Os Construtores de Pontes – Rudyard Kipling

Os Construtores de Pontes

Rudyard Kipling

O mínimo que Findlayson esperava receber do Departamento de Obras Públicas era um CEI; na verdade, sonhava com um CSI; (* cie: Cruz do Império Indiano; CSI: Cruz da Estrela da Índia. Condecorações que o Império Britânico concedia aos funcionários lotados na Índia) seus amigos, aliás, garantiam que ele merecia mais do que isso. Tinha passado três anos agüentando frio e calor, frustrações, desconforto, perigos e moléstias, com um senso de responsabilidade quase pesado demais para os seus ombros; e durante todo esse tempo sob o seu comando, a grande ponte Kashi foi se estendendo dia a dia sobre o Ganges. Agora, se tudo corresse bem, em menos de três meses Sua Excelência, o vice-rei, a inauguraria com pompa e circunstância, um arcebispo haveria de abençoá-la, o primeiro comboio de soldados passaria por ela, e não faltariam discursos.

O engenheiro-chefe Findlayson sentou-se em seu vagonete, numa via auxiliar ao longo de um dos contrafortes principais — os enormes revestimentos de pedra que, em ambas as margens do rio, lampejavam de norte a sul numa extensão de cinco quilômetros —, e se pôs a pensar no fim. Incluídas as rampas de acesso, a obra teria quase três quilômetros de comprimento: uma ponte com vigas em treliça, assentada em travejamento Findlayson e sustentada por vinte e sete pilares. Cada um deles tinha sete metros de diâmetro, era forrado de pedra vermelha de Agra e penetrava vinte e quatro metros da areia instável do leito do Ganges. Sobre eles, corria uma linha férrea de mais de quatro metros de largura; e acima desta, uma estrada de cinco metros de largura, flanqueada por calçadas para pedestres. Nas extremidades, erguiam-se torres de tijolo com ameias e troneiras, sendo que a rampa da estrada chegava até os seus flancos. Nos extremos de terra crua, formigavam centenas de burricos que, carregando sacos de material, iam subindo os terrenos profundamente escavados para os aterros; e o ar quente da tarde vibrava com o ruído dos cascos, das pauladas dos arreeiros e o zunir e o rolar da terra. O rio estava muito baixo e, na areia branca e ofuscante entre os três pilares centrais, erguiam-se robustas armações de dormentes cruzados, cheias de barro por dentro e cobertas de barro por fora, para sustentar as últimas vigas que estavam sendo içadas e rebitadas. Na escassa água profunda que a seca poupara, uma grua ia de um lado para o outro, soltando bruscamente as barras de ferro, bufando e retrocedendo e grunhindo qual um elefante em uma madeireira. Centenas de operários se aglomeravam junto às treliças laterais e ao telhado metálico da ferrovia, trepados em invisíveis andaimes sob o ventre de vigas, e se apinhavam ao redor das gargantas dos pilares e cavalgavam à beira dos pontaletes das passarelas; à luz ardente do sol, seus braseiros e as faíscas que respondiam a cada martelada se empalideciam amarelados. A leste, a oeste, ao norte e ao sul as locomotivas estrugiam e rangiam ao longo dos contrafortes, puxando vagões repletos de pedras marrons e brancas, que iam se chocando entre si, até que se abriam os anteparos laterais e, com um rugir e um retumbar, lançavam-se mais algumas toneladas de material para conter o rio.

O engenheiro-chefe Findlayson girou o corpo no vagonete e contemplou a paisagem que ele havia alterado em um raio de dez quilômetros. Voltou-se para a turbulenta aldeia de cinco mil operários; correu os olhos rio acima e rio abaixo, olhou para as saliências e a areia em perspectiva, para o outro lado do rio até os pilares mais distantes, que já desapareciam na névoa, e, mais acima, para as torres de vigia — só ele sabia como eram sólidas — e, com um suspiro de satisfação, viu que isso era bom. Lá estava a sua ponte, à luz do sol, aguardando só mais algumas semanas de trabalho nas vigas dos três pilares centrais — a sua ponte, feia e rude como o pecado original, mas suficientemente pukka — perene — para perdurar até muito depois que se extinguisse toda lembrança do construtor, inclusive do esplêndido vigamento Findlayson. Estava praticamente pronta.

Hitchcock, seu auxiliar, chegou a meio-galope, montando um pequeno pônei kabuli com um tufo de pêlo na ponta do rabo — o qual, graças à sua experiência enorme, era capaz de atravessar uma pinguela trotando — e fez um gesto afirmativo para o chefe.

“Falta pouco”, sorriu.
”Era justamente nisso que eu estava pensando. Um trabalho e tanto para dois homens, não?”
”Para… um e meio. Puxa vida, eu não passava de um frangote quando cheguei!” Hitchcock se sentia velhíssimo com as muitas experiências acumuladas nos últimos três anos, que lhe haviam ensinado o que era estar no comando e ter res- ponsabilidade.
”Você estava mais para um potro que para um frangote”, disse Findlayson. “Vai ser duro enfrentar o trabalho burocrático quando o serviço aqui terminar.”
”Eu vou detestar!”, afirmou o rapaz. Acompanhou o olhar de Findlayson antes de prosseguir. “Isto aqui não ficou ótimo?”
“Acho que seremos promovidos: nós dois”, murmurou Findlayson com seus botões. “Você é bom demais para ser trocado por outro. Era um frangote, agora é um auxiliar e tanto. Se este trabalho me render algum crédito, vai ser meu assistente pessoal. E em Simla!”
De fato, a maior carga de trabalho recaíra totalmente sobre Findlayson e seu auxiliar, o jovem que ele havia escolhido justamente por ser cru e inexperiente, para moldá-lo segundo as suas necessidades. Lá havia cerca de meia centena de empreiteiros — soldadores e serralheiros, todos europeus, fornecidos pelas oficinas ferroviárias, e mais uns vinte subordinados brancos e mestiços encarregados de comandar as equipes de operários, embora também sendo comandados; porém ninguém sabia melhor do que aqueles dois, ligados por laços de confiança mútua, que não se podia confiar nos subalternos. Tinham enfrentado muitas crises repentinas — os deslizamentos de terra, a quebra do equipamento, as avarias nas gruas e a fúria do rio —, mas não houve pressão capaz de dar destaque a um só membro da equipe que merecesse a homenagem de Findlayson e Hitchcock por haver trabalhado tão incansavelmente quanto eles próprios. Findlayson recordou tudo desde o princípio: os meses e meses de trabalho de prancheta, tudo jogado fora quando, no último momento, o governo da Índia resolveu alargar a ponte em meio metro, por certo convencido de que ela era feita de papel recortado, arruinando quase meio alqueire de projetos — e Hitchcock, ainda pouco afeito às decepções, mergulhou a cabeça nos braços e chorou; os exasperantes atrasos na assinatura dos contratos na Inglaterra; a tediosa correspondência que acenava com grandes comissões caso eles fizessem uma — uma única — consignação, por questionável que fosse; a guerra que se seguiu à recusa; o boicote cauteloso e educado que se seguiu à guerra, até que o jovem Hitchcock, tendo acumulado dois meses de férias e tomado emprestados mais dez dias de Findlayson, gastou as modestas economias de um ano em uma viagem precipitada a Londres, e lá, como ele contou e como demonstraram as consignações posteriores, infundiu o temor a Deus em um homem tão poderoso que, segundo ele mesmo proclamava, não temia senão ao Parlamento, até que Hitchcock o afrontou à sua própria mesa e o ensinou a recear a ponte Kashi e a qualquer um que falasse em nome dela. Depois foi a cólera que, na calada da noite, chegou à aldeia da obra da ponte; e, passada a cólera, veio o flagelo da varíola. A febre não lhes dava trégua. Hitchcock foi nomeado magistrado de terceira classe, com poder de açoite para melhor governar a comunidade, e Findlayson observou a moderação com que ele o exercia, tratando de aprender o que valia a pena relevar e o que convinha punir. Foi um longo, longuíssimo, delírio eivado de tormentas, súbitas enchentes, a morte em todas as suas formas e variantes, o ódio violento à burocracia que quase enlouquecia uma mente consciente de que devia estar ocupada com outras coisas; seca, problemas sanitários e financeiros; nascimentos, matrimônios, enterros e sublevações em uma aldeia de vinte castas inimigas; conflitos, queixas, persuasão, e o irremediável desespero do homem que ia se deitar agradecido porque seu rifle ainda estava desmontado no estojo. Por trás de tudo isso, delineava-se o negro perfil da ponte Kashi — tábua após tábua, viga após viga, arcada após arcada —, e cada um de seus pilares lembrava Hitchcock, o pau para toda a obra que, do começo ao fim, ficara indefectivelmente ao lado do chefe. De modo que a ponte era obra de dois homens — a menos que se levasse em conta Peroo, como decerto queria o próprio Peroo. Era um marinheiro indiano, um kharva de Bulsar que, além de conhecer todos os portos entre Rockhampton e Londres, havia chegado à categoria de serang nos barcos da British índia, mas, farto das inspeções de rotina e de ser obrigado a sempre vestir roupa limpa, largou o emprego e foi para o interior, onde um sujeito como ele nunca ficava desempregado. Com muita prática em guindastes e deslocamento de grandes pesos, podia ganhar o que pedisse; mas, como era o costume que determinava o salário dos capatazes, ainda faltavam muitas moedas de prata para que Peroo chegasse ao seu verdadeiro valor. Nem as correntezas nem as mais vertiginosas alturas o intimidavam; e, sendo um ex-serang, ele sabia impor autoridade. Nenhuma peça de ferro era demasiado grande ou estava num lugar demasiado inacessível para que Peroo não conseguisse idealizar um cordame capaz de içá-la — uma invenção desconjuntada, ataviada com uma quantidade escandalosa de palavrório, mas perfeitamente adequada à tarefa. Foi ele que salvou o pilar número sete da destruição quando o novo cabo de aço se enrascou no olho da grua e uma enorme barra de ferro escorregou nas amarras, inclinando-se perigosamente para o lado. Os operários nativos entraram em pânico e se puseram a berrar; uma viga caiu em cima de Hitchcock, quebrando-lhe o braço, mas ele improvisou uma tipóia com o casaco, desmaiou, voltou a si e passou quatro horas dirigindo os trabalhos, até que Peroo informasse lá do alto da grua “Está tudo bem”, e a barra fosse levada ao lugar certo. Não havia ninguém como Peroo, serang, para deslocar, amarrar e sujeitar, para controlar os motores auxiliares ou erguer habilmente uma locomotiva que caíra em uma vala; para se despir e mergulhar, se necessário, a fim de averiguar como os blocos de concreto que rodeavam os pilares estavam reagindo aos embates de Mãe Gunga, ou para se aventurar rio acima numa noite de monção e examinar o estado dos contrafortes. Costumava interromper sem o menor pudor as reuniões de Findlayson e Hitchcock, até que o seu inglês fantástico ou a sua ainda mais fantástica “língua franca”, um misto de português e malaio, se esgotasse, obrigando-o a pegar uma corda e mostrar os nós que lhe pareciam recomendáveis. Controlava a sua própria turma de operadores de grua — misteriosos parentes de Kutch Mandvi recrutados todo mês e exaustivamente testados. Nenhuma consideração de ordem familiar ou tribal o levava a conservar um corpo mole ou uma cabeça oca em sua brigada. “A honra desta ponte é a minha honra”, costumava dizer aos que estavam prestes a ser demitidos. “Que me importa a sua honra? Vá trabalhar em um vapor, para coisa melhor você não presta.”

O pequeno aglomerado de barracos em que ele e sua equipe moravam rodeava a desconjuntada casa de um capelão da Marinha — um sacerdote que, mesmo sem nunca ter posto os pés na Água Negra, fora eleito guia espiritual de duas gerações de marujos, todos arredios às missões dos portos ou aos credos religiosos com que as agências assediavam os marinheiros à margem do Tâmisa. O sacerdote dos indianos não tinha nada a ver com a casta deles; aliás, não tinha nada a ver com nada. Alimentava-se das oferendas de sua igreja, dormia, fumava e tornava a dormir, “porque”, dizia Peroo, que o arrastara mil e quinhentos quilômetros terra adentro, “ele é um homem muito santo. Nunca se importa com o que comemos, contanto que não seja carne de vaca, e isso é bom, porque nós, os kharvas, adoramos Shiva em terra, mas no mar, a bordo dos barcos da Kumpani, obedecemos rigorosamente às ordens do Burra Malum (o comandante) e, nesta ponte, acatamos o que diz Findlayson Sahib”.

Nesse dia, Findlayson Sahib tinha ordenado a remoção dos andaimes da torre de vigia da margem direita, e Peroo e seus companheiros estavam soltando e descendo as estacas de bambu e as tábuas com a mesma pressa com que descarregavam um navio de cabotagem.

Do vagonete, Findlayson ouvia o apito de prata do serang e o ranger e o estralar das polias. Vestido com o macacão azul de seu emprego anterior, Peroo estava no alto da última fiada de tijolos da torre, e, quando Findlayson lhe fez sinal para que tomasse cuidado, pois sua vida não era de se jogar fora, segurou a última estaca e, cobrindo os olhos com a mão, ao modo dos marinheiros, respondeu com um grito prolongado de vigia de castelo de proa: “Ham dekhta ha” (“Eu estou vigiando”). Findlayson riu e depois suspirou. Fazia anos que não via um vapor e andava com saudade de casa. Quando o vagonete passou abaixo da torre, Peroo desceu por uma corda, feito um macaco, e gritou:

“Agora ela está bonita, Sahib. A nossa ponte está quase pronta. O que o senhor acha que Mãe Gunga vai dizer quando o primeiro trem passar?”
”Por enquanto não disse muita coisa. Não foi Mãe Gunga que nos atrasou.”
”Ela sempre tem a sua hora; nem por isso deixou de haver atraso. O Sahib se esqueceu da enchente do outono passado, quando as chatas afundaram sem aviso prévio ou avisando só com meio dia de antecedência?”

“Sim, mas agora só uma grande enchente pode nos afetar. Os contrafortes da margem ocidental estão agüentando bem.”
”Mãe Gunga come em grandes quantidades. Nunca falta um lugar que precise ser revestido com mais pedra. É o que eu sempre digo ao Chota Sahib”, riu-se o indiano, aludindo a Hitchcock.

“Não faz mal, Peroo. Um ano mais, e você vai poder construir outra ponte à sua maneira.”
O outro abriu um sorriso.
”Mas a minha não vai ser assim, com tanta pedra afundada debaixo da água, como o Quetta afundou. Eu gosto de ponte pên-pên-pênsil, que voa de uma margem à outra, num passo largo, feito uma pinguela. Esta, não há água que a derrube. Mas quando é que o lorde Sahib vem inaugurar a ponte?”

“Daqui a três meses, quando não estiver fazendo tanto calor.”
”Ho! Ho! Ele é como Burra Malum. Fica dormindo lá embaixo enquanto a gente dá duro. Depois sobe ao castelo de proa, passa o dedo e diz: ‘Isto não está limpo!’. Maldito jiboonwallah!”
”Mas, Peroo, o lorde Sahib nunca me chamou de maldito jiboonwallah.”
”Não, Sahib, mas ele também não sobe ao convés enquanto o trabalho não estiver pronto. Até mesmo o Burra Malum do Nerbudda chegou a dizer uma vez, em Tuticorin…”
”Ora! Dê o fora daqui! Eu tenho muito que fazer.”
”Eu também!”, disse Peroo sem se alterar. “Posso pegar o barco a remo e ir dar uma olhada nos contrafortes?”
”Para quê? Para segurá-los com as mãos? Eu acho que eles são firmes o su- ficiente.”
”Não, Sahib. É o seguinte: no mar, na Água Negra, há espaço para que nos joguem de um lado para o outro à vontade. Aqui não, não há espaço para nada. Olhe, nós prendemos o rio em uma doca e o obrigamos a correr entre dois muros de pedra.” Findlayson achou graça no “nós”.
”Nós pusemos rédea e cabresto nele. Ele não é como o mar, que pode se jogar em uma praia branca. É Mãe Gunga… acorrentada.” Falou com voz um pouco mais baixa.
”Peroo, você já correu mundo muito mais do que eu. Diga a verdade. Até que ponto você acredita em Mãe Gunga, no fundo do coração?”
”É como diz o nosso sacerdote. Londres é Londres, Sahib. Sydney é Sydney, e Port Darwin é Port Darwin. E Mãe Gunga é Mãe Gunga, e quando eu retorno às suas margens, sei disso e a adoro. Em Londres eu poojah  o grande templo à beira do rio por causa do Deus que o habita… Sim, eu vou com a barca, mas sem os coxins.”
Findlayson montou seu cavalo e foi a trote para o bangalô que dividia com o auxiliar. Fazia três anos que aquilo lhe servia de lar. Sob o rude telhado de sapé, ele torrara com o calor, suara com as chuvas e tiritara de febre; perto da porta, o caiado da parede estava coberto de fórmulas e desenhos toscos, e o rastro puído na esteira da varanda marcava o lugar onde ele caminhava a sós. A jornada de trabalho de engenheiro não se limitava a oito horas, e foi de botas e esporas que ele jantou com Hitchcock: já fumando charuto, os dois ouviram o rumor da aldeia quando as brigadas subiram o rio e as luzes começaram a cintilar.
”Peroo pegou a sua barca emprestada para vistoriar os contrafortes. Levou dois sobrinhos e ia todo refestelado na popa, feito um almirante”, disse Hitchcock.
”É bom. Ele anda preocupado com alguma coisa. Pode-se dizer que os dez anos de trabalho nos barcos da British índia acabaram com o que restava de religião dentro dele.”
Hitchcock conteve o riso:
”É verdade. Outro dia eu o ouvi dizendo coisas muito atéias àquele guru barrigudo que eles têm. Peroo negava a utilidade da oração e queria que o guru fosse com ele para o mar e enfrentasse uma tormenta para ver se conseguia deter a monção com rezas.”

“Mesmo assim, ele fugiria espavorido se você mandasse o guru embora daqui. Acaba de me contar que rezava na catedral de São Paulo quando estava em Londres.”
”Ele me disse que, na primeira vez em que entrou na casa de máquinas de um vapor, quando era menino, chegou a orar diante do cilindro de baixa pressão.”

“Até que vale a pena rezar para esse tipo de coisa. Agora ele deve estar às voltas com os seus próprios deuses, querendo saber o que Mãe Gunga acha da ponte que construíram sobre ela. Quem está aí?”
Uma sombra obscureceu o vão da porta; entregaram um telegrama a Hitchcock.

“A esta altura, ela já deve estar acostumada. Não é nada. Apenas um tar. Deve ser a resposta de Ralli sobre os novos arrebites… Meu Deus!”
Hitchcock se levantou de um salto.
”Que houve?”, perguntou o engenheiro, pegando o papel. “Então é isso que Mãe Gunga acha, hein?”, disse ao mesmo tempo que lia. “Tenha a calma, rapaz. Trabalho é o que não vai faltar. Vejamos. Muir informou há meia hora: ‘Enchente em Ramgunga. Estado de alerta’. Bom, isso nos dá… uma, duas… nove horas e meia até que a enchente chegue a Melipur Ghaut; com sete, são dezesseis horas e meia até Latodi… ou seja, umas quinze horas para que caia em cima de nós.”

“Maldito seja esse bueiro alimentado pelas colinas de Ramgunga! Findlayson, isso vai acontecer dois meses antes do previsto, e a margem esquerda está repleta de material. Dois meses antes do tempo!”
”É assim mesmo. Eu conheço os rios da Índia há apenas vinte e cinco anos e não tenho a pretensão de compreendê-los. Lá vem mais um tar“, e Findlayson abriu o telegrama. “Agora é Cockran, do canal do Ganges: ‘ Chuva forte por aqui. Problemas’. Podia ter poupado a última palavra. Bom, eu não quero saber de mais nada. As brigadas vão ter de trabalhar a noite inteira, limpando o leito do rio. Você vai para a margem oriental e se encontra comigo no meio. Leve tudo que flutuar para baixo da ponte: já devemos estar com muitos barcos descendo o rio à deriva para deixar que as chatas carregadas de pedra se choquem com os pilares. Há alguma coisa de que a gente precise cuidar na margem oriental?”

“Um pontão, um pontão grande com uma grua. A outra grua está no pontão reparado, com os arrebites da rodovia dos pilares vinte e vinte e três, duas vias de construção e um ramal de giro. As pilastras vão ter de se virar sozinhas”, respondeu Hitchcock.

“Certo. Recolha tudo que puder. Vamos dar mais quinze minutos às brigadas para que acabem de jantar.”
Perto da varanda havia um gongo enorme que só se utilizava em caso de enchente ou de incêndio na aldeia. Hitchcock mandou buscar um cavalo descansado e já tinha partido rumo ao lado da ponte de que estava encarregado quando Findlayson pegou a baqueta enchumaçada e, batendo no gongo com força, fez o metal vibrar.

Bem antes que cessasse o último repique, todos os gongos da aldeia haviam aderido ao sinal de alarme. A eles se somaram o rouco gemido das buzinas dos pequenos templos e o rufar dos tambores e tantãs; no alojamento dos europeus, onde moravam os serralheiros, a cometa de McCartney, uma arma estratégica nos domingos e feriados, se pôs a tocar desesperadamente o bota-sela. Uma a uma, as locomotivas que voltavam laboriosamente ao longo dos contrafortes, após a jornada de trabalho, reagiram apitando até que outros apitos respondessem na margem oposta. Então o gongo principal tocou três vezes, assinalando que se tratava de enchente, não de incêndio; buzinas, tambores e apitos reproduziram o aviso, e o acampamento estremeceu com o baque dos pés descalços correndo na terra fofa. Em qualquer caso, a ordem era correr para o posto de trabalho e aguardar instruções. As brigadas se precipitaram no crepúsculo; os homens parando para amarrar as tangas ou prender as sandálias. Os capatazes das equipes gritavam com os subordinados ao mesmo tempo que corriam ou se detinham momentaneamente nos galpões de ferramentas, a fim de se munirem de barras de ferro e enxadas; as locomotivas se arrastavam nos trilhos, as rodas sumidas em meio à multidão; até que a parda torrente desapareceu na escuridão da beira do rio, precipitou-se entre as pilastras, formigou junto às treliças, aglomerou-se ao redor das gruas e se deteve: cada homem em seu lugar.

Então as batidas nervosas do gongo espalharam a ordem de tudo recolher e tudo levar para além da marca mais alta do nível da água, e centenas de lampiões se acenderam junto às sombrias malhas de ferro, enquanto os montadores iniciavam o trabalho noturno, correndo contra a iminente inundação. As vigas dos três pilares centrais — escoradas nos dormentes cruzados — ainda não estavam prontas. Precisavam de todos os arrebites que nelas pudessem ser cravados, pois, caso as pontas não fossem fixadas, a enchente por certo arrastaria os esteios, e a estrutura de ferro cairia sobre os capitéis de pedra. Enfiou-se uma centena de pés-de-cabra sob os dormentes da via provisória, que chegava até os estribos inacabados. Os operários foram-na levantando trecho por trecho, carregaram-na nos vagões, e as locomotivas exaustas a arrastaram, encosta acima, para longe do nível da enchente. Os barracões de ferramentas, erguidos na areia, se dissolveram em face do ataque de exércitos vociferantes, e, com eles, desapareceram as provisões do governo, as robustas caixas de rebites, os alicates, as serras, as peças de reposição das máquinas de rebitar, as bombas e as correias de reserva. A grua maior seria a última a ser deslocada, pois lhe cabia içar todo o material pesado até a estrutura principal da ponte. Os blocos de concreto que estavam nas chatas foram jogados nos trechos de água mais profunda a fim de proteger os pilares, e mesmo os barcos vazios foram zingados rio abaixo e posicionados debaixo da ponte. Ali o apito de Peroo tocava com mais força, porque, ao ouvir o primeiro toque do grande gongo, ele regressara com a barca em alta velocidade e, agora, assim como a sua gente, estava nu da cintura para cima, trabalhando pela honra e pela estima, que valiam mais do que a vida.

“Eu sabia que ela ia falar”, gritou. “Eu sabia, mas ainda bem que o telégrafo nos avisou. Oh, filhos de paternidade insondável, oh, criaturas de infâmia in-dizível! Acaso nós estamos aqui só para manter as aparências?”
Levava meio metro de cabo de aço desfiado nas pontas, mas esse meio metro fazia milagres enquanto Peroo ia saltando de barco em barco, a gritar na linguagem do mar.

O que mais preocupava Findlayson eram as chatas. McCartney e suas brigadas estavam fixando as pontas das três arcadas duvidosas, mas, se a enchente fosse alta, umas poucas embarcações à deriva bastariam para pôr as vigas em perigo, e nos canais secos com o calor havia uma verdadeira frota.

“Leve-as para trás da torre de vigia”, gritou para Peroo. “Lá deve haver água parada;

coloque-as debaixo da ponte.”
”Accha! (Está bem.) Eu sei; nós as estamos amarrando com cabos de aço”, foi a resposta. “Ei! Escute só: o Chota Sahib está dando duro!”
Do outro lado do rio chegava o apitar quase contínuo das locomotivas, acompanhado do rumor das pedras. No último minuto, Hitchcock resolveu des- carregar mais uma centena de vagões de pedra de Tarakee para reforçar os con- trafortes e os paredões.
”A ponte desafiou Mãe Gunga”, disse Peroo com uma gargalhada. “Mas quando ela falar, eu sei quem há de gritar mais alto.”
A legião de homens nus passou horas trabalhando aos berros sob as luzes. Era uma noite quente e sem luar; terminou obscurecida por nuvens e por um súbito aguaceiro que assustou Findlayson.
”Ela está se movendo!”, gritou Peroo pouco antes do amanhecer. “Mãe Gunga despertou! Escute!”
Mergulhou a mão na água, e a correnteza remoinhou em torno dela. Uma onda pequena arremeteu com uma batida seca contra um dos pilares.
”Seis horas antes do que devia”, disse Findlayson, enrugando a testa com raiva. “Agora não se pode fazer mais nada. E melhor tirar o pessoal do leito do rio.”
O gongo grande tornou a soar e, pela segunda vez, ouviram-se o ruído apressado dos pés descalços na terra e o ranger do ferro; o rumor das ferramentas cessou. No silêncio, os homens detectaram o seco bocejo da água a se arrastar na areia sedenta.
Um após outro, aos gritos, os capatazes notificaram Findlayson, que se postara junto à torre de vigia, de que seu trecho do leito do rio tinha sido evacuado, e, quando a última voz se calou, Findlayson atravessou rapidamente a ponte até o lugar onde as pranchas de ferro da via permanente davam lugar à passarela provisória sobre os três pilares centrais. Lá se encontrou com Hitchcock.
”Tudo em ordem do lado de lá?”, perguntou.
Suas palavras ressoaram na caixa de treliças.
”Sim, e o canal oriental já está se enchendo. Os nossos cálculos estavam totalmente errados. A que horas essa coisa vai chegar?”
”É impossível saber. Ela está enchendo depressa demais. Olhe!”
Findlayson apontou para os pranchões sob seus pés, onde a areia tórrida e manchada por meses de trabalho começava a crepitar e a bulir.
”Quais são as ordens?”, quis saber Hitchcock.
”Fazer a chamada… contar as provisões… acocorar-se… e rezar pela ponte. É tudo que me ocorre. Boa noite. Não arrisque a vida tentando fisgar alguma coisa que tenha sido levada pela correnteza.”
”Ora, eu vou ser tão prudente quanto você! ‘Noite. Céus, como está enchendo! Agora vem chuva de verdade!”
Findlayson voltou à sua margem, empurrando diante de si os últimos montadores de McCartney. Apesar da chuva fria do amanhecer, as turmas haviam se espalhado ao longo dos contrafortes, à espera da enchente. Só Peroo reunira seus homens atrás da base da torre de vigia, onde as chatas repletas estavam amarradas pela proa e pela popa com cabos de aço, cordas e correntes.
Um gemido estridente percorreu a fileira de trabalhadores, transformando-se em um bramido meio de pavor, meio de assombro: a superfície do rio se branqueava de margem a margem entre os paredões de pedra, e os contrafortes mais distantes iam desaparecendo, tragados pela espuma. Mãe Gunga tinha chegado rapidamente à altura das margens, e seu arauto era uma muralha de água cor de chocolate. Ouviu-se um som agudo em meio ao frêmito da água: o protesto das arcadas a desabarem sobre os blocos à medida que as armações de dormentes cruzados iam sendo arrebatadas de sob seu ventre. As chatas carregadas de pedra gemeram e se chocaram entre si no redemoinho que cirandava entre os contrafortes, e seus toscos mastros subiam cada vez mais no horizonte turvo.

“Antes de prendê-la entre essas paredes, nós já sabíamos do que ela era capaz! Agora que está assim, prensada, sabe Deus o que não há de fazer!”, exclamou Peroo, olhando para o furioso remoinho que cercava a torre de vigia. “Eh! Lute, lute muito, porque é assim que a mulher se acaba!”

Porém Mãe Gunga não lutou como ele queria. Depois da primeira arremetida correnteza abaixo, não se ergueram novas muralhas de água: o rio se pôs a subir de corpo inteiro, qual uma serpente a beber em pleno verão, penetrando e arranhando os diques, amontoando-se atrás dos pilares, tanto que Findlayson começou a recalcular a resistência de sua obra.

Quando amanheceu, a aldeia ficou assombrada.
”Ontem à noite”, disseram os homens, entreolhando-se, “era um vilarejo no leito do rio! Olhem agora!”
E eles olharam e tornaram a se espantar com a água profundíssima, a água que corria, veloz, lambendo a garganta dos pilares. A margem oposta estava encoberta pelo véu da chuva, no qual a ponte mergulhava e desaparecia; rio acima, só os remoinhos e as golfadas indicavam o lugar dos pilares; e, correnteza abaixo, o rio aprisionado, agora livre de qualquer peia, estendia-se como um mar até o horizonte. Então passaram rapidamente, arrastados pela correnteza, cadáveres de homens e de bois, por vezes acompanhados de pedaços de telhado de sa-pé que se desfaziam assim que esbarravam em um pilar.
”Uma grande enchente”, disse Peroo.
Findlayson fez que sim. Era uma grande enchente, exatamente como ele não queria que fosse. Sua ponte resistiria ao que a acometia naquele momento, mas não muito mais do que isso; e se, numa probabilidade em mil, houvesse algum defeito nos paredões, Mãe Gunga levaria a sua honra para o mar com o resto dos escombros. O pior era não poder fazer nada, a não ser esperar calado; e Findlayson esperou calado, envolto no impermeável, até que o capuz ficasse emplastrado em sua cabeça e a lama lhe cobrisse as botas até os tornozelos. Não se importou com o transcorrer do tempo, porque o rio marcava as horas centímetro por centímetro, metro por metro, ao longo do contraforte; e, entorpecido, faminto, ouviu o rangido das chatas forçando as amarras, o clamor sufocado da água entre os pilares, os mil ruídos que compõem a voz de uma inundação. Houve um momento em que um criado encharcado lhe serviu comida, mas ele não conseguiu comer; e, em outra ocasião, teve a impressão de ouvir o apito distante de uma locomotiva do outro lado do rio e sorriu. A ruína da ponte faria um grande estrago em seu auxiliar, mas Hitchcock ainda era moço, estava com sua grande obra por fazer. Para ele, no entanto, o desabamento significava tudo — tudo que tornava a vida digna de ser vivida. Que diriam os seus colegas de profissão…? Lembrou-se do que ele mesmo tinha dito, quase com pena, quando a usina de tratamento de água de Lockhart ruiu, desfazendo-se em uma montanha de tijolos e lama, e o próprio espírito de Lockhart se quebrou dentro dele, e ele morreu. Recordou o que ele mesmo dissera quando do grande maremoto que arrasou a ponte de Sumao e, sobretudo, evocou a vergonha estampada no rosto do pobre Hartopp três semanas depois. Sua ponte era duas vezes maior que a de Hartopp e tinha o vigamento Findlayson, além da nova sapata reforçada Findlayson. Não havia desculpa no seu caso. Talvez o governo a aceitasse, mas seus colegas o julgariam pela ponte em si, conforme resistisse ou desabasse. Ele a revisou mentalmente, prancha por prancha, olhai por olhai, tijolo por tijolo, pilar por pilar, recordando, comparando, avaliando e recalculando em busca de um erro; e, às vezes, nas longas horas de peleja, entre as fórmulas que bailavam e revoluteavam diante de seus olhos, um temor glacial lhe oprimia o coração. Na sua opinião, a soma era indiscutível, mas quem conhecia a aritmética de Mãe Gunga? Era possível que, enquanto ele tudo equilibrava na tabuada, o rio estivesse solapando o envasamento de qualquer um dos pilares de doze metros que sustentavam sua reputação. O criado tornou a se acercar com mais comida, porém Findlayson estava com a boca seca, não conseguiu senão beber e voltar aos seus decimais. E o rio continuava subindo. Peroo, com seu casaco de oleado, acocorou-se ao pé do chefe e se pôs a examinar ora seu rosto, ora a superfície do rio, mas sem dizer pa- lavra. Por fim, levantou-se e, chapinhando na lama, foi para o acampamento, se bem que, precavido que era, deixasse um ajudante vigiando os barcos.

Não tardou a voltar, empurrando com muita irreverência o sacerdote de sua fé — um velho gordo, de barba branca, que o vento açoitava com a mesma força com que agitava a roupa molhada que lhe cobria os ombros. Nunca se vira um guru tão deplorável.

“De que servem as oferendas, as lamparinas e os cereais”, gritou Peroo, “se a única coisa que podes fazer é ficar sentado na lama e esperar? Passaste muito tempo confabulando com os deuses quando eles estavam satisfeitos e bem-dispostos. Agora estão zangados. Fala com eles!”

“Que pode um homem contra a ira dos deuses?”, lamentou o religioso, encolhendo- se ante a fúria do vento. “Deixa-me ir ao templo, eu vou orar.”
”Filho de uma porca! Reza aqui mesmo! Então nós não recebemos nada em troca do peixe seco, do caril e das cebolas? Clama em voz alta! Dize a Mãe Gunga que nós já padecemos demais. Roga-lhe que se acalme esta noite. Eu não sei rezar, mas trabalhei nos barcos da Kumpani, e quando os homens não obedeciam às minhas ordens eu…”, Peroo concluiu a frase açoitando o ar com o cabo de aço esfiapado nas pontas, e o sacerdote, livrando-se do discípulo, fugiu para o vilarejo. “Porco balofo! Depois de tudo que fizemos por ele! Assim que a enchente baixar, eu vou arranjar outro guru! Finlinson Sahib, já está anoitecendo, e o senhor não come nada desde ontem. Tenha juízo, Sahib. Ninguém agüenta velar e pensar tanto assim de estômago vazio. Vá se deitar, Sahib, o rio fará o que ele tiver de fazer.”

“A ponte é minha, eu não posso abandoná-la.”
”E por acaso pretende segurá-la com as mãos?”, riu-se Peroo. “Eu estava preo- cupado com os meus barcos e calabres antes que a enchente chegasse. Agora nós estamos nas mãos dos deuses. O Sahib não vai mesmo comer nem se deitar? Então tome isto. E ao mesmo tempo carne e um bom trago, acaba com o cansaço e também com a febre que a chuva traz. Hoje eu não comi outra coisa.” Tirou da cinta empapada de chuva uma pequena tabaqueira de lata e a jogou na mão de Findlayson. “Não, não tenha medo. É apenas ópio. Ópio puro de Malwa!”
Findlayson pegou duas ou três bolinhas marrons e, quase sem se dar conta do que estava fazendo, engoliu-as. Aquilo pelo menos serviria para protegê-lo da febre — a febre que vinha do barro e já o estava penetrando; além disso, na época da neblina sufocante do outono, tinha visto o que Peroo era capaz de fazer com uma dose daquela latinha.
O indiano balançou a cabeça, seus olhos brilharam.
”Daqui a pouco… daqui a muito pouco, o Sahib vai ver que voltou a pensar com clareza. Eu também vou tomar…”
Serviu-se da preciosa caixinha, cobriu a cabeça com o oleado e se acocorou para observar os barcos. Estava muito escuro para enxergar além do primeiro pilar, e a noite parecia ter dado novo ímpeto ao rio. Findlayson estava com o queixo cravado no peito, cavilando. Tinha uma dúvida acerca de um dos pilares — o sétimo —, uma dúvida ainda longe de ser resolvida. As cifras não se configuravam diante dos seus olhos, a não ser uma a uma e com um intervalo enorme entre elas. Seu ouvido captava um som agradável e melodioso, como a nota mais grave do contrabaixo — um som encantador, ao qual ele tinha a impressão de haver passado muitas horas preso. Mas eis que surge Peroo diante dele, gritando que os cabos haviam se rompido e que as chatas estavam soltas. Findlayson viu a frota se dispersando, abrindo-se como um leque em meio ao prolongado rangido dos cabos repuxados. “Uma árvore bateu nelas. Vamos perdê-las todas”, gritou o indiano. “O cabo principal se partiu. O que o Sahib vai fazer?”
Um plano sumamente complexo lampejou na mente de Findlayson. Ele viu as cordas se estendendo de um barco a outro, em linhas retas e ângulos retos — cada qual uma risca de fogo branco. Uma delas, porém, era a corda mestra. Ele a via claramente. Se conseguisse puxá-la, era absoluta e matematicamente certo que a frota em debandada voltaria a se juntar no remanso atrás da torre. Mas lhe custava entender — por que Peroo o havia agarrado tão desesperadamente pela cintura quando ele se precipitou rumo à margem? Precisava livrar-se do indiano, lenta e delicadamente, pois era necessário salvar os barcos e, além disso, mostrar como era fácil resolver aquele problema aparentemente tão difícil. E então — mas isso não teve grande importância — um cabo de aço correu em sua mão, queimando-a, a barranca da margem sumiu e todos os fatores do problema se dispersaram lentamente. Ele se viu sentado na escuridão chuvosa — a bordo de um barco que girava feito um pião, e Peroo estava de pé diante dele.
”Eu esqueci”, disse lentamente o indiano, “que, para quem está em jejum e não tem o costume de tomá-lo, o ópio é pior do que o vinho. Quem morre no seio de Gunga vai ter com os deuses. Mas eu não tenho a menor vontade de me apresentar a seres tão grandiosos. O Sahib sabe nadar?”
”Para quê? Ele sabe voar… voar com a velocidade do vento”, foi a grave resposta. “Ele enlouqueceu!”, murmurou Peroo. “E me empurrou para o lado como se eu fosse um saco de estrume. Bom, não vai ver a sua própria morte. O barco não agüenta uma hora aqui, mesmo que não bata em nada. Não é bom encarar a morte com os olhos tão límpidos.”
Tornou a se servir do conteúdo da tabaqueira, acocorou-se na proa da embarcação, que jogava e cambaleava sem rumo, e ficou olhando fixamente para a névoa e para o nada à sua frente. Uma cálida sonolência se assenhoreou de Findlayson, o engenheiro-chefe, cujo dever era a sua ponte. As pesadas gotas da chuva o atingiam com mil agulhadas que o faziam estremecer, e o peso de todos os tempos, desde a criação do tempo, caiu-lhe nas pálpebras. Ele pensou e sentiu que estava absolutamente seguro, pois a água era de tal modo sólida que um homem nela podia ficar de pé, e, imóvel, com as pernas bem abertas para não perder o equilíbrio — isso era importantíssimo —, acabaria chegando cômoda e rapidamente à margem. Mas lhe ocorreu um plano bem melhor. Bastava um pouco de força de vontade para que a alma lançasse o corpo em terra, assim como o vento leva uma folha de papel; para que ela o impelisse pelo ar como um cometa. E se — o barco girava vertiginosamente — o vento alto colhesse por baixo o seu corpo liberto? Ele subiria feito um cometa, para cair de cabeça nos areais distantes, ou passaria toda a eternidade girando descontroladamente? Findlayson tratou de se segurar na falca, pois tinha a impressão de que estava prestes a alçar vôo, sem tempo de traçar todos os seus planos. O efeito do ópio era mais forte no homem branco do que no negro. Peroo estava comodamente indiferente aos acidentes.

“Não vai agüentar”, resmungou, “já está se desfazendo em pedaços. Se pelo menos fosse um barco a remo, nós conseguiríamos sair daqui; mas esta caixa esburacada não tem serventia nenhuma. Finlinson Sahib, ele está fazendo água.”
”Accha! Eu vou embora. Venha também.”

Em seu delírio, Findlayson já tinha escapado do barco e estava no ar, voando em círculos, à procura de um terreno firme onde pousar os pés. Seu corpo — era deveras lamentável a impotência que sentia — estava na popa, com a água a lhe bater nos joelhos.

“Que ridículo!”, disse consigo lá das alturas do seu refúgio. “Este… é Findlayson… o chefe da ponte Kashi. A pobre coitada também vai se afogar.
Afogar-se estando tão perto da margem. Eu já… eu já estou em terra. Por que ela não vem comigo?”

Para seu grande desgosto, sentiu a alma retornar ao corpo, e aquele corpo estava descendo e se afogando na água profunda. A dor dessa união foi atroz, mas também necessária, pois era preciso lutar pelo corpo. Ele teve consciência de agar- rar com desespero a areia molhada e de dar uns passos prodigiosamente largos, co- mo os que se dão em sonhos, para não perder pé na água revolta, até que finalmen- te se desvencilhou dos braços do rio e, ofegante, deixou-se cair na terra úmida.

“Não vai ser desta vez”, Peroo lhe disse ao ouvido. “Os deuses nos protegeram.” Moveu os pés com cautela, fazendo estalar os tocos ressecados. “Nós estamos em uma ilha onde devem ter colhido anileiras no ano passado. Não há ninguém aqui, mas tome muito cuidado, Sahib; a enchente deve ter trazido consigo todas as cobras num raio de quinze quilômetros. Aí vem o relâmpago, no encalço do vento. Agora nós vamos enxergar; mas pise com cuidado.”

Findlayson estava longe, muito longe, do medo às cobras; na verdade, estava longe de qualquer emoção humana. Tendo enxugado os olhos, viu com muita nitidez e passou a avançar, pelo menos assim lhe pareceu, com passos que abarcavam o mundo. Em um lugar remoto da noite dos tempos, havia construído uma ponte — uma ponte que atravessava infinitas extensões de mares resplandecentes; mas o Dilúvio a tinha varrido, deixando sob o céu apenas aquela ilha para Findlayson e seu companheiro, os únicos sobreviventes da raça humana.

Um relampejar incessante, bifurcado e azul iluminou tudo quanto se podia ver naquele pequeno pedaço de terra cercado pela inundação — um aglomerado de espinheiros, um bambual a oscilar e estralar, um peepul cinzento e nodoso que assombreava um santuário hindu, em cuja cúpula tremulava uma esfarrapada bandeira vermelha. O asceta que nele tinha a residência de verão o abandonara muito tempo antes, e a intempérie rachara a imagem manchada de vermelho de seu deus. Com pernas pesadas e pesadas pálpebras, os dois homens tropeçaram nas cinzas de uma fogueira cercada de tijolos e se sentaram ao abrigo da ramagem, enquanto a chuva e o rio ribombavam em uníssono.

Os tocos de anileira crepitaram e um cheiro de gado se espalhou no ar quando um enorme touro brâmane se aproximou da árvore. Os relâmpagos revelaram a marca do tridente de Shiva em seu flanco, a insolência da cabeça e do cachaço, os olhos luminosos como os de um cervo, a testa coroada com uma guirlanda de úmidos malmequeres e a barbela sedosa que quase roçava o chão.

No mato atrás dele, ouviu-se o barulho de outros animais que vinham da linha da inundação, um barulho de passos pesados e resfolegantes.
”Há mais alguém aqui”, disse Findlayson, a cabeça apoiada no tronco, os olhos semi-cerrados, totalmente à vontade.
”Com certeza”, respondeu Peroo em voz baixa, “e não é qualquer um.”
”Quem é então? Eu não estou vendo ninguém.”
”São os deuses. Quem mais haveria de ser? Olhe!”
”Ah, sim! Os deuses, é claro… os deuses.”
Findlayson sorriu e deixou a cabeça cair no peito. Peroo tinha toda a razão. Depois do Dilúvio, quem mais estaria vivo na Terra, a não ser os deuses que a criaram… os deuses aos quais a aldeia orava à noite… os deuses que estavam na boca de todos os homens e dirigiam todos os seus atos? O transe o impedia de erguer a cabeça ou mover um dedo, e Peroo, com ar ausente, sorria para os relâmpagos.
O touro se deteve junto ao santuário, o focinho tocando a terra úmida. Empoleirado em um galho, um papagaio verde espenicava as asas molhadas e pairava enquanto o círculo sob a árvore ia se povoando de inquietas sombras animais. Um antílope negro postou-se ao lado do touro — um macho que talvez Findlayson tivesse visto em sonhos em sua agora tão remota vida terrena. Um antílope de régia cabeça, lombo de ébano, ventre de prata, chifres retos e brilhantes. Junto dele, com a cabeça baixa, um par de olhos verdes sob as sobrancelhas cerradas, renteando o mato com a cauda, havia uma pantera de bochechas e ventre fartos.
O touro se deitou junto ao santuário; um macaco cinzento e monstruoso saltou na escuridão e, tal como um ser humano, sentou-se perto da imagem tombada; no pêlo de sua nuca e de seus ombros, a chuva espalhava gotas que se assemelhavam a jóias.
Outras sombras se locomoveram atrás do círculo, entre elas, a de um bêbado a agitar um longo cajado e uma garrafa. Então se ouviu um bramido à altura do chão: “A enchente começou a recuar; a água vem baixando de hora em hora, e a ponte deles continua de pé!”
”A minha ponte”, disse Findlayson consigo mesmo. “Agora há de ser uma obra muito antiga. Que têm os deuses a ver com ela?”
Moveu os olhos na escuridão, acompanhando o rugido. Uma fêmea de crocodilo de focinho chato, o gavial do Ganges que habita os vaus, rastejou entre os animais, varejando furiosamente a cauda de um lado para o outro.
”Eles a erigiram robusta demais para mim. Não consegui arrancar senão algumas tábuas durante toda a noite. Os muros resistem! As torres resistem. Aprisionaram a minha enchente, e o meu rio já não é livre. Seres celestiais, livrai-me deste julgo! Dai-me água límpida entre as duas margens! Sou eu, Mãe Gunga, que vos fala. A justiça dos deuses! Eu invoco a justiça dos deuses!”
”Eu não disse?”, cochichou Peroo. “É um verdadeiro punchayet dos deuses. Agora sabemos que o mundo inteiro morreu, só sobramos o Sahib e eu.”
O papagaio tornou a chalrar e a bater asas, e a pantera, inclinando as orelhas até colá-las no crânio, bramiu com ferocidade.
Na escuridão, uma tromba enorme e umas presas reluzentes oscilaram de um lado para o outro, e um surdo barrido quebrou o silêncio que se seguira ao bramido.
”Cá estamos”, disse uma voz grave, “os seres celestiais. Um só e muitos. Shiva, meu pai, está aqui com Indra. Kali já falou. Hanuman também ouve.”
”Kashi está sem seu kotwal esta noite”, gritou o homem da garrafa, jogando o cajado no chão, enquanto o latido dos cães ressoava na ilha. “Dai-lhe a justiça dos deuses.” “Nada fizestes quando poluíram as minhas águas”, bradou o enorme crocodilo. “Não

esboçastes um gesto quando o meu rio se viu preso entre os muros. Eu já não conto nem mesmo com a minha força, ela me falhou… a força de Mãe Gunga falhou… ante as torres de vigia. Que fazer? Eu fiz o que pude. Acabai já com isso, entes celestiais!”

“Eu levei a morte, espalhei a doença das pústulas nos barracos dos operários, e, mesmo assim, eles não capitularam”, um asno de focinho rajado, pelagem desgastada, coxo, os cascos bifurcados e cobertos de chagas, avançou claudicando. “Minhas ventas exalaram a morte, mas eles não retrocederam.”

Peroo tentou se mover, mas estava paralisado pelo ópio.
”Bah!”, disse, cuspindo. “É Sitala em pessoa: Mata… a varíola. O Sahib não tem um lenço com que cobrir o rosto?”
”Não adiantou!”, disse o crocodilo. “Eles passaram um mês entregando-me ca- dáveres, e eu os joguei nas minhas dunas, mas o trabalho prosseguiu. São uns demônios, filhos de demônios! Deixaram Mãe Gunga à mercê da zombaria de suas carruagens de fogo. Que a justiça dos deuses se abata sobre os construtores de pontes!”
Sem parar de ruminar, o touro respondeu lentamente.
”Mãe, se a justiça dos deuses se abatesse sobre todos os que zombam do sagrado, seriam muitos os altares apagados na terra.”
”Mas isso é muito mais do que zombaria”, interferiu a pantera, brandindo as garras. “Tu sabes, Shiva, e vós também sabeis, deuses, que eles profanaram Gunga. A justiça dos deuses deve se abater sobre o destruidor. Que Indra julgue.”
O antílope falou sem se mover.
”Há quanto tempo perdura esse mal?”
”Há três anos, segundo a contagem dos homens”, respondeu o gavial, comprimindo- se na terra.
”Acaso Mãe Gunga há de morrer dentro de um ano para estar tão ansiosa por vingança? Ontem o mar profundo se achava no mesmo lugar em que hoje se acha, e amanhã, quando os deuses medirem aquilo que os homens denominam tempo, tornará a cobri-la. Quem garante que essa ponte seguirá de pé amanhã?”, disse o antílope.
Fez-se um longo silêncio e, com o fim da tempestade, a lua brilhou entre as árvores encharcadas.
”Julgai, então”, disse o rio com azedume. “Eu proclamei a minha vergonha. A inundação está recuando. Já não posso fazer nada.”
”Quanto a mim”, era a voz do grande macaco sentado no santuário, “gosto muito de ver essa gente trabalhando, pois ela me lembra que também construí uma ponte enorme na infância do mundo.”
”Também dizem”, rosnou a pantera, “que essa gente é o que resta das tuas legiões, Hanuman, e, por isso, tu a ajudaste…”
”Eles labutaram como labutaram os meus exércitos em Lanka e crêem que seu labor é perene. Indra está num plano demasiadamente superior, mas tu, Shiva, sabes que os carros de fogo pisoteiam as tuas terras.”
”Sim, eu sei”, disse o touro, “os deuses deles os instruíram para tanto.”
Um riso percorreu o círculo.
”Os deuses deles! Que sabem esses deuses? Nasceram ontem, e os que os criaram ainda não esfriaram na sepultura”, riu-se o crocodilo. ‘Amanhã esses deuses perecerão.”
”Ô!”, fez Peroo. “Mãe Gunga tem toda a razão. Foi o que eu disse ao padre Sahib que pregava no Mombasa, e ele mandou o Burra Malum me pôr a ferros pela insolência.”
”Com certeza eles fazem essas coisas para agradar aos seus próprios deuses”, disse o touro.
”Nem tanto”, contrapôs o elefante. “É para o bem dos meus majajuns, dos gordos prestamistas que me adoram no Ano-Novo, desenhando a minha imagem no alto das páginas de seus livros de escrituração. Eu olho por cima de seus ombros, à luz dos candeeiros, e vejo que os nomes, nos livros, são de pessoas e lugares distantes, pois todas as cidades estão unidas pelas carruagens de fogo, e o dinheiro vai e vem rapidamente, e os livros engordam como eu. E eu, que sou o Ganesh da Boa Sorte, bendigo a minha gente.”
”Eles mudaram a face da Terra… que é a minha terra. Destruíram e erigiram novas cidades em minhas ribeiras”, afirmou o gavial.
”Isso não passa de um pouco de pó deslocado. Deixa o pó cavar o pó se isso lhe agrada”, declarou o elefante.
”E depois?”, indagou a pantera. “Depois eles verão que Mãe Gunga não é capaz de vingar nenhum insulto, e primeiro se afastarão dela, depois de cada um de nós. No fim, Ganesh, não restarão senão altares vazios.”
O bêbado se levantou e, cambaleando, deixou escapar um veemente soluço.
”Kali está mentindo. Minha irmã está mentindo. Também o meu cajado é o kotwal de Kashi, que leva em consideração os meus peregrinos. Na hora de venerar Bhairon, e sempre é hora, os carros de fogo passam um por um, cada qual transportando mil peregrinos. Eles já não vêm a pé, mas sobre rodas, e a minha honra aumenta.” “Gunga, no Pryag, eu vi o teu leito enegrecido de peregrinos”, disse o macaco, inclinando-se, “e, se não fossem as carruagens de fogo, eles teriam chegado mais devagar e em menor quantidade. Não esqueças.”
”Eles sempre vêm a mim”, prosseguiu Bhairon com voz grave. “Dia e noite, a gente simples me envia as suas orações nos campos e nos caminhos. Quem se parece com Bhairon, hoje? Que história é essa de mudar de religião? Acaso é em vão que o meu cajado é o kotwal de Kashi? Ele fez os cálculos e concluiu que nunca houve tantos altares como hoje e que o carro de fogo o serve muito bem. Bhairon sou eu, Bhairon do povo humilde…”
”Acalma-te!”, mugiu o touro. ‘A adoração nas escolas é minha, e nelas fala-se e pergunta-se, com tanta sabedoria, se eu sou um só ou muitos, o meu povo aprecia essas coisas, e vós sabeis quem eu sou. Kali, esposa minha, tu também sabes.” “Sim, eu sei”, disse a pantera, baixando a cabeça.
”Maior que a própria Gunga, eu sou. Porque vós sabeis quem fez com que os homens a proclamassem, entre todos os rios, a Gunga sagrada. Quem morre nessas águas (vós sabeis o que dizem os homens) vem a nós sem castigo, e Gunga sabe que o carro de fogo lhe traz centenas de pessoas ávidas por finar assim; e Kali sabe que os peregrinos a celebram nas festas mais importantes nos carros de fogo. Quem era Poree obteve, sob a imagem de lá, milhares de vítimas em um só dia e uma só noite e, atando a enfermidade às rodas das carruagens de fogo, a fez correr de um extremo a outro da Terra? Quem, senão Kali? Antes dos carros de fogo, o trabalho era árduo. Os carros de fogo te são muito úteis, Mãe do Extermínio. Mas falo por meus próprios altares, eu, que não sou o Bhairon do povo humilde, e sim Shiva. Os homens vão e vêm, fabricando palavras e contando histórias de deuses estranhos, e eu os escuto. As crenças se sucedem na minha gente e nas escolas, e eu não me zango; porque, uma vez ditas as palavras, a nova fábula se acaba, e, enfim, a Shiva retornam os homens.”
”Verdade. Isso é verdade”, murmurou Hanuman. “Retornam a Shiva e aos outros, Mãe. Eu tenho andado secretamente pelos templos do Norte, onde adoram a um deus e ao seu profeta; e em breve não restará senão a minha imagem nos santuários.”
”Bem sei!”, disse o antílope, virando lentamente a cabeça. “Sou eu esse deus, e também o seu profeta.”

“Assim é, pai”, concordou Hanuman. “E quando vou para o Sul, eu que, segundo o reconhecimento dos homens, sou o mais antigo dos deuses, basta-me tocar os santuários da nova fé para que eles se ponham a esculpir, com doze braços, a mulher que todos conhecemos e que eles chamam Maria.”

“Bem sei, irmão”, disse a pantera. “Eu sou essa mulher.”
”Assim é, irmã; e eu vou para o Oeste nos carros de fogo, e me apresento de diversas formas aos construtores de pontes, e, por minha causa, eles mudam de fé e se tornam sábios. Ho! ho! Sou eu o verdadeiro construtor de pontes, de pontes que ligam isto àquilo, e, no fim, cada uma delas os conduz seguramente até nós. Alegra- te, Gunga. Nem esses homens nem os que virão depois deles zombam de ti.”
”Então eu estou sozinha, seres celestiais? Devo abrandar o meu caudal para não lhes derrubar os muros? Acaso Indra há de secar as minhas fontes nas colinas, fazendo com que eu me arraste humildemente? Devo sepultar-me na areia para não os ofender?”
”E tudo por causa de uma pequena barra de ferro com uma carruagem de fogo em cima! A verdade é que Mãe Gunga continua sendo jovem!”, disse Ganesh, o elefante. “Uma criança não seria capaz de tanta tolice. Que o pó cave o pó antes de tornar ao pó. Só sei que a minha gente enriquece e me venera. Shiva disse que os homens das escolas não o esquecem; Bhairon está satisfeito com o seu povo humilde; e Hanuman ri.”
”Claro que eu rio”, disse o macaco. “Os meus altares são poucos em comparação com os de Ganesh ou os de Bhairon, mas os carros de fogo me trazem novos devotos de além da água escura, os homens que crêem que seu deus é o trabalho. Eu corro à frente deles, gesticulando, e eles seguem Hanuman.”
”Dá-lhes, pois, o trabalho que tanto desejam”, disse o rio. “Que eles atravessem uma barra de ferro sobre o meu caudal e lancem a água por sobre a ponte. Outrora eras forte em Lanka, Hanuman. Agacha-te e ergue o meu leito.”
”Quem a vida dá, a vida pode ceifar.” O macaco arranhou a lama com o comprido indicador. “No entanto, quem há de se beneficiar com tal matança? Muitos perecerão.”
Chegou da margem do rio o fragmento de uma canção de amor, tal como a cantam os mancebos quando estão pastoreando o gado ao calor do meio-dia no fim da primavera. O papagaio gritou alegremente, andando no galho e inclinando a cabeça, enquanto a música ganhava volume, e eis que, em um trecho iluminado pelo luar, surgiu o jovem pastor, o favorito dos gopis, o ídolo dos sonhos das virgens e das mães que aguardam o nascimento dos filhos: Krishna, o bem-amado. Ele se curvou para prender a longa cabeleira molhada, e o louro bateu asas e foi pousar em seu ombro.
”Bailando e cantando, cantando e bailando”, soluçou Bhairon. “Por isso chegas tarde ao conselho, irmão.”
”E daí?”, riu-se Krishna, inclinando a cabeça para trás. “Pouco podeis fazer sem mim ou sem o Karma aqui.” Acariciou a plumagem do louro e tornou a rir. “Que fazeis aí, todos a falar ao mesmo tempo? Eu ouvi Mãe Gunga rugir na escuridão. Por isso deixei o casebre em que me achava tão bem e vim correndo. Que fizestes para que Karma esteja tão molhado e tão calado? E que faz Mãe Gunga aqui? Estarão os céus de tal modo carregados que tendes de chapinhar na lama feito bichos? Que fazem eles, Karma?”
”Gunga clama por vingança contra os construtores de pontes, e Kali está com ela. Agora rogam a Hanuman que afunde a ponte em nome de sua honra”, gritou o louro. “Eu fiquei aguardando porque sabia que virias, oh, meu senhor!”

“E os seres celestiais nada dizem? Gunga e a Mãe dos Suplícios vos persuadiram? Ninguém tomou a defesa da minha gente?”
”Não”, respondeu Ganesh, movendo as patas com desconforto. “Eu disse que era apenas o pó a brincar. Para que esmagá-lo?”

“Pois eu gostava de vê-los trabalhar… gostava muito”, disse Hanuman.
”Que tenho eu a ver com a ira de Gunga?”, protestou o touro.
”Eu sou Bhairon do povo humilde, e este meu bastão é o kotwal de todo o Kashi. Falo em nome do povo humilde.”
”Tu?”
Os olhos do jovem deus brilharam.
”Não sou eu o deus primeiro em suas bocas hoje em dia?”, retrucou Bhairon sem se alterar. “Pelo bem do povo humilde, eu disse… muitas coisas sábias de que não me lembro… mas este meu bastão…”
Krishna se voltou com impaciência e, vendo o crocodilo aos seus pés, ajoelhou-se e lhe cingiu o frio pescoço com o braço.
”Mãe”, disse com doçura, “volta para o teu leito. Este assunto não te diz respeito. Que mal o barro vivente há de fazer à tua honra? Tu fazes os seus campos renascerem ano após ano; graças ao teu caudal, eles se tornam fortes. No fim, todos retornam a ti. Que necessidade tens de matá-los agora? Tem piedade, Mãe, é por pouco tempo.”
”Bom, se for por pouco tempo…”, começou a dizer o lerdo animal.
”Acaso eles são deuses?”, prosseguiu Krishna, rindo e fitando os olhos opacos do rio. “Estás certa de que é por pouco tempo. Os seres celestiais já te ouviram e logo te farão justiça. Regressa ao teu leito, Mãe. Tuas águas estão repletas de homens e de gado, tuas margens se espraiaram, e as aldeias se dissolvem por tua causa.” “Mas a ponte… a ponte continua em pé.”
Quando Krishna se levantou, o crocodilo lhe deu as costas e, grunhindo, internou-se no mato.
”Acabou-se”, disse a pantera com maldade. “Já não há a justiça dos seres celestiais. Envergonhastes e zombastes de Gunga, que não pediu senão um punhado de vidas.”
”Da minha gente, que lá na aldeia jaz sob os telhados de sapé… das meninas e dos meninos que cantam na escuridão… do bebê que amanhã há de nascer… daquele que hoje foi concebido”, disse Krishna. “E, quando tudo findar, que proveito tereis? Amanhã voltarão ao trabalho. Se derrubardes a ponte de ponta a ponta, eles tornarão a erguê-la. Ouvi! Bhairon está bêbado como sempre. Hanuman escarnece dos fiéis, inventando novas charadas.”
”Não, são as mesmas de sempre”, riu-se o macaco.
”Shiva dá ouvidos às conversas das escolas e aos sonhos dos homens santos; Ganesh não pensa senão em seus pançudos comerciantes; mas eu… eu vivo com essa gente sem pedir oferendas e, entretanto, sou honrado com elas.”
”E és muito meigo com essa gente”, observou a pantera.
”Ela me pertence. As velhas sonham comigo e se reviram no leito; as donzelas me fitam e me escutam quando vão encher os cântaros nos rios. Eu acompanho os jovens que esperam o entardecer do lado de fora e me volto e chamo os de barbacã. Sabeis, seres celestiais, que eu sou o único de nós que caminha permanentemente na Terra, e não hei de encontrar prazer no nosso céu enquanto aqui brotarem folhas verdes, ou enquanto duas vozes sussurrarem nas plantações ao anoitecer. Sábios sois, mas já vivestes muito e vos esquecestes do começo. Eu não me esqueci. Dizeis que os carros de fogo abastecem os vossos santuários? Que os carros de fogo trazem milhares de peregrinos, ao passo que antigamente não chegavam senão dez? É certo. Assim é.”

“Mas amanhã eles estarão mortos, irmão”, replicou Ganesh.
”Paz!”, disse o touro ao ver Hanuman inclinar-se novamente. “E amanhã, bem- amado, como será amanhã?”
”Apenas isso. Um novo rumor corre de boca em boca no povo humilde… um boato que nem o homem nem Deus podem captar… um boato perverso, um pequenino rumor que percorre indolentemente o povo e diz… e ninguém sabe de onde partiu… que eles estão fartos de vós, seres celestiais.”
Os deuses riram em coro.
”E daí, bem-amado?”
”E, para dissimular esse cansaço, eles, a minha gente, vos trarão, a ti, Shiva, e a ti, Ganesh, inicialmente prendas cada vez maiores e uma adoração cada vez mais ruidosa. Todavia, e já se espalha o boato, não tardarão a dar contribuições menores aos vossos gordos sacerdotes. E logo esquecerão os vossos altares, mas tão vagarosamente que nenhum homem será capaz de dizer como começou esse olvido.”
”Eu sabia… sabia! Também eu disse isso, mas não me destes ouvidos”, rugiu a pantera. “Devíamos tê-los matado… devíamos tê-los trucidado!”
”Agora é tarde. Devíeis tê-los exterminado no princípio, quando os homens do outro lado da água ainda não haviam ensinado nada ao nosso povo. Agora a minha gente vê o seu trabalho e se afasta pensando. Já não pensa nos seres celestiais. Pensa na carruagem de fogo e nas outras coisas que fazem os construtores de pontes, e quando os vossos sacerdotes estendem a mão, pedindo esmola, pouco lhes dá, e de má vontade. É o começo, não passam de dois, três, cinco ou dez homens… porque eu, que ando com a minha gente, sei o que se passa em seu coração.”
”E o fim, escarnecedor dos deuses? Qual há de ser o fim?”, perguntou Ganesh.
”O fim será como foi o princípio, oh, indolente filho de Shiva! Morrerão nos altares a chama e nas línguas a oração até que volteis a ser deuses menores, deuses silvestres, nomes que os caçadores de ratos e cães sussurram nas moitas e entre as tocas, fetiches, ídolos de tronco de árvore e de místicos de aldeia, como éreis no princípio. Esse é o fim, Ganesh, para ti e para Bhairon, o Bhairon do povo humilde.” “Tal coisa ainda há de tardar”, grunhiu Bhairon. “À parte isso, é mentira.”
”Muitas mulheres beijaram Krishna. E lhe contaram semelhantes histórias para consolar os próprios corações quando seus cabelos branqueassem, e ele a repete”, murmurou o touro.
”Os deuses deles chegaram, e nós os alteramos! Eu tomei a mulher e lhe dei doze braços. Assim desfiguraremos todos os seus deuses”, disse Hanuman.
”Seus deuses! Não se trata de deuses deles, um ou três, homem ou mulher. Trata- se das pessoas. São elas que mudam, não os deuses dos construtores de pontes”, argumentou Krishna.
”Seja. Eu fiz um homem adorar o carro de fogo quando ele ainda respirava a fumaça e não sabia que cultuava a mim”, insistiu Hanuman, o macaco. “Eles não farão senão alterar ligeiramente o nome de seus deuses. Eu comandarei os construtores de pontes como outrora: Shiva será adorado nas escolas pelos que duvidam e desprezam os semelhantes; Ganesh terá seus mahajuns; e Bhairon, os arreeiros, os peregrinos e os vendedores de brinquedos. Bem-amado, eles não farão mais do que alterar os nomes, e isso nós já vimos acontecer mil vezes.”
”É certo que não farão mais do que alterar os nomes”, repetiu Ganesh; mas havia um mal-estar entre os deuses.

“Não se limitarão a mudar os nomes. Só a mim eles não podem matar enquanto a donzela e o homem se unirem e a primavera suceder à chuva do inverno. Celestiais, não foi em vão que andei pela Terra. A minha gente ainda não sabe que sabe; mas eu, que vivo com ela, leio-lhes o coração. Grandes reis, já está em marcha o começo do fim. As carruagens de fogo gritam o nome de novos deuses, que não são os velhos com nomes novos. Bebei agora e comei com fartura! Mergulhai o rosto no incenso dos altares antes que se eles esfriem! Colhei os donativos e ouvi os címbalos e os tambores, seres celestiais, enquanto ainda há flores e canções! Pelo modo de os homens contarem o tempo, o fim está distante; mas tal como o contamos nós, que tudo sabemos, é hoje. Falei e disse.”

O jovem deus se calou, e seus iguais ficaram muito tempo entreolhando-se em silêncio.
”Nunca ouvi nada parecido”, cochichou Peroo ao ouvido do companheiro. “E, no entanto, quando estava lubrificando as engrenagens da casa de máquinas do Goorkha, cheguei a me perguntar se os nossos sacerdotes eram tão sábios assim… tão sábios. O dia está raiando, Sahib. Eles partirão com o amanhecer.”

Uma luz amarelada se espalhou no céu, e a cor do rio foi se alterando à medida que a escuridão se afastava.
De repente, o elefante barriu alto, como se o tivessem espicaçado.
”Que Indra julgue. Pai de todos, fala! Que opinião tens sobre tudo quanto ouvimos aqui? Krishna mentiu, deveras? Ou…”

“Vós o conheceis”, disse o antílope, levantando-se, “conheceis o enigma dos deuses. Os céus e o inferno e a Terra desaparecerão quando Brahma deixar de sonhar. Tranqüilizai-vos, pois Brahma segue sonhando. Os sonhos vão e vêm, e a natureza dos sonhos muda, mas são sempre os sonhos de Brahma. Há muito que Krishna anda pela Terra, e hoje eu o amo ainda mais pela história que nos contou. Os deuses mudam, bem-amado. Todos mudam, menos um!”

“Sim, todos, menos aquele que põe o amor no coração dos homens”, disse Krishna, apertando o cinto. “Em breve sabereis se estou mentindo.”
”A verdade, como dizes, é que em breve saberemos. Torna aos teus casebres, bem- amado, e diverte-te com as coisas jovens, porque Brahma continua sonhando. Ide, filhos meus! Brahma sonha… e, enquanto ele não despertar, os deuses não morrerão.”

“Aonde eles foram?”, perguntou o assustado indiano, tremendo um pouco de frio. “Só Deus sabe!”, respondeu Findlayson.
Agora a luz do dia banhava o rio e a ilha, e, sob o peepul, não havia marcas de patas nem de garras na terra úmida. Só o louro pairava entre os ramos, provocando uma chuva de gotas com o revolutear das asas.

“Levante! Nós estamos ficando duros de frio! O efeito do ópio passou? Já consegue andar, Sahib?”
Findlayson se ergueu com dificuldade e sacudiu o corpo. Estava tonto e com dor de cabeça, mas o efeito do ópio havia passado e, enquanto molhava a testa numa poça, o engenheiro-chefe da ponte Kashi se perguntou como tinha ido parar naquela ilha, que fazer para voltar e, sobretudo, como estaria a sua obra.

“Peroo, eu não me lembro de nada. Estava debaixo da torre de vigia, olhando o rio, e de repente a enchente nos arrastou?”
”Não. Os barcos se soltaram, Sahib (se o Sahib se esquecera do ópio, não era Peroo que ia lembrá-lo); eu tive a impressão, se bem que estava escuro, de que uma corda bateu no Sahib, jogando-o dentro de um barco. Considerando que nós dois e Hitchcock Sahib construímos a ponte, eu também subi no barco que veio, por assim dizer, galopando e deu de fuça com esta ilha e, espatifando-se, lançou-nos em terra. Eu gritei muito quando o barco se soltou, e Hitchcock decerto virá nos socorrer. E, quanto à ponte, foram tantos os que morreram durante a construção que ela não pode ruir.”
À tormenta, seguiu-se um sol forte, que espalhou no ar um cheiro de terra úmida, e, nessa luz tão clara, homem nenhum seria capaz de pensar nos sonhos das trevas. Findlayson ficou olhando para o rio, para o resplendor da água em movimento, até que lhe ardessem os olhos. Não se via um só vestígio de margem no Ganges, muito menos a silhueta de uma ponte.
”Nós fomos arrastados para muito longe. Não sei como não nos afogamos uma centena de vezes.”
”Isso é o que menos me espanta, pois ninguém morre antes da hora. Eu já estive em Sydney, em Londres, e em vinte outros grandes portos, mas”, Peroo fitou o santuário molhado e desbotado à sombra do peepul, “não há quem tenha visto o que presenciamos aqui.
”O quê?”
”O Sahib esqueceu? Ou só nós, os negros, enxergamos os deuses?”
”Eu estava com febre”, Findlayson, inquieto, continuava olhando para o rio. “Tive a impressão de que a ilha estava infestada de bichos e de homens conversando, mas não me lembro bem. Acho que agora um barco se agüentaria nestas águas.”
”Oh! Então é verdade. ‘Quando Brahma deixa de sonhar, os deuses morrem.’ Agora entendo o que ele queria dizer. Certa vez um guru me disse isso, mas eu não compreendi na ocasião. Agora sou um sábio.”
”Quê?”, perguntou Findlayson por cima do ombro.
Peroo continuava resmungando consigo.
”Faz seis… sete monções, eu estava de vigia no castelo de proa do Rewah, o maior barco da Kumpani, e houve um grande tufan. A água verde e negra nos assolava e, mesmo eu estando agarrado às cordas salva-vidas, as ondas já estavam me afogando. Então pensei nos deuses, nos que vimos esta noite.” Olhou com curiosidade para Findlayson, mas o branco continuava com os olhos fitos na cor- renteza. “Sim, estou falando naqueles que nós vimos esta noite; e roguei-lhes que me protegessem. E, enquanto eu orava, sem abandonar o posto de vigia, veio uma onda enorme que me atirou de encontro à argola de sustentação da grande e negra âncora da proa, e o Rewah foi subindo, subindo, adernando à esquerda, e eu, de ponta-cabeça, segurei a argola e olhei para as profundezas. Então, cara a cara com a morte, pensei: ‘Se eu cair, estou morto, para mim não haverá mais Rewah nem lugar na galé, onde cozinham o arroz, nem Bombaim, nem Calcutá, nem mesmo Londres. Como posso ter certeza’, eu disse, ‘de que existem os deuses aos quais oro?’. Bastou pensar nisso, e o Rewah despencou feito um martelo do alto da montanha, e o mar inteiro entrou, arrastando-me pelo castelo de proa, e eu colidi com o motor auxiliar, que me abriu uma ferida feia nas costas, mas não morri e vi os deuses. Eles são bons para os homens vivos, mas para os mortos… Eles mesmos o disseram. Portanto, quando eu chegar à aldeia, darei uma sova no guru, que anda por aí a falar de enigmas, quando não existem enigmas. Quando Brahma cessa de sonhar, os deuses vão embora.”

“Olhe o rio. Esta luz me cega. Há fumaça lá adiante?”
Peroo cobriu a vista com a mão.
”É um homem sábio e diligente. Hitchcock Sahib não se arriscaria em um barco a remo. Pediu emprestada a lancha a vapor do Rao Sahib e vem nos resgatar. Eu vivo dizendo que precisamos de uma lancha a vapor para as obras da ponte.”
O território do Rao de Baraon ficava a dezoito quilômetros da ponte. Findlayson e Hitchcock haviam passado boa parte de seu tempo livre jogando bilhar e caçando antílopes pretos com o jovem. Durante cinco ou seis anos, ele fora educado por um tutor inglês com pendores desportivos e agora esbanjava, regiamente, a renda acumulada pelo governo da Índia durante a sua menoridade. Sua lancha a vapor, com balaustradas folheadas a prata, toldos de seda listrada e conveses de mogno, era um brinquedo novo que Findlayson considerava um estorvo sempre que o Rao vinha vistoriar a construção da ponte.
”Que sorte!”, murmurou Findlayson, que, ainda temeroso, não cessava de pensar na ponte.
A suntuosa chaminé azul e branca veio descendo velozmente a correnteza. Os dois avistaram Hitchcock na proa, com um binóculo e o rosto muito pálido. Então Peroo gritou, e a lancha manobrou rumo à parte mais baixa da ilha. O Rao Sahib, com uma roupa de caçador de tweed e um turbante de sete cores, saudou-os com a mão real, e Hitchcock gritou. Mas não teve tempo de fazer perguntas, pois Findlayson já o estava inquirindo sobre a ponte.
”Tudo em paz! Puxa, eu já tinha perdido a esperança de voltar a vê-lo, Findlayson, você está a sete koss rio abaixo. Não, nenhuma pedra saiu do lugar, mas, e você, como está? Eu pedi a lancha emprestada ao Rao Sahib, que teve a gentileza de me acompanhar. Venha, suba a bordo.”
”Ah, Finlinson, você está muito bem, hein? Foi uma calamidade sem precedentes a de ontem à noite, não acha? O meu palácio real também virou uma peneira, haverá pouco que colher nos campos da região. Encarregue-se da manobra, Hitchcock. Eu… eu não entendo de vapores. Você está molhado? Está com frio, Finlinson? Eu trouxe um pouco de comida, e você pode tomar um bom trago.”
”Fico imensamente agradecido, Rao Sahib. Acho que você me salvou a vida. Como foi que Hitchcock…”
”Ora! Ele ficou de cabelo em pé. Chegou a cavalo, no meio da noite, e me arrancou dos braços de Morfeu. A verdade é que eu também estava muito preocupado, Finlinson, por isso vim. O meu grande sacerdote deve estar furioso. Depressa, Mister Hitchcock. Eu tenho de estar no grande templo do Estado aos quinze para a uma, onde me esperam para consagrar um novo ídolo. Não fosse isso, eu os convidaria a passar o dia comigo. Como são chatas essas cerimônias religiosas, não, Finlinson?”
Peroo, a quem a tripulação conhecia muito bem, tinha se apossado do timão e conduzia habilmente a lancha rio acima. Mas, enquanto pilotava, ia desferindo açoites, mentalmente, com o meio metro de cabo de aço de pontas desfiadas. E o lombo fustigado era o do seu guru.