História do Demoníaco Pacheco – Jan Potocki

História do Demoníaco Pacheco

Jan Potocki

Finalmente, acordei para valer; o sol queimava minhas pálpebras — eu as abria com dificuldade. Vi o céu. Vi que estava ao relento. Mas o sono ainda pesava em meus olhos. Não dormia mais, mas ainda não estava desperto. Imagens de suplícios sucederam-se umas às outras. Fiquei apavorado. Levantei-me sobressaltado e me sentei.
Onde encontrarei as palavras para expressar o horror que então me invadiu? Eu estava deitado ao pé da forca de Los Hermanos. Os cadáveres dos dois irmãos De Zoto não estavam enforcados, e sim deitados ao meu lado. Aparentemente eu tinha passado a noite com eles. Descansava em cima de pedaços de cordas, rodas apodrecidas, restos de carcaças humanas, e nacos horrorosos e fétidos que delas se soltavam.

Ainda pensei que não estivesse bem acordado e que estivesse tendo um sonho ruim.
Fechei os olhos e busquei em minha memória onde eu tinha estado na véspera… Então senti garras se enfiando em meus flancos. Vi que um abutre havia se empoleirado em mim e devorava um de meus companheiros de quarto. A dor que me causava a impressão de suas garras me acordou de vez. Vi que minhas roupas estavam perto de mim, e me apressei em vesti-las. Quando me aprontei, quis sair do recinto da forca, mas encontrei a porta fechada com pregos e tentei quebrá-la, em vão. Portanto, tive de subir naquelas tristes muralhas. Consegui e, apoiando-me numa das pilastras do patíbulo, comecei a examinar as terras dos arredores. Reconheci facilmente onde estava. De fato, estava na entrada do vale de Los Hermanos, e perto das margens do Guadalquivir.

Como eu continuasse a observar, vi perto do rio dois viajantes, um preparando o almoço e o outro segurando a brida de dois cavalos. Fiquei tão encantado ao ver aqueles homens que meu primeiro gesto foi gritar “Agour, agour!”, o que quer dizer, em espanhol, “Bom dia” ou “Salve”.

Ao verem as cortesias que lhes eram feitas do alto do patíbulo, os dois viajantes por um instante pareceram indecisos, mas de repente montaram em seus cavalos, saíram a todo o galope e pegaram a estrada de Los Alcornoques. Gritei para que parassem, mas foi inútil; quanto mais gritava, mais esporeavam as cavalgaduras. Quando os perdi de vista, pensei em sair do meu posto. Pulei para o chão e me machuquei um pouco.

Mancando bastante, cheguei às margens do Guadalquivir, e lá encontrei o almoço que os dois viajantes tinham abandonado; nada podia vir mais a calhar, pois me sentia exausto. Havia chocolate, ainda cozinhando, e sponhao embebido em vinho de Alicante, pão e ovos. Comecei a recuperar minhas forças, e depois fiquei refletindo sobre o que havia me acontecido durante a noite. As lembranças eram muito confusas, mas o que me lembrava bem era de ter dado minha palavra de honra de guardar tudo aquilo em segredo, e estava firmemente decidido a mantê-la. Acertado esse ponto, só me restava ver o que, por ora, eu devia fazer, ou seja, que caminho pegar, e pareceu-me que as leis da honra me obrigavam mais que nunca a passar pela Sierra Morena.

Talvez alguém fique surpreso de me ver tão ocupado com minha glória e tão pouco com os acontecimentos da véspera; mas esse modo de pensar era outro efeito da educação que eu havia recebido. É o que se verá na continuação deste meu relato. Por ora, volto à minha viagem.

Estava curiosíssimo em saber o que os diabos haviam feito de meu cavalo, que eu deixara em Venta Quemada; e, aliás, como era o meu caminho, resolvi passar por lá. Tive de percorrer a pé todo o vale de Los Hermanos e o de Venta, o que não deixou de me cansar e de me fazer desejar muito encontrar meu cavalo. De fato, o encontrei; estava na mesma estrebaria onde o deixara, e parecia pimpão, bem- cuidado e escovado havia pouco. Eu não sabia quem podia ter tido esse cuidado, mas, depois de ter visto tantas coisas extraordinárias, essa não me deteve por muito tempo. Teria retomado imediatamente o caminho se não fosse a curiosidade de percorrer, mais uma vez, o interior da hospedaria. Encontrei o quarto onde havia dormido, mas por mais que procurasse foi impossível encontrar aquele onde eu tinha visto as belas africanas. Assim, cansei-me de procurar por mais tempo, montei no cavalo e segui meu caminho.

Quando acordei ao pé da forca de Los Hermanos, o sol já estava no meio de seu curso. Eu tinha levado mais de duas horas para chegar a Venta. Tanto assim que, depois de mais umas duas léguas, tive de pensar num abrigo, mas, não vendo nenhum, continuei a andar. Finalmente, avistei ao longe uma capela gótica, com uma cabana que parecia a morada de um ermitão. Tudo isso ficava afastado da estrada principal, mas eu começava a sentir fome e não hesitei em fazer esse desvio para conseguir comida. Ao chegar, amarrei o cavalo numa árvore. Depois bati na porta da ermida e vi sair um religioso com aspecto venerável.

Beijou-me com uma ternura paternal, e depois me disse:
”Entre, meu filho; ande logo. Não passe a noite ao relento, tema o tentador. O Senhor tirou Sua mão de sobre nós.”
Agradeci ao ermitão a bondade que me demonstrava, e disse-lhe que precisava urgentemente comer.
Ele me respondeu:
”Ó, meu filho, pense em sua alma! Passe na capela. Prosterne-se diante da Cruz. Pensarei nas necessidades de seu corpo. Mas você fará uma refeição frugal, tal como se pode esperar de um ermitão.”
Passei na capela, rezei de verdade, pois não era um livre-pensador, e, aliás, ignorava que houvesse algum: mais uma vez, tudo isso era efeito de minha educação.
O ermitão foi me buscar depois de quinze minutos e me conduziu à cabana, onde encontrei um lugar posto para mim, bastante limpo. Havia excelentes azeitonas, cardos conservados no vinagre, cebolas doces num molho e bolachas em vez de pão.
Havia também uma garrafinha de vinho. O ermitão me disse que nunca tomava vinho, mas que o guardava em casa para o sacrifício da missa. Por isso, não bebi mais vinho que o ermitão, mas o resto do jantar me deu muito prazer. Enquanto o elogiava, vi entrar na cabana uma figura mais apavorante do que tudo que tinha visto até então. Era um homem que parecia moço, mas de uma magreza horrorosa.
Seus cabelos estavam eriçados, um de seus olhos estava vazado, e dali saía sangue. Sua língua, pendurada para fora da boca, deixava escorrer uma baba es- pumosa. Tinha sobre o corpo um terno preto bem-cortado, mas eram as únicas peças, pois estava sem meias e sem camisa.
A personagem horrenda não disse nada a ninguém e foi se acocorar num canto, onde ficou tão imóvel como uma estátua, seu único olho fixando um crucifixo que segurava na mão. Quando acabei de jantar, perguntei ao ermitão quem era aquele homem. O ermitão me respondeu:
”Meu filho, esse homem é um possesso que eu exorcizo, e a terrível história dele prova perfeitamente bem o poder fatal que o anjo das trevas usurpa nestas maravilhosas paragens; o relato pode ser útil à sua salvação, e vou ordenar a ele que o faça.”
Então, virando-se para o lado do possesso, disse-lhe:
”Pacheco, Pacheco, em nome de seu redentor, ordeno-lhe que conte sua história.” Pacheco soltou um uivo horrível e começou nos seguintes termos.

HISTÓRIA DO DEMONÍACO PACHECO

“Nasci em Córdoba, meu pai vivia ali numa situação mais que confortável. Minha mãe morreu há três anos. No início, meu pai parecia sentir muito sua falta, mas, alguns meses depois, tendo a oportunidade de fazer uma viagem a Sevilha, apaixonou-se por uma jovem viúva, chamada Camille de Tormes. Essa pessoa não gozava de excelente reputação, e vários amigos de meu pai procuraram afastá-lo

desse relacionamento; mas, apesar das providências que tomaram, o casamento se realizou, dois anos depois da morte de minha mãe. As bodas foram em Sevilha, e, alguns dias depois, meu pai voltou para Córdoba, com Camille, sua nova esposa, e uma irmã de Camille, que se chamava Inésille.

“Minha nova madrasta correspondeu perfeitamente à má opinião que se tinha dela, e começou, na casa de meu pai, a querer me inspirar amor. Não conseguiu. Todavia, fiquei apaixonado, mas foi por sua irmã Inésille. Em pouco tempo minha paixão era tão forte que fui me jogar aos pés de meu pai e lhe pedir a mão de sua cunhada. “Meu pai me levantou bondosamente, depois me disse: ‘Meu filho, proíbo-o de pensar nesse casamento, e proíbo por três razões. Primeira: seria contra a natureza que você se tornasse, de certa forma, o cunhado de seu pai. Segundo: os santos cânones da Igreja não aprovam casamentos desse gênero. Terceiro: não quero que você despose Inésille’.

“Tendo me dado suas três razões, meu pai virou as costas e foi embora. Retirei-me para meu quarto, onde me entreguei ao desespero. Minha madrasta, a quem meu pai logo informou o que tinha acontecido, foi me procurar e disse que eu estava errado em me afligir; que, se não podia me tornar o marido de Inésille, podia ser seu cortesão, isto é, seu amante, e que ela iria arranjar as coisas; mas ao mesmo tempo declarou-me o amor que tinha por mim e invocou o sacrifício que fazia cedendo-me à sua irmã. Escancarei meus ouvidos diante dessas palavras que afagavam minha paixão, mas Inésille era tão modesta que achei impossível que algum dia correspondesse ao meu amor.

“Naquela época, meu pai resolveu fazer uma viagem a Madri, com a intenção de disputar o posto de corregedor de Córdoba, e levou consigo a mulher e a cunhada. Sua ausência devia ser só de dois meses, mas esse tempo me pareceu muito longo, porque eu estava afastado de Inésille.

“Quando os dois meses praticamente tinham se passado, recebi uma carta de meu pai, em que me ordenava ir ao seu encontro e esperá-lo em Venta Quemada, na entrada de Sierra Morena. Algumas semanas antes não teria sido fácil tomar a decisão de passar pela Sierra Morena, mas, justamente, acabavam de enforcar os dois irmãos De Zoto. O bando deles estava dispersado, e os caminhos, supostamente, eram bastante seguros.

“Portanto, parti de Córdoba por volta das dez horas da manhã, e fui pernoitar em Andujar, com um dos mais tagarelas hospedeiros que existem na Andaluzia. Na estalagem encomendei um jantar abundante, do qual comi uma parte e guardei a outra para a viagem.

“No dia seguinte jantei em Los Alcornoques, com aquilo que tinha reservado na véspera, e cheguei na mesma noite a Venta Quemada. Não encontrei meu pai, mas, como na carta ele mandava aguardá-lo, decidi ficar, com muito prazer, mais ainda porque estava numa hospedaria espaçosa e confortável. O hospedeiro que a mantinha era, na época, um certo González de Múrcia, homem muito bom, embora tagarela, que não deixou de me prometer um jantar digno de um grande de Espanha. Enquanto ele se ocupava em prepará-lo, fui passear à beira do Guadalquivir, e, quando voltei à hospedaria, encontrei um jantar que, de fato, não era nada mau.

“Depois de comer, pedi a González que fizesse a minha cama. Então vi que ele ficou perturbado, disse-me umas frases que não tinham muito sentido. Finalmente me confessou que a hospedaria estava possuída por assombrações, que ele e sua família passavam todas as noites numa fazendola, à beira do rio, e acrescentou que, se eu quisesse dormir lá também, arrumaria uma cama para mim perto dele.

“Achei essa proposta muito imprópria; disse-lhe que ele tinha mesmo é que ir dormir onde quisesse e que devia enviar meus homens para perto de mim. González me obedeceu e retirou-se balançando a cabeça e levantando os ombros.
”Meus criados chegaram logo em seguida; também tinham ouvido falar de assombrações e quiseram me convencer a passar a noite na fazenda. Recebi seus conselhos um pouco brutalmente e mandei-os fazer minha cama no próprio quarto onde eu tinha jantado. Obedeceram-me, embora relutantes, e, quando a cama estava arrumada, me conjuraram de novo, com lágrimas nos olhos, para que eu fosse pernoitar na fazenda. Seriamente impacientado com suas admoestações, me permiti certas demonstrações que os fizeram correr, e, como eu não tinha o costume de contar com meus criados para me despir, foi fácil dispensá-los ao ir me deitar. No entanto, tinham sido mais atenciosos do que eu merecia por tê-los tratado com maus modos. Deixaram perto de minha cama uma vela acesa, outra de reserva, duas pistolas e alguns livros cuja leitura podia me manter acordado, mas a verdade é que eu tinha perdido o sono.

“Passei umas duas horas, ora lendo, ora me virando na cama. Finalmente ouvi as badaladas de um sino ou de um relógio batendo meia-noite. Espantei-me, porque não tinha ouvido bater as outras horas. Logo a porta se abriu, e vi entrar minha madrasta: estava com um penhoar e levava um castiçal na mão. Aproximou-se de mim, andando nas pontas dos pés e com o dedo na boca, como para me impor silêncio. Depois colocou o castiçal na mesa-de-cabeceira, sentou-se em minha cama, pegou uma de minhas mãos e me falou nos seguintes termos: ‘Meu querido Pacheco, chegou o momento em que posso lhe dar os prazeres que prometi. Há uma hora arribamos a esta taverna. Seu pai foi dormir na fazenda, mas, como soube onde você estava, consegui a permissão de pernoitar aqui com minha irmã Inésille. Ela o aguarda e se dispõe a nada lhe recusar; mas é preciso que você esteja informado das condições que impus para a sua felicidade. Você ama Inésille, e eu o amo. Não convém que, de nós três, dois sejam felizes à custa do terceiro. Exijo que uma só cama nos sirva esta noite. Venha’.

“Minha madrasta não me deu tempo de responder; pegou-me pela mão e me levou, de corredor em corredor, até chegarmos a uma porta, quando então se pôs a olhar pelo buraco da fechadura.
”Depois de ter olhado bastante, disse-me: ‘Corre tudo bem, veja você mesmo’. “Tomei seu lugar na fechadura e, de fato, vi a encantadora Inésille em sua cama; mas como estava distante da modéstia que sempre enxerguei nela! A expressão de seus olhos, a respiração agitada, sua tez corada, sua atitude, tudo provava que esperava um amante.

“Camille me deixou olhar bem, e disse-me: ‘Meu querido Pacheco, fique nesta porta; quando estiver na hora, virei avisá-lo’.
”Quando entrou, pus novamente meu olho no buraco da fechadura e vi mil coisas que é difícil contar. Primeiro Camille se despiu, com certa insinuação, e, depois, pondo-se na cama da irmã, disse-lhe: ‘Minha pobre Inésille, é verdade mesmo que você quer ter um amante? Pobre criança, não sabe o mal que ele lhe fará. Primeiro, vai sufocá-la, pisoteá-la, e depois esmagá-la, dilacerá-la’.

“Quando Camille imaginou que sua aluna estava devidamente doutrinada, foi abrir a porta, conduziu-me ao leito de sua irmã e deitou-se conosco.
”Que lhes direi daquela noite fatal? Esgotei suas delícias e seus crimes. Por muito tempo lutei contra o sono e a natureza para prolongar ainda mais meus prazeres infernais. Finalmente adormeci e acordei no dia seguinte ao pé da forca dos irmãos De Zoto e deitado entre os infames cadáveres deles.”

O ermitão interrompeu aqui o demoníaco e disse-me:
”E então, meu filho, o que lhe parece? Você não ficaria um tanto espavorido ao se ver deitado entre dois enforcados?”
Respondi:
”Padre, o senhor me ofende. Um fidalgo jamais deve ter medo, e menos ainda quando tem a honra de ser capitão dos Guardas Valões.”
”Mas, meu filho”, continuou o ermitão, “já ouviu falar que uma aventura dessas tenha acontecido com alguém?”
Hesitei um instante, depois do que respondi:
”Padre, se essa aventura aconteceu com o senhor Pacheco, pode ter acontecido com outros; julgarei melhor ainda se fizer a gentileza de mandá-lo continuar sua história.”
O ermitão virou-se para o possuído e disse:
”Pacheco, Pacheco! Em nome de seu redentor, ordeno-lhe que continue sua história.”
Pacheco deu um uivo terrível e prosseguiu nos seguintes termos.

“Eu estava semimorto quando saí da forca. Arrastava-me sem saber para onde. Finalmente, encontrei viajantes que tiveram pena de mim e me levaram de volta a Venta Quemada. Ali encontrei o estalajadeiro e meus homens, muito pesarosos comigo. Perguntei se meu pai havia dormido na fazenda. Responderam-me que ninguém tinha ido lá.

“Não aguentei mais ficar muito tempo em Venta, e peguei de novo o caminho de Andujar. Só cheguei depois do pôr-do-sol. A estalagem estava cheia, arrumaram-me uma cama na cozinha e ali me deitei, mas não consegui dormir, pois era incapaz de afastar de meu espírito os horrores da noite anterior.

“Eu tinha deixado uma vela acesa em cima da fornalha da cozinha. De repente ela se apagou, e senti instantaneamente como que um arrepio mortal, que gelou minhas veias.
”Puxaram minha coberta, depois ouvi uma vozinha dizendo: ‘Sou Camille, sua madrasta, estou com frio, meu coraçãozinho, abra um lugar para mim debaixo da sua coberta’.

“Depois outra voz disse: ‘E eu sou Inésille. Deixe-me entrar na sua cama. Estou com frio, estou com frio’.
”Depois senti a mão gelada de alguém pegando debaixo do meu queixo. Enchi-me de coragem para dizer bem alto: ‘Satanás, retire-se!’.

“Então as vozinhas me disseram: ‘Por que nos expulsa? Você não é nosso maridinho? Estamos com frio. Vamos fazer um foguinho’.
”De fato, logo em seguida vi chamas na lareira da cozinha, que ficou mais clara. E avistei, não mais Inésille e Camille, mas os dois irmãos De Zoto, enforcados na chaminé.

“Essa visão me deixou fora de mim. Saí da cama. Pulei pela janela e comecei a correr pelo campo. A certa altura cheguei a me felicitar por ter escapado de tantos horrores, mas me virei e vi que estava sendo seguido pelos dois enforcados. Continuei a correr, e vi que os enforcados tinham ficado para trás. Mas minha alegria não durou muito. As detestáveis criaturas começaram a dar cambalhotas e num instante estavam na minha frente. Corri de novo; finalmente minhas forças me abandonaram.

“Então senti que um dos enforcados agarrava meu tornozelo esquerdo. Quis me safar, mas o outro enforcado barrou meu caminho. Apresentou-se diante de mim, fazendo uns olhares horrorosos e mostrando uma língua vermelha como ferro que sai do fogo. Pedi clemência. Em vão. Com uma das mãos ele me pegou pela garganta e com a outra arrancou o olho que está me faltando. No lugar do olho, enfiou sua língua escaldante. Lambeu todo o meu cérebro e me fez rugir de dor. “Então o outro enforcado, que tinha agarrado minha perna esquerda, também quis dar seu espetáculo. Primeiro começou fazendo cócegas na planta do meu pé, que ele segurava. Depois o monstro arrancou a pele desse pé, separou todos os nervos, deixou-os expostos e quis tocar com eles como se tocasse com um instrumento de música; como eu não fazia um som que lhe agradasse, enfiou seu esporão na minha panturrilha, beliscou os tendões e começou a enroscá-los, como se faz para afinar uma harpa. Finalmente começou a tocar com a minha perna, na qual tinha modelado um saltério. Ouvi seu riso diabólico. Enquanto a dor me arrancava mugidos pavorosos, os berros do inferno lhes faziam coro. Mas quando chegaram aos meus ouvidos os rangidos daqueles danados, achei que cada uma de minhas fibras estava sendo triturada entre seus dentes. Afinal, perdi os sentidos.

“No dia seguinte, os pastores me acharam no campo e me trouxeram para esta ermida. Aqui confessei meus pecados, e encontrei ao pé da cruz algum alívio para meus males.”

Nesse momento o demoníaco soltou um grito medonho e se calou.
Então o ermitão tomou a palavra e disse:
”Jovem, você está vendo o poder de Satanás, reze e chore. Mas é tarde. Temos de nos separar. Não lhe proponho dormir na minha cela porque durante a noite Pacheco dá uns gritos que poderiam incomodá-lo. Vá dormir na capela. Ali estará sob a proteção da Cruz, que derrota os demôios.”
Respondi ao ermitão que me deitaria onde ele quisesse. Levamos para a capela uma pequena cama de armar. Deitei-me, e o ermitão me desejou boa-noite.
Quando fiquei sozinho, o relato de Pacheco voltou à minha mente. Encontrei muitas similaridades com minhas próprias aventuras, e ainda refletia nisso quando ouvi bater meia-noite. Não sabia se era o ermitão que batia, ou se mais uma vez eu teria de lidar com assombrações. Então ouvi alguém arranhando minha porta. Fui até lá e perguntei:
”Quem está aí?”
Uma vozinha me respondeu: ‘Estamos com frio, abra, são suas mulherzinhas’.
”Sei, sei, malditos enforcados”, respondi, “voltem para o seu patíbulo e me deixem dormir.”
Então a vozinha me disse:
”Você está zombando de nós porque está numa capela, mas venha um pouco aqui fora.”
”Já estou indo”, logo respondi.
Fui pegar minha espada e quis sair, mas achei que a porta estava fechada. Disse isso às assombrações, que nada responderam. Fui me deitar e dormi até.