O Espanta-Diabo – Nikolai Semionovitch Leskov

O Espanta-Diabo

Nikolai Semionovitch Leskov

 

Esse é um ritual que se pode ver somente em Moscou e, mesmo assim, só com proteção e certa dose de sorte.
Eu presenciei o espanta-diabo de cabo a rabo, graças a uma feliz seqüência de circunstâncias, e quero descrever tudo para os verdadeiros conhecedores e para os amadores do sério e do elevado, de acordo com o gosto nacional.

Se de um lado sou nobre, de outro sou chegado ao “povo”: minha mãe vinha da classe dos comerciantes. Tinha saído de uma família rica para casar-se e a deixara por amor a meu pai. O finado tinha jeito com o sexo frágil e conseguia sempre o que queria. Com mamãe também não foi diferente, mas justamente em virtude dessa habilidade os velhos do lado materno nada deram a ela, a não ser, é claro, o armário, a cama e a misericórdia divina, que foram recebidos junto com o perdão e a bênção paterna, que duraria por séculos e séculos. Meus avós viviam em Oriol, em dificuldades mas com orgulho, e aos parentes ricos de minha mãe nada pediam, aliás com eles não tinham relação alguma. Uma vez, quando chegou a hora de eu entrar para a universidade, mamãe falou:

“Faça o favor de ir à casa do tio Ilyá Fedoséievitch e cumprimentá-lo de minha parte. Isso não é nenhuma humilhação, devem-se respeitar os parentes mais velhos; ele é meu irmão e, além disso, é homem temente a Deus e exerce certa influência em Moscou. Em todas as recepções é ele quem sempre oferece o pão e o sal… está sempre à frente dos outros com um prato ou com uma imagem sagrada… e é recebido pelo governador-geral e pelo metropolita… A você ele só tem o bem a ensinar”.

Apesar de eu naquela época ter aprendido o catecismo de Filaret e não acreditar em Deus, amava minha mãe, de modo que pensei: “Já faz quase um ano que estou aqui em Moscou e até agora não fiz o que mamãe pediu; irei agora mesmo visitar o tio Fedoséievitch, levar-lhe as lembranças de mamãe e ver o que ele pode realmente me ensinar”.

Pelo hábito que me foi incutido na infância, sempre tive consideração para com os mais velhos, particularmente para com aqueles que são conhecidos do metropolita e do governador.
Levantei-me, escovei-me e dirigi-me à casa do tio Ilyá Fedoséievitch.

II

Deviam ser umas seis horas da tarde. O tempo estava quente, agradável e úmido; numa palavra, muito bom. A casa do titio é conhecida — é uma das primeiras casas de Moscou —, todos sabem onde fica. Apenas eu nunca tinha estado lá e nunca tinha visto meu tio, nem sequer de longe.

Mesmo assim vou sem vacilar, raciocinando com meus botões: se me receber, bem, se não receber, amém.
Chego ao pátio. Na entrada há dois garanhões atrelados à carruagem, negros feito corvos, as jubas soltas, o pêlo brilhante como rico cetim.

Subo as escadas e digo bem assim: “Eu sou o sobrinho, o estudante, peço que avisem a Ilyá Fedoséievitch”.
Respondem-me:
”Ele mesmo descerá num instante. Está saindo para dar um passeio.”

Aparece uma figura muito simples, russa, mas bastante imponente; os olhos têm algo que lembra mamãe, mas a expressão é outra; ele é, como se diz, um homem respeitável.
Apresentei-me a ele, que me ouviu sem abrir a boca, deu-me a mão em silêncio e disse:

“Acomode-se, vamos dar um passeio.”
Eu queria recusar, mas a recusa ficou engasgada e acomodei-me.
”Ao parque!”, ordenou.
Os garanhões arrancaram de supetão, de modo que só a parte posterior da carruagem rangeu, e desandaram a correr a toda, com mais força ainda, como se estivessem indo para fora da cidade.
Sentamos ambos, sem abrir a boca. Reparo apenas que titio afunda cada vez mais a aba da cartola na testa e em seu rosto surge uma careta de tédio.
Olha para um lado, olha para o outro, e de repente me lança um olhar e inesperadamente diz:
”Isto não é vida.”
Sem saber o que responder, fico em silêncio.
E lá vamos nós, vamos indo, e eu fico pensando: para onde será que ele está me levando? E começo a achar que me meti em alguma embrulhada.
Mas titio parece ter tomado uma decisão repentina e põe-se a dar ordens ao cocheiro, uma atrás da outra:
”À direita, à esquerda, no Yar, pare.” Vejo acorrer para o nosso lado um enxame de garçons vindos do restaurante e todos se desmancham em rapapés perante titio, mas ele não se move da carruagem e ordena que chamem o dono. Todos correm. Aparece um francês, ele também cheio de mesuras, mas o tio não se mexe: encosta aos dentes o castão de osso da bengala e diz:
”Quantas pessoas há aqui?”
”Contando as da galeria e as do saguão, umas trinta”, responde o francês, “e três saletas ocupadas.”
”Todos para fora!”
”Perfeitamente.”
”São sete horas, agora”, diz titio olhando para o relógio. “Voltarei às oito. Estará pronto?”
”Não”, responde o francês. “Às oito é difícil… muitos já pediram… mas às nove, se o senhor quiser, não haverá mais ninguém estranho em todo o restaurante.”
”Certo.”

“E o que deve ser preparado?” “Os ciganos, é claro.”
”Mais alguma coisa?”
”A orquestra.”

“Uma só?”
”Não, duas é melhor.”
”Mando buscar Riábyka?”
”Claro.”
”E as damas francesas?”
”Nada disso!”
”A adega?”
”Inteira.”
”E para comer?”
”O cardápio!”
Dão-lhe o cardápio do dia.
Titio olha, parece não atinar, ou quem sabe não queira se dar o trabalho de decifrar; bate no papel com a bengala e diz:
”Isto tudo para cem.”
Com isso enrola o papel e o põe no bolso.
O francês está entre alegre e atrapalhado:
”Não consigo”, diz ele, “preparar tudo para cem pessoas. Há coisas muito caras, aqui, que em qualquer restaurante só dão para cinco ou seis porções.”
”Como é que vou escolher por meus convidados? Cada um vai ter o que desejar. Entendido?”
”Entendido.”
”Senão, meu caro, nem mesmo o Riábyka vai adiantar. Vamos!”
Deixamos o dono do restaurante e seus garçons na entrada e fomos embora.
A essa altura eu já me convencera de que tinha entrado numa fria e tentei me safar, mas titio não me deu ouvidos. Estava muito ocupado. Na volta, ele vai parando ora um, ora outro.
”Às nove, no Yar!”, talha, curto, a cada um. E as pessoas a quem ele diz isso são todos velhos respeitáveis, e todos tiram o chapéu e também lhe respondem do mesmo modo:
”Convidado seu, convidado seu, Fedoséievitch.”
Não lembro quantos nós paramos desse modo, mas creio terem sido uns vinte; mal deram as nove e ei-nos de novo no Yar. Toda uma legião de empregados vem ao nosso encontro, segura o tio pelo braço e o próprio francês na varanda da entrada limpa-lhe a poeira das calças.
”Tudo limpo?”, pergunta titio.
”Apenas um general”, diz o francês, “atrasou-se e pediu muito para terminar na saleta…”
”Fora, já!”
”Ele já está terminando.”
”Não quero, já lhe dei tempo suficiente: que vá agora e acabe de comer no pasto.” Não sei como a coisa teria acabado, mas nesse minuto o general saiu com duas damas, acomodou-se na carruagem e foi embora; nesse meio-tempo começaram a chegar, um depois do outro, os cavalheiros que titio havia convidado no parque.

III

O restaurante estava desocupado, limpo e livre de qualquer freguês. Apenas numa das salas estava sentado um grandalhão que veio calado ao encontro do tio e, sem dizer palavra, pegou das mãos dele a bengala e a escondeu num lugar qualquer. Imediatamente depois de entregar-lhe a bengala sem a menor objeção, meu tio entregou-lhe também a carteira e o porta-moedas.

Esse enorme gigante meio grisalho era o tal Riábyka que ouvi ser mencionado pelo dono do restaurante durante o incompreensível pedido. Era um “professor primário”, mas, pelo visto, encontrava-se aqui, ele também, para um encargo especial, tão indispensável como o dos ciganos, a orquestra e o resto dos serviçais que apareceram todos num instante. Só não compreendia qual poderia ser o papel do professor, mas era muito cedo para a minha inexperiência.

O restaurante, muito iluminado, entrava em funcionamento: a música ecoava, os ciganos saltitavam e lambiscavam no balcão, o tio passava em revista as salas, o jardim, a gruta e as galerias. Cuidava para que não houvesse “estranhos” em canto algum, e grudado a ele ia o professor; só que quando voltaram ao salão principal onde estavam todos reunidos, podia-se notar uma diferença marcante: o professor continuava sóbrio como quando tinha saído e titio visivelmente bêbado.

Não sei como isso possa ter acontecido tão depressa, mas ele estava de excelente humor; sentou-se no lugar de honra e a farra começou.
As portas foram trancadas e a todos foi dito que “ninguém de dentro poderia sair nem os de fora entrar”.

Um abismo separava-nos do mundo, um abismo de tudo, de vinho, de iguarias, mas, principalmente, um abismo de orgia, já não digo hedionda, mas selvagem, furiosa, tal como jamais serei capaz de descrever. Não dá sequer para tentar, pois ao dar por mim trancafiado ali e separado do resto do mundo, eu mesmo fiquei assustado e não demorei a me embriagar. Por isso não escreverei como se passaram as coisas naquela noite, visto que descrever aquilo tudo não me é possível; apenas lembro dois episódios marcantes da peleja e o final, e é justamente neles que está o impressionante.

IV

Foi anunciado um tal de Ivan Stepánovitch, que, como se soube mais tarde, era um fabricante e comerciante muito importante em Moscou. Isso provocou um impasse. “Por acaso não foi dito que não é para deixar entrar mais ninguém?”, disse o titio. “Ele está insistindo muito.”

“Pois que fique onde esteve até agora.”
O empregado saiu, mas voltou, timidamente.
”Ivan Stepánovitch mandou dizer que pede encarecidamente.”
”Nada disso, eu não quero.”
Os outros dizem: “Ele pode pagar uma multa”.
”Não! Mandem-no embora, não precisamos dessa multa.”
Mas o funcionário reaparece dizendo ainda mais timidamente:
”Ele concorda com qualquer multa, apenas diz que na idade dele é muito triste ficar fora da companhia.”
Titio levantou-se, os olhos soltando faíscas, mas nesse mesmo instante, entre ele e o garçom, Riábyka se interpôs com todo o seu tamanho, tirando o garçom da frente com um só golpe da mão esquerda, como se apanhasse um pintinho, e fazendo, com a direita, titio sentar-se novamente em seu lugar.
No meio dos hóspedes ouviram-se vozes a favor de Ivan Stepánovitch: pediam para deixá-lo entrar — que pagasse cem rublos para os músicos e que entrasse.
”É um dos nossos, o velho, é temente a Deus, para onde é que ele pode ir? É capaz de ficar enfurecido e armar um escândalo diante da patuléia. Tenhamos pena dele.” Titio cedeu e disse:
”Já que não é para ser como eu quero, também não vai ser como vocês querem. Que seja como Deus quer: deixo Ivan Stepánovitch entrar desde que ele toque os timbales.”

O garçom tagarela saiu, retornando logo em seguida: “Diz que preferia pagar a multa.”
”Ao diabo com ele! Se não quer tocar o tambor não precisa vir, que vá para onde ele quiser.”

Dali a pouco Ivan Stepánovitch não agüentou mais e mandou dizer que aceitava tocar os timbales.
”Deixe-o entrar.”
Entra um sujeito consideravelmente alto e de aspecto respeitável: a expressão severa, os olhos apagados, as costas encurvadas, mas a barba é desgrenhada e quase verde. Tenta brincar e cumprimentar, mas não o deixam.

“Depois, depois, isso tudo depois”, grita o tio, “agora toca o tambor!”
”Toca o tambor!”, repetem os demais.
”Música! Os timbales!”
A orquestra ataca uma peça retumbante e o velho respeitável pega as baquetas e começa a bater nos timbales, ora acertando, ora errando o tempo.

Barulho e gritos infernais; todos estão contentes e gritam: “Mais alto!”
Ivan Stepánovitch esforça-se.
”Mais forte, mais forte, mais forte ainda!”

O velho bate com toda a força, feito o Príncipe Negro de Freiligrath, e finalmente acontece o que era esperado: o tambor emite um estrondo assustador, o couro racha, todos gargalham, o ruído torna-se indescritível e Ivan Stepánovitch tem de pagar pelo tambor arrombado a quantia de quinhentos rublos, que irá para os músicos.

Ele paga, enxuga o suor, senta-se, e enquanto todos bebem à sua saúde, fica apavorado ao descobrir seu próprio genro entre os convivas.
Mais risadas, mais barulho, e isso até a hora em que perdi a consciência. Nos raros claros de memória vejo os ciganos dançando e titio sentado num canto qualquer a balançar as pernas; depois vejo ele se levantar diante de alguém, Riábyka interpor- se novamente entre ambos, e o sujeito desaparecer; titio senta-se, na mesa à sua frente dois garfos espetados apontam para cima. Agora entendo o papel de Riábyka. Mas eis que pela janela penetra o frescor da manhã moscovita e eu recobro parte da consciência, mas parece que só mesmo para duvidar da minha própria razão. Houve uma peleja e a derrubada de uma mata: ouvia-se o estalo, o estrondo das árvores a balançar, árvores exóticas, virgens, e atrás delas, num canto, amontoavam-se uns tipos esquisitos de pele escura, ao passo que machados terríveis cintilavam junto às raízes, e meu tio derrubava as árvores, o velho Ivan Stepánovitch também… Uma cena simplesmente medieval.

Tratava-se de “tornar cativas” as ciganas que se escondiam na gruta atrás das árvores; os ciganos não as defendiam e deixavam-nas entregues à sua própria sorte. Não se sabia o que era sério e o que era brincadeira; no ar voavam pratos, cadeiras, pedras da gruta, e aqueles continuavam a derrubar cada vez mais a mata, sendo que os mais atirados eram Ivan Stepánovitch e titio.

Finalmente a cidadela foi tomada: as ciganas foram agarradas, abraçadas, beijadas; cada uma enfiou uma nota de cem rublos no “corpete”, e a coisa acabou…
Sim; de repente tudo estava calmo… tudo acabado. Ninguém viera perturbar, mas já era o bastante. Sentia-se que sem aquilo “a vida não era vida”, só que era hora de acabar.
Todos já haviam tido o suficiente e todos estavam satisfeitos. Pode ser também que tenha tido algum significado aquilo que o professor falou, que era “hora de ir para a escola”, mas, de resto, dava na mesma: a noite de Valpúrgis tinha acabado e a “vida” recomeçava.
O público não se despediu, não foi saindo, simplesmente desapareceu; já não havia nem orquestra nem ciganos. O restaurante ostentava a mais completa destruição: nem uma única cortina, nem um único espelho inteiro, até mesmo o lustre do teto, ele também, aos cacos pelo chão, seus prismas de cristal esmagados pelos pés dos funcionários que se arrastavam cansados de um lugar para o outro. O tio estava sentado sozinho no meio de um sofá, bebendo kvas; de vez em quando parecia lembrar-se de alguma coisa e mexia com as pernas. Plantado ao seu lado, Riábyka apressava-se para ir à escola. Trouxeram- lhes a conta, que dizia sumariamente “tudo incluído”.

Riábyka conferiu-a com atenção e exigiu quinhentos rublos de desconto. Discutiram um pouco e fizeram a soma: dezessete mil. Riábyka tornou a conferi-la e disse que estava tudo certo. O tio articulou duas sílabas: “Pague”, enfiou o chapéu e acenou- me para que o seguisse.

Eu via com horror que ele não havia esquecido nada e que não adiantaria eu me esconder.
Ele me dava um medo tremendo, e eu não conseguia imaginar como poderia, depois de toda aquela situação, ficar a sós e cara a cara com ele. Tinha me levado consigo por mero acaso, nem sequer chegara a trocar comigo duas palavras sensatas, e agora me arrastava sem que pudesse me desvencilhar. O que seria de mim? A bebedeira tinha passado. Agora só tinha medo desse terrível animal selvagem, com sua fabulosa fantasia e seus impulsos bestiais. Enquanto isso, íamos saindo: um enxame de funcionários nos rodeou na ante-sala. O tio ordenou: “Cinco a cada um”, e Riábyka foi pagando; um pouco menos aos porteiros, aos guardas, aos policiais, aos gendarmes que nos prestaram algum tipo de serviço. Todos ficaram satisfeitos. Mas tudo isso era bastante dinheiro, e lá fora, em toda a extensão visível do parque, ainda havia cocheiros. Era uma multidão interminável e todos eles também estavam à nossa espera — à espera do paizinho Ilyá Fedoséievitch, “caso Sua Excelência tivesse necessidade de mandá-los para algum lugar”.

Foram contados e cada um recebeu três rublos, e eu sentei na carruagem com o tio, e Riábyka devolveu-lhe a carteira.
Ilyá Fedoséievitch tirou da carteira cem rublos e entregou-os a Riábyka.
Este girou a nota entre as mãos e disse:

“É pouco.”
O tio acrescentou mais duas notas de vinte e cinco.
”Ainda não é o bastante: não houve nenhum escândalo.”
O tio acrescentou uma terceira nota de vinte e cinco; depois disso o professor devolveu-lhe a bengala e despediu-se.

V

Ficamos ambos sozinhos a olhar um para a cara do outro, e voltamos depressa a Moscou, mas às nossas costas, retinindo e gritando, vinham em desabalada carreira

todos aqueles cocheiros molambentos. Eu não entendia o que eles queriam, mas o tio sim. Era revoltante: queriam mais dinheiro e, com jeito de querer prestar uma homenagem especial a Ilyá Fedoséievitch, expunham sua alta dignidade ao opróbrio geral.

Moscou estava diante de nós, completamente visível, toda imersa na magnífica luz da manhã, na leve fumaça das chaminés e no pacífico repique dos sinos que convidava à oração.
À esquerda e à direita da barreira estendiam-se os armazéns. O tio mandou parar na frente do primeiro, aproximou-se de uma grande tina de tília que estava na soleira e perguntou:

“É mel?”
”É mel.”
”Quanto cada tina?”
”Nós vendemos apenas a varejo, por libras.”
”Pois venda-me por atacado: faça a conta, veja quanto sai.”
Não lembro quanto, parece-me que a conta deu uns setenta ou oitenta rublos.
O tio atirou-lhe o dinheiro.
O cortejo tinha nos alcançado.
”Vocês me amam, bravos cocheiros da cidade?”
”Sim, estamos sempre às suas ordens…”
”Têm afeição por mim?”
”Sim, muita afeição.”
”Tirem as rodas.”
Os cocheiros pararam para pensar.
”Depressa, depressa!”, comandou o tio.
Os mais lépidos, uns vinte deles, pularam da boléia, acharam as chaves e co- meçaram a desparafusar as porcas.
”Muito bem”, disse o tio, “agora untem com mel.”
”Paizinho!”
”Untem!”
”Isso é tão bom… fica melhor na boca.”
”Untem!”
Sem insistir mais, o tio tornou a se acomodar na carruagem e saímos em disparada. Os cocheiros ficaram com as rodas tiradas junto ao mel, que com toda a certeza eles não passaram nas porcas, mas devem ter dividido entre si ou revendido ao dono do armazém. De qualquer modo pararam de nos seguir e fomos aos banhos. Lá sentado, mais morto que vivo numa banheira de mármore, estava como que à espera do Juízo Final, enquanto o tio se esticava no chão, não como quem se deita, mas numa posição apocalíptica. Toda a imensa massa de seu corpanzil se apoiava sobre a ponta dos dedos e artelhos, e sobre esses diminutos pontos de apoio seu corpo estremecia sob as gotas de uma chuva fria, enquanto ele soltava o urro retido de um urso que arranca de si algo que o machuca. Isso durou cerca de meia hora, e ele continuou tremendo feito geléia numa mesa que balança, até que, finalmente, ergueu-se de um salto, pediu kvas, tornamos a nos vestir e fomos até “o francês”, na ponte Kuzniétski.
Ali nossos cabelos foram aparados, levemente frisados e penteados, e então voltando a pé para a cidade, dirigimo-nos à venda.
Comigo ele não trocava palavra, nem de mim se desgrudava. Apenas uma vez ele falou:

“Aguarde, não vem tudo de uma vez; aquilo que você não entender agora, há de entender com o passar dos anos.”
Na venda ele começou com a reza, encarando um a um com olhos de patrão, e depois foi para a mesa da contabilidade. A carcaça  estava limpa por fora, mas dentro, no fundo, ainda havia sujeira.

Ao deparar-me com aquilo, todo o medo cessou. Meu interesse foi despertado, queria ver como ele ia se virar: contenção ou graça divina?
Por volta das dez horas começou a sentir-se terrivelmente necessitado: estava o tempo todo a ver se o vizinho chegava para irmos os três tomar chá — para três havia um desconto de cinco copeques. O vizinho não veio, morrera de morte súbita. Titio fez o sinal-da-cruz e disse:

“Morrer, todos vamos.”
Não ficou tocado, embora durante quarenta anos tivessem ido tomar chá juntos na Novotróitski. Chamamos o vizinho do outro lado e lá fomos mais de uma vez, lambiscamos qualquer coisa, mas sempre sóbrios. Passei o dia lá, sentado ou andando, e à tardinha titio mandou vir a carruagem para irmos ao convento da Vsepetáia. Lá também todos o conheciam e foi recebido com a mesma consideração que no Yar.
”Quero me prostrar diante da Virgem e me arrepender dos meus pecados. Eu lhe recomendo o mesmo, meu sobrinho, filho de minha irmã.”
”Ora por quem sois”, dizem as monjas, “ora por quem sois, de quem a Virgem ia aceitar o ato de contrição se não de vós, sempre o benfeitor-mor de seu convento? Agora é o momento em que ela está mais disposta… o ofício noturno.”
”Vamos esperar que acabe, prefiro quando não há ninguém. E agradeço se deixarem tudo na penumbra.”
Deixaram: apagaram todas as lamparinas, a não ser uma ou duas, e a lamparina grande do centro, com o suporte de vidro verde, diante do ícone da Virgem.
Titio não se prostrou, mas desabou de joelhos, depois bateu com a testa no chão, soluçou e enrijeceu-se.
Eu e duas monjas permanecemos sentados num canto escuro, atrás da porta. Fez- se uma longa pausa. E titio sempre deitado, sem levantar os olhos ou emitir qualquer som. Pareceu-me que tivesse adormecido, e cheguei a dizer isso às monjas. A irmã mais experiente ficou pensativa um tempo, sacudiu a cabeça e, depois de acender uma pequena vela que segurou na mão, aproximou-se devagarinho do pecador arrependido. Sempre devagar, deu uma volta em torno dele na ponta dos pés, retornou agitada e sussurrou:
”Está funcionando… e dos dois lados.”
”Como sabe disso?”
Ela se curvou para a frente, acenou-me para que fizesse o mesmo e disse:
”Olhe bem através da chama, onde estão as pernas dele.”
”Estou olhando.”
”Veja, que luta!”
Olho mais fixamente e de fato reparo que há algum movimento: titio, cheio de devoção, está prostrado na sua posição de reza, mas a seus pés parece que há dois gatos se contorcendo — ora é um que ataca, ora é o outro, e assim uma porção de vezes, e ambos dão pulos.
”Irmã”, digo eu, “de onde vieram esses gatos?”

“Eles”, diz a monja, “apenas parecem gatos a você, mas não são gatos, são a tentação, pode ver: com o espírito ele sobe ao céu numa chama, mas com as pernas ele ainda se agita no inferno.”
Vejo realmente as pernas do titio dançarem o trepák  do dia anterior, mas será que seu espírito está subindo ao céu numa chama?

De repente, como se me respondesse, ele suspira e grita:
”Não me levanto enquanto não me perdoardes. Somente vós sois santa, e todos nós somos condenados!”, e desatou a chorar.
Soluçava de tal modo que os três também começamos a implorar em prantos: Deus, atendei à sua prece.
E nem percebemos que ele já estava ao nosso lado, quando uma voz baixa e devota me disse:
”Vamos indo.”
As monjas perguntaram:
”Vós tivestes a graça, paizinho, de ver o reflexo?”
”Não”, respondeu ele, “não tive a graça do reflexo, mas eis… eis o que eu tive.”
Ele cerrou o punho, erguendo-o lentamente, como se levantasse pelo topete uma criança.
”Erguido?”
”Sim.”
As monjas fizeram o sinal-da-cruz, eu também fiz, e titio explicou:
”Agora”, disse, “fui perdoado! Bem do alto, de sob a cúpula, uma mão esticada agarrou-me pelos cabelos de onde eu estava e me pôs de pé…”
E assim ele não é mais miserável, mas está feliz. Presenteou generosamente o convento pela graça recebida, sentiu-se novamente vivo, mandou para minha mãe todo o dote que lhe competia, e, quanto a mim, conduziu-me para a crença boa do povo.
A partir de então entendi o gosto que o povo tem pela queda e pela elevação… A isso chamam espanta-diabo, “pois rechaça o diabo dos maus pensamentos”. Só que, torno a repetir, isso pode ser visto apenas em Moscou, e, mesmo assim, com certa dose de sorte e muita proteção dos velhos mais respeitáveis.