O Sapateiro e a Força Maligna – A.P. Tchekhov

O Sapateiro e a Força Maligna – A.P. Tchekhov

O Sapateiro e a Força Maligna – Era véspera de natal. Fazia tempo que Mária roncava sobre o fogão. Todo o querosene queimara-se na lâmpada, mas Fiódor Nilov continuava sentado, trabalhando. Teria deixado há muito o trabalho e saído para a rua, mas o freguês do Beco dos Sinos, que lhe encomendara, duas semanas atrás, uns canos de bota, viera na véspera, discutira e mandara concluir a encomenda, sem falta, ainda antes da Missa do Galo.

— Vida de forçado! — rosnou Fiódor, enquanto trabalhava. — Uns estão dormindo faz muito tempo, outros estão passeando, e você tem que ficar sentado aí, como Caim, cosendo couro, diabo sabe para quem…

Para não adormecer sem querer, tirava a cada momento uma garrafa, que estava sob a mesa, e bebia pelo gargalo; depois de cada gole, balançava a cabeça e dizia alto:

— Por que, digam-me por favor, os fregueses passeiam e eu devo ficar cosendo para eles? Por que eles têm dinheiro e eu sou um mendigo?

Odiava todos os fregueses, especialmente aquele que residia no Beco dos Sinos. Era um senhor de ar sombrio, cabelos compridos, rosto amarelo, de grandes óculos azuis e voz rouquenha. Tinha um sobrenome alemão, difícil de pronunciar. Impossível perceber qual a sua condição social e de que se ocupava. Quando, duas semanas atrás. Fiódor fora a sua casa, para tirar as medidas, encontrara-o sentado no chão, pulverizando algo num gral. Fiódor não tivera tempo de dizer boa-tarde e o conteúdo do gral de repente se incendiou com uma chama vermelha, fulgurante, passando a sentir-se um fedor de enxofre e penas queimadas, enquanto o quarto se enchia de uma fumaça densa e rósea, que fez Fiódor espirrar umas cinco vezes. Voltando para casa, pensou: “Uma pessoa que teme a Deus não se ocupa de coisas assim.”

Esvaziada a garrafa. Fiódor colocou as botas sobre a mesa e ficou pensativo. Apoiou a cabeça pesada com o punho e pôs-se a pensar em sua pobreza, em sua vida difícil, miserável, e depois nos ricos, em suas grandes casas, carruagens e notas de cem rublos… Como seria bom, diabo que os carregue, se a essa gente rica se rachassem as casas, morressem os cavalos, desbotassem as peliças e os chapéus de zibelina! Como seria bom, se os ricaços se convertessem, pouco a pouco, em mendigos, não tivessem o que comer, e o pobre sapateiro se tornasse um ricaço, passando ele próprio a mostrar sua valentia contra um pobre sapateiro, numa véspera de Natal.

Devaneando assim. Fiódor lembrou-se, de repente, de seu trabalho e abriu os olhos.

“Que coisa!”, pensou, examinando as botas. “Faz muito tempo que terminei os canos de bota e continuo sentado aqui. Tenho que levar a encomenda ao freguês!”

Embrulhou seu trabalho num lenço vermelho, vestiu-se e saiu de casa. Caía neve miúda, áspera, que espetava o rosto como alfinetes. Fazia frio, a noite estava escura, o chão, escorregadio, os lampiões a gás ardiam palidamente e, sem se saber por quê, a rua cheirava a querosene, de modo que Fiódor pôs-se a pigarrear e tossir. Gente rica passava de carruagem e cada ricaço tinha nas mãos um pernil de porco e uma garrafinha de vodca. Mocinhas ricas espiavam para Fiódor das carruagens e dos trenós, mostravam-lhe a língua e gritavam, rindo:

— Mendigo! Mendigo! Atrás de Fiódor, iam oficiais, estudantes, negociantes e generais, que zombavam dele:

— Beberrão! Beberrão! Sapateiro pagão! Alma perdida! Mendigo!

Tudo aquilo era ofensivo, mas Fiódor permanecia calado, apenas cuspia. Quando encontrou, porém, o mestre de sapataria Kuzmá Lebiédkin, de Varsóvia, que lhe disse: “Eu me casei com mulher rica, tenho agora aprendizes trabalhando para mim, e você é um mendigo que não tem o que comer”. Fiódor não se conteve e correu atrás dele. Perseguiu-o até alcançar o Beco dos Sinos. Seu freguês morava na quarta casa a partir da esquina, no último andar. Para ir até seu apartamento, era preciso atravessar um pátio comprido e escuro, depois subir uma escada escorregadia e muito alta, que balançava sob os pés. Quando Fiódor entrou ali, o freguês estava, tal como duas semanas atrás, sentado no chão, pulverizando algo no gral.

—Vossa Alta Nobreza, eu trouxe as botinhas! — disse Fiódor, carrancudo.

O freguês levantou-se e pôs-se a experimentar, em silêncio, as botas. Querendo ajudá-lo. Fiódor abaixou-se sobre um dos joelhos e tirou-lhe a bota usada, mas, no mesmo instante, levantou-se de um salto e recuou, horrorizado, para a porta. Em vez de perna, o freguês tinha uma pata de cavalo.

“Aí!”, pensou Fiódor. “Nisso ë que está a coisa!”

Em primeiro lugar, deveria fazer o sinal-da-cruz, depois deixar tudo e correr para baixo. No mesmo instante, porém, refletiu que era a primeira vez, e provavelmente a última, que encontrava a força maligna e que seria estúpido deixar de aproveitar seus serviços. Dominou-se, por conseguinte, e resolveu tentar a sorte. Colocando as mãos atrás, para não se persignar, tossiu respeitosamente e começou:

— Dizem que não há coisa pior, nem mais repugnante no mundo que a força maligna, mas eu penso. Vossa Alta Nobreza, que a força maligna é a mais instruída. O diabo, perdoe-me, tem pata de cavalo e rabo, mas, em compensação, é mais inteligente que muito estudante.

— Você me agrada por essas palavras — disse o freguês, lisonjeado. — Obrigado, sapateiro! Mas, que quer você?

Sem perda de tempo, o sapateiro queixou-se de seu destino. Começou dizendo que, desde a infância, invejara os ricos. Sempre lhe doera o fato de que nem todos os homens vivessem em grandes casas e passeassem sobre bons cavalos. Por que, perguntava, era ele pobre? Em que era pior que Kuzmá Lebiëdkin, de Varsóvia, que possuía casa própria e cuja mulher usava chapeuzinho? Ele.

Fiódor, tinha o mesmo nariz, as mesmas mãos, pernas, cabeça, costas, que os ricos; por que, então, era obrigado a trabalhar, enquanto os demais passeavam? Por que era casado com Mária e não com uma senhora que cheirasse a perfume? Em casa dos fregueses ricos, acontecia-lhe muitas vezes ver moças bonitas, que não reparavam nele sequer, e apenas às vezes riam, murmurando entre si: “Que nariz vermelho tem esse sapateiro!” Verdade que Mária era uma mulher boa, bondosa, trabalhadeira, mas, realmente, tinha pouca instrução e mão pesada, com a qual sabia machucar de verdade; quando se falava, em presença dela, de política ou de outros assuntos de inteligência, intrometia-se e dizia bobagens tremendas.

— Que é que você quer, então? — interrompeu-o o freguês.

— Peço-lhe. Vossa Alta Nobreza. Diabo Ivânitch, que me faça a bondade de me tornar um homem rico!

— Pois não. Mas, para isso, você tem que me entregar a alma! Enquanto os galos ainda não cantaram, vem cá e assina, nesse papel, que você me entrega a alma.

— Vossa Alta Nobreza! — disse Fiódor com delicadeza. — Quando o senhor me encomendou os canos de bota, eu não lhe pedi pagamento adiantado. É preciso, antes, executar a encomenda e só depois exigir dinheiro.

— Ora, está bem! — concordou o freguês.

Uma chama refulgente surgiu de repente no gral, espalhou-se uma fumaça densa e rósea e sentiu-se no quarto um fedor de penas queimadas e enxofre. Depois que a fumaça dissipou-se. Fiódor esfregou os olhos e viu que já não era Fiódor, nem sapateiro, mas uma outra pessoa, de colete e correntinha, de calças novas, e que estava sentado numa poltrona, junto a uma grande mesa. Dois lacaios serviam-lhe comida, com profundas reverências, dizendo:

— Tenha a bondade de comer. Vossa Alta Nobreza!

Que opulência! Os lacaios serviram um grande pedaço de carneiro assado e um prato fundo com pepinos; em seguida, trouxeram ganso assado; um pouco depois, carne cozida de porco e raiz-forte. E como tudo aquilo era nobre, cheio de etiqueta! Fiódor comia e, antes de cada prato, bebia um copázio de excelente vodca, como se fosse um general ou conde. Depois da carne de porco, serviram-lhe cacha1 com gordura de ganso, em seguida, uma omelete com toucinho e fígado frito. Não parava de comer, entusiasmado. Bem, que mais? Serviram ainda pastelão com cebola, nabo cozido a vapor e kvás2. “Como é que os senhores não estouram com uma comida dessas?”, pensou. Por fim, serviram-lhe um grande pote de mel. Depois do jantar, apareceu o diabo de óculos azuis e perguntou-lhe, com profunda reverência:

— Está satisfeito com o jantar. Fiódor Pantieléitch?

Mas Fiódor não conseguia dizer palavra, tão agoniado sentia-se depois do jantar. Aquela fartura era desagradável, pesada, e, para se distrair, começou a examinar a bota de sua perna esquerda.

— Por botas assim, eu não cobrava menos de sete rublos e meio. Quem foi que as fez? — perguntou.

— Kuzmá Lebiédkin — respondeu o lacaio.

— Chame aquele imbecil!

Pouco depois, chegava Kuzmá Lebiédkin, de Varsóvia. Parou à porta, em atitude respeitosa, e perguntou:

— O que manda. Vossa Alta Nobreza?

— Cale-se! — gritou Fiódor e bateu o pé. — Não se atreva a falar e lembre-se de sua condição de sapateiro, não se esqueça que tipo de pessoa você é! Idiota! Não sabe fazer botas! Vou te dar em cheio, na cara! O que vem fazer aqui?

— Vim buscar dinheiro.
— Que dinheiro? Fora daqui! Volte no sábado! Homem, dá-lhe um pescoção!

Mas, no mesmo instante, lembrou-se de como ele próprio fora tratado sem consideração pelos fregueses, sentiu o coração opresso e, para se distrair, tirou do bolso a gorda carteira e pôs-se a contar o dinheiro. Havia muito, mas Fiódor queria mais ainda. O diabo de óculos azuis trouxe-lhe outra carteira, mais gorda até, mas ele queria sempre mais, e quanto mais contava, menos satisfeito se sentia.

Ao anoitecer, o maligno trouxe a sua presença uma patroa alta, peituda, de vestido vermelho, e disse-lhe que era sua nova esposa. Até tarde da noite, ficou beijando-a e comendo pão-de-ló. Depois, deitado sobre colchão macio de penas, virava-se de um lado para outro, não conseguindo adormecer. Vinha-lhe uma sensação de medo.

— Tenho muito dinheiro — dizia à mulher. — Olha que os ladrões são capazes de entrar aqui em casa. Seria bom você ir espiar por aí, com uma vela!

Não dormiu a noite toda, levantando-se a cada momento, para verificar se o baú estava intacto. De manhãzinha, era preciso ir à missa. Na igreja, honra- se do mesmo modo o rico e o pobre. Quando Fiódor era pobre, rezava na igreja assim: “Perdoa. Senhor, a este pecador!” O mesmo dizia agora, depois de enriquecer. Qual era a diferença então? E, depois da morte, o rico Fiódor não seria enterrado em ouro, nem em diamantes, mas na mesma terra negra em que se enterrava o último dos mendigos. Iria arder no mesmo fogo que os sapateiros. Sentia-se despeitado por tudo aquilo e, ao mesmo tempo, tinha um peso em todo o corpo, em conseqüência do jantar; em lugar da oração, esgueiravam-se, para dentro de sua cabeça, pensamentos sobre o baú de dinheiro, os ladrões, e sobre a alma que vendera, irremediavelmente perdida.

Saiu da igreja zangado. Para expulsar os pensamentos maus, entoou, como fazia antes, uma canção a plenos pulmões. Mas, apenas começara, acercou-se dele um policial e disse-lhe com uma continência:

— Senhor, os cavalheiros não podem cantar na rua! O senhor não e um sapateiro!

Fiódor encostou os ombros a um muro e pôs-se a pensar no que faria para se distrair.

— Senhor! — gritou-lhe o zelador de uma casa. — Não se apóie muito no muro, vai sujar a peliça!

Fiódor entrou numa venda e comprou a melhor gaita-de-boca, depois foi andando pela rua, tocando. Todos os transeuntes apontavam-no com o dedo, rindo.

— E é um senhor! — zombavam dele os cocheiros. — Parece um sapateiro…

— Pensa que os cavalheiros podem fazer baderna? — disse-lhe o policial. — Só falta ir a um botequim!

— Senhor, uma esmolinha pelo amor de Deus! — imploravam os mendigos, cercando Fiódor por todos os lados. — Uma esmolinha!

Antes, quando era sapateiro, os mendigos não lhe davam atenção, mas agora não o deixavam passar.

Em casa, foi recebido pela nova mulher, vestida de casaquinho verde e saia vermelha. Quis acariciá-la e já levantara o braço para um safanão nas costas, quando ela disse, zangada:

— Mujique! Ignorante! Não sabe lidar com senhoras! Se gosta de mim, beije-me a mão, mas não vou permitir que me bata.

“Vida de excomungados!”, pensou Fiódor. “Como vive essa gente! Não se pode cantar, nem tocar gaita; nem brincar com uma mulher… Irra!”

Apenas se sentara com a patroa para tomar chá, apareceu o maligno de óculos azuis e disse:

— Bem. Fiódor Pantieléitch, eu cumpri fielmente a minha parte. Agora, o senhor vai assinar um papelzinho e fazer o favor de me acompanhar. Já teve ocasião de saber o que significa a vida de rico, chega!

E arrastou Fiódor para o inferno, diretamente para a fogueira, e os diabos acorreram de todas as partes, gritando:

— Bobalhão! Imbecil! Burro!

No inferno, havia um fedor horrível de querosene, podia-se sufocar.

Mas, de repente, tudo desapareceu. Fiódor abriu os olhos e viu sua mesa, as botas, a lamparina de latão. O vidro da lamparina estava preto e a pequena chama, que havia sobre o pavio, emitia, como uma chaminé, fumaça fedorenta. Ao lado, estava o freguês de óculos azuis, gritando zangado:

— Bobalhão! Imbecil! Burro! Vou te ensinar uma coisa, trapaceiro! Tomou a encomenda duas semanas atrás e as botas ainda não estão prontas! Pensa que tenho tempo de vir a tua casa cinco vezes por dia, para buscar as botas? Canalha! Animal!

Fiódor sacudiu a cabeça e pôs-se a trabalhar nas botas. O freguês ficou ainda muito tempo dizendo impropérios, ameaçando-o. Depois que ele, finalmente, se acalmou. Fiódor perguntou-lhe, carrancudo:

— Com o que se ocupa, patrão?

— Fabrico rojões e fogos de bengala. Sou pirotécnico.

Tocaram as matinas. Fiódor entregou as botas, recebeu o dinheiro e foi à igreja.

Rua acima e abaixo, passavam carruagens e trenós com mantas de pele de urso. Pela calçada, ao lado da gente do povo, caminhavam comerciantes, senhoras, oficiais… Mas Fiódor não sentia já inveja e não maldizia mais a sorte. Pareceu-lhe que ricos e pobres viviam igualmente mal. Uns tinham a possibilidade de andar de carruagem, outros, de cantar a plenos pulmões e tocar gaita, mas, em suma, esperava a todos o mesmo túmulo e nada existia na vida que merecesse a pena de entregar ao maligno a menor partícula sequer da alma.


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