Sortilégio de Outono – Joseph Von Eichendorff

Sortilégio de Outono

Joseph Von Eichendorff

Saindo à caça numa serena tarde de outono, o cavaleiro Ubaldo afastara-se bas- tante dos seus e seguia a cavalo por entre solitárias montanhas cobertas por bosques quando de uma delas viu descer um homem com insólitas roupas coloridas. O estranho não deu pela sua presença até chegar bem perto dele. Ubaldo viu então, para sua surpresa, que o homem vestia um elegante gibão de ornamentos suntuosos que, à força do tempo, perdera contudo o brilho e saíra de moda. Seu rosto era belo, mas pálido e coberto por uma barba revolta.

Ambos se cumprimentaram perplexos, e Ubaldo explicou que tivera a infelicidade de perder-se por aquelas bandas. O sol já mergulhara atrás das montanhas, e aquele lugar era distante de toda habitação humana. Assim, o desconhecido propôs ao cavaleiro que pernoitasse com ele; na manhã seguinte, à primeira luz, indicar-lhe-ia o único caminho de saída daquelas montanhas. Ubaldo aceitou de bom grado e pôs- se na trilha de seu guia por desfiladeiros de mata deserta.

Logo chegaram a um pico elevado, ao pé do qual fora escavada uma caverna es- paçosa. No centro dela havia uma grande pedra, sobre a pedra um crucifixo de ma- deira. Um catre de folhas secas preenchia os fundos da cela. Ubaldo amarrou seu cavalo junto à entrada, enquanto seu anfitrião trazia em silêncio pão e vinho. Tomaram ambos os seus assentos, e o cavaleiro, a quem as roupas do desconhecido pareciam pouco adequadas a um eremita, não pôde conter a pergunta sobre o seu passado.

“Não queiras saber quem eu sou”, respondeu secamente o eremita, e seu rosto fez- se sombrio e hostil.
Em contrapartida, Ubaldo notou que ele escutava com toda a atenção e depois ficava absorto em pensamentos quando o cavaleiro começava a contar algumas de suas jornadas e os feitos gloriosos que praticara na juventude. Exausto, Ubaldo por fim deitou-se no leito de folhas que lhe era oferecido e logo pegou no sono, enquanto seu anfitrião sentava-se à entrada da caverna.

No meio da noite, perturbado por sonhos agitados, o cavaleiro despertou e ergueu- se na cama. Fora, a lua muito clara banhava o contorno silencioso das montanhas. Na boca da caverna, viu seu anfitrião andar inquieto de lá para cá sob árvores altas, oscilantes. Entoava com voz surda uma canção da qual Ubaldo só podia ouvir, a intervalos, mais ou menos as seguintes palavras:

O medo me arranca do abismo,
Velhas melodias me estendem a mão — Doces pecados, deixem-me em paz!

Ou me lancem de vez por terra Ante o feitiço dessa canção, Escondendo-me no seio da terra! Deus! Eu queria orar com fervor, Mas as imagens do mundo sempre Sempre se põem entre mim e ti,

E o sibilo dos bosques ao redor Enche a minha alma de terror,
Ó Deus severo, tenho medo de ti!

Ah, rompe também meus grilhões! Para salvar toda a humanidade Sofreste afinal em morte amarga. Vagando junto aos portões do inferno, Ah, como me encontro perdido! Jesus, ajuda-me na minha aflição!

Terminada a canção, sentou-se numa pedra e pareceu murmurar umas preces imperceptíveis que mais soavam como confusas fórmulas mágicas. O rumor dos riachos das montanhas vizinhas e o leve farfalhar dos pinheiros uniram es- tranhamente as vozes num só canto, e Ubaldo, vencido pelo sono, deixou-se cair outra vez no leito.

Mal luziram os primeiros raios da manhã entre as copas das árvores e o eremita já se achava de pé diante do cavaleiro, para lhe indicar o caminho entre os desfiladeiros. Bem-disposto, Ubaldo montou seu cavalo e a seu lado cavalgava em silêncio seu misterioso guia. Logo alcançaram o cume da última montanha, de lá se abriu subitamente a seus pés a planície fulgurante de rios, cidades e castelos na mais bela claridade da manhã. O próprio eremita parecia surpreso.

“Ah, que beleza é o mundo!”, exclamou, comovido, cobriu o rosto com as duas mãos e às pressas tornou aos bosques.
Balançando a cabeça, Ubaldo tomou então o caminho familiar rumo a seu castelo. A curiosidade no entanto logo o fez voltar a essas paragens ermas, e com algum esforço encontrou a caverna onde, dessa vez, o eremita o recebeu de forma menos sombria e taciturna.

Que ele desejava sinceramente expiar pecados graves, isso Ubaldo já concluíra daquela canção noturna, mas lhe parecia que esse espírito lutava em vão com o inimigo, pois em seu comportamento nada havia da serena confiança de uma alma devotada a Deus, e muitas vezes, sentados juntos para conversar, uma ansiedade terrena fortemente reprimida irrompia com força quase hedionda dos irrequietos olhos flamejantes do homem, parecendo embrutecer estranhamente todas as suas feições e transformá-las por completo.

Isso instigou o pio cavaleiro a amiudar as suas visitas a fim de proteger e resguardar essa alma vacilante com toda a força de um espírito puro, imaculado. Sobre seu nome e vida pregressa, no entanto, o eremita guardou silêncio todo esse tempo; o passado parecia fazê-lo estremecer. Mas a cada visita ele se tornava visivelmente mais calmo e confiante. Por fim, o bom cavaleiro logrou até mesmo convencê-lo a que o seguisse a seu castelo.
Já caíra a noite quando chegaram ao forte. O cavaleiro fez acender uma lareira aconchegante e mandou vir do melhor vinho que possuía. O eremita pareceu sentir- se à vontade pela primeira vez. Observou com toda a atenção uma espada e outras armas que cintilavam à luz do fogo penduradas na parede, e então contemplou o cavaleiro em silêncio, longamente.

“És feliz”, disse, “e admiro a tua figura robusta, elegante e viril com verdadeiro temor e reverência, como vives impassível a mágoa e o júbilo e levas a vida sereno, ao mesmo tempo que pareces entregar-te a ela por inteiro, tal qual um marinheiro que sabe muito bem como manejar o leme e não se deixa confundir em seu curso pela maravilhosa canção das sereias. Na tua presença já me senti várias vezes como um tolo covarde ou como um louco. Há pessoas inebriadas de vida — ah, como é terrível ficar sóbrio outra vez de um só golpe!”

O cavaleiro, que não queria perder a oportunidade de tirar proveito desse singular arroubo de seu hóspede, insistiu com bondade que ele afinal lhe confiasse a história de sua vida. O eremita ficou pensativo.
”Se me prometeres”, disse por fim, “manter eterno segredo daquilo que te contar, e me permitires omitir todos os nomes, eu o farei.”

O cavaleiro estendeu-lhe a mão e prometeu-lhe satisfeito aquilo que ele pedia, e mandou chamar sua esposa, por cujo silêncio se responsabilizava, a fim de que ela também tomasse parte na história pela qual ambos ansiavam havia tempo.
Ela apareceu, com uma criança no colo e levando a outra pela mão. Era uma figura alta, bela em sua juventude em declínio, quieta e doce como o crepúsculo, a própria beleza minguante refletida nas adoráveis crianças. O estranho perturbou-se seriamente ao vê-la. Abriu as janelas de par em par e contemplou por alguns instan- tes a extensão noturna da floresta, para refazer-se. Mais calmo, tornou a eles; todos se aninharam ao redor da lareira chamejante, e ele pôs-se a falar da seguinte maneira:

“O sol de outono erguia-se ameno e tépido sobre a névoa colorida que cobria os vales em torno do meu castelo. A música dissipara-se, a festa chegara ao fim, e os joviais convivas retiravam-se para todos os lados. Era uma festa de despedida que eu oferecia a meu melhor companheiro, que naquele dia, junto com seu séquito, abraçara a causa da Santa Cruz para ajudar o exército cristão a conquistar a Terra Prometida. Desde a nossa mais tenra juventude essa empreitada era o único objeto de nossos desejos, esperanças e sonhos, e ainda hoje me invade muitas vezes uma indescritível nostalgia daqueles tempos tranqüilos, de manhãs tão belas, quando nos sentávamos juntos sob as tílias esguias na encosta rochosa de meu forte e seguíamos em pensamento as nuvens que vogavam para aquele abençoado país de maravilhas onde viviam e lutavam Godofredo e outros heróis no esplendor da glória. Mas como tudo mudou rápido dentro de mim! Uma donzela, a flor de toda a beleza, que eu vira apenas algumas vezes e por quem, sem que ela soubesse, nutri desde o início um amor invencível, mantinha-me cativo no calmo baluarte dessas montanhas. Agora que eu era forte o bastante para combater, era incapaz de me separar e deixava que meu amigo partisse só. Ela também estivera presente à festa, e eu me regalava com desmedida felicidade no reflexo de sua beleza. Quando de manhã ela fez menção de partir e eu a ajudei a montar no cavalo, atrevi-me a revelar-lhe que somente por causa dela eu desistira da expedição. Nenhuma resposta ela deu, mas arregalou-me os olhos como que assustada e partiu a galope.”

A essas palavras, o cavaleiro e sua mulher entreolharam-se com visível sobressalto. O estranho, porém, não percebeu e continuou:
”Todos haviam ido embora. O sol brilhava pelas altas janelas ogivais nos aposentos vazios, onde agora só ecoavam meus passos solitários. Debrucei-me longamente na sacada; dos bosques tranquilos embaixo ressoava o golpe de um ou outro lenhador. Um indescritível arroubo de nostalgia apoderou-se de mim nessa minha solidão. Não pude mais suportar, lancei-me sobre meu cavalo e saí à caça, para desafogar meu coração oprimido.

“Vaguei por um bom tempo e encontrei-me afinal, para surpresa minha, numa parte do território que até então me era totalmente desconhecida. Cavalgava pensativo, com meu falcão no braço, por uma campina magnífica, sobre a qual os raios do sol poente incidiam oblíquos; as teias de outono voavam feito véus pelo sereno ar azul; acima das montanhas sopravam as canções de adeus das aves migratórias.

“Súbito ouvi várias trompas de caça que, a certa distância das montanhas, pareciam responder uma à outra. Algumas vozes as acompanhavam com canto. Nunca antes música alguma me preenchera com nostalgia tão maravilhosa como esses timbres, e ainda hoje me recordo de várias estrofes da canção, tal como me soprou o vento entre os acordes:

Em riscas amarelas e vermelhas Migram os pássaros lá no alto. Aflitos vagueiam os pensamentos, Ah!, não encontram refugio algum, E as queixas sombrias das trompas Golpeiam só a ti, coração solitário.

Vês a silhueta das montanhas azuis Ao longe, erguendo-se da floresta, Os riachos que no vale tranqüilo Seguem murmurejantes ao longe? Nuvens, riachos, pássaros alegres, Tudo se confunde na distância.

Dourados meus cachos ondeiam, Doce meu corpo jovem floresce — Logo a beleza também fenece,
Tal como esmorece o brilho do verão; A juventude tem de vergar suas flores, Ao redor as trompas todas silenciam.

Braços delgados para abraçar,
Boca vermelha para o doce beijo, Brancos seios para neles se aquecer, Ricas, plenas juras de amor Oferecem-te os timbres das trompas. Vem, amor, antes que se dissipem!

“Fiquei deslumbrado com esses acordes que me penetraram o coração. Meu falcão, assim que se ergueram as primeiras notas, espantou-se, alçou vôo com um guincho estridente, desapareceu nos ares e nunca mais voltou. Mas eu fui incapaz de resistir

e continuei a seguir a sedutora canção das trompas, que, confundindo os sentidos, ora soavam como que à distância, ora se avolumavam com o vento.
”Assim foi até que eu finalmente saí da floresta e avistei um castelo rutilante situado sobre uma montanha bem à minha frente. Ao redor do castelo, do cume até a floresta embaixo, um magnífico jardim nas cores mais variadas, circundava o edifício como um anel mágico. Todas as suas árvores e seus arbustos, tingidos pelo outono com muito mais força que noutras partes, eram vermelho-púrpura, amarelo-ouro e vermelho-fogo; sécias elevadas, esses últimos astros do verão minguante ardiam ali em múltiplo esplendor. O sol poente lançava os seus raios no adorável outeiro, nas fontes e nas janelas do castelo, que luziam ofuscantes.

“Percebi então que os acordes de trompa que ouvira antes provinham desse jardim, e em meio ao fulgor de sarmentos selvagens de videira eu vi, com o mais íntimo assombro, a donzela que povoava todos os meus pensamentos, andando de lá para cá, ela própria a cantar entre os acordes. Ao avistar-me, calou-se, mas as trompas seguiram soando. Belos jovens com roupas de seda acorreram solícitos e levaram- me o cavalo.

“Atravessei o portão gradeado finamente revestido de ouro no terraço do jardim onde se achava a minha amada e sucumbi, subjugado por tamanha beleza, a seus pés. Ela usava um vestido vermelho-escuro; véus longos, transparentes como os fios leves do outono, adejavam ao redor dos cachos louro-dourados, apanhados sobre a fronte por um suntuoso diadema de pedras preciosas.

“Ela ergueu-se afetuosa e, numa voz enternecedora, como entrecortada por amor e pesar, disse: ‘Jovem belo e infeliz, como eu te amo! Há muito eu te amo, e quando o outono dá início a seu misterioso festival, a cada ano desperta o meu desejo com nova e irresistível força. Infeliz! Como vieste parar no círculo dos meus acordes? Deixa-me e foge!’.”

Estremeci a essas palavras, e implorei-lhe que continuasse a me falar e se explicasse em mais detalhes. Mas ela não respondeu, e andamos lado a lado em silêncio pelo jardim.
”Nesse meio-tempo fez-se noite. Espalhou-se então uma grave majestade sobre toda a sua figura.”

“Pois fica então sabendo’, disse ela, ‘que teu amigo de infância, que hoje se despediu de ti, é um traidor. Fui forçada a ser sua noiva. Por puro ciúme ele es- condeu de ti o seu amor. Ele não partiu para a Palestina; virá amanhã para me buscar e me esconder para sempre num castelo distante, longe dos olhos humanos. Agora tenho de ir. Se ele não morrer, nunca mais nos veremos.’”

“Dizendo essas palavras, pousou-me um beijo nos lábios e desapareceu nas passagens escuras. Uma pedra de seu diadema cintilou com brilho gélido em meus olhos quando ela se foi; seu beijo queimava-me com volúpia quase terrível em todas as minhas veias.”

“Ponderei então com pavor as palavras funestas que, ao despedir-se, ela instilara como veneno em meu sangue impoluto, e vaguei longamente, absorto em pensamentos, pelas veredas solitárias. Exausto, por fim estirei-me nos degraus de pedra diante do portão do castelo; as trompas continuavam a soar, e eu adormeci em meio a estranhos pensamentos.”

“Quando abri os olhos, já clareara o dia. Todas as portas e janelas estavam firmemente cerradas, o jardim e toda a paisagem estavam calmos. Nessa solidão, despertou a imagem da amada e de todo o sortilégio da tarde anterior com novos matizes de beleza matutina em meu coração, e senti em cheio a felicidade de ser correspondido no amor. Às vezes, é verdade, quando aquelas terríveis palavras me voltavam à lembrança, meu impulso era fugir para longe dali; mas o beijo ainda me ardia nos lábios, e eu era incapaz de sair do lugar.”
”Soprava um vento cálido, quase sufocante, como se o verão quisesse voltar atrás. Saí andando ao léu pela floresta vizinha, perdido em devaneios, para distrair-me com a caça. Foi então que vi na copa de uma árvore um pássaro de plumagem tão magnífica como jamais vira antes. Quando retesei o arco para atirar, voou rápido para outra árvore. Segui-o com avidez, mas o belo pássaro continuava a esvoaçar de copa em copa, suas asas rebrilhando à luz do sol.

“Cheguei assim a um vale estreito, cercado de rochas escarpadas. Nem ao menos um bafejo de ar infiltrava-se até ali; tudo ainda estava verde e florido como no verão. Um canto avolumou-se inebriante do centro desse vale. Atônito, verguei os galhos do arbusto cerrado junto ao qual me encontrava — e meus olhos baixaram-se ébrios e ofuscados pelo encanto que lá me era revelado.

“No círculo das rochas escarpadas havia um lago de águas calmas, junto ao qual heras e singulares flores de junco trepavam com opulência. Várias moças banhavam seus belos corpos ao som de cantigas, submergiam-nos e tornavam a emergi-los das águas tépidas. Acima de todas elas estava a donzela suntuosa, sem véus, que, em silêncio, enquanto as outras cantavam, contemplava as ondas brincando voluptuosas ao redor de seus tornozelos, como que fascinada e absorta na imagem de sua própria beleza refletida no extasiado espelho d’água. De pés plantados, com ardentes calafrios lá fiquei por longo tempo, até que o belo grupo deixou a água e eu me afastei às pressas para não ser descoberto.

“Meti-me na floresta mais densa para arrefecer as chamas que devoravam meu íntimo. Mas quanto mais fugia, mais vivas aquelas imagens dançavam diante de meus olhos, mais eu era consumido pelo fulgor daqueles corpos juvenis.”
“A noite que caía apanhou-me ainda na floresta. O céu inteiro transformara-se e escurecera nesse meio-tempo; uma tempestade agreste passou sobre as montanhas. ‘Se ele não morrer, nunca mais nos veremos!’, eu não parava de repetir para mim mesmo, e corria como se acossado por fantasmas.”

“Por vezes me parecia ouvir a meu lado o estampido de cascos de cavalos na floresta, mas eu me furtava a todo rosto humano e fugia de todo ruído tão logo parecia aproximar-se. O castelo de minha amada eu avistava várias vezes quando chegava a uma elevação, situado à distância; as trompas tornaram a cantar como na noite anterior; o brilho das velas difundia-se como um tênue luar por todas as janelas e iluminava magicamente à volta o círculo das árvores e flores adjacentes, enquanto lá fora toda a paisagem atracava-se em tempestade e trevas.”

“A ponto de perder o controle dos meus sentidos, escalei finalmente uma rocha íngreme sob a qual corria um ribeirão estrondeante. Quando cheguei ao topo, ali avistei uma figura escura sentada sobre uma pedra, quieta e imóvel, como se ela própria fosse de pedra. As nuvens lançavam-se pelos céus, dilaceradas. A lua surgiu vermelho-sangue por um instante — e eu reconheci meu amigo, o noivo de minha amada. Ergueu-se assim que me viu, rápido e a prumo, tanto que estremeci por dentro, e agarrou sua espada. Em fúria, caí sobre ele e o prendi com os dois braços. Lutamos por alguns momentos, até que por fim arremessei-o pedra abaixo no abismo.”

“Súbito fez-se silêncio nas profundezas e ao redor, só o ribeirão embaixo rugia com mais força, como se toda a minha vida pretérita estivesse sepultada sob essas águas turbulentas e tudo fosse para sempre passado.”
”Corri em disparada para longe daquele lugar terrível. Foi então que me pareceu ouvir uma risada estrepitosa, perversa, como se viesse da copa das árvores às minhas costas; ao mesmo tempo, na confusão dos meus sentidos, supus rever o pássaro que perseguira antes, nos galhos acima de mim. Acuado, transido de medo e meio desfalecido, corri pelas selvas e transpus o muro do jardim rumo ao castelo da donzela. Com todas as forças sacudi os gonzos do portão fechado. ‘Abram’, gritei fora de mim, ‘abram, eu matei meu irmão do peito! Agora és minha na terra e no inferno!’”

“As folhas do portão rapidamente se abriram, e a donzela, mais bela do que eu jamais a vira, atirou-se com abandono em meu peito dilacerado, revolto por tempestades, e cobriu-me de beijos ardentes.”
”Haveis de permitir que eu cale sobre o luxo dos aposentos, a fragrância de flores e árvores exóticas entre as quais se entreviam belas criadas a cantar, as vagas de luz e música, a volúpia furiosa e inefável que nos braços da donzela eu…”

Nesse ponto o estranho estacou de repente. É que lá fora se podia ouvir uma estranha canção que passava esvoaçante pelas janelas do forte. Eram apenas al- gumas notas, que ora soavam como a voz humana, ora como os acordes mais agudos do clarinete quando a floresta os faz soprar sobre as montanhas distantes, tomando o coração de assalto e partindo ligeiros.

“Acalma-te”, disse o cavaleiro, “estamos habituados a isso. Dizem que nos bosques vizinhos costuma haver bruxaria, e muitas vezes na época de outono tais sons chegam à noite até o nosso castelo. Eles se vão tão rápido quanto chegam, e não nos preocupamos mais com o assunto.”

No entanto, uma grande comoção parecia agitar o peito do cavaleiro, e só a custo ele a reprimia. Os acordes lá fora já haviam sumido. O estranho permanecia sentado, como se ausente, perdido em profundos pensamentos. Após longa pausa, recompôs-se e retomou a sua história, embora não tão calmo como antes:

“Eu notava que a donzela, em meio ao esplendor, era acometida às vezes de uma involuntária melancolia quando via que fora do castelo o outono queria dar adeus às campinas. Mas uma noite de sono bem-dormida bastava para que tudo voltasse ao normal, e o seu rosto magnífico, o jardim e a paisagem toda ao redor miravam-me de manhã sempre com viço, frescor e como que recém-criados.”

“Só uma vez, eu a seu lado diante da janela, ela ficou mais calada e triste que de hábito. Lá fora no jardim a tempestade de inverno brincava com as folhas caídas. Percebi que várias vezes ela estremecia furtivamente ao contemplar a paisagem empalidecida. Todas as suas criadas nos haviam deixado; as canções das trompas soavam naquele dia só à infinita distância, até que afinal extinguiram-se. Os olhos da minha amada haviam perdido todo o brilho e pareciam extintos. Atrás das montanhas o sol se pôs e encheu o jardim e os vales ao redor com seu brilho pálido. Então a donzela envolveu-me com os braços e começou a cantar uma estranha canção que eu nunca ouvira de seus lábios e que penetrava a casa inteira com seus acordes infinitamente melancólicos. Ouvi encantado, era como se essa melodia me tragasse lentamente para baixo com a noite que caía, meus olhos se fecharam a contragosto, e eu adormeci em meio a sonhos.”

“Quando despertei já era noite e tudo estava em silêncio no castelo. A lua brilhava muito clara. Minha amada dormia deitada a meu lado num leito de seda. Contemplei- a perplexo; estava pálida feito cadáver, os seus cachos pendiam em desalinho sobre o rosto e o peito, como se desgrenhados pelo vento. Todo o resto ao meu redor permanecia intocado, tal como antes de adormecer; pareceu-me que muito tempo havia decorrido. Aproximei-me da janela aberta. A paisagem lá fora me pareceu transformada e bem diferente daquela que eu sempre vira. As árvores farfalhavam misteriosamente. Vi então lá embaixo, junto ao muro do castelo, dois homens que murmuravam e conferenciavam às ocultas, curvando-se sempre do mesmo modo e inclinando-se um para o outro num movimento de vaivém, como se quisessem urdir uma teia. Eu era incapaz de entender o que diziam, só os ouvia de vez em quando mencionar meu nome. Tornei a observar a figura da donzela, que agora era iluminada em cheio pela lua. Pareceu-me ver uma imagem de pedra, bela, mas fria como a morte, e imóvel. Uma pedra cintilava como olhos de basilisco em seu peito hirto, sua boca parecia-me estranhamente desfigurada.”

“Um horror, desses que eu nunca sentira antes em minha vida, possuiu-me num instante. Deixei tudo para trás e disparei pelos átrios vazios e desertos, onde todo o brilho se extinguira. Quando saí do castelo, vi a certa distância os dois estranhos de repente petrificados em sua tarefa e paralisados como estátuas. Do outro lado, montanha abaixo, avistei junto a um estranho lago várias moças com trajes brancos como neve que, entre cantigas maravilhosas, pareciam ocupadas em estender sobre os campos estranhas teias, empalidecendo ao luar. Essa visão e esse canto aumentaram ainda mais meu horror, e lancei-me com ímpeto tanto maior por sobre o muro do jardim. As nuvens voavam ligeiras no céu, as árvores atrás de mim farfalhavam, eu corria buscando fôlego para longe, para longe.”

“Aos poucos a noite tornou-se calma e mais quente, os rouxinóis cantavam nos arbustos. Além, na profundeza das montanhas, pude ouvir vozes, e antigas recordações havia muito esquecidas tornaram a alvorecer indistintas em meu co- ração consumido pelo fogo, enquanto à minha frente a mais bela alvorada de pri- mavera erguia-se sobre as montanhas.”

“Que é isso? Mas onde estou?’, exclamei, surpreso, e não sabia o que havia acontecido comigo. ‘O outono e o inverno se foram, a primavera está de volta à terra. Meu Deus! Onde é que eu estive todo esse tempo?’”
”Finalmente alcancei o topo da última montanha. O sol levantava-se esplêndido. Um arrepio de prazer encrespou a terra, riachos e castelos brilhavam, as pessoas, ah!, cuidavam tranqüilas e alegres de seus afazeres diários como sempre, incontáveis cotovias alçavam em júbilo um vôo alto pelos ares. Caí de joelhos e chorei amargamente pela minha vida perdida.”

“Não entendia e não entendo até agora como tudo se passou, mas não queria ainda descer ao mundo sereno e inocente com este peito cheio de pecado e volúpia desabrida. Enterrado no mais profundo ermo, o meu desejo era rogar perdão aos céus e não rever as moradas dos homens antes que tivesse lavado com lágrimas de fervorosa penitência todas as minhas faltas, a única coisa sobre o passado de que eu tinha clara e nítida consciência.”

“Vivi assim durante um ano, quando então me encontraste perto da caverna. Preces fervorosas brotavam com freqüência do meu peito angustiado, e por vezes eu supunha que tudo estava superado e que eu encontrara a graça de Deus, mas isso era apenas a doce ilusão de momentos raros, e tudo passava rapidamente. E quando o outono torna a estender sua maravilhosa rede de cores sobre vales e mon- tanhas, então alguns acordes bem familiares voltam a desprender-se da floresta até minha solidão, e vozes sombrias dentro de mim lhes fazem eco e lhes dão resposta, e no meu íntimo ainda me deixam estarrecido as pancadas dos sinos da catedral distante, quando me alcançam em claras manhãs de domingo transpondo monta- nhas, como se buscassem o velho e sereno reino de Deus da infância em meu peito, que nele não se acha mais. Como vês, há um maravilhoso e sombrio reino de idéias no peito humano onde rebrilham com aterrador olhar enamorado cristais e rubis e todas as flores petrificadas das profundezas, e acordes mágicos sopram de permeio, tu não sabes de onde vêm e para onde vão, a beleza da vida terrena faísca de fora para dentro em crepúsculo, as fontes invisíveis, tristemente sedutoras, murmuram continuamente, e te tragam eternamente para baixo, para baixo!”
”Pobre Raimundo”, exclamou então o cavaleiro, que observara longamente, com profunda emoção, o estranho perdido nos devaneios de sua história.

“Santo Deus! Quem és, que sabes o meu nome?”, exclamou o estranho num pulo, como se atingido por um raio.
”Deus meu!”, retrucou o cavaleiro, e com efusão envolveu em seus braços o homem que tremia de alto a baixo, “então não nos reconheces mais? Eu sou seu velho e fiel irmão de armas Ubaldo, e esta é a tua Berta, que amaste em segredo, que ajudaste a montar no cavalo depois daquela festa de despedida em teu forte. O tempo e uma vida movimentada embaçaram desde então nossas feições de fresca juventude, e eu só te reconheci quando começaste a narrar tua história. Eu nunca estive num lugar como aquele que descreveste, e nunca lutei contigo sobre pedra nenhuma. Logo depois daquela festa parti para a Palestina, onde combati por muitos anos, e a bela Berta que vês aqui se tornou minha mulher após meu retorno. Berta também não te viu nunca mais depois da festa de despedida, e tudo o que narraste é pura fantasia. Um feitiço maléfico, que desperta a cada outono e então sempre te põe a perder, meu pobre Raimundo, te manteve seduzido durante muitos anos com ardis de mentira. Sem te dares conta, viveste meses como se fossem dias. Ninguém sabia, quando retornei da Terra Prometida, para onde tinhas ido, e nós te dávamos há muito por perdido.”

Feliz que estava, Ubaldo não notou que seu amigo tremia cada vez mais fortemente a cada palavra. Com olhos cavos e arregalados ele fitava alternadamente um e outro e reconheceu então de súbito o amigo e a jovem amada, sobre cuja figura comovente, havia muito esmaecida, as chamas da lareira a brincar lançavam um clarão bruxuleante.

“Perdido, tudo perdido!”, exclamou do fundo do peito, desvencilhou-se dos braços de Ubaldo e disparou rápido como uma flecha para fora do castelo na direção da noite e da floresta. “Isso mesmo, perdido, e meu amor e toda a minha vida uma longa ilusão!”, não parava de dizer a si mesmo e corria, até todas as luzes no castelo de Ubaldo desaparecerem às suas costas. Quase sem querer, tomou o rumo de seu próprio forte, ao qual chegou quando rompia a aurora.

Fazia novamente uma serena manhã de outono como antes, quando havia muitos anos ele deixara o castelo, e a lembrança daquele tempo e a dor pelo brilho e glória perdidos de sua juventude abateram-se em cheio sobre toda a sua alma. As tílias esguias no pátio de pedras do forte continuavam farfalhando, mas o lugar e o castelo inteiro estavam vazios e desertos, e o vento sibilava pelos vãos das janelas em ruínas.

Entrou no jardim. Ele também estava ermo e destruído, só uma ou outra flor temporã ainda cintilava aqui e ali entre a relva descorada. Pousado numa flor elevada, um pássaro trinava uma canção maravilhosa que enchia o peito de infinda nostalgia. Era a mesma melodia que ele entreouvira na noite anterior ao narrar sua história no forte de Ubaldo. Com assombro reconheceu também o belo pássaro dourado da floresta encantada. Mas atrás dele, do alto de uma janela ogival do castelo, um homem esguio admirava a paisagem enquanto seguia ouvindo o canto, imóvel, pálido e salpicado de sangue. Era a imagem viva de Ubaldo.

Horrorizado, Raimundo desviou o rosto da imagem terrivelmente imóvel e baixou a vista para a manhã clara à sua frente. Súbito, lá embaixo passou a galope num corcel airoso a bela donzela encantada, sorridente, na flor da juventude. Fios prateados de verão tremulavam às suas costas, o diadema em sua fronte lançava raios ouro-esverdeados pela campina afora.
Com todos os sentidos turvados, Raimundo disparou pelo jardim em busca da imagem arrebatadora.
A estranha canção do pássaro sempre o precedia à medida que avançava. Aos poucos, quanto mais progredia, esses acordes transformavam-se magicamente na antiga canção das trompas que então o seduzira.

Dourados meus cachos ondeiam, Doce meu corpo jovem floresce — tornou a ouvir de forma indistinta, como um eco na distância.

Os riachos que no vale tranqüilo Seguem murmurejantes ao longe?

Seu castelo, as montanhas e o mundo inteiro abismaram-se em crepúsculo às suas costas.

Ricas, plenas juras de amor Oferecem-te os timbres das trompas. Vem, amor, antes que se dissipem!

tornou a ecoar — e, perdido em loucura, o pobre Raimundo seguiu a melodia pela floresta adentro e nunca mais foi visto.