O Cirurgião de Gaster Fell – Arthur Conan Doyle

O Cirurgião de Gaster Fell

Arthur Conan Doyle

I. De como ela apareceu em Kirkby-Malhouse

Gélida e fustigada de ventos é a pequena Kirkby-Malhouse, agrestes e assustadores são os morros onde ela se ergue. A cidadezinha nada mais é do que um punhado de casas de pedra cinzenta e telhado de ardósia enfileiradas numa encosta forrada de tojo da vasta charneca ondeada. Ao norte e ao sul, alargam-se as curvas das terras altas de Yorkshire, cada qual tentando espiar o firmamento por sobre a espalda da outra, com laivos de amarelo em primeiro plano diluídos mais adiante em tons azeitonados, salvo onde o solo ralo e estéril se mostra marcado por longas cicatrizes de pedra. Do árido outeiro logo acima da igreja é possível descortinar, a oeste, uma franja de ouro por sobre um arco de prata, bem onde o mar da Irlanda banha as areias de Morecambe. A leste, o Ingleborough assoma arroxeado à distância; ao passo que o Pennigent se ergue num pico afilado cuja sombra imensa, como se fora o quadrante solar da própria Natureza, arrasta-se a passos lentos pela rústica imensidão escalvada.

Foi nesse solitário e isolado povoado que eu, James Upperton, me vi no verão de 1885. Por pouco que tivesse a oferecer, a aldeia possuía aquilo pelo que eu ansiava acima de tudo – isolamento e libertação de quanto pudesse me distrair das excelsas e graves questões que me ocupavam a mente. Eu estava cansado do interminável turbilhão e dos inúteis empenhos da vida. Desde muito jovem, consumira meus dias em aventuras impetuosas e experiências estranhas, até que, aos trinta e nove anos, restavam pouquíssimas terras a conhecer e um número ainda menor de alegrias e mágoas a experimentar. Fui um dos primeiros europeus a explorar as plagas desoladas em torno do lago Tanganica; por duas vezes percorri as selvas impenetráveis e raramente visitadas que margeiam o vasto planalto de Roraima. Como mercenário, servi sob várias bandeiras. Estive com Jackson no vale de Shenandoah; e lutei com Chanzy no Exército do Loire. Talvez pareça estranho que, depois de vida assim tão emocionante, eu pudesse me render à rotina monótona e aos interesses banais da aldeola de West Riding. No entanto, existem estímulos da mente para as quais os meros perigos físicos ou a exaltação da viagem são lugares-comuns, banalidades. Durante anos, eu havia me dedicado ao estudo das filosofias místicas e herméticas do Egito, Índia, Grécia e Idade Média, até que, do vasto caos, começou a se tornar vagamente perceptível um colossal projeto simétrico para aquilo tudo; eu tinha a impressão de estar prestes a encontrar a chave do simbolismo usado pelos eruditos para separar seus conhecimentos preciosos do vulgar e do viciado. Gnósticos e neoplatônicos, caldeus e rosa-cruzes, místicos indianos, eu via e entendia que parte cada um tinha em quê. Para mim, o jargão de Paracelso, os mistérios dos alquimistas e as visões de Swedenborg estavam todos prenhes de significado. Eu havia decifrado as enigmáticas inscrições de El Biram; conhecia as implicações daqueles curiosos caracteres inscritos por uma raça desconhecida nos penhascos meridionais do Turquestão. Imerso nesses fantásticos e fascinantes estudos, eu não pedia nada da vida, salvo uma mansarda para mim e meus livros, onde pudesse dar prosseguimento aos estudos sem interferência nem interrupção.

Contudo até nessa aldeota em plena charneca percebi que era impossível me desvencilhar por completo da crítica de meus semelhantes. Sempre que eu passava, os broncos moradores me olhavam de soslaio e, ao descer a rua do vilarejo, as mães arrebanhavam seus filhos. À noite, não era raro ver, pelas vidraças, magotes de campônios atoleimados a espichar o pescoço para dentro de meu quarto, num êxtase de medo e curiosidade, tentando decifrar que afazeres solitários seriam aqueles que me mantinham tão entretido. Minha própria senhoria transformou-se numa criatura loquaz e, munida de uma enfiada de perguntas e de um sem-número de pequenos estratagemas, ao menor pretexto procurava fazer-me falar de mim e de meus planos. Tudo isso já era difícil de suportar; mas no dia em que soube que não seria mais o único inquilino na casa e que uma dama, uma estranha, havia alugado o outro aposento, senti que, de fato, para quem estava atrás da quietude e da paz propícias aos estudos, chegara a hora de procurar um ambiente mais tranquilo.

Devido às frequentes caminhadas por lá, eu conhecia muito bem toda a área deserta e desolada onde Yorkshire faz divisa com Lancashire e com a região de Westmoreland. Partindo de Kirkby-Malhouse, já havia atravessado várias vezes, de ponta a ponta, aquela vastidão despovoada. Sob a majestade soturna do cenário, e diante do espantoso silêncio e solidão daquele ermo melancólico e pedregoso, eu tinha a impressão de ter encontrado um asilo seguro contra bisbilhotices e críticas. E, por sorte, num dos passeios, topara com uma remota moradia em plena charneca desabitada que, na mesma hora, resolvi ter para mim. Era uma casinhola de dois cômodos que, tempos antes, teria decerto pertencido a algum pastor, já bastante deteriorada. Com as chuvaradas de inverno, as águas do Gaster Beck, que descem pelo morro de Gaster Fell, transbordaram e arrancaram parte da parede da choupana. Também o telhado achava-se em péssimo estado e havia pilhas de telhas esparramadas pela relva. Contudo, a estrutura principal da casa continuava firme; não seria nada difícil restaurá-la. Embora não fosse rico, eu tinha com que executar capricho tão modesto de maneira senhoril. Chamei telhadores e carpinteiros de Kirkby-Malhouse e em pouco tempo a casinha solitária de Gaster Fell estava pronta para enfrentar de novo as intempéries.

Projetei os dois cômodos de modo radicalmente diferente – tenho gostos mais para o espartano e um dos aposentos foi planejado de forma a combinar com eles. Um fogão a óleo da Rippingille de Birmingham dava-me a ferramenta onde cozinhar, ao passo que dois sacos de bom tamanho, um de farinha, o outro de batatas, tornavam-me independente de quaisquer fornecimentos externos. Em questão de dieta, sou já há bastante tempo um pitagórico, portanto as ovelhas descarnadas de pernas compridas que pastavam o capim áspero das margens do Gaster Beck não tinham nada a temer de seu novo companheiro. Um tonel de óleo de nove galões fazia as vezes de aparador; ao passo que uma mesa quadrada, uma cadeira de pinho e uma cama baixa, sobre rodas, que durante o dia ia para debaixo do sofá, completavam a lista de meu mobiliário doméstico. Em cima do sofá, presas à parede, duas prateleiras de madeira, sem pintura, serviam a funções diversas: a de baixo era para guardar os pratos e utensílios de cozinha, a de cima, para os poucos retratos que me transportavam de volta ao que sobrara de agradável na longa e exaustiva batalha por riquezas e prazeres que constituiu a vida que deixei para trás.

Mas se a simplicidade desse meu cômodo beirava a mesquinhez, sua pobreza era mais do que compensada pela opulência do aposento fadado, em benefício da mente, a receber objetos em sintonia com os estudos a ocupá-la, já que as mais sobranceiras e etéreas condições do pensamento só são possíveis em meio a atmosferas que agradam à vista e recompensam os sentidos. Decorei o aposento destinado a meus estudos místicos num estilo tão soturno e majestoso quanto as ideias e aspirações com as quais a saleta teria de congraçar. Tanto as paredes como o teto foram revestidos com um papel do mais suntuoso e brilhante negror, no qual se desenhavam lúgubres arabescos de ouro fosco. Uma cortina de veludo negro cobria a única janela dividida em pequenas vidraças; e, no chão, um tapete grosso e macio, do mesmo material da cortina, evitava que o som de meus próprios passos, andando para lá e para cá, interrompesse o fluxo de minhas ideias. Ao longo da sanefa, corria uma vareta de ouro da qual pendiam seis quadros, todos sombrios e imaginosos, conforme convinha a minhas fantasias. Dois, segundo me lembro, tinham sido pintados por Fuseli; um por Noel Paton; um por Gustave Doré; e dois por Martin; além de uma pequena aquarela do incomparável Blake. E um único fio de ouro, tão fino que mal se via, mas de enorme resistência, descia do meio do teto, tendo na ponta uma pomba do mesmo metal, balouçando com as asas abertas. O pássaro era oco e continha dentro do corpo óleos perfumados; sobre a lâmpada, flutuando a modo de sílfide, uma silhueta estranhamente esculpida em cristal rosa conferia à luz da sala uma tonalidade suave e rica. Uma lareira de bronze, forrada de malaquita, duas peles de tigre sobre o tapete, uma mesinha de madeira marchetada e duas poltronas de ébano estofadas com pelúcia cor de âmbar completavam o mobiliário de meu pequeno e elegante gabinete de estudos, sem esquecer, claro, que, sob a janela, estendiam-se compridas estantes contendo as obras mais importantes daqueles que haviam se ocupado com os mistérios da vida.

Boehme, Swedenborg, Danton, Berto, Lacci, Sinnett, Hardinge, Britten, Dunlop, Amberley, Winwood Reade, Des Mousseaux, Alan Kardec, Lepsius, Sepher, Toldo e Dubois eram alguns dos que se achavam enfileirados em minhas prateleiras de carvalho. Quando acendia a lâmpada, à noite, e a luz sinistra e bruxuleante brincava por aquele ambiente sombrio e bizarro, ao som das lamúrias do vento varrendo a imensidão sorumbática, o efeito era mais do que perfeito. Ali estava, por fim, o vórtice escuro do fluxo apressado da vida onde me seria permitido descansar em paz, olvidando e olvidado.

Todavia, antes mesmo de alcançar esse ancoradouro tranquilo, eu estava destinado a aprender que ainda fazia parte da espécie humana e que não era bom tentar romper os laços que nos ligam a nossos semelhantes. Faltavam duas noites apenas para a data que havia marcado para me mudar quando me dei conta de um movimento no andar de baixo e escutei, além de fardos pesados sendo transportados pelas escadas barulhentas de madeira, a voz rude de minha senhoria aos brados de boas-vindas e manifestações de júbilo. De tempos em tempos, em meio ao turbilhão de palavras, dava para discernir uma voz branda, de melodia suave, que me soou muito agradavelmente aos ouvidos, depois das longas semanas escutando apenas o rude dialeto dos vales de Yorkshire. Durante uma hora ainda, ouvi o diálogo lá embaixo – uma voz ardida e outra suave, acompanhadas do tilintar de xícaras –, até que o estralo de uma porta me avisou que a nova inquilina recolhera-se em seu quarto. Portanto lá estavam meus temores concretizados e meus estudos prejudicados com a chegada da estranha. Jurei a mim mesmo que o segundo pôr do sol já me veria instalado, a salvo de todas essas influências insignificantes, em meu santuário de Gaster Fell.

Na manhã seguinte a esse incidente, achava-me eu desperto logo cedo, como é meu costume; mas surpreendi-me, ao dar uma olhada pela janela, de ver que a nova moradora havia se levantado mais cedo ainda. Ela descia a trilha estreita que fazia um zigue-zague pelo morro – uma mulher alta e esbelta, com a cabeça pensa sobre o colo e uma braçada de flores silvestres colhidas em andanças matutinas. O branco e o rosa do vestido, e o toque da fita de um vermelho muito vivo em volta do chapéu de abas largas, pespegavam uma deliciosa mancha de cor na paisagem pardacenta. Ela estava a certa distância quando a vi pela primeira vez, mas ainda assim sabia que essa mulher errante só poderia ser a recém-chegada da noite anterior, posto que havia uma graça e um refinamento em seu talhe que a distinguiam das demais moradoras da região. Eu ainda observava quando, muito ligeira e leve, ela se aproximou da casa, abriu o portão no extremo do jardim, acomodou-se no banco verde defronte à minha janela, espalhou as flores todas nele e começou a arrumá-las.

Ali sentada, com o sol nascente batendo-lhe nas costas e o brilho da manhã espalhando-se qual uma auréola em torno da cabeça altiva e grave, pude ver que se tratava de uma mulher de extraordinária beleza. O rosto era mais espanhol que inglês – oval, trigueiro, iluminado por dois reluzentes olhos negros e uma boca docemente sensível. Por sob o amplo chapéu de palha, grossos cachos de cabelo negro-azulado acompanhavam de ambos os lados a curva graciosa do régio pescoço. Espantei-me, durante meu exame, ao constatar que sapatos e saia guardavam marcas de bem mais do que um mero passeio matinal. O vestido de tecido leve estava salpicado de lama, molhado e amarfanhado; ao passo que as botinas exibiam grandes grumos de terra amarelada, o solo característico dos morros da região, grudados em volta. Também o rosto trazia uma expressão cansada e sua beleza, tão jovem, parecia sombreada por uma nuvem de problemas íntimos. E, ainda enquanto eu observava, ela caiu num choro convulsivo e, atirando o ramalhete de flores ao chão, correu ligeira para dentro de casa.

Ainda que desatento e indiferente às coisas do mundo, fui tomado por uma súbita onda de compaixão ao ver o acesso de desespero que se apossou daquela linda estranha. Curvei-me sobre os livros, mas não consegui desviar o pensamento do rosto belo e altivo, do vestido enodoado, da cabeça pensa e das mágoas evidenciadas em cada traço das feições pensativas. Cheguei a ir algumas vezes até a janela e olhar para fora, a ver se vislumbrava sinais de que ela voltara ao jardim. Os galhos floridos de tojo e de urze continuavam onde tinham sido deixados, sobre o banco verde; porém durante todo aquele começo de manhã não vi nem ouvi o menor sinal daquela que tão de repente me despertara a curiosidade e mexera com emoções havia tanto tempo dormentes.

A sra. Adams, minha senhoria, tinha o hábito de me levar um desjejum frugal; contudo era muito raro que lhe permitisse interromper meu fluxo de ideias ou desviar-me a atenção de assuntos mais graves com sua conversa ociosa. Nesse dia, porém, pela primeira vez ela me encontrou disposto a ouvir e, sem precisar de grandes incentivos, pôs-se a despejar em meus ouvidos tudo quanto sabia de nossa bela visitante.

“Senhorita Eva Cameron é o nome da jovem. Mas quem é ela, ou de onde saiu, isso eu não sei. Pode ser que tenha vindo parar em Kirkby-Malhouse pelos mesmos motivos que trouxeram também o senhor para cá.”

“É possível”, retruquei, sem fazer conta da pergunta subentendida. “Mas eu jamais imaginaria que Kirkby-Malhouse fosse lugar para oferecer grandes atrativos a uma jovem.”

“O senhor não sabe, mas o povoado é bem alegre nos dias de festa”, disse a sra. Adams. “Agora, vai ver que ela veio em busca de um pouco de saúde e descanso, mais nada.”

“É bem provável”, concordei, mexendo o café. “E, sem dúvida, algum amigo seu aconselhou-a a vir procurá-los aqui, nos confortabilíssimos aposentos que a senhora aluga.”

“Pois então, meu senhor!”, exclamou a senhoria. “É justamente isso que me espanta. A dama acabou de chegar da França. Como é que os parentes dela ficaram sabendo a meu respeito, eu não entendo. Uma semana atrás, me chega um homem na porta, muito bem-posto, um verdadeiro cavalheiro, isso daria para ver até com um olho fechado. ‘Senhora Adams?’, me perguntou ele. ‘Quero alugar aposentos para a senhorita Cameron. Ela estará aqui em uma semana’, ele me disse. E só, nem mais uma palavra. Pois não é que ontem à noite me chega ela em pessoa, muito meiga e modesta, com um quê de francês na fala? Mas por Deus do Céu! O senhor me desculpe, preciso descer e preparar um chá, porque a pobrezinha vai se sentir muito sozinha, quando acordar debaixo de um teto estranho.”

II. De como me mudei para Gaster Fell

Eu ainda fazia meu desjejum quando escutei um tilintar de pratos e as passadas da sra. Adams indo até os aposentos da nova inquilina. Instantes depois, minha senhoria saiu de novo para o corredor e invadiu meus aposentos com as mãos erguidas e os olhos esbugalhados.

“Deus de misericórdia divina!”, ela exclamou. “Perdão vir entrando assim sem mais nem menos, mas receio que tenha acontecido algo com a jovem. Ela não está no quarto.”

“Ora, ora, lá está ela”, disse eu, pondo-me de pé para espiar pela janela. “Ela voltou para recolher as flores que largou no banco.”

“Mas olhe só o estado em que estão as botinas e o vestido dela”, protestou a senhoria, desorientada. “Como eu gostaria que a mãe dela estivesse junto! Por onde ela andou, eu não sei nem quero saber, mas que a cama não foi mexida desde ontem à noite, disso eu tenho certeza.”

“Ela deve ter sentido alguma inquietude e saiu para dar uma volta, mais nada, se bem que a hora, de fato, é um tanto estranha”, disse eu.

A sra. Adams franziu os lábios e sacudiu a cabeça, diante da vidraça. E foi nesse momento que a moça lá embaixo ergueu os olhos para ela, sorridente, e, com um gesto alegre, pediu-lhe que abrisse a janela.

“A senhora está com meu chá aí?”, perguntou com uma voz cristalina, marcada por um quê da afetação do francês.

“Está no seu quarto, senhorita.”

“Veja só minhas botinas, senhora Adams!”, gritou ela, tirando os pés de sob a saia, para mostrar o calçado. “Esses morros de vocês são pavorosos, effroyables [horrorosos]. Dois centímetros, cinco centímetros, nunca vi tanta lama na vida! E meu vestido também, voilà [aqui está].”

“Estou vendo, senhorita. Que situação, não é mesmo?”, gritou a senhoria de volta, fitando o vestido emporcalhado. “Mas acho que o problema maior é o cansaço. Deve estar morrendo de sono.”

“Não, não, que nada”, respondeu a jovem, dando risada. “Eu não gosto de dormir. O que é o sono? Uma pequena morte, voilà tout [isso é tudo]. Mas, a meu ver, andar, correr, respirar, isso é viver. Eu não estava cansada, de modo que durante a noite inteira, explorei as colinas de Yorkshire.”

“Meu Deus do céu! E por onde andou?”, perguntou a sra. Adams.

Ela fez um gesto largo com a mão que incluiu todo o horizonte do lado oeste. “Por lá”, disse ela. “Ô comme elles sont tristes et sauvages, ces collines [Ó, como são tristes e selvagens, estas colinas]! Mas eu trouxe flores. A senhora me dará um pouco de água, não é mesmo? Caso contrário, elas vão murchar.” Dito isso, juntou seus tesouros no colo e, um instante depois, escutamos passos leves e ágeis subindo a escada.

Quer dizer então que ela havia passado a noite toda fora, essa estranha mulher. Que motivo teria ela para trocar o conforto de seu quarto pelo ermo desolado de morros gelados? Seria talvez apenas o desassossego, a vontade de aventura que acomete os jovens? Ou haveria nisso, nessa excursão noturna, quem sabe, algum motivo mais profundo?

Enquanto andava de lá para cá no quarto, lembrei da cabeça pensa, da dor estampada na face e da violenta crise de choro que por acaso eu presenciara da janela. Valia dizer que a missão noturna, qualquer que tivesse sido, não deixara o menor vestígio de prazer em sua esteira. No entanto, ainda quando pensava nisso, escutei o alegre tinido de sua risada e os protestos, com voz levemente alterada, diante dos cuidados maternais com que a sra. Adams insistia para que tirasse as roupas sujas de barro. Por profundos que fossem os mistérios que meus estudos me haviam ensinado a resolver, ali estava um problema humano que, pelo menos por enquanto, estava além de minha compreensão. Saí para dar uma volta pela charneca, antes do meio-dia, e, na volta, assim que atingi o cume de onde se descortina o pequeno povoado, vi a jovem a certa distância, em meio ao tojo. Ela abrira um pequeno cavalete e, com o papel de aquarela já colocado, se preparava para começar a pintar a magnífica paisagem de rochedos e charnecas esparramada a sua frente. Reparei então que ela vasculhava com olhar ansioso a região à direita e à esquerda de onde se achava. Perto de mim, havia uma pequena poça de água que se formara num oco. Mergulhei ali o copinho da garrafa de bolso e levei-o até ela.

“É disso que está precisando, imagino”, falei, erguendo o boné e sorrindo.

Merci bien [Bem, obrigada]!”, ela respondeu, despejando a água num pires. “De fato, é o que eu estava procurando.”

“Senhorita Cameron, suponho. Somos ambos inquilinos na mesma casa. Meu nome é Upperton. Temos de nos apresentar nós mesmos, por aqui, se não quisermos permanecer como estranhos para sempre.”

“Ah, quer dizer então que o senhor também vive na casa da senhora Adams!”, exclamou ela. “E eu achando que não havia ninguém além de camponeses, neste lugar estranho.”

“Estou de passagem, como a senhorita. Sou um estudioso e vim atrás da quietude e do repouso que meus estudos exigem.”

“Quietude de fato!”, disse ela, dando uma olhada rápida para o vasto círculo de charnecas silenciosas, marcadas apenas por uma minúscula linha de casinhas cinzentas ao longo da encosta.

“No entanto essa quietude não é suficiente”, respondi-lhe, rindo, “e vejo-me forçado a mudar para mais longe ainda, em pleno morro, para obter a paz absoluta de que preciso.”

“Quer dizer então que o senhor construiu uma casa nas colinas?”, ela perguntou, arqueando as sobrancelhas. “Construí, sim, e espero poder ocupá-la dentro dos próximos dias.”
“Ah, mas que dommage [pena]”, exclamou ela. “E onde fica, essa casa que mandou construir?”
“Lá adiante, bem para lá”, respondi. “Está vendo aquele riacho que corre como se fosse uma fita de prata na charneca ao longe? Aquele é o Gaster Beck, que atravessa Gaster Fell.” A jovem assustou-se e voltou para mim seus enormes olhos escuros, curiosos, com uma expressão de surpresa e de incredulidade, enquanto algo vizinho ao horror parecia querer ganhar força em sua expressão.
“E o senhor vai morar em Gaster Fell?”
“Foi o que planejei. Mas como é que a senhorita conhece Gaster Fell? Pensei que fosse uma estranha na região.” “E sou, de fato. Nunca estive aqui antes. Mas já ouvi meu irmão falar sobre as charnecas de Yorkshire; e, se não estou enganada, escutei-o mencionar justamente essa que o senhor citou como sendo a mais perigosa e selvagem de todas.”

“É bem provável”, respondi-lhe, descuidado. “De fato é um lugar bastante lúgubre.”

“Então por que o senhor quer ir morar lá?”, perguntou a jovem, com voz ansiosa. “Pense na solidão, na aridez, na falta de todo e qualquer conforto e de toda ajuda, caso ela seja necessária.”

“Ajuda! E de que ajuda eu haveria de precisar em Gaster Fell?”

Ela me fitou por instantes, depois deu de ombros. “A doença não escolhe lugar. Se eu fosse homem, não iria querer morar sozinho lá.”

“Já enfrentei perigos piores que esse”, falei eu, rindo; “mas receio que sua pintura terá de ser interrompida, porque as nuvens estão aumentando e já senti alguns pingos.”

De fato, estava mais do que na hora de procurarmos abrigo porque, nem bem terminada a frase, veio o cicio ritmado da chuva. Rindo feliz da vida, minha companheira jogou um xale sobre a cabeça e, pegando o papel e o cavalete, saiu correndo com a graça ágil de uma jovem corça pela ladeira forrada de tojo, enquanto eu seguia atrás, com o banquinho e a caixa de tintas.

O estranho foi perceber que, saciada minha curiosidade inicial por essa jovem indefesa que viera parar em nosso pequeno povoado, em vez de diminuir, meu interesse por ela aumentou. Juntos como estávamos, sem nem um único pensamento em comum com a boa gente que nos rodeava, não demorou para que surgissem amizade e confiança entre nós. Juntos, fizemos caminhadas matinais pelas charnecas e, à tarde, subimos o Moorstone Crag para ver, do alto do penedo, o rubro sol afundar nas águas distantes da baía de Morecambe. De si própria, ela falava com franqueza e sem reservas. A mãe morrera fazia muito tempo e ela passara a juventude num convento belga, de onde saíra finalmente para voltar a Yorkshire. O pai e um irmão, segundo ela me contou, constituíam toda a família que tinha. No entanto, quando a conversa calhava de girar em torno das causas que a haviam levado para morada tão solitária, era possuída por uma estranha frieza e, ou caía num profundo silêncio ou então mudava o rumo da conversa. De resto, era uma companheira excelente, simpática, culta, com aquele requinte ligeiro e picante de ideias que guardara da escola no exterior. Todavia a sombra que eu observara cair sobre ela na primeira manhã não estava jamais muito longe de sua cabeça e, em algumas ocasiões, cheguei a presenciar o sumiço brusco daquela sua risada feliz, como se alguma ideia lúgubre a tivesse invadido e afogado toda a alegria e felicidade da juventude.

Foi na véspera de minha partida de Kirkby-Malhouse que sentamos no banco verde do jardim, ela com o olhar sonhador, fitando com tristeza os montes sombrios; eu, com um livro nos joelhos, espiando disfarçadamente seu perfil adorável, espantado de ver como vinte anos de vida, apenas, tinham conseguido imprimir nele expressão de tamanha tristeza e melancolia.

“A senhorita já leu muito?”, perguntei finalmente. “As mulheres hoje têm oportunidades que suas mães nunca nem imaginaram. Alguma vez já pensou na possibilidade de continuar os estudos, de fazer um curso superior, até mesmo de seguir alguma profissão liberal?”

Ela sorriu um sorriso cansado diante da ideia.

“Não tenho objetivos, não tenho ambição. Meu futuro é negro. Confuso. Um caos. Minha vida é como uma daquelas trilhas lá no alto das colinas. O senhor também as conhece, monsieur [senhor] Upperton. São regulares, retas e desimpedidas de início, mas em pouco tempo começam a dar guinadas para a esquerda e para a direita, entre rochedos e pedras, até que por fim acabam perdendo o próprio rumo em algum atoleiro. Em Bruxelas, minha trilha era reta; mas, mon Dieu [meu Deus]! Quem poderá me dizer para onde esta há de me levar?”

“Não é preciso ser um profeta para tanto, senhorita Cameron”, disse eu, com os modos paternais que duas vintenas de anos nos facultam. “Se eu tivesse o dom de ler o futuro, arriscaria dizer que a senhorita está destinada a cumprir com o destino de toda mulher, vale dizer, fazer um homem feliz e distribuir em volta, em algum círculo mais amplo, o prazer que sua companhia tem me proporcionado desde o momento em que a conheci.”

“Não vou me casar nunca”, retrucou ela, num tom tão decidido que me surpreendeu um pouco, e me divertiu outro tanto.

“Não vai se casar? E por que não?”

Um olhar estranho perpassou por suas feições sensíveis e ela repuxou nervosamente a relva que crescia a seu lado. “Eu não ousaria”, respondeu-me ela com uma voz trêmula de emoção.
“Não ousaria?”
“O casamento não é para mim. Tenho outras coisas a fazer. Aquela trilha da qual lhe falei é o caminho que terei de percorrer sozinha.”

“Mas isso é triste”, comentei. “Por que haveria de se desviar do destino de minhas próprias irmãs, ou de milhares de outras jovens senhoras que surgem no mundo a cada nova estação? Mas talvez isso se deva a um receio, a uma desconfiança que a senhorita nutre em relação aos seres humanos. De fato, o casamento traz alguns riscos, assim como a felicidade.”

“O risco seria do homem que se casasse comigo”, protestou ela. Logo em seguida, como se de repente tivesse achado que falara demais, pôs-se de pé e cobriu a cabeça com uma mantilha. “O ar está meio gelado esta noite, senhor Upperton.” E, com isso, afastou-se mais que depressa, deixando a mim o encargo de refletir sobre as estranhas palavras que haviam saído de sua boca.

Eu havia receado que a vinda dessa mulher pudesse me desviar dos estudos, mas jamais previ que meus pensamentos e interesses sofreriam tamanha transformação em tão pouco tempo. Fiquei acordado até bem tarde da noite em meu pequeno gabinete, ponderando a respeito de meus próximos passos. Ela era jovem, linda e atraente, tanto em virtude da própria beleza como do estranho mistério que a envolvia. Contudo, quem era aquela mulher para me arredar dos estudos que me preenchiam a mente, ou para me fazer mudar o curso de vida que eu estabelecera para mim? Eu não era nenhum rapazote para me deixar abalar por uns olhos negros ou por um belo sorriso, no entanto em três dias, desde sua chegada, meu trabalho não fizera nenhum avanço. Obviamente, estava na hora de partir. Cerrei os dentes e jurei que antes de transcorridas outras vinte e quatro horas eu já teria cortado os recentes laços que havíamos formado e saído em busca do refúgio solitário que me esperava no alto da charneca. O desjejum mal tinha terminado quando um camponês arrastou até a porta da casa o rústico carrinho de mão que transportaria meus poucos pertences até a nova morada. Minha companheira permanecera em seus aposentos; e, por mais preparada que estivesse minha mente para combater-lhe a influência, dei-me conta de uma leve pontada de desgosto por ver que ela me deixava partir sem uma palavra de adeus. Meu carrinho de mão, com sua carga de livros, já se tinha posto a caminho e eu, tendo apertado a mão da sra. Adams, estava prestes a segui-lo, quando escutei um rápido rumor de passos na escada e logo em seguida lá estava ela, a meu lado, ofegante com a própria pressa.

“Quer dizer então que o senhor se vai? Vai mesmo?”, disse ela.

“Meus estudos me chamam.”
“E vai para Gaster Fell, é isso?”
“Exato; para a casinhola que mandei construir ali.”
“E vai morar sozinho, lá?”
“Não. Com centenas de companheiros que estão indo no carrinho de mão.”
“Ah, livros!”, exclamou a jovem, com um lindo encolher dos ombros graciosos. “Mas vai ao menos me prometer uma coisa?”

“E que coisa seria essa?”, perguntei espantado.

“Uma coisinha de nada. O senhor não vai se recusar, certo?”

“Basta você me dizer do que se trata.”

Ela então inclinou para mim o lindo rosto, com uma expressão da mais intensa sinceridade.

“O senhor me promete que vai aferrolhar a porta, à noite?”, disse-me ela, partindo antes que eu pudesse dizer algo em resposta a pedido tão extraordinário.

Foi muito estranho ver-me por fim devidamente instalado na solitária morada. Para mim, a partir dali, o horizonte se limitava a um círculo infecundo de inútil capim eriçado, pontilhado ao acaso por moitas de tojo e marcado por lúgubre profusão de estrias de granito. Ermo mais monótono e aborrecido, eu nunca vira; porém seu encanto estava justamente nessa monotonia. O que haveria ali, nas ondulantes colinas descoradas, ou no silencioso arco azulado do céu, para desviar meu pensamento das altas considerações com que se ocupava? Eu havia largado o rebanho humano e tomado, para melhor ou pior, uma vereda só minha. Juntamente da humanidade, eu nutria a esperança de deixar para trás também a dor, a decepção, a emoção e todas as outras pequenas fraquezas humanas. Viver para o conhecimento, e só para ele, esse era o objetivo mais insigne que a vida poderia oferecer. No entanto, já na primeira noite passada em Gaster Fell, ocorreu um estranho incidente que levou meus pensamentos de volta para o mundo que eu abandonara.

A noite estava carrancuda e abafada, com massas lívidas de nuvens se juntando para as bandas do oeste. Com o passar das horas, o ar dentro de casa foi ficando mais denso e mais opressivo. Parecia haver um peso sobre minha testa e meu peito. De muito longe, chegavam os rugidos da trovoada, gemendo pela charneca inteira. Impossibilitado de dormir, vesti-me e, parado na porta da casinhola, olhei para a solidão negra que me rodeava. Abaixo não havia brisa nenhuma; porém acima as nuvens corriam majestosas e ligeiras pelo céu, com uma meia-lua espiando de vez em quando por entre as brechas. O murmúrio do Gaster Beck e o pio insípido de uma coruja eram os únicos ruídos que chegavam aos meus ouvidos. Pegando a estreita trilha de ovelhas que havia à margem do riacho, avancei coisa de cem metros. Já tinha me virado para voltar quando a lua foi finalmente enterrada por nuvens negras retintas e a escuridão se acentuou de forma tão repentina que não consegui mais enxergar nem a trilha sob meus pés, nem o riacho à minha direita, tampouco as rochas à esquerda. Estava eu ali parado, tateando o denso negrume, quando veio o estouro de um trovão e o fulgor de um raio que iluminou todo o vasto monte, de tal sorte que cada arbusto e cada pedra apareceram com espantosa nitidez sob a luminosidade plúmbea. Não durou mais que um instante, no entanto aquela visão momentânea provocou em mim um calafrio de medo e espanto, e lá estava ela, com a luz azulada a iluminar-lhe o rosto e mostrar cada detalhe das feições e roupas. Não havia como confundir aqueles olhos escuros, aquela silhueta alta e graciosa. Era ela — Eva Cameron, a mulher a quem eu pensava ter deixado para sempre. Por uns momentos, permaneci petrificado, assombrado, me perguntando se poderia de fato ser ela mesmo, ou se não seria alguma invenção que meu cérebro exaltado criara. Depois corri com toda a rapidez na direção de onde a tinha visto, chamando seu nome bem alto, mas sem obter resposta. Chamei de novo e, de novo, não veio resposta nenhuma, a não ser o lamento melancólico da coruja. Um segundo raio iluminou a paisagem e a lua irrompeu de trás das nuvens. Entretanto não consegui, embora tivesse subido até o topo de um outeiro que descortinava toda a charneca, ver o menor sinal da estranha figura errante. Durante uma hora, mais ou menos, cruzei aquele morro até que por fim me vi de volta à casinha, ainda sem saber ao certo se tinha sido uma mulher ou uma sombra, o que eu divisara.

Pelos três dias seguintes a essa tempestade noturna, curvei-me teimosamente sobre meu trabalho. Por fim começava a me parecer que eu havia atingido meu porto de descanso, meu oásis de estudo, pelo qual eu tanto ansiara. Mas, infelizmente, minhas esperanças e meus planos goraram todos! Uma semana depois de ter fugido de Kirkby-Malhouse, uma série de acontecimentos estranhíssimos e imprevistos não só rompeu com a calma de minha existência como também me encheu de emoções profundas, a ponto de expulsar todas as outras considerações de minha cabeça.

III. Sobre a casinha cinzenta na ravina

Foi no quarto ou no quinto dia depois de ter me mudado que, espantado, percebi estar ouvindo passos em frente de casa, seguidos por uma batida que parecia ter sido dada com o auxílio de um cajado. A explosão de alguma máquina infernal não teria causado surpresa ou constrangimento maior. Eu acalentava a esperança de ter conseguido me desvencilhar para sempre de todas as intromissões e lá estava alguém batendo à minha porta com a mesma sem-cerimônia que teriam se ali fosse uma cervejaria. Irado, atirei o livro de lado e puxei o ferrolho bem quando minha visita ia erguendo o cajado para renovar seu rude pedido de acolhida. Era um homem alto, forte, de barba castanha e peito largo, vestido com um terno folgado de tweed cujo corte almejava mais o conforto que a elegância. Com ele ali parado sob a luz forte do dia, pude examinar-lhe cada um dos traços fisionômicos. O nariz largo e carnudo; os olhos azuis muito sérios, encimados por bastas sobrancelhas; a testa ampla, toda franzida e marcada de sulcos, em estranho desacordo com a mocidade do porte. Apesar do chapéu de feltro surrado e do lenço colorido em volta do forte pescoço bronzeado, pude ver de imediato que se tratava de alguém de berço e educação. Eu estava preparado para algum pastor errante ou andarilho mal-educado e aquela aparição me deixou desconcertado.

“O senhor parece espantado”, disse-me ele. “Achou então que fosse o único homem no mundo com pendores para a solidão? Pois já vê que existem outros ermitãos neste deserto, além do senhor.”

“Está me dizendo que também mora por aqui?”, perguntei, em tom de poucos amigos.

“Mais para lá”, respondeu-me ele, jogando a cabeça para trás. “Como somos vizinhos, senhor Upperton, achei que o mínimo a fazer seria vir ver se posso lhe ser de alguma serventia, seja no que for.”

“Muito obrigado”, disse eu, com frieza, parado com a mão no trinco da porta. “Sou um homem de hábitos muito simples e não há nada que possa fazer por mim. Mas o senhor conta com uma vantagem, que é a de saber meu nome.”

Meus modos desagradáveis esfriaram o entusiasmo da visita.

“Soube pelos carpinteiros que trabalharam aqui”, explicou-me ele. “Quanto a mim, sou cirurgião, o cirurgião de Gaster Fell. É por esse nome que me tornei conhecido por estas paragens, e me serve tão bem quanto qualquer outro.

“Não que haja muitas oportunidades de clinicar por aqui”, observei.

“Nem uma alma viva a não ser o senhor por muitos e muitos quilômetros nas duas direções.”

“Está me parecendo que quem anda precisado de uma ajuda é o senhor”, comentei, olhando de relance para uma mancha grande e branca, como se provocada por algum ácido potente, estampada no rosto do desconhecido.

“Isto não é nada”, respondeu-me ele de modo lacônico, virando um pouco a face para esconder a marca. “Preciso voltar, porque tenho um companheiro me aguardando. Se algum dia puder fazer algo pelo senhor, por favor, não hesite em pedir. Basta seguir o ribeirão morro acima, por mais ou menos um quilômetro e meio, para achar minha casa. O senhor tem um ferrolho na porta?”

“Tenho”, respondi-lhe, um tanto atônito com a pergunta.

“Mantenha a porta aferrolhada, então. Esta colina é estranha. Nunca se sabe quem pode estar por aqui. É melhor se prevenir. Adeus.” Ele ergueu o chapéu, girou nos calcanhares e saiu a passos largos pela trilha ao longo do riacho.

Eu ainda estava parado, com a mão no trinco, espiando minha inesperada visita afastar-se, quando me dei conta de mais outro morador das charnecas. Um pouco mais adiante, na mesma trilha que o desconhecido seguia, havia uma enorme rocha cinzenta e, encostado nela, um homenzinho mirrado que endireitou o corpo quando o outro se aproximou e em seguida foi ter com ele. Os dois conversaram por um minuto ou mais, o mais alto mexendo várias vezes a cabeça em minha direção, como se descrevendo o que se passara entre nós. Depois seguiram em frente, lado a lado, e desapareceram numa depressão do caminho. Dali a instantes, tornaram a aparecer mais à frente, subindo de novo a charneca. Meu conhecido havia passado o braço em volta do ombro do amigo idoso, talvez num gesto de afeto, talvez para ajudá-lo na íngreme ladeira. Vi então o recorte nítido de ambos na linha do horizonte, a figura robusta de um e o porte engelhado do outro; a certa altura, eles viraram a cabeça e me olharam. Ao perceber o gesto, bati a porta mais que depressa, receoso de que pudessem pensar em voltar. Porém, quando fui espiar de novo pela janela, alguns minutos depois, vi que tinham ido embora.

Pelo resto do dia, lutei em vão para recuperar a indiferença perante o mundo e seus hábitos, condição imprescindível à abstração mental. Contudo, por mais que tentasse, os pensamentos teimavam em voltar ao cirurgião solitário e seu mirrado companheiro. O que estaria ele querendo dizer quando me perguntou se havia um ferrolho na porta? E como explicar que as últimas palavras de Eva Cameron tivessem sido do mesmo sinistro teor? Por várias e várias vezes especulei qual poderia ter sido o encadeamento de causas e efeitos que levaram dois homens tão dessemelhantes em idade e aspecto a morar juntos naqueles inóspitos morros despovoados. Estariam eles, assim como eu próprio, mergulhados em algum estudo fascinante? Seria possível que uma cumplicidade no crime os tivesse obrigado a fugir dos antros humanos? Algum motivo deveria haver, e bastante forte, por sinal, para levar um homem instruído a adotar tal existência. E só então comecei a me dar conta de que as multidões da cidade estorvam infinitamente menos que o espírito de união que há no campo.

Permaneci o dia todo curvado sobre um papiro egípcio no qual estava trabalhando; porém nem o raciocínio sutil do antiquíssimo filósofo de Mênfis nem o significado místico que aquelas folhas continham conseguiram tirar-me a mente das coisas da Terra. A noite já vinha caindo quando empurrei o trabalho para o lado, desacorçoado. A intromissão daquele homem me deixara fervendo de indignação. Parado à margem do riacho que murmurejava diante da porta de minha casinhola, refresquei a testa febril e voltei a pensar no assunto. Claro que aquele pequeno mistério em torno de meus dois vizinhos é que insistia em reconduzir-me a mente ao assunto. Esclarecido o enigma, não haveria mais nenhum obstáculo a meus estudos. E o que me impedia, então, de caminhar até onde ambos moravam e observar, com os próprios olhos e sem deixar que suspeitassem de minha presença, que espécie de homens eram eles? Sem sombra de dúvida, o modo de vida da dupla acabaria por admitir uma explicação muito simples e prosaica. De toda forma, estava uma tarde linda e uma caminhada faria bem à mente e ao corpo. Acendendo meu cachimbo, parti charneca afora, na direção que ambos haviam tomado. O sol estava baixo e rubro no ocidente, afogueando as urzes com um rosa vivo e salpicando o vasto firmamento com todos os matizes, desde o verde mais pálido no zênite até o carmim mais profundo ao longo do horizonte longínquo. Aquela poderia muito bem ser a grande palheta na qual o pintor do mundo misturou as primeiras cores. De ambos os lados, os picos gigantescos do Ingleborough e do Pennigent olhavam com superioridade os sorumbáticos campos acinzentados entre uma montanha e outra. No caminho, os morros robustos foram se perfilando à esquerda e à direita até formar um vale estreito e bem definido, em cujo centro serpenteava o pequeno riacho. De um lado e de outro, linhas paralelas de rocha gris marcavam o nível de alguma antiga geleira, cuja moraina havia formado o solo fragmentado em volta de minha morada. Ásperos penedos, rochas talhadas a pique e fantásticas pedras retorcidas eram testemunhas do tenebroso poder do velho glaciar e mostravam onde os dedos gelados haviam rasgado e esburacado o sólido calcário.

Por volta da metade dessa ravina, havia um pequeno bosque de carvalhos atrofiados, de galhos contorcidos. Detrás das árvores, subia uma fina coluna de fumaça pelo ar parado de fim de tarde. Obviamente aquilo assinalava o local onde ficava a casa de meu vizinho. Desviando-me um pouco para a esquerda, cheguei ao abrigo de umas rochas e, assim, a um local de onde poderia comandar uma visão perfeita da construção sem me expor ao risco de ser descoberto. Era uma casa pequena, com telhado de ardósia, pouca coisa maior que as pedras entre as quais se aninhava. Assim como a minha, mostrava sinais de ter sido construída para o uso de algum pastor; porém, ao contrário da minha, os atuais ocupantes não haviam feito o menor esforço para melhorá-la ou aumentá-la. Duas janelinhas acanhadas, uma porta esfolada e um barril descorado para armazenar a água da chuva eram os únicos objetos externos dos quais eu poderia extrair algum tipo de inferência a respeito dos moradores lá dentro. Entretanto, mesmo aqueles poucos itens davam o que pensar; sim, porque, ao chegar um pouco mais perto, ainda me escondendo por trás das pedras, vi que grossas barras de ferro protegiam as janelas, ao passo que a velha porta escalavrada fora entalhada com placas do mesmo metal. Precauções assim tão estranhas, aliadas à tristeza do ambiente e ao isolamento absoluto, conferiam um mau agouro indescritível e um caráter tenebroso à casinha solitária. Enfiando o cachimbo no bolso, arrastei-me, engatinhando por arbustos de tojo e samambaias até me ver a cem metros da porta do vizinho. Ali, percebendo que não poderia chegar mais perto sem correr o risco de ser descoberto, agachei-me e observei.

Eu tinha acabado de me acomodar no esconderijo quando a porta da casinhola se abriu e o homem que se apresentara como o cirurgião de Gaster Fell apareceu, de cabeça descoberta, com uma enxada nas mãos. Em frente da casa havia uma pequena horta plantada com batatas, ervilhas e outros tipos de verduras e, ali, ele se pôs em atividade, podando, roçando e arrumando, ao mesmo tempo que cantava com uma voz potente, ainda que não muito melodiosa. Estava entretido no trabalho, de costas para a casinhola, quando surgiu pela porta semiaberta a mesma criatura raquítica que eu vira pela manhã. Pude então reparar que se tratava de um homem de mais ou menos sessenta anos, enrugado, corcunda, frágil, com um rosto comprido, pálido, e alguns poucos tufos de cabelos grisalhos na cabeça. Com passos servis e oblíquos, arrastou-se até o companheiro que só se deu conta de sua presença quando ele já estava bem próximo. Talvez tenham sido as passadas leves, ou a respiração, o que o acabou alertando, porque o moço se virou de chofre para encarar o velho. Cada qual deu um passo rápido na direção do outro, como se fossem se cumprimentar e depois – e até hoje sinto na pele o horror daquele instante – o sujeito mais alto avançou, derrubou o mais baixo por terra e, recolhendo o corpo, cruzou em grande velocidade o terreno que o separava da porta, desaparecendo com seu fardo no interior do casebre.

Calejado como eu estava por minha vida tão variada, o inesperado e a violência daquilo que eu presenciara me causaram um arrepio. A idade do homem, seu porte franzino, os modos humildes, sua submissão, tudo apontava para a infâmia do ato. Senti tamanha indignação que já ia me dirigir para lá, desarmado como estava, quando escutei vozes vindo do interior da casa, sinal de que a vítima recobrara os sentidos. O sol tinha acabado de se pôr e tudo em volta estava cinzento, exceto por um penacho vermelho no cume do Pennigent. Seguro na pouca luz, aproximei-me um pouco mais e apurei os ouvidos para captar o que estava sendo dito. Podia ouvir a voz ardida e queixosa do mais velho, misturada com estranhos fragores e estrépitos metálicos. Não demorou para que o cirurgião saísse, trancando a porta atrás de si, e começasse a palmilhar a terra em volta, para baixo e para cima, puxando os cabelos e agitando os braços, qual um demente. Depois, saiu andando a passos rápidos vale acima e logo se perdeu entre as rochas. Quando o ruído de seus passos sumiu por completo, aproximei-me da casinhola. O prisioneiro continuava despejando uma saraivada de palavras, ao mesmo tempo que gemia, de quando em quando, como um homem acometido por dores. Palavras que, ao chegar mais perto, percebi serem preces – orações volúveis e esganiçadas, mastigadas com a intensa ansiedade de alguém que vê um perigo urgente e iminente. Para mim, havia algo de inexprimivelmente tenebroso nesse jorro de súplicas solenes que saía da boca do sofredor solitário; rogos que não se destinavam a ouvidos humanos e que estremeciam o silêncio da noite. Eu ainda refletia se deveria ou não me imiscuir na questão quando ouvi ao longe o som das passadas do cirurgião voltando para casa. Mais que depressa, apoiei-me nas barras de ferro e espiei pela vidraça da janela. O interior da casinha estava iluminado por um brilho lúgubre que vinha de algo que, mais tarde, descobri ser um forno químico. Sob a luz abundante, pude divisar uma grande quantidade de retortas, tubos de ensaio e condensadores que reluziam sobre a mesa e lançavam sombras grotescas, curiosas, na parede. No outro extremo do cômodo havia uma estrutura de madeira semelhante a um galinheiro e, lá dentro, ainda absorto em preces, o homem cuja voz eu havia escutado, de joelhos. Os laivos rubros que lhe batiam no rosto voltado para cima destacavam-no das sombras como se fora uma tela de Rembrandt, mostrando cada ruga da pele encarquilhada. Só tive tempo de dar uma olhada muito rápida; depois, baixando da janela, escapei por entre as pedras e urzes e não diminuí o passo até me ver de volta, são e salvo, dentro de casa. Ali, atirei-me sobre o sofá, mais abalado e perturbado que imaginava ser possível me sentir de novo.

Alta noite já, e eu continuava agitado, revirando-me no travesseiro incômodo, incapaz de conciliar o sono. Uma estranha teoria se formara em minha mente, sugerida pelo elaborado equipamento científico que tinha visto. Seria possível que aquele cirurgião estivesse dando andamento a experiências insondáveis e medonhas que exigiam roubar ou no mínimo corromper a vida do companheiro? Tal suposição responderia pelo isolamento da existência que levava, mas como conciliar isso com a profunda amizade que me parecera existir entre ambos naquela mesma manhã? Seria dor ou loucura o que o fizera arrancar os cabelos e torcer as mãos ao sair de sua casa? E a doce Eva Cameron, seria possível que ela também fizesse parte do sinistro conluio? Quer dizer então que era para visitar meus pavorosos vizinhos que ela empreendia suas curiosas excursões noturnas? E, se fosse esse o caso, que laços uniriam um trio tão disparatado? Por mais eu que tentasse, não conseguia chegar a nenhuma conclusão satisfatória. Quando, finalmente, ferrei num sono agitado, foi tão somente para voltar a ver em sonhos os estranhos episódios do fim de tarde e acordar de madrugada, debilitado e abatido.

Quanto às dúvidas que eu talvez tivesse sobre ter ou não visto Eva Cameron na noite da tempestade, essas foram finalmente dirimidas naquela manhã. Caminhando ao longo da trilha que levava à colina, vi, num local onde o solo estava fofo, a marca de um pé – do pé pequeno e gracioso de uma mulher bem calçada. Aquele salto minúsculo e aquele arco acentuado da planta não poderiam pertencer a mais ninguém senão à minha companheira em Kirkby-Malhouse. Segui-lhe as pegadas durante certo trecho, até perdê-las em terreno duro e pedregoso; porém ainda assim elas continuaram apontando, pelo que me foi possível discernir, para a solitária e malfadada casinhola. Que poder seria esse, capaz de fazer aquela jovem tão meiga atravessar as medonhas charnecas, em meio a ventanias, chuva e escuridão, para ir a encontro tão bizarro?

Mas por que deixar que minha mente se preocupasse com tais coisas? Por acaso não me orgulhava de viver uma vida própria, para além da esfera de meus semelhantes? Porventura iria deixar que todos os meus planos e decisões viessem por água abaixo apenas porque os hábitos de meus vizinhos pareciam estranhos? Era indigno, era pueril. Através de um esforço ininterrupto, tentei expulsar as influências daninhas e voltar à velha rotina. Não foi tarefa fácil. Mas, alguns dias depois, durante os quais não deixei um só segundo a casinha, sendo que já tinha quase conseguido recuperar minha paz de espírito, um novo incidente impeliu meus pensamentos de volta à velha senda.

Já disse que havia um pequeno riacho correndo pelo vale que passava diante de minha porta. Mais ou menos uma semana depois dos fatos que relatei, estava sentado à janela quando percebi alguma coisa boiando devagar correnteza abaixo. A primeira ideia que me ocorreu foi que se tratava de alguma ovelha em apuros; apanhei então meu cajado, caminhei até a margem do ribeirão e fisguei-a. Qual não foi minha surpresa ao constatar que se tratava de um lençol, rasgado e esfiapado, com as iniciais J. C. num dos cantos. Contudo o que lhe conferia significado funesto era o fato de estar, de uma bainha à outra, salpicado e manchado de sangue. Nos lugares onde ficara submerso na água, havia apenas uma nódoa clarinha; ao passo que em outros as manchas mostravam que o sangue era recente. Estremeci ao olhar para aquilo. O lençol só poderia ter vindo da casinhola solitária na ravina. Que prática sombria e violenta teria deixado esse horrendo vestígio atrás de si? Eu me iludira, ao achar que a família humana não significava mais nada para mim, porque todo o meu ser foi absorvido pela curiosidade e pelo ressentimento. Como permanecer neutro quando coisas terríveis estavam sendo perpetradas a um quilômetro e meio dali? Senti que o velho Adão continuava fortíssimo dentro de mim e que eu precisava solucionar o mistério. Fechando a porta da casa, entrei na ravina e pus-me a caminho da morada do cirurgião. Não tinha ido muito longe quando topei com o próprio. Ele andava a passos rápidos pela beirada do morro, batendo nas moitas de tojo com um porrete e gritando como um demente. De fato, ao vê-lo, as dúvidas que me haviam assaltado quanto à sanidade daquela criatura foram reforçadas e confirmadas. Quando ele se aproximou, reparei que o braço esquerdo estava suspenso numa tipoia. Ao perceber minha presença, parou indeciso, como se não soubesse se deveria se aproximar ou não. Eu, contudo, não tinha o menor desejo de lhe dirigir a palavra; de modo que estuguei o passo e meu vizinho seguiu seu caminho, ainda berrando e dando com o porrete a torto e a direito. Assim que sumiu em meio às colinas, fui até sua casa, decidido a encontrar alguma pista sobre o que ocorrera. Ao chegar, espantei-me de encontrar escancarada a porta reforçada com placas de ferro. O terreno bem à frente dela guardava as marcas de alguma luta. Os equipamentos de química lá dentro, e a mobília, estavam revirados e estilhaçados. O mais sugestivo de tudo, porém, era que a sinistra gaiola de madeira exibia manchas de sangue e seu desafortunado ocupante desaparecera. Meu coração condoeu-se do infeliz homenzinho; tinha absoluta certeza de que nunca mais o veria neste mundo. Por toda a extensão do vale havia várias pirâmides de pedra, os cairns, que em tempos remotos marcavam monumentos fúnebres, e perguntei-me qual deles ocultaria os resquícios do derradeiro ato da longa tragédia.

Não havia nada na casinhola que pudesse esclarecer quem eram meus vizinhos. O aposento estava repleto de instrumentos de química e delicados aparelhos filosóficos. Num dos cantos, uma pequena estante continha uma seleção excelente de obras científicas. Numa outra havia uma pilha de espécimes geológicos colhidos da pedra calcária. Meus olhos percorreram rapidamente esses detalhes todos; porém não havia tempo para um exame mais detalhado, eu temia que, ao regressar, o cirurgião me encontrasse ali. Deixando a casinha na ravina, voltei com o coração pesado. Uma sombra sem nome pairava sobre o desfiladeiro desolado – a pesada sombra do crime não reparado que fazia ainda mais lúgubres as lúgubres colinas e mais tenebrosas e ameaçadoras as charnecas já tão bravias. Minha mente hesitava entre ir e não ir a Lancaster para comunicar à polícia o que tinha visto. O cérebro, porém, recuou repugnado diante da perspectiva de me tornar testemunha de uma cause célèbre [caso famoso] e acabar às voltas com advogados atarefados ou então com a imprensa oficiosa xeretando e fuçando em meu modo de vida. Então fora para isso que eu me afastara de meus semelhantes e me instalara naquele ermo isolado? A ideia de qualquer publicidade me causava profunda aversão. Seria melhor, quem sabe, esperar e observar, sem dar um passo decisivo, até chegar a uma conclusão mais definitiva a respeito do que tinha visto e ouvido.

Não vislumbrei mais o cirurgião, na volta; mas, ao chegar, fiquei atônito e indignado ao constatar que alguém entrara em casa durante minha ausência. Caixotes haviam sido puxados de sob a cama, as cortinas tinham sido mexidas, as cadeiras deslocadas da parede. Nem mesmo meu

gabinete de estudos ficara a salvo do rústico intruso, já que havia pegadas de botas bem pesadas perfeitamente visíveis no tapete cor de ébano. Não sou um homem lá muito paciente, na melhor das circunstâncias; mas essa invasão e o exame sistemático de meus pertences domésticos agitaram até a última gota de fel que havia em mim. Praguejando em voz baixa, tirei meu velho sabre de cavalaria da parede e passei o dedo pelo fio da lâmina, para testar o gume. Havia um grande chanfro no meio, onde o sabre batera na clavícula de um artilheiro bávaro, no dia em que forçamos Van der Tann a recuar. Mas continuava afiado o bastante para dar conta do recado. Coloquei-o na cabeceira da cama, ao alcance do braço, pronto para oferecer uma acolhida zelosa ao próximo visitante indesejado que pudesse aparecer.

IV. O homem que veio à noite

A noite caiu com prenúncio de tempestade tendo no alto uma lua toda encilhada por nuvens esfarrapadas. O vento soprava em rajadas melancólicas, aos soluços e suspiros pela charneca, arrancando gemidos dos arbustos de tojo. De quando em quando, alguns borrifos de chuva tamborilavam na vidraça. Fiquei até a meia-noite examinando um fragmento sobre a imortalidade escrito por Iâmblico, o platônico alexandrino classificado pelo imperador Juliano como posterior a Platão no tempo, mas não na genialidade. Por fim, fechando o livro, abri a porta de casa e dei uma última espiada no morro funesto e no céu ainda mais ruinoso. Ao pôr a cabeça para fora, uma rajada de vento me atingiu, fazendo que as brasas vermelhas de meu cachimbo faiscassem e dançassem nas trevas. Nesse mesmo momento, a lua brilhou com intensidade entre as nuvens e eu vi, sentado na encosta, a pouco menos de duzentos metros de minha porta, o homem que se intitulava o cirurgião de Gaster Fell. Ele estava agachado em meio à urze, com os cotovelos espetados nos joelhos e o queixo apoiado sobre as mãos, tão imóvel quanto uma pedra, com o olhar fixo na porta de minha casa.

Ao ver sentinela tão agourenta, um calafrio de horror e receio invadiu-me o corpo, porque além do feitiço das misteriosas ligações nocivas da criatura, a hora e o lugar harmonizavam com a presença deletéria. Em instantes, contudo, uma comichão viril de ressentimento e autoconfiança expulsou-me a emoção trivial da mente e caminhei sem temor na direção dele. Com minha aproximação, o outro levantou-se e encarou-me com o luar batendo em cheio no rosto grave, de barbas fartas, e cintilando-lhe nos olhos claros.

“O que significa isto?”, exclamei, assim que me aproximei o suficiente. “Que direito tem o senhor de vir me espionar?” Não me escapou a onda de rubor irritado que lhe subiu às faces.

“Sua permanência no campo o fez descuidado com as boas maneiras”, disse-me ele. “A charneca é aberta a todos.”

“E decerto vai me dizer agora que minha casa também está aberta a todos”, retruquei eu, enraivecido. “O senhor teve a impertinência de revistá-la em minha ausência, esta tarde.”

Meu interlocutor levou um susto e as feições traíram a mais intensa emoção. “Eu lhe dou minha palavra que não tive nada a ver com isso”, afirmou ele. “Nunca pus os pés em sua casa, em toda a minha vida. Ah, meu senhor, meu senhor, se ao menos acreditasse em mim. Há um perigo rondando sua casa e eu o aconselho a ter muito cuidado.” “O senhor esgotou minha paciência”, retruquei eu. “Eu vi a surra covarde que aplicou num momento em que se acreditava protegido de todo e qualquer olhar humano. E estive em sua casa, também, e conheço tudo o que ela tem para contar. Se houver lei na Inglaterra, o senhor há de morrer na forca para pagar pelo que fez. Quanto a mim, sou um velho soldado, cavalheiro, e estou armado. Não vou passar o ferrolho na porta. Mas se porventura o senhor ou qualquer outro vilão tentar cruzar minha soleira, saiba que os riscos não são pequenos.” E, com essas palavras, fiz meia-volta e retornei à casa. Quando me virei para olhá-lo da porta, meu vizinho continuava imóvel, uma triste figura entre as urzes, de cabeça descaída no peito. Dormi um sono agitado a noite inteira; porém não ouvi mais nenhum ruído por parte da estranha sentinela e tampouco ele estava à vista quando tornei a olhar, pela manhã. Por dois dias, o vento soprou mais gelado e mais forte, com pancadas constantes de chuva, até que, na terceira noite, despencou sobre a Inglaterra a mais furiosa tormenta de que tenho lembrança. Os trovões ribombavam e faziam estremecer o céu, ao passo que os raios iluminavam todo o firmamento. O vento soprava a intervalos, ora soluçando de modo calmo, ora, num repente, esmurrando, aos uivos, as vidraças das janelas, até que o próprio vidro começava a chacoalhar na moldura. O ar carregado de eletricidade e sua peculiar influência, junto com os episódios estranhos com os quais eu estivera envolvido, despertaram e aguçaram sobremaneira minha morbidez. Percebi que seria inútil ir para a cama, e tampouco conseguiria me concentrar o bastante para ler um livro. Baixei a lamparina até atingir uma luminosidade suave, afundei no sofá e entreguei-me aos devaneios. Devo ter perdido toda e qualquer noção das horas, porque não tenho lembrança de quanto tempo permaneci ali sentado, na fronteira entre a consciência e o sono. Enfim, por volta das três da manhã, ou quem sabe quatro, voltei a mim com um sobressalto – não só voltei a mim como voltei com todos os sentidos e nervos apurados. Olhando o aposento envolto em penumbra, não vi nada que justificasse a repentina agitação. A saleta aconchegante, a janela banhada de chuva e a rústica porta de madeira estavam como sempre tinham estado. Já começava a me convencer de que algum sonho semiformado provocara aquela vaga comoção em meus nervos quando, num átimo de segundo, tomei consciência do que se tratava. Era o ruído – o ruído de passos humanos do lado de fora de minha solitária morada.

Em que pesem a trovoada, a chuva e o vento, ainda assim escutei o barulho – o barulho surdo de uma pisada furtiva, ora na relva, ora nas pedras – que de vez em quando parava por completo, depois recomeçava, cada vez mais perto. Endireitei o corpo, assustado, a escutar o som fantasmagórico. As passadas pararam bem na porta e foram substituídas por ruídos arfados e resfolegantes de quem andara muito e depressa. Apenas a grossura daquela porta me separava desse sonâmbulo de passos leves e respiração pesada. Não sou nenhum covarde, porém a selvageria daquela noite, o vago aviso que eu recebera e a proximidade desse estranho visitante me deixaram tão apreensivo que eu seria incapaz de dizer alguma coisa, tão seca estava minha boca. Estendi a mão, todavia, e agarrei meu sabre, com os olhos fixos na entrada da casinhola. Eu rezava em silêncio para que aquela coisa, ou o que quer que fosse, batesse na porta, ameaçasse, chamasse meu nome ou fornecesse alguma pista quanto a seu caráter. Qualquer perigo conhecido seria melhor que aquele horrível silêncio, interrompido apenas pelos resfôlegos rítmicos.

À luz fraca da lamparina em vias de apagar, vi o puxador da porta mexer, como se alguém estivesse exercendo uma pressão muito branda nele pelo lado de fora. Devagar, devagar, o trinco foi liberado, até que se fez uma pausa de um quarto de minuto ou mais, em que continuei sentado, em silêncio, com os olhos esbugalhados e o sabre desembainhado. Em seguida, muito lentamente, a porta começou a girar nos gonzos e o ar cortante da noite entrou assobiando pela fresta. Com toda a cautela, ela continuou sendo aberta de tal sorte a evitar que as dobradiças enferrujadas fizessem ruído. À medida que o vão foi se alargando, divisei uma figura escura, envolta em sombras, em minha soleira, e um rosto pálido que me fitava. As feições eram humanas, mas os olhos não. Eles pareciam iluminar o negrume em volta com um brilho esverdeado todo próprio; e em seu fulgor maléfico e enganador tomei consciência do espírito mesmo do crime. Saltando do sofá, eu já tinha erguida a espada nua quando, com um berro ensandecido, uma segunda figura entrou-me porta adentro. À aproximação desse novo intruso, minha espectral visita soltou um berro ardido e saiu correndo morro afora, ganindo qual um cão surrado. A borrasca tornou a engolir as duas criaturas que dela tinham surgido, como se fossem a personificação das vergastadas do vento e da inclemência da chuva.

Ainda espicaçado pelo medo recente, continuei parado na porta, espiando a noite, com os berros discordantes dos fugitivos a retinir nos ouvidos. Naquele momento, um raio poderoso iluminou toda a paisagem, deixando-a clara como o dia. À luz do relâmpago, vi ao longe duas silhuetas escuras correndo, uma atrás da outra e a grande velocidade pelos morros. Mesmo daquela lonjura, o contraste entre um e outro impedia qualquer dúvida quanto a quem seriam. O primeiro era o homenzinho idoso que eu supunha morto; o segundo, meu vizinho, o cirurgião. Por alguns instantes, apareceram com uma nitidez espantosa sob a luz fantasmagórica; logo depois, o negrume se fechou em volta deles e sumiram ambos. Ao virar-me para entrar, meu pé tropeçou em algo na soleira. Baixando-me, descobri tratar-se de uma faca de lâmina reta, feita todinha de chumbo, tão macia e quebradiça que me pareceu escolha curiosa para se ter como arma. Para torná-la ainda mais inofensiva, a ponta fora cortada, transformando-a em instrumento rombudo. A lâmina, entretanto, tinha sido afiada inúmeras vezes numa pedra, como evidenciavam as várias marcas, de modo que ainda era uma ferramenta perigosa, nas mãos de alguém decidido. Evidentemente caíra das mãos do homenzinho quando da súbita chegada do cirurgião. E não havia mais nenhuma dúvida em relação ao objetivo da visita.

E qual foi o significado disso tudo, o leitor há de me perguntar. Muitos foram os dramas com que topei em minha vida errante, alguns tão estranhos e surpreendentes quanto esse, aos quais faltou a explicação derradeira que agora o leitor exige. O destino é um grande tecelão de lendas; entretanto, e de forma geral, costuma terminá-los contrariando todas as leis artísticas e com uma falta indecorosa de consideração para com a etiqueta literária. Acontece, porém, que tenho uma carta comigo que penso em acrescentar aqui, sem mais nenhum comentário, e que há de esclarecer tudo quanto resta de obscuro.

Asilo de Loucos de Kirkby, de setembro de 1885

Prezado senhor, estou plenamente consciente de que lhe devo um pedido de desculpas e uma explicação pelos acontecimentos espantosos e, a seus olhos, misteriosos ocorridos há pouco tempo e que tão seriamente interferiram com a existência isolada que o senhor pretendia levar. Eu deveria ter ido vê-lo na manhã seguinte à recaptura de meu pai; mas conhecendo sua aversão por visitas e também – e aqui peço que me perdoe a franqueza – seu temperamento bastante violento, fui levado a acreditar que seria melhor comunicar-me por carta. Durante nosso último encontro, eu deveria ter lhe contado o que vou lhe contar agora; mas suas alusões a algum crime do qual me considerava culpado, e sua partida repentina, impediram que eu dissesse aquilo que trazia na ponta da língua.

Meu pobre pai trabalhava com afinco como clínico-geral na cidade de Birmingham, onde até hoje seu nome é lembrado e respeitado. Há uns dez anos, porém, começou a dar sinais de uma aberração mental que nós, de início, atribuímos a excesso de trabalho e aos efeitos de uma insolação. Sentindo-me incompetente para dar um diagnóstico em caso de tamanha monta, procurei de imediato os mais altos pareceres, tanto em Birmingham quanto em Londres. Entre outros, consultamos o eminente alienista Fraser Brown, segundo quem o caso de meu pai era intermitente por natureza, mas perigoso durante seus paroxismos. “Ele tanto pode sofrer uma guinada homicida quanto religiosa”, declarou o médico, “ou talvez uma mistura de ambos. Durante meses, ele pode permanecer tão bem quanto o senhor ou eu, e de repente, num instante, entrar em crise. O senhor será o principal responsável, se o deixar sem supervisão.”

E os resultados fizeram justiça ao diagnóstico do especialista. Em pouco tempo a doença de meu pobre pai sofreu uma guinada tanto religiosa quanto homicida, com ataques que ocorriam sem o menor aviso, depois de meses de sanidade. Não irei cansá-lo com descrições das terríveis experiências por que passou nossa família. Basta dizer que, pelas bênçãos do bom Deus, conseguimos manter livres de sangue seus dedos enlouquecidos. Minha irmã Eva, eu enviei a Bruxelas, depois do que passei a me dedicar por completo ao caso dele. Meu pai tinha um grande pavor de manicômios; e, em seus intervalos de sanidade, me implorava com tamanha veemência para não ser condenado a ir para um, que nunca encontrei coragem para resistir-lhe à vontade. No fim, contudo, os surtos tornaram-se tão fortes e perigosos que decidi, pelo bem de todos ao meu redor, tirá-lo da cidade e levá-lo à região mais erma que pudesse encontrar. E essa região foi justamente Gaster Fell, onde ele e eu fixamos residência.

Eu possuía uma renda suficiente para me manter e, tendo me dedicado à química, fui capaz de passar o tempo com um grau razoável de conforto e proveito. Ele, pobre infeliz, era tão submisso quanto uma criança, quando em seu juízo perfeito; e homem nenhum poderia desejar companhia melhor e mais bondosa. Fizemos juntos um compartimento de madeira dentro do qual ele poderia se refugiar quando sofresse um acesso; e eu reformei a janela e a porta para mantê-lo confinado dentro de casa sempre que surgisse a suspeita de haver um novo ataque a caminho. Olhando em retrospecto, posso dizer com segurança que nenhuma precaução foi esquecida; até mesmo os indispensáveis utensílios de mesa eram de chumbo e rombudos, para evitar que meu pai causasse algum mal em seus frenesis.

Durante meses após nossa mudança, ele parecia estar melhorando. Não sei se devido ao ar puro, ou à ausência de qualquer incentivo à violência, o fato é que, por uns tempos, não demonstrou o menor sinal da terrível desordem que o afetava. Foi sua chegada que, pela primeira vez, perturbou-lhe o equilíbrio mental. Só de vê-lo, ainda que ao longe, sentiu despertar todos aqueles impulsos mórbidos que jaziam dormentes. Uma noite, ele se aproximou sorrateiro de mim, com uma pedra na mão, e teria me liquidado se eu, optando pelo menor de dois males, não o tivesse derrubado ao chão e trancafiado na gaiola, antes que recobrasse os sentidos. Essa súbita recaída, é claro, me deixou profundamente preocupado. Durante dois dias, fiz tudo que estava a meu alcance para acalmá-lo. No terceiro, ele parecia mais sossegado, mas, infelizmente, não passava de encenação, fruto da esperteza do louco. Não sei como, meu pai conseguiu afrouxar duas travas da gaiola; e eu, desprevenido pela aparente melhora, entretido com minha química, de repente fui atacado por ele, de faca em punho. Na briga, ele me cortou o braço e escapou antes que eu me recuperasse e tivesse tempo de ver qual caminho tomara. Meu ferimento era coisa de pouca monta e, durante vários dias, vaguei pelos morros, revirando cada moita em minha busca infrutífera. Eu estava convencido de que ele atentaria contra sua vida, convicção essa que foi reforçada quando soube que alguém, durante sua ausência, entrara na casa. Foi então que resolvi vigiá-lo durante a noite. Uma ovelha morta que encontrei largada na charneca, toda retalhada, mostrou-me que meu pai não estava sem comida e também que o impulso homicida continuava forte dentro dele. Por fim, conforme eu esperava, ele tentou invadir sua casa, ato que, não fosse minha intervenção, teria terminado na morte de um ou de outro. Ele correu e lutou como um animal selvagem; porém eu estava tão desesperado quanto ele e consegui arrastá-lo de volta para casa. Esse derradeiro fracasso convenceu-me de que qualquer esperança de melhora se fora para sempre. Na manhã seguinte, trouxe-o para este estabelecimento, onde agora, alegro-me em dizê-lo, meu pai vai voltando ao normal.

Permita-me uma vez mais, cavalheiro, manifestar meu pesar por tê-lo submetido a tamanha provação.

Sinceramente,

John Light Cameron

E assim foi a história da estranha família cujo destino um dia cruzou com o meu. Desde aquela noite terrível, nunca mais vi nem ouvi falar deles todos, salvo por essa única carta que transcrevi. Continuo até hoje morando em Gaster Fell, ainda com a mente embrenhada nos segredos do passado. Mas quando saio a passear pela charneca, e quando vejo a casinhola deserta entre as pedras cinzentas, é inevitável que meus pensamentos se voltem para o drama bizarro e para a singular dupla que invadiu minha solidão.