O Demônio da Garrafa – Robert Louis Stevenson

O Demônio da Garrafa

Robert Louis Stevenson

 

Como ele ainda está vivo e precisa ter seu nome mantido em segredo, chamarei de Keawe àquele homem que vivia em uma ilha do Havaí; o lugar de seu nascimento não ficava longe de Honaunau, onde os ossos de Keawe, o Grande, estão escondidos em uma caverna. Esse homem era pobre, corajoso e cheio de vida; podia ler e escrever como um mestre-escola; além disso, era marinheiro qualificado, pois velejara por bastante tempo em um vapor das ilhas e fora também timoneiro de uma baleeira na costa de Hamakua. Por fim, resolvera conhecer o grande mundo e rodar pelas cidades estrangeiras, e então subiu em uma embarcação para San Francisco.

É uma cidade bonita, com um belo porto e um sem-número de pessoas ricas, além de, particularmente, uma colina coberta de palacetes. Certo dia Keawe estava caminhando por essa colina, com dinheiro no bolso, observando com muito gosto as mansões de ambos os lados do passeio. “Que casas bonitas!”, pensava, “como devem ser felizes as pessoas que moram nelas, já que não precisam se preocupar com o futuro!” Era nisso que pensava quando se aproximou de uma casa um pouco menor que as outras, mas toda reformada e adornada como uma jóia; os degraus da entrada brilhavam como prata, das extremidades do jardim desabrochavam grinaldas, e as janelas tinham o brilho de um diamante. Keawe parou para admirar a beleza de tudo que estava vendo. Assim, notou que um homem o observava através de uma janela, que, de tão clara, permitia a Keawe vê-lo como se vê um peixe em um laguinho entre os recifes. O homem era idoso, careca e com a barba escura. Seu rosto estava carregado de preocupação, e ele suspirava amargamente. A verdade é que, enquanto Keawe olhava o homem e o homem olhava Keawe, ambos se invejavam.

De repente o homem sorriu e balançou a cabeça, sinalizando para Keawe entrar, e o encontrou na porta da casa.
”Esta bela casa é minha”, disse o homem, suspirando com amargura. “Você não gostaria de ver as dependências?”

Então ele mostrou tudo a Keawe, do porão ao sótão, e não havia absolutamente nada que não fosse perfeito. Keawe ficou impressionado.
”De fato”, disse Keawe, “é uma bela casa; se eu vivesse em uma dessas, passaria o dia alegre. Por que, então, o senhor parece tão amargurado?”

“Não há motivo”, disse o homem, “para que você não tenha uma casa parecida com essa, ou mais bela, se desejar. Suponho que você tenha algum dinheiro.”
”Tenho cinqüenta dólares”, disse Keawe, “mas uma casa como esta custa muito mais do que isso.”

O homem fez um cálculo. “Lamento que você não tenha mais”, ele disse, “pois isso pode trazer problemas no futuro; mas faço por cinqüenta dólares.”
”A casa?”, perguntou Keawe.
”Não, não a casa”, respondeu o homem, “mas a garrafa. Tenho que lhe dizer que, mesmo parecendo tão rico e privilegiado, toda a minha riqueza, essa própria casa e o jardim, tudo veio de uma garrafa de mais ou menos meio litro. É isso.”

Ele abriu um compartimento fechado, e retirou uma garrafa grossa e de gargalo comprido; o vidro era branco como leite, com as cores do arco-íris se alternando. Dentro, alguma coisa se mexia, como se fosse a sombra de uma labareda.
”Esta é a garrafa”, disse o homem. “Você não acredita em mim?”, ele acrescentou quando Keawe riu. “Então, veja por si mesmo se consegue quebrá-la.”

Keawe ergueu a garrafa e atirou-a com toda a força ao chão por diversas vezes. Ela quicava como uma bola de criança e nem sequer rachou.
”Que negócio mais esquisito”, disse Keawe. “Tocando-a ou observando-a, ela parece ser de vidro.”

“Ela é de vidro”, respondeu o homem, sorrindo com mais ânimo que antes, “de um vidro temperado nas chamas do inferno. Um demônio vive aí dentro. Suponho que seja ele essa chama que vemos dançar. O homem que comprar essa garrafa irá mandar no demônio; e terá tudo que desejar — amor, fama, dinheiro, casas como a minha, ou uma cidade como esta — tudo será dele com apenas uma palavra. Napoleão foi dono dessa garrafa, e, por causa dela, tornou-se o rei do mundo; mas acabou vendendo-a e perdeu tudo. O capitão Cook esteve com a garrafa, e usando- a achou o caminho para muitas ilhas; mas também a vendeu, e terminou morto no Havaí. Uma vez vendida, a garrafa perde o poder e a proteção acaba; e, a menos que o homem se contente com aquilo que já tem, a contrariedade recairá sobre ele.” “Ainda assim você fala em vendê-la?”, Keawe disse.

“Eu já tenho tudo o que desejo, e estou ficando muito velho”, respondeu o homem. “Há apenas uma coisa que o demônio não pode fazer — ele não pode prolongar a vida; não seria justo esconder de você que existe um inconveniente com a garrafa: se um homem morrer antes de vendê-la, vai queimar no inferno por toda a eternidade.”

“Pode ter certeza de que isso é um enorme inconveniente e não um pequeno problema”, gritou Keawe. “Não quero me intrometer com isso. Eu posso viver sem uma casa, graças a Deus; só há uma coisa que não consigo agüentar: ser condenado.”

“Meu caro, você não deve fugir assim das coisas”, replicou o homem. “Tudo o que você tem que fazer é usar o poder do demônio com moderação, então passar a garrafa para a frente, como eu estou fazendo com você, e terminar confortavelmente sua vida.”
”Olha, tenho duas coisas a dizer”, Keawe falou. “O tempo todo o senhor suspira como uma donzela apaixonada; depois, tenta vender a garrafa por um preço muito baixo.”
”Já contei a você por que estou suspirando”, disse o homem. “Tenho medo de que minha saúde esteja abalada; e como você mesmo disse, morrer e ir para o inferno é uma desgraça para qualquer um. Como vou vendê-la assim tão barato, tenho que lhe explicar que a garrafa tem ainda outra peculiaridade. Há muito tempo, quando o diabo veio pela primeira vez à terra, ela era extremamente cara, e foi vendida pela primeira vez para Preste João por muitos milhões de dólares; mas ela não pode ser vendida pelo mesmo valor, e sim sempre por um preço mais baixo. Se você a vender por mais do que pagou, ela volta novamente como um pombo-correio. Acontece que o preço foi caindo ao longo dos séculos, e a garrafa agora é muito barata. Eu mesmo a comprei por apenas noventa dólares de um de meus melhores vizinhos aqui na colina. Posso vendê-la até por oitenta e nove dólares e noventa e nove centavos. Um centavo a mais e ela volta para mim. Agora, sobre isso existem dois problemas. Primeiro, quando você oferece uma garrafa tão especial por míseros oitenta dólares, as pessoas começam a achar que você está brincando. E segundo — não, não há razão para se preocupar agora —, não preciso falar sobre isso. Apenas se lembre de que ela só pode ser vendida por dinheiro vivo.”
”Como eu posso saber que tudo isso é mesmo verdade?”, perguntou Keawe.
”Basta você tentar uma vez”, respondeu o homem. “Me dê os cinqüenta dólares, leve a garrafa, e deseje que seus cinqüenta dólares voltem para o seu bolso. Se isso não acontecer, dou minha palavra de honra que desfaço o negócio e lhe restituo o dinheiro.”
”Você não está me enrolando?”, disse Keawe.
O homem fez um enorme juramento.
”Bom, eu vou arriscar”, disse Keawe. “Não tenho nada a perder.” Na mesma hora, ele entregou o dinheiro para o homem, que lhe passou a garrafa.
”Demônio da garrafa”, disse Keawe, “quero os meus cinqüenta dólares de volta.” Imediatamente depois de dizer aquelas palavras, seu bolso estava tão cheio quanto antes.
”E mesmo verdade, essa garrafa é extraordinária”, exclamou Keawe.
”E agora, bom dia para o senhor, meu caro amigo, e que o demônio esteja convosco”, disse o homem.
”Espere aí”, disse Keawe. “Não quero mais saber dessa brincadeira. Aqui, pegue sua garrafa de volta.”
”Você a comprou por menos do que eu paguei”, respondeu o homem, esfregando as mãos. “Ela é sua agora; e, da minha parte, só quero que o senhor vá embora.” Com isso ele chamou seu criado chinês, que mostrou a Keawe a porta da casa.
Depois, quando já estava na rua, com a garrafa debaixo do braço, Keawe se pôs a pensar. “Se tudo sobre esta garrafa for verdade, devo ter feito um péssimo negócio. Mas talvez aquele homem só estivesse se divertindo comigo.” A primeira coisa que fez foi contar o dinheiro; a quantia estava exata — quarenta e nove dólares americanos e uma moeda chilena. “Parece que é mesmo verdade”, disse Keawe. “Agora vou tentar alguma outra coisa.”
As ruas naquela parte da cidade eram tão limpas quanto o convés de um navio, e ainda que fosse meio-dia, não havia pedestres. Keawe deixou a garrafa na sarjeta e saiu. Ele olhou duas vezes para trás e viu a garrafa leitosa e bojuda no mesmo lugar em que a deixara. Uma terceira vez olhou para trás, e depois virou a esquina. Ele quase não tinha andado direito quando alguma coisa bateu sobre seu cotovelo, e pimba! Era a garrafa pescoçuda e gorda que estava no bolso de seu casaco de timoneiro.
”Nossa, deve ser mesmo verdade”, disse Keawe.

A próxima coisa que ele fez foi comprar um saca-rolhas em uma loja, e depois ir a um lugar ermo no campo. Lá tentou tirar a rolha, mas sempre que a retirava, ela reaparecia na garrafa como se nada tivesse acontecido.
”É um tipo novo de cortiça”, disse Keawe, e na mesma hora começou a tremer e a suar com medo daquela garrafa.

Voltando ao porto, ele viu uma loja em que um homem vendia conchas e lanças das ilhas selvagens, velhas imagens pagãs, moedas antigas, quadros da China e do Japão, e toda sorte de coisas que os marinheiros traziam nos baús dos navios. E então ele teve uma idéia: entrou e ofereceu a garrafa por cem dólares. O homem da loja riu na cara dele e ofereceu cinco; mas em seguida percebeu que se tratava de uma garrafa curiosa, cujo vidro não parecia obra humana, tal era a beleza das cores que brilhavam sobre o branco leitoso, e tão estranha era a sombra no seu interior. Então, depois de pechinchar, como era costume entre seus pares, o vendedor deu a Keawe sessenta dólares de prata pela garrafa e colocou-a em uma prateleira perto de sua janela.

“Agora”, disse Keawe, “eu vendi por sessenta o que comprei por cinqüenta — ou, para dizer a verdade, um pouco menos, porque um de meus dólares era do Chile. Agora, vou poder descobrir a verdade sobre a outra particularidade.”
Então ele subiu a bordo do navio, e, quando abriu sua bagagem, lá estava a garrafa, que, aliás, tinha chegado mais rápido do que ele.

No volta, Lopaka, um companheiro de Keawe, estava a bordo.
”Por que”, disse Lopaka, “você está arregalando os olhos para a sua bagagem?” Eles estavam sozinhos na proa do navio. Keawe pediu-lhe segredo e contou tudo.
”É uma história muito estranha”, disse Lopaka, “e receio que você vá ter problemas com essa garrafa. Mas há algo muito claro — já que você vai ter problemas mesmo, não vejo mal em tirar algum lucro com o negócio. Pense em algum desejo e faça o pedido. Se funcionar, compro a garrafa de você; pois eu sempre quis ter uma escuna para trabalhar nas ilhas.”
”Eu quero outra coisa”, disse K. “Desejo uma bela casa e um jardim na costa de Kona, onde nasci. O sol brilhando na porta, flores no jardim, quadros nas paredes, mimos e toalhas finas nas mesas, tudo muito parecido com aquela casa que vi — apenas com um pavimento superior, e com sacadas por todo lado como o palácio do rei. Quero viver num lugar como esse sem preocupações e divertindo meus amigos e minha família.”
”Certo”, disse Lopaka, “vamos levar a garrafa conosco para o Havaí; e se tudo der certo, como você supõe, vou comprar a garrafa, como eu disse, e pedir uma escuna.”
Eles fecharam o acordo, e o navio zarpou para Honolulu, levando Keawe, Lopaka e a garrafa. Logo que desembarcaram na praia, encontraram um amigo que vinha dar os pêsames a Keawe.
”Não sei por que você está me dando os pêsames”, disse Keawe.
”Você ainda não deve estar sabendo”, disse o amigo, “seu tio — aquele bom senhor — está morto, e seu primo — um belo rapaz — afogou-se no mar.”
A tristeza invadiu Keawe, e, chorando e lamentando, ele se esqueceu da garrafa. Mas Lopaka estava pensando consigo mesmo, e logo que a tristeza de Keawe diminuiu, falou: “Seu tio não tem terras no Havaí, na região de Kau?”.

“Não”, disse Keawe, “não é em Kau, elas ficam lá para os lados da montanha — um pouco ao sul de Hookena.”
”Essas terras agora não são suas?”, perguntou Lopaka.
”Agora são minhas”, disse Keawe, enquanto novamente lamentava por seus parentes.

“Não, não”, disse Lopaka, “não se lamente. Penso se tudo não foi obra da garrafa. Eis aí o lugar certo para a sua casa.”
”Se for isso mesmo”, Keawe exclamou, “é muito ruim tirar vantagem da morte dos meus parentes. Mas talvez você tenha razão, pois foi bem naquele local que imaginei a minha casa.”

“Ela, no entanto, ainda não foi sequer construída”, disse Lopaka.
”E nem vai ser!”, disse Keawe, “pois meu tio tinha algum café e cultivava banana, terei no máximo algo para viver com certo conforto. O resto daquela terra é lava escura.”
”Vamos consultar um advogado”, disse Lopaka. “Ainda tenho planos na cabeça.” Quando foram a um advogado, descobriram que o tio de Keawe tinha ficado muito rico no final de seus dias, e lhe deixara muito dinheiro.
”Olha aí o dinheiro para a casa!”, exclamou Lopaka.
”Se vocês estão pensando em fazer uma casa nova”, disse o advogado, “tomem o cartão de um novo arquiteto, sobre quem tenho ouvido falar muito bem.”
”Ótimo, ótimo!”, exclamou Lopaka. “Aí está tudo o que planejamos. Continuamos a ser obedecidos.”
Então eles foram visitar o arquiteto, que tinha diversos projetos sobre a mesa. “Vocês desejam algo diferente?”, perguntou o arquiteto. “De que jeito vocês querem?” E ele estendeu uma planta a Keawe.
Na hora em que Keawe colocou os olhos no desenho, deu um grito de espanto, pois era a reprodução exata do que tinha imaginado.
”Essa casa é para mim”, ele pensou. “Mesmo que eu não goste do jeito como estão sendo feitas as coisas, já estou metido nisso e então posso tirar vantagem dessa perversidade.”
Então ele explicou para o arquiteto tudo o que queria, e como ele gostaria de ter a casa mobiliada, e sobre os quadros na parede e os adornos nas mesas; e depois pediu o orçamento.
O arquiteto perguntou muita coisa, pegou a caneta, fez um cálculo; e falou exatamente a soma que Keawe tinha herdado.
Lopaka e Keawe se olharam e concordaram com a cabeça.
”É claríssimo”, pensou Keawe, “que esta casa é para mim. É um presente do diabo, e eu receio que pouca coisa boa possa vir dele. Tenho certeza de que é melhor não pedir mais nada enquanto eu estiver com esta garrafa. Mas fico com a casa, é o que posso tirar de bom dessa perversidade.”
Então ele combinou tudo com o arquiteto, e os dois assinaram os papéis. Keawe e Lopaka voltaram para o navio e navegaram rumo à Austrália; no caminho, con- cluíram que não deveriam se intrometer em nada, mas deixar o arquiteto e o de- mônio da garrafa construir e decorar a casa conforme a vontade deles.
A viagem foi boa, Keawe apenas precisou se conter para não fazer outros desejos para a garrafa e então não tomar mais favores do demônio. Os amigos voltaram no prazo combinado. E o arquiteto lhes falou que a casa estava pronta. Keawe e Lopaka compraram uma passagem no Hall, e foram direto para Kona ver a casa, e conferir se tudo tinha ficado de acordo com o que Keawe tinha imaginado.
Pois bem, a casa ficava à beira da montanha, à vista dos navios. Acima, a montanha se estendia até as nuvens de chuva; abaixo, a lava negra escorria do precipício onde estavam enterrados os reis de outrora. Um jardim florescia em torno da casa com uma enormidade de espécies diferentes de plantas; e havia um pomar de papaia em uma ponta e um de fruta-pão na outra, e bem na frente, na direção do mar, um mastro fazia uma bandeira tremular. A casa tinha três andares, com cômodos enormes e uma bela sacada em cada um deles. As janelas eram de um vidro transparente como a água e brilhante como o dia. Todo tipo de mobília adornava os cômodos. Nas paredes, quadros estavam pendurados em mobílias douradas — quadros de navios, de homens lutando, das mulheres mais belas, e de lugares exóticos; nenhum lugar no mundo tinha quadros tão belos como os que Keawe pendurara em sua casa. Quanto aos enfeites, eles eram extraordinariamente elegantes: relógios de carrilhão e caixas de música, homenzinhos com a cabeça móvel, livros cheios de desenhos, armas dos quatro cantos do mundo, e os mais refinados quebra-cabeças para entreter o lazer de um homem solitário. E como ninguém habitaria tais aposentos, construídos apenas para o passeio e a admiração, as sacadas eram tão amplas que toda a cidade poderia viver nelas com conforto. Keawe não sabia o que preferia, se a varanda de trás, onde era possível sentir a brisa da terra e olhar os pomares e as flores, ou a sacada da frente, de onde se podia apreciar a maresia e admirar a costa da montanha e ver o Hall zarpando uma vez por semana em direção a Hookena e aos desfiladeiros de Pele, ou as escunas margeando a costa cheias de lenha e bananas.

Quando já tinham visto tudo, Keawe e Lopaka sentaram-se na varanda.
”Bom”, perguntou Lopaka, “e ficou como você tinha imaginado?”
”Não dá para dizer”, Keawe exclamou. “É melhor do que sonhei, e estou absolutamente satisfeito.”
”Só há uma coisa a considerar”, disse Lopaka, “tudo isto pode ser muito normal, e o demônio da garrafa não ter nenhuma participação. Eu não coloco a minha mão no fogo por nada deste mundo, tenho medo de comprar a garrafa e não ganhar minha escuna. Eu dei minha palavra, eu sei; mas acho que preciso ainda de outra prova.” “Mas jurei que não pediria outros favores”, disse Keawe. “Eu já fui longe demais.” “Não estou pensando em favores”, respondeu Lopaka. “Eu só quero ver o demônio. Não terei lucro nenhum com isso, e, portanto nada tenho para recear, mas, se conseguir vê-lo, terei certeza de toda a história. Permita-me essa ousadia e me deixe ver o demônio. O dinheiro está nas minhas mãos, veja. Depois, comprarei a garrafa.”
”Tenho receio só de uma coisa”, disse Keawe. “O demônio pode ser feio demais para ser visto, e se você colocar os olhos uma vez sobre ele, talvez perca o interesse pela garrafa.”
”Sou um homem de palavra”, disse Lopaka. “Vou deixar o dinheiro combinado aqui na nossa frente.”
”Muito bem”, respondeu Keawe. “Eu estou muito curioso. Então, vamos, senhor Demônio, deixe-me ver você.”
Bem na hora em que essas palavras foram pronunciadas, o demônio saiu da garrafa e rapidamente voltou para dentro, ligeiro como uma lagartixa; Keawe e Lopaka ficaram petrificados. A noite já avançara antes que eles tivessem conseguido pronunciar uma palavra; e então Lopaka empurrou o dinheiro na direção de Keawe e pegou a garrafa.
”Sou um homem de palavra”, ele disse, “e vou mostrar isso, ou eu não tocaria esta garrafa nem com os pés. Bom, quero minha escuna e algum dinheiro no bolso; depois me livro desse diabo o mais rápido possível. Para falar a verdade, a aparência dele me deprime.”
”Lopaka”, disse Keawe, “não me leve a mal; eu sei que já escureceu, que as estradas são ruins, que a passagem pelo cemitério é desagradável a esta hora, mas admito que desde que vi aquela pequenina cara, não posso comer, dormir ou orar até que ela esteja longe de mim. Vou dar a você uma lanterna, uma cesta para colocar a garrafa, e algum quadro ou qualquer outro mimo da minha casa que você deseje; mas vá de uma vez, vá dormir em Hookena com Nahinu.”
”Keawe”, disse Lopaka, “muitos homens levariam isso a mal; principalmente depois de ter sido tão simpático com você. Mantive minha palavra e comprei a garrafa; e, sobre o que dizia, a noite, a escuridão e o caminho pelo cemitério devem ser dez vezes mais perigosos para um homem com tal pecado na consciência e uma garrafa feito esta debaixo do braço. Mas, quanto a mim, estou tão gelado de horror que não tenho coragem de culpá-lo. Bom, eu vou indo; e vou pedir a Deus que você seja feliz na sua casa, e que eu tenha sorte com a minha escuna e que nós dois consigamos no final de tudo ir para o céu apesar do diabo e de sua garrafa.”
Então Lopaka saiu em direção à montanha; e Keawe na varanda da frente ouviu o barulho das ferraduras do cavalo, e viu a lanterna brilhando pelo caminho, e ao longo do desfiladeiro de cavernas onde os velhos mortos estavam enterrados; e em todo esse tempo ele tremia, esfregava as mãos, orava pelo amigo, e dava glória a Deus por ele próprio ter escapado daquela encrenca.
Mas o dia seguinte amanheceu tão brilhante, e a nova casa estava tão acon- chegante, que ele esqueceu seus medos. Um dia seguia o outro, e Keawe vivia lá em eterna alegria. Seu lugar preferido era a varanda dos fundos; era lá que ele comia e ficava lendo os jornais de Honolulu; mas quando alguém o vinha visitar, iam ver os cômodos e os quadros. A fama da casa se espalhou largamente, era chamada Ka-Hale Nui — uma bela casa — em toda a Kona; e algumas vezes Casa Esplendorosa, pois Keawe contratara um criado chinês que passava o dia tirando o pó e lustrando; e os vidros, o papel de parede, os elegantes assoalhos e os quadros brilhavam como a aurora ensolarada. Keawe não podia andar pelos cômodos sem cantar, seu coração estava muito alegre; e quando os navios singravam no mar, cumprimentavam-no içando a bandeira no mastro.
O tempo passava, até que um dia Keawe foi visitar um amigo na distante Kailua. Ele não quis perder muito tempo, e na manhã seguinte saiu o mais cedo que podia, cavalgando com ânimo, pois estava impaciente para voltar à sua bela casa; e, além disso, a noite seguinte era aquela em que os mortos de tempos passados vinham para os lados de Kona. Como já fizera negócio com o diabo, não desejava encontrar-se com os mortos. Na região de Honaunau, ao olhar adiante, avistou uma mulher se banhando à beira do mar. Parecia uma bela garota, mas ele não fez caso disso. Então viu sua camisa branca flutuar enquanto ela se vestia, e admirou seu holoku vermelho. Quando cruzou com ela, a moça tinha acabado de se arrumar e, saindo do mar, colocara-se ao lado da estrada com seu holoku vermelho; achou-a toda perfumada com o banho, seus olhos brilhavam e eram gentis. Keawe quis vê-la melhor e puxou as rédeas.
”Eu achava que conhecia todo mundo neste lugar”, disse ele. “Como nunca vi você?”
”Sou Kokua, filha de Kiano”, disse a garota, “acabei de voltar de Oahu. Quem é você?”
”Eu já vou falar com você”, replicou Keawe, descendo do cavalo, “mas não agora. Tenho algo em mente e se você souber quem sou, talvez não me dê uma resposta verdadeira. Antes de tudo me diga uma coisa: você é casada?”

Diante daquilo, Kokua riu bem alto. “É você que tem que responder”, ela disse. “E você, é casado?”
”Com toda a certeza, Kokua, não sou”, Keawe respondeu, “e nunca pensei em ser até este momento. Mas a verdade é que me encontrei com você aqui na estrada, vi seus olhos, que são como as estrelas, e meu coração voou para o seu como um pássaro. E então agora, se você não quer nada comigo, diga, e eu vou me colocar no meu devido lugar; mas se você acha que não sou inferior a qualquer outro homem jovem, diga também que volto para ter com seu pai e amanhã vou falar com o juiz de paz.”

Kokua não dizia nada, apenas olhava para o mar e ria.
”Kokua”, Keawe disse, “se você não diz nada, então entendo que consente; vamos ter com seu pai.”
Ela caminhava à frente dele, ainda sem falar; às vezes sorria e o olhava, colocando as alças do chapéu na boca.
Quando chegaram à porta, Kiano saiu na varanda, e cumprimentou Keawe pelo nome. A garota se animou com aquilo, pois a fama da Casa Esplendorosa já tinha chegado aos seus ouvidos e, com certeza, era uma tentação muito grande Passaram com felicidade a noite juntos; a garota foi audaciosa e atrevida mesmo diante dos pais, e brincou com Keawe, pois era muito espirituosa. No dia seguinte ele teve a palavra de Kiano e encontrou-se sozinho com a garota.
”Kokua”, disse ele, “você fez troça de mim durante toda a noite e ainda é tempo de me mandar embora. Não revelei a minha identidade por causa da minha bela casa; eu tinha receio de que você pensasse demais nela e pouco no homem que ama você. Agora que você sabe tudo, se deseja não me ver mais, diga de uma vez.” “Não”, disse Kokua, mas agora ela não riu nem perguntou qualquer outra coisa a Keawe.
Keawe a cortejava; as coisas estavam acontecendo muito rapidamente; mas uma flecha voa rápido também, e a bala de uma pistola mais ainda, e ambas acertam o alvo. O pensamento de Keawe era todo para a moça; ela ouvia sua voz na batida das ondas sobre a lava, e por aquele jovem que vira não mais que duas vezes, ela tinha deixado pai e mãe e sua terra natal. E no que toca a Keawe, seu cavalo voava sobre a montanha, e o som das ferraduras, e o som de Keawe cantando para si mesmo por prazer, ecoavam nas cavernas da morte. Quando chegou à Casa Esplendorosa, ainda estava cantando. Sentou-se e comeu em uma sacada, e o criado chinês aproximou-se admirado de seu patrão, para ouvir como ele cantava bem com a boca cheia. O sol desceu ao mar, e a noite veio; Keawe andou pela sacada acendendo os lampiões que brilhavam na montanha, e a voz dele cantando deixou sobressaltados os homens nos navios.
”Aqui estou no melhor lugar do mundo”, ele disse para si mesmo. “A vida não pode ser melhor; este é o cume da montanha; nada indica que estou na direção de algo ruim. Pela primeira vez vou iluminar todos os cômodos, lavar-me na minha magnífica banheira com água quente e fria, e dormir sozinho no meu leito nupcial.”
Então o criado chinês, que mal deitara, teve que se levantar para acender a fornalha; enquanto descia, além da caldeira, ouvia seu patrão cantando e se divertindo no andar de cima, nos cômodos iluminados. Quando a água começou a esquentar, o criado chinês chamou seu patrão e Keawe foi para o banheiro; o criado ouviu-o cantar também enquanto ele enchia a banheira de mármore; e ouviu-o cantar enquanto tirava a roupa, até que, surpreendentemente, a canção parou. O criado apurou os ouvidos e subiu para perguntar a Keawe se tudo estava bem, Keawe respondeu que sim e mandou-o ir para a cama; no entanto, não houve mais música na Casa Esplendorosa; e durante toda a noite o criado ouviu os pés de seu patrão vagarem pelas varandas sem descanso. Aqui está a verdade: enquanto Keawe se despia para o banho, encontrou sobre sua pele uma mancha parecida com o líquen de uma rocha. Ele parou de cantar, pois reconheceu a mancha, e percebeu que havia contraído o mal chinês: a lepra.

Bom, é uma coisa triste para qualquer um contrair essa enfermidade. E seria uma tragédia para todo mundo deixar uma casa tão bonita e tão aconchegante, e abandonar todos os amigos para ir para a costa de Molokai viver entre os desfiladeiros e o quebra-mar. Mas o que dizer de Keawe, que encontrara o amor no dia anterior, noivara naquela manhã, e agora via todas as suas esperanças desfalecerem, em um instante, como se quebra um pedaço de vidro?

Feito um louco, ele sentava à borda da banheira, então pulava e, com um grito, corria para fora, de um lado para o outro, perambulando pelas sacadas.
”Eu deixaria o Havaí, a terra dos meus pais, de boa vontade”, Keawe pensava. “Feliz, eu deixaria a minha casa, o melhor lugar do mundo, tão cheia de janelas sobre a montanha. Com toda a coragem eu iria para Molokai, para Kalaupapa no desfiladeiro, viveria junto aos outros infectados e dormiria lá, longe dos meus parentes. Mas o que fiz de errado, que pecado jaz na minha alma que me fez en- contrar Kokua saindo linda do mar ao fim do dia? Kokua, a dona da minha alma! Kokua, a luz da minha vida! Nunca vou poder me casar com ela! Nunca vou poder admirá-la! Não vou poder mais acariciá-la com minhas mãos apaixonadas; e é por isso, é por você, querida Kokua, que eu mais lamento!”

Agora, podemos saber o tipo de homem que Keawe era, pois ele poderia ficar na Casa Esplendorosa por anos, e ninguém saberia de sua moléstia; mas nada daquilo o interessava se ele perdesse Kokua. E, do mesmo jeito, ele poderia se casar com Kokua, como muitos espíritos de porco fariam; mas Keawe amava de verdade sua noiva, e não a prejudicaria ou a colocaria em perigo.

Um pouco depois da meia-noite, veio-lhe à mente a garrafa. Ele saiu à varanda dos fundos e relembrou o dia em que vira o demônio de tão perto. O sangue como que se congelou nas veias.
”Aquela garrafa é assustadora”, pensou Keawe, “o demônio é assustador, e é assustador arriscar-se a terminar nas chamas do inferno. Mas não tenho outra chance para curar a minha doença e me casar com Kokua. O quê!”, pensou, “fui capaz de desafiar o demônio para conseguir uma casa, e não o enfrentaria agora por Kokua?”

Depois, ele relembrou que o Hall zarparia dali a caminho de Honolulu. “Devo primeiro embarcar”, ele pensou, “e ver Lopaka. O melhor que tenho a fazer agora é achar aquela garrafa que me deu tanto prazer em mandar para longe.”
Ele não dormiu um segundo nem conseguiu comer qualquer coisa; escreveu uma carta para Kiano e, aproximadamente à hora em que o vapor estaria chegando, desceu pelo despenhadeiro do cemitério. Chovia; seu cavalo andava com vagar; ele olhava para a boca negra das cavernas, e invejava os mortos que lá dormiam e não enfrentavam adversidade nenhuma; e lembrou-se com surpresa do jeito que tinha galopado no dia anterior e ficou assombrado. Então ele desceu até Hookena, e como de costume toda a gente estava esperando pelo vapor. No depósito da loja, o povo estava sentado e contava as notícias; mas Keawe não tinha a menor vontade de falar. Ele sentou no meio dos outros e ficou olhando a chuva caindo nas casas, as ondas batendo nas rochas, enquanto os suspiros subiam à sua garganta.

“Keawe da Casa Esplendorosa está de mau humor”, disse um popular para outro. Na verdade, era isso mesmo e não havia nada de extraordinário.

Então o Hall apareceu, e o bote levou-o a bordo. A popa do navio estava tomada de Haoles — brancos — que tinham ido visitar o vulcão, como era hábito de seu povo; o meio estava cheio de Kanakas, e a proa, de búfalos selvagens de Hilo e cavalos de Kau; mas Keawe, triste, ficou afastado de tudo, com esperança de enxergar a casa de Kiano. Finalmente a avistou, sobre a costa nas pedras escuras, à sombra das palmeiras, e na porta estava um holoku vermelho, não maior do que uma mosca, e perambulando como um mosquito. ‘Ah, minha princesa, ele suspirou, “vou arriscar minha alma apenas por você!”

Logo caiu a noite, as cabines se iluminaram, os Haoles sossegaram e foram jogar cartas e beber uísque como sempre; mas Keawe andou pelo deque a noite toda; e todo o dia seguinte, e enquanto singravam pelo Maui ou por Molokai, ele estava ainda vagando para cima e para baixo como um animal selvagem enjaulado.

Ao cair da tarde cruzaram Diamond Head e entraram no píer de Honolulu-Keawe atravessou a multidão e começou a perguntar por Lopaka. Parece que ele se tornara proprietário de uma escuna — não havia outra melhor nas ilhas tinha ido em um cruzeiro atrás de aventuras para os lados de Pola-Pola ou Kahiki; então nada se podia esperar de Lopaka. Keawe lembrou-se de um amigo dele, um advogado na cidade (não devo revelar seu nome), e pediu informações. Disseram-lhe que ele havia ficado muito rico, e adquirira uma bela casa em Waikiki; e isso fez Keawe pensar uma certa coisa. Imediatamente chamou uma condução e foi até a casa do advogado.

A casa era novinha, as pequenas árvores do jardim adornavam o passeio, e o advogado, quando apareceu, tinha o ar de um homem muito feliz.
”O que posso fazer para ajudar?”, disse o advogado.
”Você é um amigo de Lopaka”, respondeu Keawe, “e Lopaka comprou de mim uma certa mercadoria cuja localização talvez você possa me esclarecer.”

A face do advogado se ensombreceu. “Não vou fingir que não sei nada, senhor Keawe”, disse ele, “ainda que seja esse um péssimo assunto. Não posso garantir, mas acredito que, se for a um certo bairro, talvez consiga alguma informação.”
Ele pronunciou o nome de um homem, que, de novo, acho melhor não repetir. E por alguns dias Keawe foi de um lado para o outro, sempre encontrando roupas novas, casas elegantes e homens muito felizes que, no entanto, ficavam com o rosto anuviado quando ele explicava seu propósito.

“Sem dúvida estou no caminho certo”, pensou Keawe. “Essas roupas novas e esses coches são presentes do demônio da garrafa, e esses rostos felizes são rostos de homens que tiraram seu lucro e se livraram em segurança da mercadoria desgra- çada. Quando vejo rostos pálidos e ouço suspiros, sei que estou perto da garrafa.” Chegou por fim à casa de um haole na rua Beritania. Quando Keawe se aproximou da porta, mais ou menos à hora da ceia, deparou-se com os típicos indícios: o jardim recente, a luz elétrica brilhando nas janelas; mas quando o proprietário saiu, uma onda de esperança e medo chacoalhou Keawe; pois ali estava um homem jovem, branco feito um fantasma, cheio de olheiras, o cabelo caindo, e os gestos de um condenado à forca.

“Ela está aqui, com certeza”, pensou Keawe, e então com esse homem ele não escondeu o motivo de sua peregrinação. “Vim comprar a garrafa”, disse.
Com aquilo, o jovem haole da rua Beritania se estatelou na parede.
”A garrafa!”, arquejou. “Comprar a garrafa!” Ele parecia estar em estado de choque, e, levando Keawe pelo braço, colocou-o em uma sala e serviu vinho em duas taças. “Receba meus cumprimentos”, disse Keawe, que naqueles dias tinha estado muito na companhia dos Haoles. “Sim”, ele acrescentou, “vim comprar a garrafa. Qual é o preço agora?”
Com aquilo o jovem deixou a taça escorregar por seus dedos, e olhou feito um fantasma para Keawe.
”O preço”, ele disse, “o preço! Você não sabe o preço?”
”É isso que estou perguntando”, respondeu Keawe. “Mas por que você está tão preocupado? Há alguma coisa errada com o preço?”
”O valor caiu muito desde quando você esteve com ela, senhor Keawe”, o outro gaguejou.
”Ótimo, ficará mais barato para mim”, disse Keawe. “Quanto custou?”
O jovem estava branco feito um lençol. “Dois centavos”, ele disse.
”O quê?”, disse Keawe, “dois centavos? Por isso então você só pode vendê-la por um. E quem a comprar”, as palavras morreram na língua de Keawe, “quem a comprar nunca mais poderia vendê-la, a garrafa e o demônio da garrafa ficariam com ele até a morte, e quando morresse o levariam para as chamas do inferno.”
O jovem da rua Beritania ajoelhou aos seus pés. “Pelo amor de Deus, compre a garrafa!”, ele gritou. “Você pode levar toda a minha fortuna com a compra. Eu estava louco quando a comprei por aquele preço. Eu tinha desviado dinheiro de uma loja; estava perdido e iria para trás das grades.”
”Pobre criatura”, disse Keawe, “você arrisca a alma por uma aventura e para evitar a punição e acha que eu poderia hesitar tendo o amor como objetivo. Me dê a garrafa, e o troco que com toda a certeza você já tem preparado. Aqui está uma moeda de cinco centavos.”
Keawe não se equivocara; o jovem separara o troco em uma gaveta; a garrafa trocou de mãos, e tão logo ela veio para as suas, Keawe pronunciou o desejo de curar-se. E, é lógico, quando foi para seu quarto e se despiu diante do espelho, viu que sua pele era como a de uma criança. E isso era estranho: logo que observou o milagre, seu espírito se transformou também, e ele esqueceu o mal chinês, e também não se interessava mais por Kokua; Keawe não tinha senão um pensamento, que estaria ligado ao demônio da garrafa para toda a eternidade. Ele não tinha melhor destino que o de queimar eternamente nas chamas do inferno. Na frente dele, via o fogo nos próprios olhos, sua alma ficou pequena, e a escuridão caiu sobre a luz.
Quando Keawe voltou a si, percebeu que havia escurecido e ouviu a orquestra do hotel tocando. Foi para lá, porque estava com medo de ficar sozinho; e entre os rostos felizes, andando para cima e para baixo, ouvindo os ritmos variarem, e vendo Berger tocar; no meio de tudo isso, ele ouvia as chamas crepitando, e via o fogo vermelho queimando. Surpreendentemente a orquestra começou a tocar a “Hi-kiao- ao”, uma canção que ele tinha cantado com Kokua, o que lhe recobrou o ânimo. “Agora já passou”, ele pensou, “e uma vez mais vou usufruir o bem que acompanha o mal.”
Encorajou-se a voltar para o Havaí no primeiro vapor. Tão logo conseguiu acertar tudo, estava casado com Kokua, e a levou para os lados da montanha, para a Casa Esplendorosa.
Quando eles estavam juntos, o coração de Keawe ficava sossegado; mas quando estava sozinho, sentia um grande horror, ouvia as chamas crepitarem, e via as fogueiras queimando. A moça tinha realmente se entregado a ele; o coração dela pulava apenas ao vê-lo, sua mão apontava na direção dele; e ela estava tão enfeitada, desde o cabelo até as unhas dos pés, que ninguém podia vê-la sem se alegrar. Tudo a deixava feliz e ela tinha sempre uma palavra gentil. Vivia cantando, e ia de um lado para o outro na Casa Esplendorosa, alegre como os pássaros. E Keawe ficava ouvindo-a com alegria, e então se encolhia e ia de lado chorar e pensar no preço que tinha pagado por ela; então secava os olhos, lavava o rosto, e ia ficar com ela nas varandas, divertindo-se com suas canções e, com o espírito doente, responder aos sorrisos dela.

Então veio o dia em que ela começou a arrastar os pés e suas canções se tornaram mais raras; e agora não era apenas Keawe que chorava, mas ambos, um escondido do outro em lados opostos da Casa Esplendorosa. Keawe estava tão imerso no seu desespero que quase não percebeu a mudança, e se sentia mais feliz porque tinha mais horas para sentar sozinho e lamentar seu destino. Agora não era tão freqüentemente condenado a colocar um sorriso forçado no rosto de um coração enfermo. Mas um dia, andando de leve pela casa, ouviu o som de uma criança chorando, e encontrou Kokua no chão da varanda esfregando o rosto e lamentando feito uma desgraçada.

“Você faz bem em chorar nesta casa, Kokua”, ele disse, “mas eu deixaria que cortassem a minha cabeça para fazer você feliz.”
”Feliz”, ela exclamou. “Keawe, quando você vivia sozinho na sua Casa Esplendorosa, não existia outro exemplo na ilha de homem feliz; o riso e a música estavam na sua boca, e seu rosto era tão brilhante quanto a aurora. Então você se casou com a pobre Kokua; e o bom Deus sabe o que é que falta nela – mas desde esse dia você não tem sorrido. Ah!”, ela exclamou, “o que eu tenho? Eu achei que fosse atraente, e sabia que o amava. O que eu faço que anuvia o rosto do meu marido?”

“Pobre Kokua”, disse Keawe. Ele sentou-se ao lado dela, e quis segurar sua mão; mas ela a puxou. “Pobre Kokua”, repetiu. “Minha pobre menina — minha querida. E eu tinha pensado apenas em poupar você! Certo, você precisa saber de tudo. Então, no mínimo, você vai se apiedar do pobre Keawe; e vai entender quanto ele amou você no passado — que ele enfrentou o inferno por você — e quanto ele ainda ama você e é capaz de sorrir quando está contigo.”

Com aquilo, ele contou tudo, desde o começo.
”Você fez isso por mim?”, ela exclamou. “Eu sou a causa disso?!” Kokua esfregou as mãos e chorou sobre ele.
’Ah, menina!”, disse Keawe. “No entanto, quando penso nas chamas do inferno, acho que estou bem-arranjado!”
”Não quero mais ouvir”, disse ela. “Nenhum homem pode estar perdido apenas por amar Kokua. Eu garanto a você, Keawe, vou livrá-lo com as minhas mãos, ou perecerei junto. O quê! Você me ama e me dá a sua alma, e agora pensa que eu não morrerei para tê-lo de volta?”
’Ah, meu amor, você poderia morrer centenas de vezes, e que diferença faria?”, ele exclamou, “a não ser me deixar sozinho até o momento da minha danação?”
”Você não sabe de nada”, disse ela. “Fui educada em uma escola de Honolulu; não sou uma moça qualquer. E estou dizendo que vou ficar com o meu amor. O que você dizia sobre um centavo? O mundo não é só a América. Na Inglaterra há uma moeda chamada farthing, que vale mais ou menos meio centavo. Ah!, Deus! , ela exclamou, “mas isso não muda muito, pois o comprador estaria condenado, e nós não acharemos ninguém mais corajoso do que o meu bravo Keawe! Mas então há a França; eles têm uma pequena moeda chamada cêntimo, cinco formam mais ou menos um centavo. Não podíamos ter nada melhor. Vamos, Keawe, vamos até as ilhas francesas; vamos para o Taiti o mais rápido possível. Lá nos temos quatro centimes, três, dois, um…; quatro possíveis vendas ainda poderão ser feitas; e nós dois para negociar. Venha, meu Keawe! Beije-me e esqueça tanta preocupação.

Kokua defenderá você.”
”Presente de Deus!”, ele exclamou. “Não posso pensar que Deus vai me punir por desejar algo tão bom! Será como você quiser, então, leve-me para onde você achar melhor: ponho a minha vida e a minha salvação nas suas mãos.”
No raiar do dia seguinte, Kokua iniciou os preparativos. Pegou o baú que Keawe usava no tempo de marinheiro; e antes de tudo guardou a garrafa em um canto, então a embrulhou com os melhores panos e a enfeitou com os mais belos adornos à mão. “Bom”, ela disse, “precisamos parecer gente rica, ou quem acreditará na garrafa?” Enquanto preparava, ela estava alegre feito um pássaro; apenas quando olhava para Keawe, as lágrimas saltavam de seus olhos, e ela tinha que correr e beijá-lo; quanto a Keawe, um peso tinha saído de suas costas; agora que ele tinha dividido o segredo e esperava resolvê-lo, parecia um novo homem, seus pés pisavam de leve a terra, e sua respiração estava de novo calma e tranqüila. Mas ainda assim ele sentia algum terror nos ombros; e às vezes, como o vento apaga uma vela, a esperança se lhe diminuía, e ele via as chamas dançando e o fogo vermelho do inferno.
O casal disse às pessoas que estava indo de férias aos Estados Unidos, o que pareceu estranho, mas não tanto quanto a verdade, se é que alguém pudesse saber dela. Então foram para Honolulu no Hall, e de lá no Umatilla para San Francisco, com uma multidão de haoles, e em San Francisco compraram uma passagem no paquete postal, o Tropic Bird, para Papeete, a principal cidade francesa nas ilhas do Sul. Chegaram lá, depois de uma viagem prazerosa, viram a encosta do quebra-mar, e Motuiti com suas palmeiras, uma escuna velejando, e as casas brancas da cidade estendendo-se ao longo da praia entre árvores verdes, logo abaixo das montanhas e nuvens do Taiti, a ilha da sabedoria.
Acharam que o melhor era alugar uma casa, e concluíram que seria uma em frente ao consulado britânico, para que pudessem mostrar como tinham dinheiro. Eles mesmos se faziam notar com carros e cavalos. Tudo isso era muito fácil de fazer, já que tinham a garrafa em seu poder. Kokua era mais atrevida que Keawe, pois, quando precisava, pedia à garrafa vinte ou cem dólares. Desse jeito eles logo foram notados na cidade; e os forasteiros do Havaí, com seus cavalos e coches, com elegantes holokus e os ricos colares de Kokua tornaram-se assunto de muita conversa.
Logo aprenderam a língua do Taiti, de resto muito semelhante à que se fala no Havaí, com a diferença de certas letras; e tão logo conseguiram alguma habilidade para falar, começaram a negociar a garrafa. Devemos considerar que esse não era um assunto fácil para começar uma conversa; não é simples persuadir as pessoas de que estamos sendo honestos quando lhes oferecemos por quatro centimes um rio de saúde e riquezas intermináveis. Era necessário, além disso, explicar os perigos da garrafa. As pessoas não acreditavam naquilo tudo e riam, ou então pensavam no lado negro, afastando-se daquelas pessoas que tinham um pacto com o diabo. Então, em vez de ter sucesso, os dois começaram a achar que estavam sendo evitados na cidade; as crianças fugiam deles aos berros, uma coisa intolerável para Kokua; católicos benziam-se à sua passagem; e todo mundo co- meçou a fugir deles.
A depressão tomou conta deles. Sentavam-se na sua casa nova, depois de um dia cansativo, e não trocavam uma palavra, ou o silêncio era quebrado por Kokua caindo, surpreendentemente, a soluçar. Às vezes rezavam juntos; às vezes deixa- vam a garrafa no chão e ficavam a noite toda observando a sombra mexer-se dentro dela. De vez em quando, tinham medo de ir descansar. Até que o sono tomava conta deles, e, se ambos adormecessem, era só para acordar e achar o outro chorando silenciosamente no escuro, ou, talvez, levantar sozinho, pois o outro vagava pela vizinhança com aquela garrafa, andando sobre as bananeiras no pe- queno jardim, ou caminhando pela praia à luz da lua.

Certa noite, quando Kokua acordou, Keawe tinha saído. Ela apalpou o lençol e o lugar dele estava frio. O medo a invadiu, e ela se sentou na cama. A persiana filtrava os raios de luz. A sala estava brilhante, e ela podia espiar a garrafa no chão. Lá fora o vento soprava forte, as árvores faziam um barulho alto, e as folhas caídas retiniam na varanda. No meio de tudo isso Kokua percebia outro som; se o de um monstro ou de um homem, ela não podia dizer, mas era triste feito a morte e de cortar o coração. Ela se levantou com cuidado, foi até a porta entreaberta e olhou o quintal iluminado pela luz da lua. Lá, debaixo das bananeiras, Keawe estava caído, com a boca na poeira, gemendo no chão.

O primeiro pensamento de Kokua foi correr para consolá-lo; o segundo a impediu. Keawe sempre se comportara em frente à esposa como um homem corajoso; ela não deveria se intrometer em um momento de fraqueza e vergonha. Pensando nisso, voltou para casa.

“Céus”, ela pensou, “quão descuidada eu tenho sido — quão fraca! É ele, não eu, que corre um perigo eterno; foi ele, não eu, que escolheu esse caminho para a alma. Tudo pelo meu bem, e tenho sido tão pequena e tão pouco solidária, que ele agora sente tão próximas as chamas do inferno. Sou tão cega que ate agora não percebi qual o meu dever ou o vi e virei as costas para ele? Mas agora, no mínimo, vou agarrar o meu sentimento com as duas mãos; agora vou dizer adeus aos brancos passos do céu e aos meus amigos. Amor por amor, e que o meu seja capaz de igualar-se ao de Keawe! Uma alma vale outra alma, e seja a minha a perecer!”

Ela era uma mulher hábil e logo estava pronta. Pegou o troco — os preciosos centimes que sempre carregavam; como aquela moeda é pouco usada, tinham-na arranjado nos escritórios do governo. Quando ela estava perto da via principal, o vento trouxe algumas nuvens que encobriram a lua. A cidade dormia, e ela não sabia para onde ir até que ouviu uma tosse na sombra das árvores.

“Senhor”, disse Kokua, “o que você está fazendo aqui fora na friagem noturna?”
O velho quase não podia se expressar por causa da tosse, mas Kokua notou que ele era velho e pobre, um forasteiro na ilha.
”O senhor me faria algo?”, disse Kokua. “Um favor de um forasteiro a outro, e de um senhor para uma jovem, você ajudaria uma filha do Havaí?”
“Ah”, disse o velho. “Então você é a bruxa das oito ilhas, e quer aprisionar a minha velha alma. Ouvi falar de você, e posso assegurar que a sua maldade nada poderá contra mim.”
”Sente-se aqui”, disse Kokua, “e me deixe contar uma história.” E ela contou-lhe a história de Keawe do começo ao fim.
”E agora”, disse ela, “sou sua esposa, por quem ele vendeu a alma. O que eu deveria fazer? Se eu mesma me oferecesse para comprá-la, ele recusaria. Mas se o senhor fosse, ele a venderia rapidamente; eu vou esperá-lo aqui; o senhor irá comprá-la por quatro centimes e eu vou recomprá-la por três. E Deus dê forças a uma pobre moça!”
”Se a senhorita tentasse me enganar”, disse o velho homem, “acho que Deus a mataria.”
”Mataria!”, exclamou Kokua. “Tenha certeza de que ele me mataria. Não posso ser tão traiçoeira, Deus não permitiria.”
”Me dê os quatro centimes e me espere aqui”, disse o senhor.

Então, quando Kokua ficou sozinha na rua, seu espírito desfaleceu. O vento assobiava nas árvores, o que lhe parecia o ataque das chamas do inferno; as sombras se estendiam diante dos luminosos das ruas, e.para ela aquelas eram as mãos sombrias dos demônios. Se tivesse forças, deveria correr dali, e se tivesse fôlego, gritaria bem alto; mas, na verdade, ela não conseguia fazer nada, e ficou em pé tremendo na avenida, como uma criança aflita.

Então ela viu o velho retornando com a garrafa nas mãos.
”Eu fiz seu desejo”, disse ele. “Deixei seu marido dormindo feito um bebê. Esta noite ele vai dormir bem.” E lhe estendeu a garrafa.
”Antes que me dê isso”, Kokua arquejou, “tire vantagem do diabo e peça para ficar livre da tosse.”
”Sou um velho”, respondeu o outro, “e muito perto do portão do cemitério para ter coisas com o diabo. Mas o que é isso? Por que você não pega a garrafa? Por que você hesita?”
”Não hesito!”, exclamou Kokua. ‘Apenas estou fraca. Me dê um momento. Minha mão resiste, minha pele resiste a fazer o que tem de ser feito. Só um momento!”
O velho homem olhou Kokua com carinho. “Pobre criança!”, disse ele, “você tem medo: sua alma a trai. Certo, me deixe com a garrafa. Eu sou velho, e não vou mais ser feliz neste mundo, e quanto ao outro —”
”Me dê!”, Kokua arquejou. ‘Aqui está o seu dinheiro. Você acha que sou tão ordinária assim? Me dê a garrafa.”
”Deus abençoe você, criança”, disse o velho.
Kokua segurou a garrafa sobre o seu holoku, disse adeus para o senhor, e saiu andando pela avenida, sem saber para onde. Todas as direções para ela agora eram as mesmas e conduziam igualmente ao inferno. Às vezes caminhava, e às vezes corria; às vezes ela gritava na noite, às vezes caía na poeira do passeio e chorava. Tudo o que ela tinha ouvido falar do inferno lhe vinha à cabeça; ela via as chamas crepitarem, sentia o cheiro da fumaça, e sua pele fumegava no carvão. Perto do amanhecer ela se acalmou e voltou para casa. Estava mesmo como o velho homem tinha dito — Keawe dormia como um bebê. Kokua parou na sua frente e contemplou seu rosto.
”Agora, meu marido”, ela disse, “chegou a sua vez de dormir. Quando você acordar poderá cantar e rir. Mas para a pobre Kokua, poxa! — para a pobre Kokua não há mais sono, nem mais música, nem mais alegria, tanto na terra como no céu.”
Com aquilo ela deitou-se no seu lado da cama, e sua dor era tão extrema que ela pregou os olhos na mesma hora.
No final da manhã, seu marido levantou e deu-lhe a boa notícia. Ele parecia bobo de alegria, e não prestou atenção no mal-estar de Kokua, ainda que ela não conseguisse disfarçar. As palavras morriam em sua boca e Keawe falava demais. Ela não comia nada, mas quem reparava nisso? Keawe esvaziava o prato. Kokua o ouvia, como se tudo não passasse de um pesadelo; havia momentos em que ela esquecia ou duvidava, e punha as mãos na testa, para saber da própria condenação e ouvir seu marido tagarelar, parecendo um monstro.
Enquanto isso Keawe estava comendo e falando, planejando o momento de seu retorno, e agradecendo-lhe por tê-lo salvado. Ele a acariciava, e a chamava de verdadeira salvadora. Logo Keawe começou a rir do velho, que tinha sido tolo o suficiente para comprar a garrafa.
”Ele parecia um velho digno”, Keawe disse. “Mas não se deve julgar pelas aparências. Para que o velhote quereria a garrafa?”
”Meu marido”, disse Kokua humildemente, “o propósito dele pode ser bom.”

Keawe riu com certo nervosismo.
”Besteira!”, exclamou Keawe. “Um velhaco, digo a você; um grande tolo. Era difícil demais vender a garrafa por quatro centimes; e por três será impossível. É só pensar nisso que já sinto o cheiro das chamas!”, disse ele, dando de ombros. “É verdade que eu mesmo a comprei por um centavo, quando não sabia que havia moedas ainda menores. Fiquei desesperado com os meus males, nunca haverá alguém que se desespere tanto quanto eu, e quem quer que seja que fique com ela terá que lhe fazer companhia até o abismo.”
”Oh, meu marido!”, disse Kokua. “Não é uma coisa terrível salvar alguém em troca da eterna ruína de outro? Não me parece que eu possa rir. Eu me rebaixaria e ficaria tomada de tristeza. Eu oraria pelo pobre condenado.”
Então Keawe, ao perceber que ela dizia algumas verdades, ficou ainda mais nervoso. “Tolices!”, exclamou. “Encha-se de melancolia se você quiser. Isso não é coisa para uma boa esposa. Se você pensasse apenas em mim, sentiria vergonha por causa disso.”
Nesse instante ele saiu e Kokua ficou sozinha.
Que chance ela tinha de vender a garrafa por dois centimes? Nenhuma. E se ela tivesse alguma, aqui estava o seu marido apressando-se para voltar a um país onde não havia nada menor que um centavo. E no momento daquele sacrifício, seu marido a abandonava e censurava.
Ela nem sequer tentaria conseguir alguma coisa no tempo que lhe restava, mas sentou-se em casa, apanhou a garrafa e ficou olhando-a com indisfarçável terror. Depois, cheia de ódio, jogou-a longe.
Mais tarde, Keawe voltou e quis levá-la para passear.
”Meu marido, não estou bem”, ela disse. “Estou indisposta. Desculpe-me não vou conseguir me divertir.”
Então Keawe ficou mais irritado do que antes. Com ela, porque achava que estava pensando demais no problema do velho; e com ele mesmo, porque achava que ela estava certa, e sentia vergonha por estar feliz.
”É esse o seu jeito de pensar”, exclamou, “são esses os seus sentimentos! Seu marido apenas foi salvo da desgraça eterna em que ele tinha se colocado por amor a você — e você não se sente feliz. Kokua, você não tem um coração leal.”
Ele saiu outra vez, furioso, e vagou o dia todo pela cidade. Encontrou amigos, e bebeu com eles; depois, arranjaram uma condução e foram para o campo, e lá beberam mais uma vez. Keawe sempre acabava deprimido, porque se divertia enquanto sua esposa estava triste, e porque ele no fundo sabia que ela estava mais certa do que ele. A consciência disso o fazia beber ainda mais.
Um haole brutal veio beber com ele, um que tinha sido marinheiro em uma baleeira — um garimpeiro fugitivo e condenado. Ele tinha a cabeça vazia e a boca cheia; adorava beber e ver os outros bêbados; e pressionava Keawe a beber. Logo, não tinham mais dinheiro.
”Olha aqui!”, diz o marinheiro, “você é rico, é o que sempre diz. Você tem uma garrafa ou alguma feitiçaria.”
”É”, Keawe respondeu, “vou voltar e pegar algum dinheiro com a minha esposa, ela é que cuida disso.”
”É uma má idéia, camarada”, disse o outro. “Nunca confie dinheiro a uma pequena. Elas são tão instáveis quanto a água; fique de olho.”
Aquela frase ficou martelando na mente de Keawe; ele estava confuso, pois tinha bebido muito.
”Eu não ficaria admirado se ela fosse uma falsa, por certo”, pensou. “Por que ela ficaria tão deprimida com a minha libertação? Mas vou mostrar-lhe que eu não sou homem para ser enganado. Vou pegá-la de surpresa.”
Assim, quando voltaram à cidade, Keawe disse para o marinheiro esperar por ele na esquina, perto da velha cadeia, e seguiu em frente sozinho para a porta da sua casa. A noite tinha caído; havia luz, mas nenhum som; ele contornou a casa, abriu a porta dos fundos delicadamente e olhou para dentro.

Kokua estava no chão, ao lado da lâmpada; atrás dela uma garrafa branca feito leite, longa e larga; quando a via, Kokua esfregava as mãos desesperada.
Keawe ficou parado olhando da entrada por um longo tempo. De início, ficou estacado feito bobo; e então teve medo de que a negociação não tivesse sido feita convenientemente, e a garrafa voltado para ele como tinha acontecido em San Francisco; seus joelhos estavam moles, e os vapores do vinho subiam-lhe à cabeça como um rio pela manhã. E então ele teve um pensamento estranho, que fez seu rosto corar.

“Tenho que descobrir o que aconteceu”, pensou ele.
Keawe fechou a porta, contornou discretamente a casa outra vez e voltou silenciosamente como se estivesse chegando naquele momento. E, ora!, quando abriu a porta da frente, não viu garrafa nenhuma. Kokua, sentada em uma cadeira, parecia estar acordando de uma soneca.
”Fiquei o dia inteiro na farra”, disse Keawe. “Encontrei uns caras legais, e voltei apenas para pegar dinheiro. Vou continuar bebendo e farreando com eles.”
Seu rosto e sua voz estavam muito sérios, mas Kokua parecia muito perturbada para olhar.
”Meu marido, fico feliz que você esteja se divertindo”, ela disse com palavras perturbadas.
”Gosto de tudo bem-feito”, disse Keawe, indo direto à arca pegar algum dinheiro. A garrafa não estava no lugar de sempre.
O baú ondulava no chão como uma grande onda, e um véu de fumaça cobriu a casa, pois ele viu que estava perdido, e não tinha a menor escapatória. “É o que eu temia”, ele pensou. “Ela comprou a garrafa.”
E então ele teve consciência de tudo e o suor, denso como a chuva e frio feito a água do campo, lavou seu rosto.
”Kokua”, disse ele, “falei hoje para você coisas que a machucaram. E depois fui para a farra”, e ele riu com timidez. “Eu ficaria muito feliz se você me perdoasse.”
Ela lhe abraçou os joelhos e beijou-os com lágrimas nos olhos.
”Oh”, ela exclamou, “eu não pedi mais do que uma palavra gentil!”
”Não vamos mais ter pensamentos ruins um do outro”, Keawe disse antes de sair.
O dinheiro que Keawe tinha pegado era somente alguns dos centimes que eles tinham separado quando chegaram. Era verdade que ele não pretendia beber. Sua esposa tinha dado sua alma por ele, agora ele devia dar a sua por ela; Keawe não conseguia pensar em mais nada.
Na esquina, perto da velha cadeia, o marinheiro estava esperando.
”Minha esposa está com a garrafa”, disse Keawe, “e, a menos que você me ajude a recuperá-la, não vamos ter nem mais dinheiro nem mais bebida esta noite.”
”Não vai me dizer que o poder da garrafa é verdadeiro?”, exclamou o marinheiro. “Olhe-me contra a luz”, disse Keawe. “Pareço estar fazendo piada? É o seguinte”, Keawe continuou, “aqui estão dois centimes; você deve ir até minha esposa, e oferecer isso pela garrafa, e (se eu não estiver muito errado) ela irá dá-la imediatamente. Traga-a aqui que vou comprá-la de você por um centavo, pois j essa é a regra com a garrafa, que tem que ser vendida por uma soma menor. Mas seja lá o que você fizer, não diga a ela que esteve comigo.”
”Companheiro, você está brincando?”, perguntou o marinheiro.
”Se eu estivesse, mesmo assim nada de mau aconteceria a você”, replicou Keawe. “Está certo, camarada”, disse o marinheiro.
”E se você duvida de mim”, acrescentou Keawe, “faça um teste. Logo que sair da minha casa, deseje ter o bolso cheio de dinheiro, ou uma garrafa do melhor rum, ou qualquer outra coisa, e você vai ver o poder da garrafa.”
”Muito bem, Kanaka”, disse o marinheiro. “Vou tentar, mas se você estiver rindo de mim, vou me vingar do seu humor com uma bela porretada.”
Então o caçador de baleias subiu a avenida; e Keawe ficou esperando-o. Era mais ou menos no mesmo lugar onde Kokua tinha ficado na noite anterior; mas Keawe estava mais decidido, e nunca falharia em seu propósito; somente a alma dele estava amarga de desespero.
Muito tempo parecia ter passado até ele ouvir uma voz cantando na escuridão da avenida. Ele reconheceu o marinheiro; era estranho que o sujeito já estivesse tão bêbado.
O homem se aproximou cambaleando. Ele tinha a garrafa do demônio no bolso do seu casaco; outra garrafa estava nas suas mãos; e mesmo quando ele se deixou ver, levou esta última à boca e deu um trago.
”Você está com ela”, Keawe disse. “Eu a vi.”
”Se afaste!”, exclamou o marinheiro, pulando para trás. “Mais um passo em minha direção, e eu arrebento sua boca. Você achou que faria gato-sapato de mim, não foi?”
”O que você está querendo dizer?”, exclamou Keawe.
”Querendo dizer?”, replicou o marinheiro. “Esta é uma garrafa maravilhosa, é isso o que eu penso. Como eu a comprei por dois centimes não vou explicar, mas pode ter certeza de que você não vai levá-la por um.”
”Você não quer vendê-la?”, Keawe gaguejou.
”Não, senhor”, exclamou o marinheiro. “Mas vou lhe dar um gole de rum, se você quiser.”
”Eu falei a você”, disse Keawe, “que o homem que ficar com a garrafa vai para o inferno.”
”Vou de qualquer jeito”, replicou o marinheiro; “e esta garrafa será minha melhor companhia, amigo!”, ele exclamou novamente. “A garrafa é minha agora, e vê se se manda e vai arranjar outra para você.”
”Não pode ser verdade”, Keawe exclamou. “Para o seu bem, eu rogo que você me devolva a garrafa!”
”Não estou nem aí para o que você fala”, respondeu o marinheiro. “Você achou que eu fosse um bobo, agora pode ver que não sou. E isso é tudo. Se não quer um trago, eu quero. À sua saúde e boa noite para você!”
Então ele desapareceu a caminho da cidade e a garrafa foi-se desta história junto com ele.
Keawe voou como o vento para a companhia de Kokua; e a alegria deles naquela noite foi enorme; e maravilhosa, desde então, tem sido a paz que impera na vida deles na Casa Esplendorosa.