Amour Dure – Vernon Lee

Amour Dure

Vernon Lee

Parte I

Urbania, 20 de agosto de 1885. Em todos esses anos eu quis muito vir para a Itália defrontar-me com o Passado; e era isso a Itália, era isso o Passado? Eu poderia gritar, sim, gritar de decepção, a primeira vez que caminhei pelas ruas de Roma, tendo no bolso um convite para jantar na embaixada da Alemanha, e em meus calcanhares três ou quatro vândalos de Berlim e Munique, que me diziam onde encontrar a melhor cerveja e o melhor chucrute e qual era o tema do último artigo de Grimm ou Mommsen.

É tolice? É mentira? Eu mesmo não sou um produto da moderna civilização setentrional? Minha vinda à Itália não se deve ao moderníssimo vandalismo científico, que me concedeu uma bolsa de estudos no exterior porque escrevi um livro parecido com todos aqueles atrozes compêndios de erudição e crítica de arte? Não estou aqui em Urbania com o compromisso expresso de produzir mais um desses livros no prazo de alguns meses? Imaginas, miserável Spiridion, polonês criado à semelhança de um pedante alemão, doutor em filosofia, professor universitário, autor de um ensaio premiado sobre os déspotas do século XV, ima- ginas que, com tuas cartas ministeriais e tuas provas tipográficas no bolso de teu professoral paletó preto, podes chegar, em espírito, à presença do Passado?

É isso mesmo, infelizmente! Mas quero esquecer, ao menos de quando em quando; assim como esqueci, hoje à tarde, enquanto os bois brancos puxavam minha carroça, serpenteando lentamente por vales intermináveis, arrastando-se por intermináveis encostas, com a torrente invisível burburinhando lá embaixo e apenas os cumes cinzentos e avermelhados erguendo-se em toda a volta, até esta cidade de Urbania, esquecida da humanidade, torreada e ameada, no alto dos Apeninos. Sigillo, Penna, Fossombrone, Mercatello, Montemurlo — o nome de cada aldeia que o carroceiro apontava trazia-me à mente a lembrança de uma batalha ou de uma grande traição de tempos antigos. E, quando as imensas montanhas esconderam o sol poente e os vales se encheram de sombras e névoas azuladas, restando apenas uma barra de um vermelho sinistro atrás das torres e cúpulas da cidade, e o toque dos sinos da igreja pairou sobre o precipício, quase esperei, a cada curva da estrada, que surgisse um grupo de cavaleiros de elmos rostrados e botas cravejadas, armaduras reluzentes e estandartes tremulando ao crepúsculo. E depois, há menos de duas horas, entrando na cidade, ao anoitecer, percorrendo as ruas desertas, onde só um lampião fumarento bruxuleava cá e lá, diante de um santuário ou de uma banca de frutas, ou um fogo tingia de rubro o negrume de uma ferraria, contemplando as ameias e as torres do palácio… Ah, era isso a Itália, era isso o Passado!

21 de agosto. E é isso o Presente! Quatro cartas de apresentação para entregar e uma hora de polida conversação para suportar com o vice-prefeito, o síndico, o diretor dos Arquivos e o bom homem que meu amigo Max me mandou procurar para arranjar acomodações…

22-21 de agosto. Passei a maior parte do dia nos Arquivos e a maior parte desse tempo entediando-me mortalmente com o diretor, que durante três quartos de hora discorreu sobre os Comentários de Aeneas Sylvius sem parar para tomar fôlego. Contra esse tipo de martírio (quais são as sensações de um ex-cavalo de corrida que se vê obrigado a viajar de fiacre? Se você consegue imaginá-las, são as mesmas de um polonês que se tornou professor universitário prussiano), busco refúgio em longas caminhadas pela cidade. Esta cidade consiste em um punhado de casas altas e escuras, amontoadas num cume alpestre, e em longas ruelas estreitas derramando-se pelas encostas, como os escorregadores que criávamos nas colinas de nossa meninice; e no meio ergue-se o palácio do duque Ottobuono, uma soberba construção de tijolos vermelhos, torreada e ameada, de cujas janelas se avista um mar, uma espécie de remoinho, de melancólicas montanhas cinzentas. E há a população, homens morenos de barba cerrada, que mais parecem bandoleiros, com suas capas forradas de verde e suas azêmolas desgrenhadas; jovens flanando pelas ruas, musculosos, cabisbaixos, semelhantes aos sicários dos afrescos de Signorelli; belos meninos, pequenos Rafael, de olhos idênticos aos olhos dos novilhos; e mulheres enormes, Madonas ou santas Elizabeth, conforme o caso, com seus tamancos bem firmes nos pés, seus jarros de latão na cabeça, subindo e descendo as ladeiras íngremes e escuras. Não falo muito com essa gente; tenho medo de que minhas ilusões se esvaeçam. Numa esquina, em frente ao belo pórtico de Francesco di Giorgio, há um grande cartaz azul e vermelho, representando um anjo que desce do céu para coroar Elias Howe por suas máquinas de costura; e há os escreventes da vice-prefeitura, que comem onde eu como, conversam entre si, aos gritos, sobre política, Minghetti, Cairoli, Tunis, couraçados etc, e cantam trechos de La Filie de Mme. Angot, que, imagino, foi encenada aqui recentemente.

Não; conversar com os nativos é, evidentemente, uma experiência perigosa. A não ser, talvez, com meu bom senhorio, o Signor Notaro Porri, que é um homem culto e cheira consideravelmente menos rapé (ou limpa o casaco com maior freqüência) que o diretor dos Arquivos. Esqueci-me de anotar (e creio que preciso anotar, na vã esperança de que esses papéis, como um raminho murcho de oliveira ou um candeeiro toscano de três mechas em minha mesa, algum dia me ajudem a recordar, naquela odiosa Babilônia que é Berlim, estes dias felizes na Itália) — esqueci-me de registrar que estou hospedado na casa de um antiquário. Minha janela dá para a rua principal, para o ponto em que, entre os toldos e pórticos do mercado, ergue-se a pequena coluna encimada por Mercúrio. Debruçando-me sobre os jarros e tinas desbeiçadas, cheias de alfavaca, cravo e tagetes, consigo avistar um canto da torre do palácio e o vago azul-ultramarino das colinas mais além. A casa, cujos fundos se estendem até a ravina, é uma construção esquisita, irregular, com os cômodos caiados de branco, enfeitados com quadros de Rafael, Francia e Perugino, que meu anfitrião leva para a taberna principal sempre que se espera a chegada de um forasteiro, e repletos de velhas cadeiras entalhadas, sofás Império, baús dourados com ornatos em relevo, armários contendo velhos retalhos de damasco e toalhas de altar bordadas que impregnam o ambiente com um cheiro de incenso e de mofo; e a tudo isso presidem as irmãs solteironas do Signor Porri — Sora Serafina, Sora Lodovica e Sora Adalgisa —, as três Parcas em pessoa, com rocas e gatos pretos.

Sor Asdrubale, como chamam meu senhorio, também é notário. Ele lamenta o fim do governo pontifício, tendo tido um primo que foi caudatário de um cardeal, e acredita que quem arrumar uma mesa para dois, acender quatro velas feitas com gordura de homens mortos e realizar certos ritos que não especifica muito bem poderá, na véspera de Natal e em noites semelhantes, evocar San Pasquale Baylon, que escreverá os números ganhadores da loteria no fundo enfumaçado de um prato, se o devoto previamente o estapeou em ambas as faces e recitou três ave-marias. A dificuldade consiste em obter a gordura dos homens mortos para fabricar as velas e também em estapear o santo antes que ele suma.

“Não fosse por isso”, diz Sor Asdrubale, “há muito tempo o governo teria tido de abolir a loteria!”

9 de setembro. Essa história de Urbania tem lá seu romantismo, conquanto desprezado (como de hábito) por nossos pedantes. Mesmo antes de vir para cá eu já estava encantado com a estranha figura de mulher que emerge das áridas páginas de Gualterio e do padre De Sanctis sobre a história desse local. Essa mulher é Medea, filha de Galeazzo IV Malatesta, senhor de Carpi, e esposa primeiramente de Pierluigi Orsini, duque de Stimigliano, e depois de Guidalfonso II, duque de Urbania, predecessor do grande duque Roberto II.

A história e o caráter dessa mulher lembram os de Bianca Cappello e, ao mesmo tempo, os de Lucrécia Borgia. Nascida em 1556, ela foi prometida, aos doze anos de idade, a um primo, um Malatesta de Rimini. Tendo essa família decaído muito, rompeu-se o compromisso e, um ano depois, Medea da Carpi ficou noiva de um membro da família Pico, com o qual se casou, por procuração, aos catorze anos. Tal união, contudo, não satisfazia sua própria ambição nem a de seu pai e, assim, foi declarada nula, sob um pretexto qualquer; encorajou-se então a corte do duque de Stimigliano, um grande feudatário úmbrio da família Orsini. Inconformado, o noivo, Giovanfrancesco Pico, recorreu ao papa e chegou a raptar Medea, pela qual estava perdidamente apaixonado, pois se tratava de uma dama lindíssima, jovial e afável, segundo informa uma antiga crônica de autor anônimo. Pico a emboscou quando ela ia, de liteira, para uma vila de Galeazzo IV e levou-a para seu castelo, nas proximidades de Mirandola, onde respeitosamente insistiu no casamento, frisando que tinha o direito de considerá-la sua esposa. A dama, porém, fugiu, descendo até o fosso por uma corda trançada com lençóis, e Giovanfrancesco Pico foi encontrado morto com um punhal cravado no peito pela mão de Madonna Medea da Carpi. Era um belo mancebo de apenas dezoito anos.

Pico liquidado e o casamento com ele declarado nulo pelo papa, Medea da Carpi uniu-se solenemente ao duque de Stimigliano e foi viver nos domínios do novo marido, perto de Roma.
Dois anos depois, Pierluigi Orsini foi apunhalado por um de seus cavalariços em seu castelo de Stimigliano, nas cercanias de Orvieto. As suspeitas recaíram sobre a viúva, que, imediatamente após o crime, ordenou a dois de seus criados que eliminassem o assassino em seus próprios aposentos; mas o cavalariço já havia revelado que ela o induzira a matar o duque, prometendo-lhe seu amor. A situação se tornou tão insustentável que Medea da Carpi fugiu para Urbania e se jogou aos pés do duque Guidalfonso II, afirmando que decretara a morte do cavalariço só para vingar sua boa reputação, denegrida por ele, e alegando absoluta inocência em relação à morte do marido. A esplêndida beleza da jovem viúva, que tinha apenas dezenove anos, virou por completo a cabeça do duque de Urbania. Ele demonstrou acreditar em sua inocência, recusou-se a entregá-la aos Orsini, parentes de seu falecido marido, e reservou-lhe magníficos aposentos na ala esquerda do palácio, entre os quais a sala que continha a famosa lareira ornamentada com cupidos de mármore sobre fundo azul. Guidalfonso apaixonou-se loucamente por sua bela hóspede. Até então tímido e caseiro, passou a negligenciar publicamente sua esposa, Maddalena Varano de Camerino, com quem sempre vivera em excelentes termos, apesar de não terem filhos; não só desprezou as advertências de seus conselheiros e de seu suserano, o papa, como tomou providências para repudiar sua mulher, sob o pretexto de má conduta. Incapaz de suportar esse tratamento, a duquesa Maddalena refugiou-se no convento das irmãs descalças de Pesaro, onde definhou, enquanto Medea da Carpi reinava em seu lugar, em Urbania, envolvendo o duque Guidalfonso em brigas com os poderosos Orsini, que ainda a acusavam de ter assassinado Stimigliano, e com os Varano, parentes da injuriada duquesa Maddalena; por fim, no ano de 1576, tendo enviuvado repentinamente e em circunstâncias suspeitas, o duque de Urbania casou-se com Medea da Carpi dois dias após o falecimento de sua infeliz esposa. Esse casamento não produziu nenhum filho; mas tamanha era a paixão do duque Guidalfonso que a nova duquesa o induziu a legar o ducado (tendo, com grande dificuldade, obtido o consentimento do papa) ao menino Bartolommeo, fruto de sua união com Stimigliano, porém não reconhecido como tal pelos Orsini, que o declaravam filho daquele Giovanfrancesco Pico com quem Medea se casara por procuração e ao qual assassinara, dizia, para defender sua honra; e essa investidura do ducado de Urbania a um forasteiro bastardo ocorreu em detrimento dos direitos óbvios do cardeal Roberto, irmão mais novo de Guidalfonso.

Em maio de 1579 o duque Guidalfonso morreu súbita e misteriosamente, tendo Medea interditado todo e qualquer acesso a seus aposentos por temer que, em seu leito de morte, ele se arrependesse e restaurasse os direitos do irmão. A duquesa imediatamente fez com que seu filho, Bartolommeo Orsini, fosse proclamado duque de Urbania e que a reconhecessem como regente; e, com a ajuda de dois ou três jovens inescrupulosos, em especial um certo capitão Oliverotto da Narni, que, segundo se dizia, era seu amante, tomou as rédeas do governo com extraordinário e terrível vigor, colocando um exército em marcha contra os Varano e os Orsini, aos quais derrotou em Sigillo, e exterminando sem dó nem piedade todos os que ousassem questionar a legitimidade da sucessão; durante todo esse tempo o cardeal Roberto, que abandonara as vestes e os votos eclesiásticos, esteve em Roma, na Toscana, em Veneza — e até visitou o imperador e o rei da Espanha, suplicando ajuda para enfrentar a usurpadora. Ao cabo de alguns meses ele voltou seus simpatizantes contra a duquesa-regente; o papa solenemente declarou nula a investidura de Bartolommeo Orsini e promulgou a acessão de Roberto II, duque de Urbania e conde de Montemurlo; em segredo, o grão-duque da Toscana e os venezianos prometeram colaborar, mas só se Roberto fosse capaz de assegurar seus direitos à viva força. Pouco a pouco uma cidade após outra se bandearam para Roberto, e Medea da Carpi se viu sitiada na cidadela montanhosa de Urbania como um escorpião cercado de chamas. (Essa imagem não é minha, e sim de Raffaello Gualterio, historiógrafo de Roberto II.) No entanto, ao contrário do escorpião, Medea se recusou a cometer suicídio. É absolutamente prodigioso que, sem dinheiro nem aliados, ela conseguisse conter seus inimigos por tanto tempo; e Gualterio atribui essa proeza àquelas fatais fascinações que levaram Pico e Stimigliano à morte, que transformaram o honesto Guidalfonso em vilão, e que eram de tal ordem que, entre todos os seus amantes, não houve um que preferisse não morrer por ela, mesmo depois de ter sido tratado com ingratidão e suplantado por um rival; uma faculdade que Messer Raffaello Gualterio claramente relaciona à conivência com o inferno.

Por fim o ex-cardeal Roberto venceu e, em novembro de 1579, entrou triunfalmente em Urbania. Moderação e clemência pautaram sua acessão. Não houve execuções, salvo a de Oliverotto da Narni, que se lançou sobre o novo duque, tentou apunhalá- lo quando ele se apeou diante do palácio e morreu pelas mãos dos sequazes de Roberto, gritando com seu último suspiro “Orsini, Orsini! Medea, Medea! Viva o duque Bartolommeo!”, embora conste que a duquesa o tratara com ignomínia. O pequeno Bartolommeo foi enviado a Roma, onde ficou sob a tutela dos Orsini; e Medea foi respeitosamente confinada na ala esquerda do palácio.

Dizem que ela insolentemente requereu uma entrevista com o novo duque, que, todavia, balançou a cabeça e, em seu estilo sacerdotal, citou um verso sobre Ulisses e as sereias; e é extraordinário o fato de que ele sempre se recusou a recebê-la e saiu de seus aposentos às pressas no dia em que Medea se esgueirou até lá. Alguns meses depois se descobriu uma conspiração (obviamente arquitetada por Medea) para assassinar o duque Roberto. No entanto, mesmo padecendo a mais cruel tortura, o jovem Marcantonio Frangipani, de Roma, negou que ela estivesse envolvida na trama; assim, o duque Roberto, que não queria agir com violência, limitou-se a transferir a duquesa de sua vila em Sant’Elmo para o convento das clarissas, na cidade, onde determinou que a guardassem e vigiassem com extremo rigor. Parecia impossível que ela voltasse a conspirar, pois certamente não via ninguém nem podia ser vista por ninguém. Não obstante ela conseguiu enviar uma carta e um retrato seu a um tal Prinzivalle degli Ordelaffi, um rapaz de apenas dezenove anos, que pertencia à nobre família Romagnole e estava noivo de uma das donzelas mais lindas de Urbania. Ele imediatamente rompeu o noivado e, pouco depois, durante a missa de Páscoa, tentou matar o duque Roberto com uma pistola. Dessa vez o duque resolveu reunir provas contra Medea. Prinzivalle degli Ordelaffi passou alguns dias sem receber nenhum alimento, depois sofreu as piores torturas e por fim foi condenado. Quando estava prestes a ser esfolado com tenazes em brasa e esquartejado por quatro cavalos, disseram-lhe que poderia obter a graça da morte imediata se admitisse o envolvimento da duquesa; e o confessor e as freiras do convento, situado na praça da execução, do outro lado da Porta San Romano, insistiram com Medea para que salvasse o infeliz, cujos gritos chegavam a seus ouvidos, declarando-se culpada. A duquesa pediu permissão para ir até a sacada, de onde poderia ver Prinzivalle e ser vista por ele. Então olhou friamente e jogou seu lenço bordado para a pobre criatura lacerada. O jovem pediu ao carrasco que lhe limpasse a boca com o lenço, beijou o delicado tecido e gritou que Medea era inocente. Por fim morreu, após várias horas de tormentos. Com isso até mesmo a paciência do duque Roberto se esgotou. Percebendo que, enquanto Medea vivesse, sua própria vida correria constante perigo, mas, não querendo provocar escândalo (atitude remanescente de sua natureza sacerdotal), determinou que a duquesa fosse estrangulada no convento e, o que é espantoso, apenas mulheres — duas infanticidas cuja pena ele suspendeu — perpetrassem o crime.

“Esse príncipe clemente”, escreve dom Arcangelo Zappi em sua biografia do duque, publicada em 1725, “cometeu um único ato de crueldade, o mais odioso, pois, até ser liberado de seus votos pelo papa, estivera nas santas ordens. Consta que, quando decretou a morte da infame Medea da Carpi, temia de tal modo que seus extraordinários encantos seduzissem qualquer homem que não só utilizou mulheres como carrascos, mas também lhe recusou a visita de um padre ou um monge e, assim, obrigou-a a morrer sem confissão e lhe negou o benefício de qualquer penitência que pudesse abrigar-se em seu adamantino coração.”

Essa é a história de Medea da Carpi, duquesa de Stimigliano Orsini e depois esposa do duque Guidalfonso II de Urbania. Ela foi executada há 297 anos, em dezembro de 1582, aos vinte e sete anos de idade, tendo, no decorrer de sua vida breve, levado a um fim violento cinco de seus amantes, de Giovanfrancesco Pico a Prinzivalle degli Ordelaffi.

20 de setembro. Intensa iluminação da cidade em homenagem à tomada de Roma, ocorrida quinze anos atrás. À exceção de Sor Asdrubale, meu senhorio, que torce o nariz para os piemonteses, como os chama, todos aqui são italianissimi. Os papas os oprimiram muito desde que Urbania caiu em poder da Santa Sé, em 1645.

28 de setembro. Tenho andado procurando retratos da duquesa Medea. A maioria, imagino, deve ter sido destruída, talvez pelo medo do duque Roberto II de que, mesmo depois de morta, a terrível beldade lhe pregasse uma peça. Consegui encontrar, no entanto, uns três ou quatro — uma miniatura nos Arquivos, que se acredita ser a que ela enviou ao pobre Prinzivalle degli Ordelaffi para virar-lhe a cabeça; um busto de mármore no despejo do palácio; uma composição grande, possivelmente de Baroccio, focalizando Cleópatra aos pés de Augusto. Augusto é a imagem idealizada de Roberto II, com o cabelo curto, o nariz meio torto, a barba aparada e a cicatriz de sempre, porém em trajes romanos. Apesar da indumentária oriental e da peruca negra, Cleópatra me parece representar Medea da Carpi; ela está ajoelhada, desnudando o peito para o vencedor golpear, mas, na verdade, para seduzi-lo, e ele lhe dá as costas, num gesto de asco. Esses retratos não são grande coisa, à exceção da miniatura, uma obra primorosa, que, com as sugestões do busto, permite reconstituir facilmente a beleza dessa criatura terrível. O tipo é o mesmo que gozava de imensa admiração no final da Renascença e que, em certa medida, Jean Goujon e os franceses imortalizaram. O rosto é um oval perfeito; a testa, um tanto arredondada demais, com minúsculos e luzidios cachinhos castanho- avermelhados que lembram pelagem de carneiro; o nariz é um pouquinho aquilino demais, e os malares, um pouquinho baixos demais; os olhos, cinzentos, enormes, notáveis, são encimados por sobrancelhas esplendidamente arqueadas e pálpebras algo repuxadas nos cantos; a boca, de um vermelho brilhante e desenho delicado, contrai-se um quase nada, os lábios ligeiramente crispados sobre os dentes. Pálpebras repuxadas e lábios crispados conferem um estranho refinamento e, ao mesmo tempo, um ar de mistério, um poder de sedução um tanto sinistro; parecem tirar, e não dar. A boca, com uma espécie de beicinho infantil, parece capaz de morder ou de sugar como uma sanguessuga. A pele é de uma alvura estonteante, um lírio diáfano, perfeito para uma beldade ruiva; a cabeça, com o cabelo caprichosamente cacheado e trançado junto ao crânio e adornado com pérolas, repousa, como o da Aretusa antiga, num pescoço longo e flexível como o do cisne. Trata-se de uma beleza curiosa, à primeira vista convencional e artificial, voluptuosa e contudo fria; porém, quanto mais a contemplamos, mais ela nos perturba e assombra. Cinge o pescoço da dama uma corrente de ouro com pequenos losangos, igualmente de ouro, dispostos a intervalos e trazendo inscrito o lema ou trocadilho “Amour Dure — Dure Amour” (os motes franceses estavam na moda). O mesmo lema está gravado no busto, que, graças a ele, consegui identificar como um retrato de Medea. Com freqüência examino esses retratos trágicos, imaginando como o rosto que levou tantos homens à morte seria quando Medea da Carpi falava, sorria, fascinava suas vítimas e fazia com que a amassem e morressem — “Amour Dure — Dure Amour”, reza seu lema — amor que dura, amor cruel — sim, de fato, quando se pensa na fidelidade e no destino de seus amantes.

13 de outubro. Literalmente não tive tempo para escrever uma linha de meu diário em todos esses dias. Tenho passado a manhã inteira nos Arquivos e a tarde em longas caminhadas, saboreando este outono delicioso (há neve apenas nos cumes mais altos). À noite ocupo-me em escrever essa maldita história do palácio de Urbania que o governo exige só para me fazer trabalhar numa coisa inútil. Quanto a minha história, não consegui escrever uma palavra… A propósito, devo registrar uma curiosa circunstância mencionada por um biógrafo anônimo do duque Roberto num manuscrito que encontrei hoje. Quando ordenou que se erigisse no pátio da Corte sua estátua eqüestre feita por Antônio Tassi, discípulo de Gianbologna, esse príncipe encomendou secretamente, diz o biógrafo anônimo, uma estatueta de prata de seu gênio ou anjo familiar — “familiaris ejus angelus seu genius, quod a vulgo dicitur idolino” —, a qual estatueta, ou ídolo, depois de ter sido consagrada pelos astrólogos — “ab astrologis quibusdam ritibus sacrato” —, foi posta na cavidade do peito da efígie elaborada por Tassi para que, prossegue o manuscrito, sua alma possa descansar até o dia da Ressurreição geral. Esse trecho é interessante e, a meu ver, meio confuso; como católico, o duque Roberto deveria acreditar que, tão logo se separasse do corpo, sua alma iria para o purgatório, e não que ficaria esperando a Ressurreição geral. Será que havia na Renascença alguma superstição semi-pagã (estranhíssima, por certo, num homem que tinha sido cardeal), relacionando a alma a um gênio guardião que poderia ser compelido por ritos mágicos (“ab astrologis sacrato”, informa o manuscrito do pequeno ídolo) a permanecer preso à terra, para que a alma dormisse no corpo até o Dia do Juízo? Confesso que essa história me desconcerta. Será que esse ídolo existiu algum dia ou existe atualmente no corpo da efígie de bronze criada por Tassi?

20 de outubro. Tenho saído bastante com o filho do vice-prefeito: um rapaz amável, com cara de quem está perdido de amor e com um vago interesse pela história e pela arqueologia de Urbania, da qual é profundamente ignorante. Esse moço, que morou em Siena e em Lucca antes de seu pai ser transferido para cá, usa calças extremamente compridas e tão justas que quase o impedem de dobrar os joelhos, colarinho alto, monóculo e um par de luvas de pelica no peito do casaco, fala de Urbania como Ovídio falaria do Ponto e reclama (quanto pode) do barbarismo dos jovens, dos funcionários que comem em minha taberna e uivam e cantam como loucos e dos nobres que conduzem charrete, exibindo quase a mesma garganta de uma dama num baile. Esse indivíduo com freqüência me fala de seus amori, passados, presentes e futuros; evidentemente me acha muito esquisito, por não ter nenhum para lhe contar; quando caminhamos pela rua, ele me aponta criadas e costureiras bonitas (ou feias), solta profundos suspiros ou canta em falsete atrás de cada mulher de aparência mais ou menos jovem; e por fim me levou à casa da dona

de seu coração, uma grande condessa de buço preto e voz idêntica à de uma peixeira; aqui, garante-me, encontrarei a melhor companhia de Urbania e lindas mulheres — ah, lindas demais, infelizmente! Deparo com três salas imensas, parcialmente mobiliadas, piso de ladrilho sem tapete, lâmpadas de petróleo, quadros medonhos pendurados nas paredes azuis e amarelas e no meio de tudo isso, toda noite, uma dúzia de damas e cavalheiros sentados em círculo, berrando uns para os outros as mesmas novidades de um ano atrás; as damas mais jovens se vestem de amarelo e verde-intenso e se abanam enquanto eu bato os dentes e oficiais de cabelo espetado como porco-espinho lhes murmuram coisas doces por trás de seus leques. E é por essas mulheres que meu amigo espera que eu me apaixone! Inutilmente aguardo o chá ou a ceia, que não servem, e corro para casa, decidido a abandonar o beau monde de Urbania.

É bem verdade que não tenho amori, embora meu amigo não acredite. Quando vim para a Itália, procurei o amor; desejei muito, como Goethe em Roma, que uma janela se abrisse e uma criatura maravilhosa aparecesse, “Welch mich versengend erquickt”. Talvez isso se deva ao fato de que Goethe era alemão, estava acostumado com as Fraus alemãs, e eu, afinal, sou polonês, estou acostumado com algo muito diferente das Fraus; de qualquer modo, apesar de todos os meus esforços, em Roma, Florença e Siena, nunca conheci uma mulher que me inspirasse uma louca paixão, nem entre as damas que tagarelam em péssimo francês, nem entre as proletárias, astutas e frias como prestamistas; assim, fico longe das italianas, de sua voz estridente e de seus trajes espalhafatosos. Estou casado com a história, com o Passado, com mulheres como Lucrécia Borgia, Vittoria Accoramboni ou, no momento, Medea da Carpi; algum dia encontrarei, quem sabe, uma grande paixão, uma mulher que me faça bancar o Dom Quixote, como o polonês que sou; uma mulher que me leve a beber em seu sapato e a morrer por seu prazer; mas não aqui! Poucas coisas me chocam tanto quanto a degeneração das italianas. O que foi feito da raça das Faustina, das Marozia, das Bianca Cappello? Onde achar hoje em dia (confesso que estou obcecado por ela) outra Medea da Carpi? Se fosse possível conhecer uma mulher com aquela beleza excepcional, com aquela natureza terrível, ainda que apenas em potencial, acredito que eu a amaria até o Dia do Juízo, como qualquer Oliverotto da Narni, Frangipani ou Prinzivalle.

21 de outubro. Que belos sentimentos para um professor universitário, um homem culto! Eu achava infantis os artistas jovens de Roma, porque pregavam peças e gritavam pelas ruas, à noite, ao voltar do Caffè Greco ou da adega da Via Palomella; mas eu, este pobre coitado melancólico, que eles chamavam de Hamlet e de Cavaleiro da Triste Figura, não sou extremamente infantil?

5 de novembro. Não consigo tirar da cabeça essa Medea da Carpi. Em minhas andanças, em minhas manhãs nos Arquivos, em minhas noites solitárias, surpreendo-me pensando nessa mulher. Estou me tornando romancista, em vez de historiador? E no entanto creio que a entendo muito bem; muito melhor do que per- mitem minhas circunstâncias. Primeiro, precisamos pôr de lado todas as idéias modernas de certo e errado, tão pedantes. Certo e errado não existe num século de violência e traição, especialmente para criaturas como Medea. Vá pregar certo e errado a uma tigresa, meu caro senhor! E, contudo, existe no mundo algo mais nobre que essa criatura imensa, de aço quando salta, de veludo quando caminha, ao esticar o corpo flexível, ao alisar a bela pelagem, ao cravar as garras em sua vítima?

Sim, consigo entender Medea. Imagine uma mulher de superlativa beleza, de imensa coragem e extrema calma, de muitos recursos, de gênio, criada por um principezinho insignificante (seu pai) em Tácito e Salústio e nas histórias dos grandes Malatesta, de Cesare Borgia e que tais! — uma mulher cuja única paixão é conquistar e imperar — imagíne-a, prestes a se casar com um homem do poderio do duque de Stimigliano, carregada à força por uma nulidade como Pico, trancafiada em seu castelo de bandido hereditário e tendo de aceitar o amor ardente do pequeno paspalho como uma honra e uma necessidade! A simples idéia de qualquer violência contra tal natureza constitui um ultraje abominável; e, se Pico decide abraçar essa mulher mesmo correndo o risco de encontrar em suas mãos uma afiada lâmina de aço, pois bem, é justo. Jovem biltre — ou, se preferir, jovem herói —, pensar em tratar uma mulher desse porte como se fosse uma aldeã qualquer! Medea esposa seu Orsini. Um casamento, cabe notar, entre um velho soldado cinqüentão e uma mocinha de dezesseis anos. Reflita sobre o que isso significa: significa que essa mulher imperiosa logo é tratada como um pertence e forçada a compreender que sua obrigação consiste em dar um herdeiro ao cônjuge, e não conselhos; significa que ela nunca deve perguntar “por que isto ou aquilo?”; que tem de fazer reverência aos conselheiros, aos capitães, às amantes do duque; que, à menor suspeita de rebeldia, está sujeita aos insultos e golpes do marido; à menor suspeita de infídelidade, pode ser estrangulada, condenada a morrer de fome ou jogada num calabouço. Suponha que ela sabe que o duque cismou que ela olhou demais para este ou aquele homem, que um dos tenentes ou uma das mulheres de Stimigliano murmuraram que, afinal, o menino Bartolommeo tanto poderia ser um Pico como um Orsini. Imagine que ela sabe que tem de ferir ou ser ferida. Ora, ela fere ou arranja alguém que fira em seu lugar. A que preço? Uma promessa de amor, de amor a um cavalariço, ao filho de um servo! Ora, o miserável devia estar louco ou bêbado para acreditar que isso seria possível; o simples fato de crer em algo tão monstruoso já o torna digno de morrer. E então ele ousa abrir a boca! É muito pior que Pico. Medea tem de defender sua honra pela segunda vez; se conseguiu apunhalar Pico, ela certamente consegue apunhalar esse indivíduo ou fazer com que o apunhalem.

Acossada pelos parentes do marido, Medea se refugia em Urbania. O duque, como os outros, apaixona-se loucamente por ela e negligencia a esposa; podemos dizer até que parte o coração da esposa. É culpa de Medea? É por sua culpa que as rodas de sua carruagem esmagam toda pedra que aparece pela frente? Claro que não. Você acha que uma mulher como Medea sente a mínima malevolência contra uma pobre e pusilânime duquesa Maddalena? Ora, ela ignora a própria existência dessa infeliz. Imaginá-la cruel é tão grotesco quanto tachá-la de imoral. Seu destino é, mais cedo ou mais tarde, triunfar sobre seus inimigos, transformar a vitória deles quase em derrota; sua faculdade mágica consiste em escravizar todos os homens que cruzam seu caminho; todos que a vêem a amam e se tornam seus escravos; e o destino de todos os seus escravos é morrer. Todos os seus amantes, com exceção do duque Guidalfonso, chegam a um fim violento; e não há nada de injusto nisso. Possuir uma mulher como Medea é uma felicidade grande demais para um mortal; haveria de virar-lhe a cabeça, de fazê-lo esquecer até o que devia a ela; nenhum homem que julgue ter algum direito sobre ela pode sobreviver por muito tempo; é uma espécie de sacrilégio. E só a morte, a disposição de pagar tal felicidade com a morte, pode tornar um homem digno de ser seu amante; ele precisa estar disposto a amar e sofrer e morrer. Esse é o significado de seu lema — “Amour Dure — Dure Amour”. O amor de Medea da Carpi não pode fenecer, mas o amante pode morrer; é um amor constante e cruel.

11 de novembro. Eu estava certo, muito certo. Encontrei — oh, que alegria! Ofereci ao filho do vice-prefeito um jantar de cinco pratos na Trattoria La Stella d’Italia só para celebrar —, encontrei nos Arquivos, sem o conhecimento do diretor, naturalmente, uma pilha de cartas — cartas do duque Roberto sobre Medea da Carpi, cartas da própria Medea! Sim, a caligrafia de Medea — uma letra redonda, refinada, com algo de grego, como convém a uma princesa culta que lia Platão ademais de Petrarca. As cartas não têm maior importância; são simples rascunhos, cheios de abreviações, de cartas comerciais que seu secretário devia copiar na época em que ela governava o pobre e fraco Guidalfonso. Mas são cartas dela, e quase consigo imaginar que sobre esses papéis que estão se desfazendo paira um perfume de cabelo de mulher.

As poucas cartas do duque Roberto o expõem sob uma nova luz. Ele é um sacerdote astuto e frio, mas covarde. Estremece só de pensar em Medea — “la pessima Medea” —, a quem considera pior que sua homônima da Cólquida. Sua longa clemência se deve simplesmente ao medo de usar de violência contra ela. O duque a teme quase como algo sobrenatural; exultaria, se pudesse mandá-la para a fogueira, como a uma bruxa. Depois de escrever cartas e cartas a seu amigo, o cardeal Sanseverino, de Roma, explicando-lhe como se protege de Medea — usa uma cota de malha por baixo do manto; só toma leite de vaca ordenhada em sua presença; oferece a seu cão bocados de sua comida para verificar se não está envenenada; desconfia das velas de cera por causa do cheiro especial; abstém-se de cavalgar porque teme que lhe assustem a montaria para fazê-lo quebrar o pescoço —, depois de tudo isso, e dois anos após o sepultamento de Medea, ele conta a seu correspondente que tem medo de encontrar a alma dela, quando morrer, e se mostra muito satisfeito com o engenhoso artifício (concebido por seu astrólogo e por um certo Fra Gaudenzio, um capuchinho) que lhe permitirá assegurar a paz absoluta de sua alma até que a da perversa Medea esteja por fim acorrentada no inferno, entre os lagos de piche fervente e o gelo da Caína descrito pelo bardo imortal” — velho pedante! Eis aqui, pois, a explicação para aquela imagem de prata — quod vulgo dicitur idolino — que ele mandou soldar no interior da efígie elaborada por Tasso. Enquanto a imagem de sua alma estiver presa a imagem de seu corpo, ele dormirá, esperando o Dia do Juízo, firmemente convencido de que a alma de Medea receberá então o devido castigo, ao passo que a sua — homem honesto! — voará direto para o Paraíso. E pensar que duas semanas atrás eu via esse homem como herói! Ah, meu bom duque Roberto, vou desmascará-lo em minha história; e nenhum idolino de prata conseguirá salvá-lo do ridículo!

15 de novembro. Estranho! Aquele idiota do filho do prefeito, que me ouviu falar de Medea da Carpi cem vezes, lembra de repente que, quando era criança, em Urbânia, sua babá o ameaçava com uma visita de Madonna Medea, que voava pelo céu montada num bode preto. Minha duquesa Medea transformada em papão para assustar menininhos travessos!

20 de novembro. Tenho andado mostrando a região a um professor bávaro de história medieval. Entre outros lugares, fomos a Rocca Sant’Elmo, visitar a antiga vila dos duques de Urbania, a vila onde Medea ficou enclausurada entre a acessão do duque Roberto e a conspiração de Marcantonio Frangipani, que acarretou sua remoção para o convento situado junto aos muros da cidade. Uma longa cavalgada pelos ermos vales apenínicos, indizivelmente desolados, com sua rala fímbria de carvalhos-anões, cor de ferrugem, ralos trechos de relva crestada pela geada, as últimas poucas folhas amarelas dos choupos, nas margens das torrentes, agitando- se à fria tramontana; os cumes das montanhas estão envoltos numa densa nuvem cinzenta; amanhã, se o vento persistir, veremos muita neve contra o gélido céu azul. Sant’Elmo é um insignificante vilarejo no alto dos Apeninos, onde a vegetação italiana já cede lugar à setentrional. Cavalgamos quilômetros por entre bosques de castanheiros desfolhados, sentindo o cheiro das folhas encharcadas, escutando o rugido da torrente, turva com as chuvas de outono, no fundo do precipício; então, de repente, os bosques de castanheiros desfolhados desaparecem, como em Vallombrosa, e surge um compacto cinturão de abetos negros. Ao deixar os abetos para trás, entramos num descampado, os pastos destruídos pelo frio, os cumes cobertos de neve, de neve recente, logo acima; e no meio, num outeiro, tendo de cada lado um lariço retorcido, a vila ducal de Sant’Elmo, uma construção de pedra negra com um brasão de pedra, janelas providas de grade e dois lances de escada na frente. Agora está alugada ao proprietário dos bosques vizinhos, que a usa para armazenar castanhas, madeira, lenha e carvão proveniente dos fornos das redondezas. Prendemos os cavalos nas argolas de ferro e entramos; uma velha desgrenhada estava sozinha na casa. A vila não passa de um pavilhão de caça, construído em cerca de 1530 por Ottobuono IV, pai dos duques Guidalfonso e Roberto. Alguns cômodos eram decorados com afrescos e painéis de carvalho, mas tudo isso desapareceu. Só restou, em uma das salas, uma grande lareira de mármore, semelhante às do palácio de Urbania, lindamente adornada com entalhes de Cupido sobre fundo azul; em cada lado um gracioso menino nu sustenta um jarro, sendo um de cravos, o outro de rosas. A sala está repleta de feixes de lenha. Voltamos tarde para casa, estando meu companheiro de péssimo humor por causa de nossa infrutífera expedição. Quando chegamos aos bosques de castanheiros, fomos surpreendidos por uma nevada. O espetáculo dos flocos caindo suavemente, da terra e dos arbustos brancos em toda a volta, fez com que me sentisse em Posen, criança de novo. Cantei e gritei, para horror de meu companheiro. Se Berlim tomar conhecimento disso, será um ponto contra mim. Um historiador de vinte e quatro anos que grita e canta, enquanto outro historiador amaldiçoa a neve e as estradas precárias! Passei a noite acordado, observando as brasas na lareira e pensando em Medea da Carpi enclausurada, no inverno, naquela solidão de Sant’Elmo, entre os abetos que estalavam, a torrente que rugia, a neve que caía por toda parte; a quilômetros e quilômetros de distância de criaturas humanas. Imaginei que vi tudo isso e que eu era Marcantonio Frangipani e chegava para libertá-la — ou seria Prinzivalle degli Ordelaffi? Atribuo tais devaneios à longa cavalgada, à sensação de formigamento provocada pela neve, ou, talvez, ao ponche que meu professor insistiu em tomar depois do jantar.

23 de novembro. Graças a Deus, o professor bávaro finalmente foi embora! Ele quase me deixou louco nesse período que passou aqui. Falando sobre meu trabalho, expus-lhe um dia minhas opiniões a respeito de Medea da Carpi, e ele se dignou a comentar que correspondiam às lendas de sempre, fruto da tendência mitopoética (velho idiota!) da Renascença; que uma pesquisa invalidaria a maior parte delas, assim como invalidara as histórias correntes sobre os Borgia etc; que, ademais, a mulher descrita por mim era psicológica e fisiologicamente impossível. Quem me dera essa mulher pudesse dizer a mesma coisa de professores como ele e seus colegas!

24 de novembro. Não consigo esconder a alegria de ter me livrado daquele imbecil; eu tinha ganas de estrangulá-lo toda vez que ele falava da Dama de meus pensamentos — pois foi nisso que ela se converteu — Metea, como dizia o animal!

30 de novembro. Estou muito abalado com o que acaba de acontecer; começo a temer que aquele velho pedante tivesse razão em dizer que viver sozinho num país estrangeiro não era bom para mim, pois me tornaria mórbido. É ridículo me empolgar tanto com a inesperada descoberta do retrato de uma mulher que morreu há trezentos anos. Considerando o caso de meu tio Ladislas e outras suspeitas de insanidade na família, eu deveria me precaver seriamente contra empolgações tão tolas.

E contudo o incidente foi realmente dramático, extraordinário. Eu poderia jurar que conhecia todos os quadros do palácio e, em especial, aquele retrato Dela. De qualquer modo, hoje de manhã, ao sair dos Arquivos, passei por uma das muitas saletas — cômodos de forma irregular — que preenchem os recessos desse curioso palácio, torreado como um castelo francês. Decerto eu já havia passado por ali, pois a vista que se descortina da janela não me é estranha; só a torre redonda em frente, o cipreste no outro lado da ravina, o campanário mais além, o monte Sant’Agata e a Leonessa, cobertos de neve, delineando-se contra o céu. Deve haver duas saletas iguais, e entrei na saleta errada; ou, talvez, abrira-se alguma veneziana, puxara-se alguma cortina. Uma linda moldura antiga, presa na parede revestida de marrom e amarelo, chamou-me a atenção. Aproximei-me e, ao olhar para a moldura, automaticamente olhei também para o espelho que ela adornava. Dei um pulo e quase gritei, acredito (por sorte o professor de Munique está a salvo, longe de Urbania!). Atrás de minha imagem havia outra, uma figura junto ao meu ombro, um rosto junto ao meu; e essa figura e esse rosto eram dela! De Medea da Carpi! Virei- me, tão branco, acho eu, quanto o fantasma que esperava ver. Na parede oposta ao espelho, apenas um ou dois passos atrás de mim, havia um retrato. E que retrato! — Bronzino nunca pintou nada mais grandioso. Contra um fundo azul-escuro destaca- se a figura da duquesa (pois é Medea, a verdadeira Medea, mil vezes mais real, individual e poderosa que nos outros retratos), sentada numa cadeira de espaldar alto, hirta, como se a sustentasse o rígido brocado das saias e do corpete, mais rígido em função das flores bordadas em prata e das fieiras de pérolas. O vestido, com sua mistura de prata e pérolas, é de um vermelho estranho, fosco, uma cor desagradável de extrato de papoula, contra a qual a pele das mãos longas e finas, com unhas que sugerem franja, do longo pescoço esguio e do rosto com a testa descoberta parece branca e dura como alabastro. O rosto é o mesmo dos outros retratos: a mesma testa redonda, com os cachinhos curtos, de um ruivo-dourado, que lembram pelagem de carneiro; as mesmas sobrancelhas lindamente arqueadas, apenas delineadas; as mesmas pálpebras, algo repuxadas sobre os olhos; os mesmos lábios, um tanto crispados sobre a boca; todavia a pureza dos traços, o estonteante esplendor da pele e a intensidade do olhar tornam esse retrato incomensuravelmente superior a todos os outros.

O olhar de Medea, voltado para um ponto além da moldura, é frio e racional; mas seus lábios sorriem. Uma das mãos segura uma rosa de um vermelho aguado; a outra, longa, fina, pontiaguda, brinca com um grosso cordão de seda, ouro e pedras preciosas que pende da cintura; e do pescoço, branco como mármore, parcialmente confinado no rígido corpete vermelho-fosco, pende uma corrente de ouro com o mote inscrito em dois medalhões de esmalte, “AMOUR DURE — DURE AMOUR”. Pensando bem, acho que eu nunca tinha estado naquela saleta; decerto me enganei de porta. No entanto, embora a explicação seja tão simples, horas depois ainda me sinto terrivelmente abalado em todo o meu ser. Se estou ficando tão impressionável, vou ter de tirar folga e passar o Natal em Roma. Sinto-me como se algum perigo me ameaçasse (pode ser uma febre?), e contudo, e contudo, não vejo possibilidade de me afastar.

10 de dezembro. Fiz um esforço e aceitei o convite do filho do vice-prefeito para conhecer a fábrica de azeite instalada numa vila de sua família, perto do litoral. A vila, ou fazenda, é uma propriedade fortificada e torreada, situada numa encosta, entre oliveiras e vimeiros que sugerem labaredas de um laranja vivo. As azeitonas são prensadas num porão medonho, escuro como uma masmorra: à frouxa luz do dia e ao clarão amarelo e esfumaçado da resina que queima nos tachos, vêem-se grandes novilhos brancos, girando em torno de uma imensa mó, e vagos vultos, manejando polias e cabos; aos olhos de minha imaginação, parece uma cena da Inquisição. O Cavaliere me brindou com seu melhor vinho e seus melhores biscoitos. Dei longas caminhadas pela praia; deixei Urbania envolta em nuvens de nevasca; no litoral o sol brilhava, intenso; creio que o sol, o mar, a lufa-lufa do pequeno porto do Adriático me fizeram bem. Ao voltar para Urbania, eu era outro homem. Sor Asdrubale, meu senhorio, estava de chinelo, remexendo os baús dourados, os sofás Império, as velhas xícaras e pires e quadros que ninguém vai comprar, e congratulou-me pela melhoria na aparência. “Você trabalha demais”, disse; “a juventude precisa de diversão, teatro, passeios, amori — há bastante tempo para ser sério, quando se fica careca” — e tirou o ensebado gorro vermelho. Sim, estou melhor! E, graças a isso, retomo o trabalho com prazer. Ainda vou superar aqueles sabichões de Berlim!

14 de dezembro. Acho que nunca me senti tão feliz com meu trabalho. Vejo tudo muito bem — o ardiloso e covarde duque Roberto; a melancólica duquesa Maddalena; o fraco e pomposo duque Guidalfonso, aspirante a cavaleiro; e, sobretudo, a esplêndida figura de Medea. Sinto-me como se fosse o maior historiador de minha geração; e, ao mesmo tempo, como se tivesse doze anos de idade. Ontem nevou pela primeira vez na cidade durante duas horas. Quando parou de nevar, fui até a praça e ensinei a molecada a fazer um boneco de neve; não, uma boneca de neve; e tive o capricho de chamá-la Medea. “La pessima Medea!”, um dos meninos gritou. “Aquela que voava montada num bode?” “Não, não”, repliquei, “ela era uma dama linda, a duquesa de Urbania, a mulher mais bela que já existiu.” Fiz-lhe uma coroa dourada e incitei os garotos a gritarem “Evviva, Medea!”. Um deles, porém, falou: “Ela é uma bruxa! Precisa ser queimada!”. Com isso todos correram a buscar lenha e estopa e num minuto derreteram a boneca.

15 de dezembro. Como sou bobo! E pensar que tenho vinte e quatro anos e sou versado em literatura! Em minhas longas caminhadas compus, num italiano pavoroso, a letra para uma melodia (não sei como se chama) que no momento todo mundo está cantarolando e assobiando pela rua; comecei invocando “Medea, mia dea”, em nome de todos os que a amaram. Ando por aí trauteando entre dentes: “Por que não sou Marcantonio? Ou Prinzivalle? Ou aquele de Narni? Ou o bom duque Alfonso? Para ser amado por ti, Medea, mia dea” etc, etc. Um horror! Meu senhorio, acho eu, desconfia que Medea é uma dama que conheci durante minha estada no litoral. Tenho certeza de que Sora Serafina, Sora Lodovica e Sora Adalgisa — as três Parcas ou Norns, como eu as chamo — pensam algo semelhante. Hoje à tardinha, ao arrumar meu quarto, Sora Lodovica comentou: “Como o Signorino canta bem!”. Mal me dei conta de que estava me esgoelando: “Vieni, Medea, mia dea”, enquanto a velha senhora saltitava de um lado para o outro, pondo mais lenha na lareira. Calei-me; que bela reputação vou conquistar!, pensei, e tudo isso vai acabar chegando a Roma e, de lá, a Berlim. Sora Lodovica estava debruçada na janela, recolhendo o lampião que assinala a casa de Sor Asdrubale. Ocupada em aparar a mecha para repor o lampião no lugar, ela falou, com seu jeito bizarro e pudico: “Não devia ter parado de cantar, meu filho” (ela me trata alternadamente de Signor Professore e de termos afetuosos como “Nino”, “Viscere mie” etc); “não devia ter parado de cantar, pois uma senhora lá na rua parou para ouvi-lo”.

Corri até a janela. Uma mulher, envolta num xale preto, estava realmente parada na rua, olhando para cima.
”Eh, eh, o Signor Professore tem admiradoras”, disse Sora Lodovica.
”Medea, mia dea!”, berrei, o mais alto que pude, com um prazer infantil de desconcertar a transeunte curiosa. A mulher se virou para ir embora, acenando para mim com a mão; nesse momento Sora Lodovica recolocou o lampião lá fora. Um feixe de luz cruzou a rua. Senti um frio intenso; o rosto da mulher era o de Medea da Carpi!

Realmente, sou um bobo!

Parte II

17 de dezembro. Temo que minha estúpida tagarelice e minhas canções idiotas tenham tornado pública minha obsessão por Medea da Carpi. O filho do vice-pre- feito — ou o assistente dos Arquivos, ou, talvez, algum convidado da condessa — está tentando me pregar uma peça! Mas tomem cuidado, minhas boas senhoras, meus bons cavalheiros: vou lhes pagar na mesma moeda! Imagine o que senti hoje de manhã ao encontrar em minha mesa um papel dobrado, endereçado a mim numa singular caligrafia que me pareceu estranhamente familiar e que, um momento depois, reconheci como aquela das cartas de Medea da Carpi que descobri nos Arquivos. Levei um terrível choque. Logo me ocorreu que devia se tratar de um presente de alguém que sabia de meu interesse por Medea — uma carta autêntica dessa dama na qual algum cretino havia escrito meu endereço em vez de colocá-la num envelope. Mas estava endereçada a mim, fora escrita para mim e não era uma carta antiga; resumia-se a quatro linhas, que eram as seguintes: a spiridion. Uma pessoa que sabe de seu interesse por ela estará hoje, às nove da noite, na igreja de San Giovanni Decollato. Procure na nave lateral esquerda uma senhora de manto preto, com uma rosa na mão.

A essa altura eu não tinha dúvida de que era objeto de uma trama, vítima de uma farsa. Virei a carta de um lado e de outro. Estava escrita num papel idêntico ao fabricado no século XVI e numa imitação extraordinariamente precisa da caligrafia de Medea da Carpi. Quem a escrevera? Considerei todas as possibilidades. E cheguei à conclusão de que fora o filho do vice-prefeito, talvez em conluio com sua amada, a condessa. Decerto cortaram a parte em branco de uma velha carta; mas que um deles tivesse criatividade para conceber tal farsa ou capacidade para perpetrar tal falsificação é algo que me deixa absolutamente pasmo. Há nessa gente mais do que eu teria imaginado. Como revidar? Ignorando a carta? Uma atitude nobre, mas sem graça. Não, eu vou; pode ser que alguém esteja lá, e será minha vez de desconcertá-los. Ou, se ninguém estiver lá, como vou exultar com a execução imperfeita de seu plano! Talvez seja uma tolice do Cavaliere Muzio para me levar à presença de uma dama escolhida por ele para acender a chama de meus futuros amori. É bem provável. E seria muito idiota, professoral demais, recusar tal convite; deve valer a pena conhecer a dama que consegue forjar cartas do século XVI como esta, pois tenho a certeza de que o lânguido jano-ta Muzio jamais conseguiria. Eu vou! Por Deus! Vou lhes pagar na mesma moeda! Agora são cinco horas — que dias compridos!

18 de dezembro. Será que estou louco? Ou realmente existem fantasmas? A aventura de ontem à noite me perturbou até as profundezas de minha alma.
Fui lá às nove horas, conforme ordenara a carta misteriosa. O frio era cortante, e havia bruma e partículas de gelo no ar; nenhuma loja funcionando, nenhuma janela aberta, nenhuma criatura visível; as ruas estreitas e escuras, íngremes entre as paredes altas e sob as arcadas imponentes, estavam ainda mais escuras com a luz frouxa de um lampião de óleo que, cá e lá, lançava seu reflexo amarelo e trêmulo nas pedras molhadas do calçamento. San Giovanni Decollato é uma igreja pequena, ou melhor, um oratório, que eu sempre tinha visto fechado (muitas igrejas daqui só abrem em dias de grande festa); situa-se atrás do palácio ducal, num aclive abrupto que se bifurca em duas ruelas quase verticais. Passei por esse local cem vezes e só me dei conta da igrejinha por causa do alto-relevo de mármore, acima da porta, que mostra a cabeça grisalha do Batista na bandeja e por causa da jaula de ferro, que fica ali perto, na qual se expunham outrora as cabeças dos criminosos; aparentemente o decapitado, ou, como o chamam aqui, degolado, João Batista é o patrono do machado e do cepo.

Algumas passadas me levaram de minha moradia à San Giovanni Decollato. Confesso que estava alvoroçado; não é por nada que tenho vinte e quatro anos e sou polonês. Ao chegar a uma espécie de patamar, na bifurcação do aclive, constatei, para minha surpresa, que as janelas da igreja, ou oratório, não estavam iluminadas e que a porta estava trancada! Então era essa a grande peça que me pregaram; fazer-me sair numa noite glacial, embaixo de chuva e neve, para ir a uma igreja fechada, que talvez estivesse fechada havia anos! Não sei o que eu poderia ter feito nesse momento de raiva; tive ganas de arrebentar a porta da igreja, ou de ir arrancar da cama o filho do vice-prefeito (pois para mim não havia dúvida de que era ele o autor da brincadeira). Optei pela segunda alternativa; e estava me dirigindo à casa dele, pela ruela à esquerda da igreja, quando parei de repente, ao ouvir o som de um órgão bem perto de mim; um órgão, sim, perfeitamente nítido, e a voz do coro e o murmurinho de uma litania. Então a igreja não estava fechada, afinal! Voltei sobre meu rastro, rumo ao patamar do aclive. Estava tudo escuro e em absoluto silêncio. De repente ouvi, mais uma vez, um sopro tênue de órgão e vozes. Escutei com atenção; era óbvio que vinha da outra ruela, da ruela à direita. Será que havia outra porta ali? Transpus a arcada e desci um pouco, na direção da qual pareciam vir os sons. Mas não havia nenhuma porta, nenhuma luz, só as paredes escuras, as pedras escuras do calçamento molhado, com os pálidos reflexos amarelos dos bruxuleantes lampiões de óleo; e o silêncio absoluto. Parei por um instante, e a cantilena recomeçou; dessa vez tive certeza de que vinha da ruela onde eu estivera. Voltei atrás — nada. Assim fiquei, para trás e para a frente, tomando um rumo que os sons me apontavam, por assim dizer, só para em seguida me apontar o rumo oposto.

Por fim perdi a paciência; e senti um terror arrepiante, do tipo que só um ato violento poderia inspirar. Se os sons misteriosos não provinham da rua à direita, nem da rua à esquerda, só podiam vir da igreja. Meio enlouquecido, subi correndo os dois ou três degraus da entrada e me preparei para fazer um esforço tremendo e abrir a porta. Para meu espanto, porém, ela se abriu com a maior facilidade. Entrei, e o murmurinho da litania cresceu, no instante em que me detive entre a porta externa e a pesada cortina de couro. Levantei a cortina e me esgueirei para o interior da igreja. O altar resplandecia com uma profusão de círios e lampadários; celebrava-se, evidentemente, uma cerimônia noturna relacionada com o Natal. A nave central e as laterais estavam relativamente escuras e meio vazias. Abri caminho pela nave da direita para me aproximar do altar. Quando minha vista se acostumou com aquela luz inesperada, comecei a olhar em torno, o coração aos saltos. A idéia de que tudo aquilo era uma farsa, de que eu encontraria apenas alguma conhecida de meu amigo Cavaliere, tinha se dissipado: corri os olhos por todos os lados. Os homens estavam envoltos em amplas capas as mulheres, em mantilhas e mantos. A nave central estava comparativamente escura, e não pude ver nada com muita clareza, mas tive a impressão de que, por baixo das capas e dos mantos, aquela gente vestia trajes extraordinários. O homem à minha frente, reparei, usava meias amarelas; uma mulher, ali perto, tinha um corpete vermelho amarrado nas costas com cordões de ouro. Seriam camponeses de algum lugar distante que tinham vindo para as festividades natalinas, ou os habitantes de Urbania trajavam roupas antigas para celebrar o Natal?

Enquanto me perguntava, meu olhar encontrou de repente o de uma mulher que estava de pé na nave oposta, perto do altar, no clarão intenso das luzes. Ela estava vestida de negro, mas segurava ostensivamente uma rosa vermelha, um luxo inaudito nessa época do ano num lugar como Urbania. Ela evidentemente me viu e, aproximando-se ainda mais da luz, abriu seu pesado manto negro, exibindo um vestido de um vermelho profundo, com bordados em prata e ouro; ela voltou o rosto para mim; o clarão intenso dos lampadários e dos círios o iluminou. Era o rosto de Medea da Carpi! Corri pela nave, empurrando os devotos rudemente para o lado, ou melhor, atravessando corpos impalpáveis, segundo me pareceu. Entretanto a dama se virou e apressadamente se encaminhou para a porta. Segui-a de perto, mas não consegui alcançá-la. Uma vez na cortina, ela se voltou novamente. Estava a alguns passos de mim. Sim, era Medea. Medea em pessoa, sem erro, sem ilusão, sem impostura; o rosto oval, os lábios crispados sobre a boca, as pálpebras repuxadas no canto dos olhos, a esplêndida pele de alabastro! Ela ergueu a cortina e saiu. Segui-a; apenas a cortina me separava dela. Vi a porta de madeira fechar-se às suas costas. Um passo adiante de mim! Escancarei a porta; ela devia estar no degrau, ao alcance de meu braço!

Fiquei parado na frente da igreja. Estava tudo deserto, o calçamento molhado, os reflexos amarelos nas poças de água: um frio repentino se apoderou de mim; não pude continuar. Tentei voltar para dentro da igreja; estava fechada. Corri para casa, o cabelo em pé, as pernas bambas, e durante uma hora permaneci fora de mim. É um delírio? Estou ficando louco? Oh, Deus, Deus! Estou ficando louco?

19 de dezembro. Dia claro e ensolarado; toda a lama e a neve desapareceram da cidade, dos arbustos e das árvores. As montanhas nevadas reluzem contra o céu de um azul intenso. É domingo, e o clima é domingueiro; todos os sinos re-picam pela aproximação do Natal. Estão montando uma espécie de feira na praça da colunata, com barracas cheias de peças coloridas de algodão e de lã, xales e lenços vistosos, espelhos, fitas, candeeiros de estanho; o estoque completo do mascate de “Conto de inverno”. Os açougues estão enfeitados com guirlandas de folhagens frescas e flores de papel, os presuntos e queijos crivados de bandeirolas e raminhos verdes. Saí para ver a feira de gado, extra muros; uma floresta de chifres se entrelaçando, um oceano de mugidos e pisoteios: centenas de enormes novilhos brancos, com chifres de um metro e pendões vermelhos, apinhados na pequena piazza d’armi, sob as muralhas da cidade. Bah! Por que estou escrevendo este lixo? Para que serve? Enquanto me forço a escrever sobre repiques e festividades natalinas e feiras de gado, uma idéia persiste como um sino dentro de mim: Medea, Medea! Será que a vi mesmo, ou estou louco?

Duas horas depois. A igreja de San Giovanni Decollato — informa meu senhorio — não é usada há muito tempo. Teria sido tudo isso uma alucinação, um sonho — talvez um sonho sonhado naquela noite? Saí novamente para ver a igreja. Lá está ela, na bifurcação do aclive abrupto, com a cabeça do Batista no alto-relevo acima da porta. Parece que essa porta realmente não se abre há anos. As teias de aranha nos vitrais sugerem, como diz Sor Asdrubale, que só ratos e aranhas se reúnem aqui. E não obstante — e não obstante, tenho uma lembrança tão nítida, uma consciência tão clara de tudo isso. Havia sobre o altar um retrato da filha de Herodíades dançando; lembro-me de seu turbante branco, com um penacho escarlate, e da túnica azul de Herodes; lembro-me da forma do lampadário central; ele girava devagar, e uma das velas praticamente se dobrara ao meio com o calor e a corrente de ar.

Todas essas coisas eu posso ter visto alhures e retido na memória sem perceber, e elas podem ter emergido num sonho; já ouvi fisiologistas aludirem a isso. Voltarei lá: se a igreja estiver fechada, terá sido um sonho, uma visão, o resultado de uma super-excitação. Devo ir imediatamente para Roma e consultar os médicos, pois tenho medo de estar ficando louco. Se, por outro lado — que nada! Não existe por outro lado neste caso. Todavia, se existisse — eu realmente teria visto Medea; poderia vê-la de novo; falar com ela. Só de pensar nisso sinto o sangue se agitar em minhas veias, não de medo, mas de… não sei que nome lhe dar. Tal sentimento me aterroriza, porém é delicioso. Idiota! Uma espira minúscula de meu cérebro, a vigésima parte de um fio de cabelo, avariou-se — só isso!

20 de dezembro. Voltei lá; ouvi a música; entrei na igreja; vi Medea! Não posso mais duvidar de meus sentidos. Por que duvidaria? Aqueles pedantes dizem que os mortos estão mortos, que o passado é passado. Para eles, sim; mas, por que para mim? — por que para um homem que ama, que se consome pelo amor de uma mulher? — uma mulher que, na verdade — sim, deixe-me concluir a frase. Por que não haveria fantasmas para quem consegue vê-los? Por que ela não retornaria à terra, se sabe que aqui há um homem que só pensa nela e só a ela deseja? Alucinação? Ora, eu a vi, da mesma forma como vejo esta folha de papel na qual estou escrevendo; de pé, no clarão intenso do altar. Ora, eu escutei o farfalhar de suas saias, senti o perfume de seu cabelo, ergui a cortina que balançava a seu toque. E novamente a perdi de vista. Mas dessa vez, ao correr para a rua deserta, banhada de luar, encontrei no degrau uma rosa — a rosa que eu tinha visto na mão dela, um momento antes — e toquei-a, aspirei-a; uma rosa, uma rosa verdadeira, viva, vermelho-escura e recém-colhida. Ao voltar para casa, coloquei-a na água, depois de beijá-la não sei quantas vezes. Coloquei-a em cima do armário; decidi não olhar para ela durante vinte e quatro horas, com medo de que não passasse de miragem. Mas preciso vê-la novamente; preciso… Santo Deus! É horrível, horrível; se tivesse encontrado um esqueleto, não teria sido pior! A rosa, que ontem à noite

parecia recém-colhida, cheia de cor e de perfume, está marrom, seca — uma coisa guardada durante séculos entre as páginas de um livro — esfarelou-se entre meus dedos. Horrível, horrível! Mas por que horrível? Eu não sabia que estava apaixonado por uma mulher que morreu há trezentos anos? Se eu queria rosas frescas, que abriram ontem, a condessa Fiammetta ou qualquer costureirinha de Urbania teria me dado. E daí que a rosa se esfarelou? Se eu pudesse ter Medea nos braços, como tive a rosa nos dedos, beijar seus lábios como beijei as pétalas da flor, não ficaria satisfeito, se ela também se esfarelasse no instante seguinte, se eu mesmo me esfarelasse?

22 de dezembro, onze horas da noite. Eu a vi mais uma vez! — quase falei com ela. Recebi a promessa de seu amor! Ah, Spiridion!, você estava certo ao pensar que não foi feito para amori mundanos. Na hora de costume dirigi-me à San Giovanni Decollato. Uma noite clara de inverno; os sobrados e os campanários se delineavam contra um céu azul-profundo, luminoso, cintilante como aço, com miríades de estrelas; a lua ainda não tinha surgido. Não havia luz nas janelas; mas, com um pequeno esforço, abri a porta e entrei na igreja; o altar, como sempre, estava profusamente iluminado. Ocorreu-me de repente que aquela multidão de homens e mulheres postados por toda parte, aqueles padres salmodiando e deslocando-se junto ao altar estavam mortos — não existiam para ninguém, só para mim. Toquei, como se fosse acidentalmente, a mão de meu vizinho; era fria, tal qual argila molhada. Ele se virou, mas creio que não me viu; tinha o rosto cinzento, os olhos fixos como os de um cego ou de um cadáver. Senti necessidade de correr para fora. Contudo, nesse instante, meu olhar a encontrou, parada como de hábito no degrau do altar, envolta num manto negro, iluminada pelo clarão. Ela se voltou; a luz se derramou em seu rosto, o rosto de feições delicadas, as pálpebras um tanto repuxadas, os lábios um tanto crispados, a pele de alabastro ligeiramente rosada. Nossos olhares se cruzaram.

Abri caminho pela nave em direção ao altar; ela rapidamente rumou para a porta, e a segui. Por uma ou duas vezes ela retardou o passo, e pensei que a alcançaria; porém novamente, quando saí para a rua, menos de um segundo depois de a porta se fechar sobre seu rastro, ela havia desaparecido. Vi uma coisa branca no degrau. Não era uma flor, e sim uma carta. Corri para a igreja, a fim de ler a carta; mas a porta estava trancada, como se havia anos não se abrisse. Não pude ler nada à luz bruxuleante dos lampiões — corri para casa, acendi o candeeiro, tirei a carta do peito. Tenho-a diante de mim. A caligrafia é a dela; a mesma dos Arquivos, a mesma da primeira carta: a spiridion. Deixa tua coragem igualar-se ao teu amor, e teu amor será recompensado. Na noite que precede o Natal, mune-te de uma machadinha e um serrote; sem hesitar golpeia do lado esquerdo, perto da cintura, o corpo do cava- leiro de bronze que se ergue na Corte. Serra-o, e em seu interior encontrarás a efígie de prata de um gênio alado. Tira-a, despedaça-a e esparge os fragmentos em todas as direções, para que os ventos os levem para longe. Nessa noite, aquela que tu amas virá premiar tua fidelidade.

No lacre amarronzado está o mote AMOUR DURE – DURE AMOUR

23 de dezembro. Então é verdade! Eu estava destinado a algo maravilhoso neste mundo. Finalmente encontrei o que minha alma tanto buscava. Ambição amor à arte, amor à Itália, essas coisas que ocuparam meu espírito, e que todavia me mantiveram constantemente insatisfeito, não eram meu verdadeiro destino. Procurei a vida, desejei-a como um viajante no deserto anseia por um poço; mas a vida dos sentidos de outros jovens, a vida do intelecto de outros homens nunca saciaram minha sede. A vida significa para mim o amor de uma mulher morta? Rimos do que resolvemos chamar de superstição do passado, esquecendo que os olhos do futuro poderão ver toda a nossa decantada ciência moderna como mais uma superstição; mas por que o presente deveria estar certo e o passado errado? Os homens que pintaram os quadros e construíram os palácios de trezentos anos atrás certamente eram de fibra tão delicada e razão tão arguta quanto nós, que estampamos chita e fabricamos locomotivas. Penso desse modo porque andei elaborando meu mapa astral com a ajuda de um velho livro pertencente a Sor Asdrubale — e, veja, meu horóscopo praticamente coincide com o de Medea da Carpi, tal como o apresenta um cronista. Isso explica? Não, não; a explicação de tudo está no fato de que amo essa mulher desde que li sobre sua trajetória pela primeira vez, desde que vi seu retrato pela primeira vez, porém escondi meu amor sob o véu do interesse histórico. Interesse histórico… pois sim!

Arranjei a machadinha e o serrote. Comprei o serrote de um carpinteiro pobre, que mora numa aldeia a quilômetros daqui; a princípio ele não entendeu o que eu queria e deve ter me achado louco; talvez eu seja. Mas, se a loucura significa a felicidade, que mal há nisso? A machadinha eu vi no pátio de uma madeireira, onde aparelham as grandes toras dos abetos que crescem nos Apeninos de Sant’Elmo. Não havia ninguém no pátio, e não resisti à tentação; peguei a ferramenta, testei o gume e roubei-a. Foi a primeira vez na vida que roubei alguma coisa; por que não entrei numa loja e comprei uma machadinha? Não sei; creio que não consegui resistir à visão da lâmina reluzente. O que vou fazer é, suponho, um ato de vandalismo; e certamente não tenho o direito de danificar o patrimônio de Urbania. E, contudo não quero causar dano à estátua, nem à cidade, se pudesse remendar o bronze, eu o faria de bom grado. Mas tenho de obedece a Ela; tenho de vingá-la; tenho de me apoderar daquela imagem de prata que Roberto de Montemurlo mandou fazer e consagrar para que sua alma covarde pudesse descansar em paz e não encontrar a alma da criatura que ele mais temia no mundo. Ah, duque Roberto, o senhor a obrigou a morrer sem confissão e guardou a imagem de sua alma na imagem de seu corpo, pensando que, com isso, enquanto ela sofria as torturas do inferno, o senhor descansaria em paz, até que sua alminha purificada pudesse voar direto para o Paraíso; o senhor temia encontrá-la, quando ambos estivessem mortos, e se julgou muito esperto por ter se preparado para qualquer emergência! Não, Alteza Sereníssima. O senhor também saberá o que é vagar depois da morte e deparar no além com as pessoas que magoamos em vida.

Que dia interminável! Mas à noite vou vê-la novamente.
Onze horas. Não, a igreja estava trancada; o encantamento se rompeu. Até amanhã não a verei. Mas amanhã! Ah, Medea! Algum de teus amantes te amou como eu? Faltam vinte e quatro horas para o momento de felicidade — o momento pelo qual me parece que esperei a vida inteira. E o que acontecerá depois? Sim, vejo com mais clareza a cada minuto; depois, nada. Todos os que amaram Medea da Carpi, que a amaram e a serviram, morreram: Giovanfrancesco Pico, seu primeiro marido, que ela deixou apunhalado no castelo de onde fugiu; Stimigliano, que morreu envenenado; o cavalariço que lhe ministrou o veneno, eliminado por ordem dela; Oliverotto da Narni, Marcantonio Frangipani e aquele pobre jovem dos Ordelaffi, que nunca sequer viu seu rosto e que recebeu, como único prêmio, o lenço com o qual o carrasco lhe enxugou o suor, quando ele se reduziu a uma massa de membros quebrados e carne dilacerada: todos tiveram de morrer, e eu também morrerei.
O amor dessa mulher é bastante e é fatal — “Amour Dure”, como diz seu mote.

Também morrerei. E por que não? Seria possível viver para amar outra mulher? Seria possível continuar levando uma vida como esta, depois da felicidade de amanhã? Impossível; os outros morreram, e eu preciso morrer. Sempre achei que não viveria muito; uma vez, na Polônia, uma cigana me disse que tenho na mão a linha cortada que significa morte violenta. Eu poderia ter me acabado num duelo com um colega, ou num acidente de trem. Não, não; minha morte não será desse tipo! Morte — e ela também não está morta? Que estranhas perspectivas não descortina tal pensamento! Então os outros — Pico, o cavalariço, Stimigliano, Oliverotto, Frangipani, Prinzivalle degli Ordelaffi — estarão todos lá? Ela amará mais a mim — a mim, por quem é amada trezentos anos depois que baixou à sepultura!

24 de dezembro. Concluí todos os preparativos. Sairei às onze da noite; Sor Asdrubale e suas irmãs estarão dormindo a sono solto. Eu os sondei; seu medo de reumatismo os impede de assistir à Missa do Galo. Por sorte não há nenhuma igreja daqui até a Corte; qualquer movimento acarretado pela noite de Natal ocorrerá bem longe. Os aposentos do vice-prefeito se situam no outro lado do palácio; o espaço restante é ocupado por salas de recepção, arquivos e estábulos e co-cheiras vazias. Ademais, serei breve em minha tarefa.

Experimentei o serrote num vaso de bronze maciço que comprei de Sor Asdrubale; oco e carcomido pela ferrugem (até detectei alguns buracos), o bronze da estátua não pode resistir muito, principalmente depois de um golpe com aquela machadinha afiada. Organizei meus papéis, em consideração ao governo que me mandou para cá. Sinto muito privá-lo de sua “História de Urbania”. Para passar esse dia interminável e aplacar a febre da impaciência, dei uma longa caminhada. Este é o dia mais frio até agora. O sol não aquece nada, parece que só intensifica a sensação de frio, faz a neve das montanhas reluzir, o céu azul cintilar como aço. As poucas pessoas que estão na rua se agasalharam até o nariz e carregam pequenos braseiros de barro; longos sincelos pendem da fonte com a figura de Mercúrio; imagino bandos de lobos cruzando os campos secos e sitiando a cidade. O frio me deixa maravilhosamente calmo — parece que me devolve a meninice.

Ao subir as ruelas íngremes, o calçamento escorregadio por causa do gelo; ao avistar as montanhas nevadas, recortando-se contra o céu; ao passar pela igreja, com seus degraus juncados de buxo e louro e o cheiro suave de incenso provindo do interior, lembrei-me — não sei por quê — daquelas vésperas de Natal de muito tempo atrás, em Posen e Breslau, quando eu, criança, perambulava pelas ruas largas e espiava pelas janelas das salas onde começavam a acender as velas das árvores e me perguntava se, ao voltar para casa, também poderia entrar numa sala maravilhosa, resplandecente de luzes e nozes douradas e contas de vidro. Lá em minha terra, no Norte, estão pendurando nas árvores as últimas fieiras daquelas contas metálicas azuis e vermelhas, as últimas nozes douradas e pranteadas; estão acendendo as velas azuis e vermelhas; a cera está começando a escorrer sobre os belos galhos verdes do abeto; com o coração aos saltos, as crianças estão esperando, atrás da porta, o anúncio de que o Menino Jesus nasceu. E eu? O que estou esperando? Não sei; tudo parece um sonho; é tudo vago e incorpóreo, como se o tempo tivesse parado, nada pudesse acontecer, meus desejos e minhas esperanças estivessem mortas e eu mesmo absorto em não sei que inerte país dos sonhos. Anseio por esta noite? Tenho medo? Haverá esta noite? Sinto alguma coi- sa, existe alguma coisa ao meu redor? Sento-me e creio ver aquela rua de Posen, a rua larga com as janelas iluminadas pelas luzes do Natal, os galhos verdes do abeto roçando a vidraça.

Véspera de Natal, meia-noite. Consegui. Saí pé ante-pé. Sor Asdrubale e suas irmãs dormiam a sono solto. Tive receio de acordá-los, pois minha machadinha caiu quando eu atravessava a sala principal, onde meu senhorio guarda as curiosidades que pretende vender, e bateu numa velha armadura que ele andou consertando. Ouvi-o exclamar, meio dormindo; e apaguei a vela e me escondi na escada. Ele saiu do quarto, vestido em seu roupão, mas, como não viu ninguém, voltou para a cama. “Deve ter sido um gato!”, falou. Fechei a porta da frente sem fazer barulho. O céu, que ameaçava chuva desde a tarde, estava luminoso, com lua cheia, porém matizado de vapores cinzentos e amarelados; cá e lá a lua sumia por completo. Nenhuma criatura na rua; as casas altas e desoladas fitando o luar.

Não sei por quê, tomei um caminho mais longo para ir à Corte; ao passar por uma ou duas igrejas, vi, pelo vão da porta, as luzes bruxuleantes da Missa do Galo. Por um momento senti-me tentado a entrar numa delas; mas alguma coisa me segurou. Ouvi trechos do hino de Natal. Percebi que estava começando a esmorecer e tratei de me aviar. No pórtico da San Francesco, escutei passos atrás de mim; pensei que alguém me seguia. Parei para lhe dar passagem. Um homem se aproximou lentamente e, chegando perto de mim, murmurou: “Não vás; sou Giovanfrancesco Pico”. Voltei-me; ele havia desaparecido. Um frio repentino me entorpeceu, porém continuei, apressado.

Atrás da catedral, numa ruela estreita, vi um homem apoiado na parede. O luar o iluminava em cheio; tive a impressão de que lhe escorria sangue pelo rosto, contornado por uma barba fina e pontuda. Apertei o passo; mas, ao renteá-lo, ouvi-o sussurrar: “Não lhe obedeças, volta para casa; sou Marcantonio Frangipani”. Eu batia os dentes, porém prossegui, açodado, pela ruela estreita, o luar azul nas paredes brancas.

Enfim avistei a Corte: a praça estava inundada de luar, as janelas do palácio pareciam profusamente iluminadas, e a estátua do duque Roberto, de um verde cintilante, parecia avançar para mim em seu cavalo. Mergulhei nas sombras Tinha de atravessar uma arcada. Um vulto como que saiu da parede e estendeu o braço, barrando-me o caminho. Tentei me desviar. Ele me agarrou pelo braço, e sua mão pesava como um bloco de gelo. “Não passarás!”, ele gritou, e, ressurgindo a lua uma vez mais, vi seu rosto, de uma palidez fantasmagórica, parcialmente coberto por um lenço bordado; era quase um menino. “Não passarás!”, gritou; “não a terás! Ela é minha, só minha! Sou Prinzivalle degli Ordelaffi.” Ele me agarrava com sua mão gelada, mas, com o outro braço, pus-me a brandir a machadinha que levava sob o capote. A machadinha golpeou a parede e retiniu na pedra. Ele se esvaecera. Aviei-me. Consegui. Cortei o bronze; serrei-o para aumentar a fenda. Peguei a imagem de prata e despedacei-a. Quando acabei de espalhar seus fragmentos, a lua se escondeu de repente; um vento forte soprou, uivando pela praça; creio que a terra tremeu. Joguei a machadinha e o serrote no chão e corri para casa. Sentia-me perseguido por um tropel de centenas de cavaleiros invisíveis.

Agora estou calmo. É meia-noite; mais um instante e ela estará aqui! Paciência, coração! Escuto teu pulsar. Espero que ninguém acuse o pobre Sor Asdrubale. Vou escrever uma carta às autoridades, declarando sua inocência, se alguma coisa acontecer… Uma! O relógio da torre do palácio acaba de bater… “Por meio desta certifico que, se algo me acontecer esta noite, ninguém, a não ser eu, Spiridion Trepka, terá de ser julgado…” Um passo na escada! É ela! É ela! Finalmente, Medea, Medea! Ah! amour dure — dure amour!

NOTA: Aqui termina o diário do falecido Spiridion Trepka. Os principais jornais da província de Úmbria informaram ao público que, na manhã de Natal do ano de 1885, encontrou-se a estátua eqüestre de Roberto II horrivelmente mutilada; e que o professor Spiridion Trepka, de Posen, Império Alemão, foi encontrado morto com uma punhalada que mão desconhecida lhe desferiu na região do coração.