fazer; e lá se foi Ariel, primeiro para onde deixara Ferdinando, encontrando-o ainda sentado na grama na mesma posição melancólica.

— O meu jovem cavalheiro — disse Ariel, ao vê-lo —, logo o colocarei em movimento. Você deve ser levado, acho, para que Lady Miranda tenha uma visão de sua bela pessoa. Venha, senhor, siga-me. — Começou então a cantar:

A cinco braças jaz teu pai;
De seus ossos, os corais são feitos; Pérolas de seus olhos caem:
Nada nele é desfeito.

Mas transforma o mar contínuo, Em algo exuberante e peregrino. Ninfas do mar já soam seu fim:
Já se ouve até: dim, dom, dim!

Essa estranha notícia de seu pai desaparecido logo tirou o príncipe do embrutecimento em que mergulhara. Seguiu com espanto o som da voz de Ariel, até que o levasse a Próspero e Miranda, que estavam sentados sob a sombra de uma grande árvore. Miranda nunca vira um homem antes, exceto seu próprio pai.

— Miranda — disse Próspero —, conte-me o que está olhando lá longe.

— Ó, pai! — disse Miranda — com certeza é um espírito. Senhor! Que aparência ele tem! Acredite, é uma bela criatura. Não é um espírito?

— Não, menina — respondeu o pai —, ele come, dorme e tem sentidos como nós temos. Esse rapaz que você está vendo estava no navio. Está um pouco alterado pelo pesar, senão seria possível considerá-lo uma pessoa atraente. Perdeu-se de seus companheiros e está andando por aí à procura deles.

Miranda, que achava terem todos os homens fisionomias sisudas e barbas grisalhas como seu pai, estava deliciada com a aparência deste belo e jovem príncipe; e Ferdinando, vendo moça tão graciosa nesse lugar deserto — e pelos estranhos sons que ouvira, nada esperando além de maravilhas —, achou que estava numa ilha encantada, e que Miranda era a deusa do lugar, e se dirigiu a ela como tal.

Ela respondeu timidamente que não era deusa, mas uma simples donzela, e ia contar-lhe sua vida, quando Próspero interrompeu-a. Agradava-lhe bastante vê-los entregues à mútua admiração, pois percebia com clareza estar diante (como se costuma dizer) de um amor à primeira vista; mas, para testar a constância de Ferdinando, resolveu jogar algumas dificuldades no caminho deles: então, aproximando-se, dirigiu-se ao príncipe com ar severo, dizendo- lhe que fora para a ilha como espião, para toma-la dele, que era o senhor ali.

— Siga-me — disse ele —, vou amarrar seu pescoço aos pés. Vai beber água do mar; conchas, raízes secas e casca de bolota serão sua comida.

— Não — disse Ferdinando —, vou resistir a tal entretenimento até ver inimigo mais poderoso. — E tirou sua espada; mas Próspero, balançando a varinha mágica, prendeu-o ao local em que estava, de modo que não tinha forças para se mexer.

Miranda pressionou seu pai, dizendo:
— Por que é tão indelicado? Tenha piedade, senhor; eu serei sua garantia.

É o segundo homem que vejo na vida, e, para mim, parece autêntico.
— Silêncio! — disse o pai. — Uma palavra mais e irei repreendê-la, menina! Que coisa! Intercedendo por um impostor! Acha que não há outros homens interessantes, já que só viu Caliban e ele. Fique sabendo, bobinha, que a maioria dos homens supera esse, como ele a Caliban.
Assim falou para testar a lealdade de sua filha; e ela replicou:

— Minha afeição é bem humilde. Não sinto vontade de ver um homem mais bonito.

— Venha, rapaz — disse Próspero ao príncipe —, você não tem forças para me desobedecer.

— Não tenho mesmo — respondeu Ferdinando e, sem saber que era por magia que estava privado de qualquer capacidade de resistir, ficou atônito ao ver-se tão estranhamente compelido a seguir Próspero. Voltando-se para olhar Miranda enquanto era possível vê-la, disse, ao entrar na caverna atrás de Próspero: — Minhas faculdades estão todas restritas, como se estivesse num sonho; mas as ameaças deste homem e a fraqueza que sinto serão como luz para mim se de minha prisão puder, uma vez por dia, contemplar essa linda moça.

Próspero não manteve Ferdinando por muito tempo confinado na cela: logo tirou de lá o prisioneiro, dando-lhe uma tarefa penosa para cumprir, tomando cuidado para que sua filha soubesse do difícil trabalho que a ele impusera e, fingindo ir para o gabinete, secretamente observou os dois.

Próspero mandara Ferdinando empilhar algumas pesadas toras de madeira. Não sendo os filhos de reis muito acostumados ao trabalho pesado. Miranda pouco depois deparou com seu amor quase morrendo de cansaço.

— Ah! — disse ela —. não trabalhe tanto; meu pai esta entregue a seus estudos, ele não oferece perigo nas próximas três horas; por favor, descanse!

— Oh, querida! — disse Ferdinando — não ouso. Preciso terminar minha tarefa antes de descansar.

— Se você sentar — disse Miranda —, eu carrego as toras.

Mas com isso Ferdinando não concordaria de modo algum. Em vez de ajuda. Miranda tornou-se um obstáculo, pois eles começaram uma longa conversa, de modo que a atividade de carregar toras prosseguiu bem devagar.

Próspero, que impusera essa tarefa a Ferdinando apenas como teste de seu amor, não estava entre os livros, como sua filha supusera, mas perto deles, invisível, para ficar à escuta do que dissessem.

Ferdinando indagou seu nome, que ela contou, dizendo que era contra a expressa vontade de seu pai que o fazia.

Próspero apenas sorriu ante esse primeiro caso de desobediência de sua filha, por ter causado, através da arte de sua mágica, tão súbita paixão nela; não ficou zangado por ela mostrar seu amor, esquecendo de obedecer suas ordens. E ouviu com agrado um longo discurso de Ferdinando, no qual ele professava amá-la acima de todas as moças que já vira.

Em resposta ao louvor de sua beleza, que ele disse exceder a de todas as mulheres do mundo, ela replicou:

— Não me lembro do rosto de nenhuma mulher, nem vi mais nenhum homem além de você, meu bom amigo, e do meu querido pai. As fisionomias lá de fora, desconheço; mas, acredite, senhor, não ia querer nenhum outro companheiro no mundo a não ser você, nem poderia minha imaginação compor outra forma além da sua que conseguisse me agradar. Mas tenho medo de estar a lhe falar com muita liberdade, as instruções de meu pai esquecendo.

Próspero sorriu e balançou a cabeça, como a dizer: “Está do jeito que eu queria: minha menina vai ser rainha de Nápoles!”

E então Ferdinando, em outro ótimo e longo discurso (pois os jovens príncipes falam à maneira da corte), contou à inocente Miranda ser herdeiro da coroa de Nápoles, e que ela seria sua rainha.

— Ah, senhor! — disse ela —, sou uma boba por chorar com o que me alegra. Responderei em simples e santa inocência. Serei sua mulher, se casar comigo.

Próspero impediu agradecimentos de Ferdinando aparecendo visível diante deles.

— Não tema nada, minha filha — disse ele —, eu estava à escuta, e aprovo tudo que disse. Ferdinando, caso o tenha com muita severidade tratado, vou compensá-lo amplamente, dando-lhe minha filha. Todos os seus tormentos foram somente uma provação do seu amor, e você nobremente suportou o teste. Então, como dádiva minha, conquistada por seu amor verdadeiro, tome minha filha, e não sorria se me gabar de que ela está acima de qualquer elogio.

Então, dizendo que tinha assuntos a resolver que exigiam sua presença, desejou que eles sentassem e conversassem um com o outro até a sua volta; e a essa ordem Miranda deu a impressão de não estar nem um pouco disposta a desobedecer.

Quando Próspero os deixou, chamou o espírito Ariel, que rapidamente apareceu diante dele, ansioso para relatar o que fizera com o irmão de Próspero e o rei de Nápoles. Ariel disse que quase os levara a desmaiar de medo, com as estranhas coisas que os fizera ver e ouvir. Quando estavam cansados de perambular e famintos, sem comida, de súbito colocara diante deles um delicioso banquete, e então, bem na hora em que iam comer, tornara-se visível na frente deles, na forma de uma harpia, um voraz monstro com asas, e a festa acabou. Então, para seu completo espanto, essa harpia falou com eles, lembrando-lhes sua crueldade ao retirar Próspero de seu ducado e deixá-lo à morte, junto com sua filha pequena, no mar — dizendo que, por esse motivo, esses terrores puderam afligi-los.

O rei de Nápoles e Antônio, o irmão traidor, se arrependeram da injustiça que haviam feito a Próspero; e Ariel contou a seu senhor que tinha certeza da penitência ser sincera e que ele, mesmo sendo espírito, só conseguia ter piedade deles.

— Então traga-os aqui. Ariel — disse Próspero. — Se você, que não é senão uri espírito, sente pela desgraça deles, não devo eu, que sou um ser humano como eles, ter compaixão? Traga-os, depressa, meu precioso Ariel.

Ariel logo voltou com o rei. Antônio e o velho Gonzalo no seu rastro, maravilhados com a música brincalhona que ele tocava no ar para arrasta-los até a presença do seu senhor. Esse Gonzalo era o mesmo que, antes, tão gentilmente fornecera a Próspero livros e provisões, quando seu maléfico irmão o deixara, para morrer, num barco aberto, no mar.

O remorso e o terror haviam entorpecido tanto os seus sentidos, que não reconheceram Próspero. Ele se mostrou primeiro ao bom Gonzalo, chamando- o de defensor de sua vida; e então seu irmão e o rei souberam que ele era o injustiçado Próspero.

Antônio, com lágrimas e palavras tristes de pesar e verdadeiro arrependimento, implorou o perdão do irmão, e o rei expressou seu sincero remorso por ter ajudado Antônio a depor o irmão: e Próspero os perdoou; e. ante o compromisso deles de que reaveria o ducado, falou para o rei de Nápoles:

— Tenho um presente guardado para você, também — e, abrindo uma porta, mostrou-lhe seu filho Ferdinando jogando xadrez com Miranda.

Não poderia ser maior a alegria do pai e do filho com esse encontro inesperado, pois um achava que o outro se afogara na tempestade.

— Maravilha! — disse Miranda. — Que nobres criaturas são estas! Certamente é um mundo esplêndido, o que tem pessoas assim.

O rei de Nápoles estava quase tão atônito com a beleza e o supino encanto da jovem Miranda quanto seu filho ficara.

— Quem é essa moça? — disse ele. — Ela deve ser a deusa que nos separou e nos uniu.

— Não, senhor — respondeu Ferdinando, sorrindo ao descobrir que seu pai caíra no mesmo erro que ele quando vira pela primeira vez Miranda —, é uma mortal, mas pela imortal Providência, ela é minha; eu a escolhi quando não podia pedir-lhe, meu pai, seu consentimento, não imaginando que estivesse vivo. É a filha deste Próspero, que é o famoso duque de Milão, de cuja reputação eu tanto ouvira falar, mas nunca vira até agora; dele recebi nova vida: tornou-se para mim um segundo pai, dando-me esta querida moça.

— Então terei que ser pai dela — disse o rei —, mas, oh, que estranho vai soar que eu precise pedir a minha filha que me perdoe!

— Chega disso! — disse Próspero. — Não vamos ficar lembrando nossos problemas passados, já que de modo tão feliz terminaram. — E então. Próspero abraçou o irmão e de novo assegurou-lhe seu perdão; e disse que uma sábia e dominante Providência permitira que ele fosse retirado de seu pobre ducado de Milão, e que sua filha pudesse herdar a coroa de Nápoles, pois pelo seu encontro nessa ilha deserta acontecera de o filho do rei se apaixonar por Miranda.

Essas palavras gentis, ditas por Próspero a fim de confortar seu irmão, encheram Antônio de vergonha e remorso a ponto de chorar e não conseguir falar; e o bom Gonzalo chorou ao ver essa reconciliação e rezou pedindo bênçãos para o jovem casal.

Próspero então contou-lhes que o seu navio estava a salvo no porto, e os marinheiros todos a bordo, e que ele e sua filha iriam acompanhá-los na viagem de volta, na manhã seguinte.

— Até lá — disse ele — partilhem do conforto possível em minha pobre caverna; e, para sua diversão, à noite, vou relatar a história de minha vida a partir da chegada a esta ilha deserta.

Chamou então Caliban para preparar alguma comida e arrumar a caverna; e o grupo ficou atônito com a forma insólita e a aparência selvagem deste feio monstro, que (disse Próspero) era o único auxiliar a servi-lo.

Antes de Próspero deixar a ilha, dispensou Ariel de seu serviço, para grande alegria desse vivido espiritozinho que, embora servo leal a seu senhor, sempre almejara desfrutar completa liberdade, para passear sem controle pelo ar, como um pássaro selvagem, sob árvores verdes, em meio a frutos gostosos e flores docemente perfumadas.

— Meu gracioso Ariel — disse Próspero ao pequeno espírito, quando o tornou livre — vou sentir sua falta; mesmo assim, você terá sua liberdade.

— Obrigado, meu querido senhor; mas me dê licença para escoltar o navio até seu destino, com ventos auspiciosos, antes de dar adeus aos serviços de seu leal espírito; e então, senhor, quando eu for livre, com que alegria viverei!

Neste ponto. Ariel cantou esta linda canção:

Onde a abelha suga, sugo eu; Em corola de prímula deito eu,

Do pio da coruja me ocultando.
Nas costas do morcego vou voando. Atrás do verão. Alegre.
Alegre, alegre, eu vivo
Ali no ramo florido.

Próspero então enterrou fundo na terra seus livros e vara mágicos, pois estava resolvido a não mais fazer uso da arte da magia. E tendo assim superado seus inimigos, e estando reconciliado com seu irmão e o rei de Nápoles, nada mais faltava para completar sua felicidade, a não ser visitar de novo sua terra natal, tomar posse do seu ducado, e testemunhar as alegres núpcias de sua filha e do príncipe Ferdinando, que o rei disse para serem celebradas imediatamente, com grande esplendor, em seu retorno para Nápoles; terra que, sob a condução segura do espírito Ariel, após agradável viagem, logo alcançaram.