A Mão Encantada – Gérard de Nerval

A Mão Encantada

Gérard de Nerval

I. A Place Dauphine

Nada é tão belo como essas casas do século XVII majestosamente reunidas na Place Royale. Quando suas fachadas de tijolos, entremeadas e emolduradas por frisos e cantoneiras, e quando suas janelas altas são inflamadas pelos esplêndidos raios do crepúsculo, você sente, ao vê-las, a mesma veneração que diante de uma corte de magistrados com as togas vermelhas forradas de arminho; e se não for uma comparação pueril, poder-se-ia dizer que a comprida mesa verde à qual esses magistrados temíveis estão sentados, formando um quadrado, lembra um pouco aquela fileira de tílias que ladeia os quatro lados da Place Royale e completa sua grave harmonia.

Há outra praça na cidade de Paris que não causa menos satisfação por sua regularidade e seu estilo, e que é, em triângulo, mais ou menos o que a outra é em quadrado. Foi construída durante o reinado de Henrique, o Grande, que a chamou de Place Dauphine, e na época todos se admiraram com o pouco tempo necessário para seus edifícios cobrirem todo o terreno baldio da ilha de La Gourdaine. A invasão desse terreno foi um cruel desprazer para os escreventes, que lá iam para seus ruidosos folguedos amorosos, e para os advogados, que lá iam meditar sobre seus discursos de defesa: passeio tão verde e florido, ao se sair do pátio infecto do Palácio da Justiça.

Mal foram erguidas essas três fileiras de edifícios com seus pórticos pesados, carregados e percorridos de saliências e linhas verticais de pedras, mal foram revestidas com tijolos, abertas suas janelas de balaústres e fixados os seus telhados maciços, a nação dos homens da justiça invadiu a praça inteira, cada um de acordo com seu cargo e seus meios, isto é, em proporção inversa à elevação dos andares. A praça tornou-se uma espécie de pátio dos milagres de alto nível, um submundo de ladrões privilegiados, antro do mundo dos chicaneiros, assim como também do mundo da gíria; aquele, de tijolos e pedra, este, de lama e madeira.
Numa dessas casas que compõem a Place Dauphine morava, por volta dos últimos anos do reinado de Henrique, o Grande, um personagem algo notável, tendo por nome Godinot Chevassut, e, por título, oficial de justiça do preboste de Paris; cargo bem rendoso e difícil ao mesmo tempo, naquele século em que os ladrões eram muito mais numerosos do que hoje, de tal forma desde então a probidade declinou na nossa França!, e em que o número de moças de vida fácil era muito mais considerável, de tal forma se depravaram os nossos costumes! Como a humanidade não muda, pode-se dizer, como um velho autor, que quanto menos canalhas houver nas galés, mais haverá do lado de fora. É bom que se diga também que os ladrões daquele tempo eram menos ignóbeis que os do nosso, e que essa miserável profissão era então uma espécie de arte cujo exercício jovens de boa família não desprezavam. Muitos talentos rechaçados ou esmagados por uma sociedade de barreiras e privilégios desenvolviam-se fortemente nesse sentido; inimigos mais perigosos para os particulares do que para o Estado, cuja máquina talvez tivesse explodido sem essa válvula de escape. Assim, sem a menor dúvida, a justiça da época tratava com consideração os ladrões distintos, e ninguém exercia essa tolerância com tanta boa vontade como o nosso oficial de justiça da Place Dauphine, por motivos que vocês hão de conhecer. Em compensação, ninguém era mais severo com os desastrados: estes pagavam pelos outros e “enchiam os patíbulos que jogavam sua sombra sobre Paris nessa época”, segundo a expressão de D’Aubigné, para grande satisfação dos burgueses, que naquele tempo eram mais bem roubados, sem falar do grande aperfeiçoamento da arte da pilantragem. Godinot Chevassut era um homenzinho gorducho que começava a ficar grisalho, o que lhe dava muita alegria, ao contrário do comum dos velhos, porque, ao embranquecerem, seus cabelos deviam necessariamente perder o tom meio cor de fogo que tinham de nascença, o que lhe valera o nome desagradável de Rousseau, que seus conhecidos substituíam ao seu próprio nome, por ser mais fácil de pronunciar e guardar. Seus olhos eram zarolhos e muito vivos, embora sempre semicerrados sob as espessas sobrancelhas, sua boca era rasgada, como as das pessoas que gostam de rir. E, no entanto, mesmo que suas feições tivessem um ar malicioso quase permanente, nunca o ouviam rir às gargalhadas ou, comno dizem nossos pais, rir às bandeiras despregadas; toda vez que lhe escapava alguma coisa engraçada, ele a acentuava apenas com um ah! ou um oh! vindo do fundo dos pulmões, mas único, e de efeito singular; e volta e meia isso acontecia, pois nosso magistrado gostava de apimentar sua conversa com alfinetadas, equívocos e observações picantes, que ele não continha nem mesmo no tribunal. Aliás, naquela época esse era um costume generalizado entre os homens da justiça, e que hoje praticamente só sobreviveu nos da província.
Para acabar de pintá-lo, seria preciso pendurar no lugar de praxe um nariz comprido e quadrado na ponta, e também orelhas bem pequenas, moles, e de uma fineza de audição de ouvir tilintar um quarto de escudo a um quarto de légua, e o som de uma pistola de bem mais longe. Foi a esse respeito que um certo litigante perguntou se o senhor oficial de justiça não teria alguns amigos a quem pudesse solicitar uma interferência em seu caso, e a resposta foi que de fato havia amigos de quem o Rousseau fazia grande alarde, e que eram, entre outros, senhor Dobrão, monsenhor Ducado e até mesmo o senhor Escudo; que era preciso fazer com que vários deles agissem ao mesmo tempo, e que então o litigante poderia ter certeza de que seria fervorosamente atendido.

II. Uma Ideia Fixa

Há gente que tem mais simpatia por esta ou aquela grande qualidade, esta ou aquela virtude especial. Um tem mais estima pela magnanimidade e pela coragem guerreira, e só se delicia com o relato de belos feitos de heroísmo; outro põe acima de tudo o gênio e as invenções das artes, das letras ou da ciência; outros são mais tocados pela generosidade e pelas ações virtuosas com que socorrem os seus semelhantes, e dedicam-se à salvação deles, cada um seguindo sua inclinação natural. Mas o sentimento particular de Godinot Chevassut era o mesmo que o do sábio Carlos IX, a saber, que não é possível existir nenhuma qualidade superior à do espírito e à da habilidade, e que as pessoas que as possuem são neste mundo as únicas dignas de admiração e honra; e em nenhum lugar ele achava que essas qualidades eram mais brilhantes e desenvolvidas do que na grande nação dos larápios, trapaceiros, batedores de carteira e vagabundos, cuja vida generosa e cujos golpes singulares surgiam todos os dias na sua frente com uma variedade inesgotável.
Seu herói predileto era o mestre François Villon. Parisiense, célebre na arte poética tanto quanto na arte do pé-de-cabra e do conto-do-vigário; assim, a Ilíada junto com a Eneida, e o romance não menos admirável de Huon de Bordeaux, ele os teria trocado pelo poema das Repues franches, e também até pela Légende du maitre Faifeu, que são as epopéias em versos da nação dos bandidos! As Illustrations de Du Bellay, o Aristoteles Peripoliticon e o Cymbalum mundi pareciam-lhe bem fracos se comparados com o Jargão, seguido dos Estados gerais do reino da Gíria e dos diálogos do velhaco com o malandro, por um caixeiro de botijas, que trambica no dique de Tours, e impresso com autorização do rei de Thunes, Fiacre, o empacotador, Tours, 1603.
E como naturalmente os que prezam uma certa virtude têm o maior desprezo pelo defeito contrário, não havia gente que ele odiasse tanto quanto as pessoas simples, de inteligência parca e espírito pouco complicado. Isso chegava ao ponto de ter ele desejado mudar totalmente a organização da justiça, para que, ao se descobrir alguma ladroagem grave, enforcar-se não o ladrão, mas o roubado. Era uma idéia; era a sua idéia. Achava que essa era a única maneira de apressar a emancipação intelectual do povo, e fazer com que os homens do século alcançassem o progresso supremo no espírito, na habilidade e na invenção, qualidades que ele afirmava serem a verdadeira coroa da humanidade e a perfeição mais agradável a Deus.
Isso, quanto à moral. Quanto à política, estava convencido de que o roubo organizado em grande escala favorecia mais que tudo a divisão das grandes for- tunas e a circulação das menores, do que só podem resultar, para as classes infe- riores, o bem-estar e a libertação.
Como vocês bem perceberam, era só a boa e dupla falcatrua que o alegrava, as sutilezas e bajulações dos verdadeiros clérigos de Saint-Nicholas, os velhos truques de mestre Gonin, conservados havia duzentos anos no sal e no espírito; e Villon, o villonneur, é que era seu compadre, e não os aventureiros de beira de estrada tais como os Guilleris ou o capitão Carrefour. Decerto, o celerado que, plantado numa grande estrada, despoja brutalmente um viajante desarmado parecia-lhe tão horrível como a todos os bons espíritos, assim como aqueles que, sem outro esforço de imaginação, penetram por arrombamento numa casa isolada, a saqueiam e não raro degolam os donos. Mas se tivesse conhecido um ladrão distinto que, furando uma muralha para se introduzir numa casa, tomasse o cuidado de adornar seu orifício com um trevo gótico, para que no dia seguinte, ao se perceber o roubo, logo se visse que um homem de gosto e de arte o executara, sem dúvida mestre Godinot Chevassut teria esse aí em muito mais alta estima do que Bertrand de Clasquin ou o imperador César, para dizer o mínimo.

III. Os Calções do Magistrado

Tendo dito tudo isso, creio que é hora de puxar o véu e, seguindo o costume de nossas antigas comédias, dar um pontapé no traseiro do senhor Prólogo, que está ficando vergonhosamente prolixo, a ponto de ter sido necessário cortar três vezes os pavios das velas desde o seu exórdio. Portanto, que ele trate de terminar, como Bruscambille, conjurando os espectadores a “limparem as imperfeições de suas palavras com os espanadores de sua humanidade e a receberem um clister de desculpas nos intestinos de sua impaciência”; e tenho dito, e a ação vai começar. Estamos numa sala bastante grande, escura e coberta de lambris de madeira. O velho magistrado, sentado numa poltrona larga e trabalhada, de pés tortos, cujo espaldar está vestido com sua capa de adamascado de franjas, experimenta calções bufantes novos em folha levados por Eustache Bouteroue, aprendiz de mestre Goubard, alfaiate e negociante de meias. Mestre Chevassut, ao amarrar os ca- darços, levanta-se e senta-se sucessivamente, dirigindo de vez em quando a palavra ao jovem que, duro como um cabo de vassoura, tomou assento, depois de ser convidado, no canto de uma escadinha, e olha para ele com hesitação e timidez. “Humm! Esses aí já deram o que tinham que dar!”, disse ele empurrando com o pé os velhos calções que acabava de tirar. “Estavam tão surrados como um decreto proibitivo do prebostado; e todos os pedaços estavam se dando adeus… um adeus dilacerante!”
O magistrado brincalhão ainda apanhou, porém, a velha roupa, necessária para ali pegar sua carteira, da qual tirou umas moedas e espalhou-as na mão.
”É verdade”, prosseguiu, “que nós, homens da lei, fazemos de nossas roupas um uso muito duradouro, por causa da toga sob a qual as usamos enquanto o tecido resistir e as costuras não se desmancharem; por isso é que, como cada um tem de viver, mesmo os ladrões, e portanto os alfaiates e negociantes de meias, não descontarei nada dos seis escudos que mestre Goubard está me cobrando; e a isso até acrescento generosamente um escudo falso para o caixeiro da loja, com a condição de que ele não o trocará dando desconto, mas o passará como verdadeiro para algum burguês vagabundo, exibindo, para isso, todos os recursos de seu espírito; do contrário, guardo o dito escudo para dar de esmola amanhã, domingo, na Notre-Dame.
Eustache Bouteroue pegou os seis escudos e o escudo falsificado, agradecendo ao magistrado em voz bem baixa.
”Pois é, meu rapaz, você já começa a trapacear nos panos? Já sabe ganhar na metragem, no corte, e empurrar para o freguês coisa velha dizendo que é nova, e cor-de-burro-quando-foge dizendo que é preto?… Manter, em suma, a velha reputação dos negociantes do mercado dos Halles?”
Eustache levantou os olhos para o magistrado com um certo terror; depois, imaginando que ele brincava, começou a rir, mas o magistrado não estava brin- cando.
”Não gosto nada”, acrescentou, “da roubalheira dos negociantes; o ladrão rouba e não engana; o negociante rouba e engana. Um bom companheiro, com o dom da lábia e sem papas na língua, compra uns calções; debate muito tempo seu preço e acaba pagando seis escudos. Vem em seguida um honesto cristão, desses que uns chamam de pateta, outros, de bom freguês; se por acaso ele pegar uns calções exatamente iguais aos outros, e, confiando no negociante de meias, que jura pela Virgem e pelos santos que é honesto, pagar oito escudos, não terei pena dele, pois é um bobo. Mas se, enquanto conta as duas quantias que recebeu, pegando na mão e fazendo tilintar satisfeito os dois escudos que são a diferença da segunda para a primeira, passar defronte da loja um pobre coitado que está sendo levado para as galés por ter tirado de um bolso algum lenço sujo e esburacado, e o negociante exclamar, sem largar da mão os dois escudos: ‘Esse aí é um grande celerado; se a justiça fosse justa, o canalha seria esquartejado vivo e eu iria vê-lo’? Eustache, o que acha que aconteceria se, de acordo com o desejo do negociante, a justiça fosse justa?”

Eustache Bouteroue não ria mais; o paradoxo era inacreditável para que ele pensasse em responder, e a boca da qual saía tornava-o quase inquietante. Mestre Chevassut, ao ver o jovem atônito como um lobo pego no alçapão, começou a rir com seu riso especial, deu-lhe um leve tapa no rosto e o mandou embora. Eustache desceu muito pensativo a escada de balaústres de pedra, e embora ouvisse de longe, no pátio do Palácio, a trombeta de Galinette la Galine, bufão do famoso curandeiro Gerônimo, chamando os curiosos para ouvirem suas facécias e comprarem as drogas de seu patrão, dessa vez ficou surdo a tudo isso, e fez ques- tão de atravessar a Pont-Neuf para chegar ao bairro dos Halles.

IV. A Pont-Neuf

A Pont-Neuf, concluída no reinado de Henrique IV, é o principal monumento desse reino. Nada se parece com o entusiasmo que sua visão provoca, quando, depois de grandes obras, a ponte cruzou todo o Sena com seus doze arcos e uniu mais estreitamente os três antigos núcleos da cidade.
Assim, logo ela se tornou o ponto de encontro de todos os desocupados pa- risienses, cujo número é grande, e portanto de todos os saltimbancos, vendedores de unguentos e vigaristas, cujas habilidades se movem graças às estradas, assim como um riacho move um moinho.
Quando Eustache saiu do triângulo da Place Dauphine, o sol dardejava a pino seus raios empoeirados sobre a ponte, onde a afluência era grande, pois os passeios mais frequentados em Paris eram em geral aqueles que só são floridos com vitrines, aterrados com paralelepípedos, sombreados só por muros e casas.
A duras penas Eustache abriu caminho entre esse rio de gente que cruzava o outro rio e se escoava lentamente nos dois extremos da ponte, parando ao menor obstáculo, como pedras de gelo carregadas pela água, fazendo aqui e ali mil voltas e mil redemoinhos em torno de alguns ilusionistas, cantores ou vendedores que anunciavam sua mercadoria. Muitos paravam ao longo dos parapeitos para ver passar os troncos de árvores rebocados, circular os barcos, ou para contemplar o magnífico panorama oferecido pelo Sena a jusante da ponte, o Sena ladeando à direita a longa fila de edifícios do Louvre, à esquerda o grande Pré-aux-Clercs, riscado por suas lindas alamedas de tílias, emoldurado por seus chorões cinzentos espalhados e seus salgueiros verdes chorando na água, e depois, em cada margem, a torre De Nesle e a torre Du Bois, que pareciam sentinelas às portas de Paris como os gigantes dos romances.
De repente, um estrondo de rojões fez os passantes e observadores se virarem para um ponto fixo e anunciou um espetáculo digno de prender a atenção. No centro de uma dessas pequenas plataformas em forma de meia-lua, que em outros tempos estavam cobertas de lojas feitas de pedra e que formavam então espaços vazios no alto de cada pilar da ponte, indo mais além do calçamento, se instalara um ilusionista; arrumara uma mesa e, sobre essa mesa, passeava um macaco muito bonito, de roupa preta e vermelha, igual a um diabo, com seu rabo natural, e que, sem a menor timidez, soltava uma profusão de rojões e rodas de fogo, para grande desgosto de todas as barbas e fuças que não tinham alargado o círculo com a devida rapidez.

Quanto a seu dono, era uma dessas figuras de tipo cigano, comum cem anos antes, já rara na época e hoje afundada e perdida na feiúra e na insignificância de nossas cabeças burguesas: um perfil em lâmina de foice, testa alta mas reta, nariz muito comprido e muito adunco, mas não no estilo dos narizes romanos, pelo contrário, muito arrebitado e com sua ponta apenas mais saliente do que os lábios finos bem proeminentes e o queixo para dentro; depois, olhos grandes e rasgados obliquamente debaixo das sobrancelhas, desenhadas como um “v”, e cabelos pretos compridos completando o conjunto; por fim, um certo ar ágil e desembaraçado em toda a atitude do corpo demonstrava uma curiosa habilidade de seus membros acostumados desde muito cedo a muitos e vários ofícios.

Seu traje era uma velha fantasia de bufão, que ele usava com dignidade; na cabeça, um grande chapéu de feltro de abas largas, todo amassado e encolhido; mestre Gonin era o nome que lhe davam, fosse por causa de sua habilidade e seus passes de mágica, fosse porque descendesse de fato daquele famoso saltimbanco que fundou, no reino de Carlos VI, o teatro dos Enfants-sans-Soucis e que foi o primeiro a usar o título de Príncipe dos Tolos, o qual, na época dessa história, tinha passado para o senhor Bacurau, que defendeu suas prerrogativas soberanas até mesmo diante dos tribunais.

V. A Boa Ventura

O prestidigitador, vendo um bom número de gente reunida, começou com alguns truques com os copinhos, que provocaram uma ruidosa admiração. É verdade que o compadre tinha escolhido seu lugar na meia-lua com algum objetivo, e não só pensando em não atrapalhar a circulação, como parecia; pois, assim, só tinha espectadores à sua frente, e não às suas costas.
É que naquela época essa arte não era o que se tornou hoje, quando o ilusionista trabalha cercado por seu público. Ao terminar as mágicas com os copinhos, o macaco fez um giro pela multidão, recolhendo muitas moedas, pelas quais ele agradecia galantemente, acompanhando seu cumprimento de um gritinho parecido com o do grilo. Mas os truques dos copinhos não passavam do prelúdio de outra coisa, e, graças a um prólogo muito bem executado, o novo mestre Gonin anunciou que também tinha o talento de prever o futuro pela cartomancia, a quiromancia e os números pitagóricos; o que era algo que não tinha preço, mas que ele faria só por um vintém, com o único objetivo de agradar. Enquanto dizia isso, batia num baralho grande, e seu macaco, que ele chamava de Pacolet, em seguida distribuiu as cartas com muita inteligência a todos os que esticaram a mão.
Quando todos os pedidos foram atendidos, seu dono chamou os curiosos da meia- lua, um a um, pelo nome de suas cartas, e previu para cada um a boa ou má fortuna, enquanto Pacolet, a quem tinha dado uma cebola para pagar pelo serviço, divertia a turma com as contorções que esse presente lhe provocava, encantado e ao mesmo tempo infeliz, rindo com a boca e chorando com o olho, fazendo a cada dentada um muxoxo de alegria e uma careta horrorosa.
Eustache Bouteroue, que também havia pegado uma carta, foi o último a ser chamado. Mestre Gonin olhou com atenção para seu rosto comprido e ingênuo, e dirigiu-lhe a palavra num tom enfático:
”Eis o passado: você perdeu pai e mãe; há seis anos é aprendiz de alfaiate sob as arcadas dos Halles. Eis o presente: seu patrão lhe prometeu sua filha única; pensa em se aposentar e deixar-lhe o negócio. Quanto ao futuro, mostre-me sua mão.” Muito espantado, Eustache mostrou a mão; o ilusionista examinou as linhas com curiosidade, franziu o cenho como quem está hesitante e chamou seu macaco, como para consultá-lo. Este pegou a mão, olhou, depois foi se aboletar no ombro de seu dono, parecendo falar ao seu ouvido — mas apenas mexia rapidíssimo os lábios, como fazem os bichos quando estão descontentes.

“Coisa esquisita!”, exclamou enfim mestre Gonin, “que uma vida tão simples desde o início, tão burguesa, tenda para uma transformação tão incomum, para um objetivo tão elevado!… Ah!, meu jovem pintinho, você quebrará a sua casca; irá longe, muito alto… morrerá maior do que é.”

“Bem!”, disse Eustache consigo mesmo, “é o que essa gente sempre nos promete. Mas, afinal, como ele sabe as coisas que foi o primeiro a me dizer? É maravilhoso!… A não ser, porém, que me conheça de algum lugar.”
Enquanto isso, tirou da bolsa o escudo falso do magistrado e pediu ao ilusionista que lhe desse o troco. Talvez tenha falado baixo demais; mas o homem não ouviu, pois pegou o escudo e o rolou entre os dedos.

“Bem vejo que você sabe viver, por isso acrescentarei alguns detalhes à previsão muito verdadeira, mas um pouco ambígua, que lhe fiz. Sim, meu camarada, bem fez você de não me pagar com um vintém, como os outros, mesmo se o seu escudo perde uma boa quarta parte de seu valor; mas pouco importa, essa moeda branca será para você um espelho brilhante em que se refletirá a pura verdade.

“Mas, observou Eustache, “então o que me disse de minha elevação não é a verdade?”
”Você tinha me perguntado sobre a sua boa ventura, e eu lhe disse, mas estava faltando a glosa… Como você compreende o elevado objetivo que na minha previsão dei à sua existência?”

“Compreendo que posso me tornar síndico dos alfaiates e negociantes de meias, ou fabriqueiro, almotacé…”
”É muita pretensão em água benta!… E por que não o grande sultão dos turcos, o Amorabaquin?… Ah!, não, não, meu amigo, é de outro modo que deve compreender; e já que deseja deste oráculo sibilino uma explicação, eu lhe direi que, no nosso estilo, ir alto é para aqueles que a gente manda guardar os carneiros na Lua, assim como ir longe, para aqueles que a gente manda escrever a história deles no oceano, com plumas de quinze pés…”

“Ah, bom! Mas se me explicasse também a sua explicação, com toda a certeza eu compreenderia.”
”São duas frases honestas para substituir duas palavras: forca e galés. Você irá alto e eu irei longe. Isso, no meu caso, está perfeitamente indicado por essa linha mediana, que cruza em ângulos retos outras linhas menos pronunciadas; no seu caso, por uma linha que corta a do meio sem se prolongar mais adiante, e outra que atravessa as duas, obliquamente…”

“A forca!’, exclamou Eustache.
”Você faz questão absoluta de morrer na horizontal?”, observou mestre Gonin. “Seria pueril; tanto mais que assim tem certeza de que escapa a todo tipo de outros fins a que cada homem mortal está exposto. Além disso, é possível que quando madame Forca o levantar pelo pescoço de braço esticado, você seja apenas um velho desgostoso do mundo e de tudo… Mas eis que está batendo meio-dia, e é a hora em que a ordem do preboste de Paris nos expulsa da Pont-Neuf até de noite. Ora, se um dia precisar de algum conselho, algum sortilégio, feitiço ou filtro para o seu uso, em caso de perigo, de amor ou de vingança, eu moro ali, no final da ponte, no Château-Gaillard. Está vendo daqui aquela torrezinha com as empenas?”
“Mais uma palavrinha, por favor, disse Eustache tremendo, “serei feliz no casamento?”

“Traga-me a sua mulher, e lhe direi… Pacolet, uma reverência para o cavaleiro e um beija-mão.”
O ilusionista dobrou sua mesa, colocou-a debaixo do braço, pegou o macaco pelo ombro e se dirigiu para o Château-Gaillard, cantarolando entre dentes uma melodia muito antiga.

VI. Cruzes e Mistérios

É verdade mesmo que Eustache Bouteroue ia se casar em breve com a filha do alfaiate e negociante de meias. Era um rapaz bem-comportado, bem enfronhado no comércio e que não perdia suas horas de folga no jogo de bocha ou no jogo da péla, como muitos outros, mas fazendo contas, lendo o Bocage des six corporations, e aprendendo um pouco de espanhol, que era bom que um comerciante soubesse falar, como hoje o inglês, por causa da profusão de gente dessa nação que morava em Paris. Assim, tendo mestre Goubard se convencido, depois de seis anos, da perfeita honestidade e do excelente caráter de seu vendedor, tendo além disso flagrado entre sua filha e ele uma certa atração muito virtuosa e severamente reprimida por ambas as partes, tinha decidido uni-los em casamento no dia de São João, no verão, e em seguida retirar-se para Laon, na Picardia, onde possuía bens de família.
No entanto, Eustache não possuía nenhuma fortuna; mas naquele tempo não era costume casar um saco de escudos com outro saco de escudos; às vezes os pais consultavam o gosto e a simpatia dos futuros esposos e davam-se ao trabalho de estudar por muito tempo o caráter, o comportamento e a capacidade das pessoas que destinavam às alianças, bem diferentemente dos pais de família de hoje, que exigem mais garantias morais de um doméstico que vão contratar do que de um futuro genro.
Ora, a previsão do ilusionista tinha condensado de tal modo as idéias já pouco fluidas do aprendiz de alfaiate que ele ficara todo atordoado no centro da meia-lua, e não ouvia nada das vozes cristalinas que cacarejavam nos campanários da Samaritaine, e repetiam meio-dia, meio-dia!… Mas em Paris as badaladas do meio- dia duram uma hora, e o relógio do Louvre logo tomou a palavra com mais solenidade, depois o dos Grands-Augustins, depois o do Châtelet; de tal modo que Eustache, apavorado por estar tão atrasado, saiu correndo com todas as suas forças e em poucos minutos tinha deixado para trás as ruas De la Monnaie, Du Borrei e Tirechappe; então, diminuiu o passo, quando virou na rua De la Boucherie-de- Beauvais, e seu rosto se descontraiu ao descobrir os toldos vermelhos da praça dos Halles, os teatros de feira dos Enfants-sans-Soucis, a escada e a cruz, e a linda lanterna do pelourinho coberta com seu teto de chumbo.
Era nessa praça, sob um daqueles toldos, que sua noiva, Javotte Goubard, esperava por sua volta. A maioria dos comerciantes das arcadas tinha uma barraca na praça do mercado dos Halles, guardado por uma pessoa de sua casa e servindo de sucursal da loja escura. Toda manhã Javotte se instalava na barraca do pai e ora trabalhava, sentada no meio das mercadorias, dando nós em cadarços, ora se levantava para chamar os passantes, agarrava-os firmemente pelo braço, e só os largava depois de comprarem alguma coisa; o que, apesar de tudo, não a impedia de ser a moça mais tímida a atingir ainda solteira a idade de um boi velho; cheia de graça, bonitinha, loura, alta e levemente curvada para a frente, como a maioria das moças do comércio cujo porte é esguio e frágil; para completar, ficava vermelha como um morango com qualquer frase que pronunciasse longe do serviço na barraca, mesmo se não ficasse atrás de nenhuma vendedora da praça em matéria de lábia e gogó (o estilo comercial da época).

Geralmente, Eustache ia ao meio-dia substituí-la debaixo do toldo vermelho, enquanto ela ia comer na loja com o pai. Era a esse compromisso que ele estava indo naquele instante, muito receoso de que seu atraso tivesse deixado Javotte impaciente; mas, da distância em que conseguiu avistá-la, Javotte já parecia mais calma, com o cotovelo apoiado num rolo de pano e muito atenta à conversa animada e ruidosa de um belo militar, debruçado no mesmo rolo, e com cara tanto de freguês como de qualquer coisa que se possa imaginar.

“É meu noivo!”, disse Javotte sorrindo para o desconhecido, que fez um leve gesto de cabeça sem mudar a pose: só que examinava de alto a baixo o caixeiro, com aquele desdém que os militares demonstram pelas pessoas da burguesia cujo exterior é pouco imponente.

“Ele tem o falso ar de um corneteiro da minha terra”, observou gravemente. Só que o outro tem mais corpulência nas pernas; mas, sabe, Javotte, o corneteiro, num batalhão, é pouco menos que um cavalo e pouco mais que um cachorro…”
”Este é meu sobrinho”, disse Javotte a Eustache, abrindo para ele seus grandes olhos azuis com um sorriso de perfeita satisfação. “Ele conseguiu uma folga para vir ao nosso casamento. Que bom, não é? Ele é arcabuzeiro na cavalaria… Ah!, que belo corpo! Se você estivesse vestido assim, Eustache… mas você não é tão alto, nem tão forte…”

“E quanto tempo”, disse timidamente o jovem, “o cavalheiro nos dará a honra de ficar em Paris?”
”Depende”, disse o militar se levantando, depois de esperar um pouco para res- ponder. “Mandaram-nos ao Berri para exterminar os camponeses revoltados, e se eles quiserem ficar calminhos mais algum tempo, darei a vocês um bom mês; mas, de qualquer maneira, no dia de Saint Martin viremos a Paris para substituir o regi- mento do senhor d’Humières, e então poderei vê-los todo dia e indefinidamente.” Eustache examinava o arcabuzeiro de cavalaria, tanto quanto podia fazê-lo sem cruzar com os olhos dele, e, positivamente, achava-o distante de todas as pro- porções físicas que convém a um sobrinho.

“Quando digo ‘todo dia'”, este recomeçou, “eu me engano; pois, na quinta-feira, tem a grande parada… Mas temos a noite e, na verdade, sempre poderei cear com vocês nesses dias.”
”Será que ele está pensando em almoçar nos outros?”, pensou Eustache…

“Mas você não tinha me dito, senhorita Goubard, que o senhor seu sobrinho era tão…”
”Tão bonitão? Ah, sim! Como ele ficou forte! Puxa, é que faz sete anos que a gente não via esse pobre Joseph, e desde então muita água rolou debaixo da ponte…”

“E muito vinho debaixo do nariz dele”, pensou o caixeiro, maravilhado com a face rubra de seu futuro sobrinho. “Ninguém fica de rosto corado à base de água batizada de vinho, e as garrafas de mestre Goubard vão dançar a dança dos mortos antes do casamento, e talvez depois…”

“Vamos comer, papai deve estar impaciente!”, disse Javotte ao sair de seu posto. “Ah!, vou lhe dar o braço, Joseph!… Dizer que antigamente eu era a mais alta, quando tinha doze anos e você dez; me chamavam de mamãe… Mas como fico orgulhosa de estar no braço de um arcabuzeiro! Você vai me levar para passear, não é? Saio tão pouco; não posso sair sozinha, e no domingo tenho de assistir ao ofício da tarde, porque sou filha de Maria, na igreja dos Saints-Innocents: tenho uma fitinha da congregação…”
Essa tagarelagem da moça, ritmada pelo passo militar do cavalheiro, essa forma graciosa e leve que saltitava de braço dado com aquela outra forma, maciça e dura, logo se perderam na sombra surda das arcadas que beiram a rua De la Tonnellerie e só deixaram nos olhos de Eustache uma névoa e em seus ouvidos, um zumbido.

VII. Misérias e Cruzes

Até agora seguimos de perto essa história burguesa, sem levar mais tempo para contá-la do que foi preciso para que ela acontecesse: e agora, apesar do nosso respeito, ou melhor, de nossa profunda estima por quem respeita as unidades no próprio romance, vemo-nos obrigados a fazer com que uma das três unidades dê um salto de alguns dias. As atribulações de Eustache, quanto a seu futuro sobrinho, talvez fosse bem curioso contá-las, mas foram menos amargas do que se podia imaginar a partir da exposição da história. Eustache logo se tranquilizou em relação à sua noiva. Na verdade, Javotte apenas guardara uma impressão talvez um pouco viva demais de suas recordações de infância, que numa vida tão pouco acidentada como a sua ganhavam importância exagerada. No arcabuzeiro da cavalaria ela enxergara, de início, apenas o menino alegre e ruidoso, o companheiro de suas brincadeiras de antigamente; mas não demorou a perceber que o menino tinha crescido, assumido outros comportamentos, e assim se tornou mais reservada com ele.
Quanto ao militar, excetuando-se certas familiaridades de praxe, não deixara transparecer com sua jovem tia intenções condenáveis; era até uma dessas inú- meras pessoas a quem as mulheres honestas inspiram pouco desejo e, por ora, dizia ele como Tabarin, sua namorada era a garrafa. Nos três primeiros dias depois de sua chegada, não largou Javotte, e até, para grande desgosto de Eustache, levou-a de tarde ao Cours-la-Reine, na companhia apenas da gorda empregada da casa. Mas a coisa não durou; logo se aborreceu na companhia dela e pegou o hábito de sair o dia inteiro, tendo, é verdade, o cuidado de voltar na hora das refeições. Portanto, a única coisa que inquietava o futuro marido era ver aquele parente tão bem instalado na casa que seria sua depois do casamento, e não parecia fácil mandá-lo embora delicadamente, de tal forma ele dava a impressão de, a cada dia, ir se incrustando mais firmemente. No entanto, só era sobrinho de Javotte por afinidade, sendo apenas o rebento de uma filha que a finada esposa de mestre Goubard tivera de um primeiro casamento.
Mas como fazê-lo compreender que tendia a exagerar a importância dos laços de família e tinha, em matéria de direitos e privilégios de parentesco, idéias tão abrangentes, tão estabelecidas e, de certa forma, tão patriarcais?
Era provável, contudo, que logo ele mesmo sentisse sua indiscrição, e Eusstache foi obrigado a armar-se de paciência, tal como as damas de Fontainebleau quando a corte está em Paris, como diz o provérbio.
Mas depois do casamento nada mudou nos hábitos do arcabuzeiro, que imaginou até que poderia conseguir, graças à tranquilidade dos camponeses revoltosos, ficar em Paris até a chegada de seu corpo de cavalaria. Eustache tentou algumas alusões epigramáticas sobre gente que pensa que uma loja é uma hospedaria, e várias outras que não foram captadas, ou pareceram fracas; aliás, ainda não se atrevia a falar abertamente com a mulher e o sogro, não querendo dar desde os primeiros dias de casado, a eles a quem devia tudo, uma impressão de homem interesseiro.
Além disso, o soldado não era uma companhia muito divertida, sua boca não passava do clarim perpétuo de sua glória, baseada metade em seus triunfos nos combates singulares que o tornavam o terror do exército, e metade em suas proezas contra os croquants, infelizes camponeses franceses contra quem os soldados do rei Henrique faziam a guerra porque eles não conseguiam pagar o imposto da taille, e que não pareciam perto de desfrutar da famosa poule au pot…
Esse temperamento de se gabar de tudo, excessivamente, era muito comum naquele tempo, tal como vemos nos personagens dos Taillebras e dos Capitães Matamoros, reproduzidos permanentemente nas peças cômicas da época, e, creio eu, deve ser atribuído à irrupção vitoriosa dos gascões em Paris, depois da chegada maciça dos navarros. Em pouco tempo essa invasão perdeu força e, alguns anos mais tarde, o barão de Foeneste já era um retrato bastante fraco dessa influência, embora fosse um tipo cómico perfeito, e finalmente a comédia Le menteur o mostrou, em 1662, reduzido a proporções quase banais.
Mas o que, nos modos do militar, mais chocava o bom Eustache era a eterna tendência a tratá-lo como um garotinho, a enfatizar os lados pouco favoráveis de sua fisionomia, e por fim, em toda ocasião, fazê-lo se sentir ridículo diante de Javotte, o que era muito prejudicial naqueles primeiros dias em que o recém-casado necessitava se firmar numa posição respeitável em relação ao futuro; acrescente-se a isso que não era preciso muita coisa para ofender o amor-próprio ainda bem recente e inflexível de um homem que se estabelecera num negócio, licenciado e juramentado.
Uma última atribulação foi como a gota d’água que entornou o caldo. Como Eustache ia fazer parte da patrulha das corporações e, tal como o honrado mestre Goubard, não queria fazer seu serviço em traje à paisana e com uma alabarda emprestada pelo vigilante do bairro, comprou uma espada com copos formando uma dupla concha — se bem que, justamente, a espada não tivesse mais essa concha que protege as mãos, abaixo do punho —, um capacete de viseira e uma cota de malha metálica em cobre vermelho, que parecia muito mais apropriado para o martelo de um caldeireiro. Tendo passado três dias a limpá-los e poli-los, conseguiu lhes dar um certo brilho que antes não tinham; mas quando os vestiu e andou orgulhoso por sua loja perguntando se estava “gracioso ao portar o arnês”, o arcabuzeiro começou a rir como um monte de moscas ao sol e afirmou que ele mais parecia ter vestido a bateria de cozinha.

VIII. O Piparote

Estando tudo organizado desse jeito, aconteceu que uma noite, era dia 12 ou 13, sempre uma quinta-feira, Eustache fechou cedo sua loja, coisa que não teria se permitido sem a ausência de mestre Goubard, que partira na antevéspera para ver seus bens na Picardia, onde planejava ir morar três meses depois, quando seu sucessor estivesse solidamente estabelecido e merecesse a plena confiança dos fregueses e dos outros comerciantes.
Ora, nessa noite, quando voltou, como de costume, para casa, o arcabuzeiro encontrou a porta fechada e as luzes apagadas. Ficou muito espantado, pois a patrulha ainda não tinha passado pelo Châtelet, e como em geral não voltava para casa sem estar meio tocado pelo vinho, sua contrariedade se manifestou por um palavrão pesado que fez Eustache estremecer na sobreloja, onde ainda não estava deitado, e já temeroso pela audácia de sua decisão.
”Ô de casa! Ei!”, gritou o outro dando um pontapé na porta. “Por acaso hoje é dia de festa? Por acaso é dia de São Miguel, é a festa dos alfaiates, dos larápios e dos batedores de carteira?…”
E tamborilava com o punho na vitrine, o que produziu tanto efeito como se tivesse triturado água dentro de um pilão.

Ei! Meu tio e minha tia!… Então querem que eu durma ao relento, em cima da pedra, arriscando-me a ser estraçalhado pelos cães e por outros bichos?…
O de casa! Ei! Que diabo, esses parentes! Eles bem que são capazes!… E a natu- reza, hein, seus caipiras! Ô! Ô! Desça depressa, burguês, é dinheiro que eu estou lhe trazendo!… Tomara que uma praga te leve, roceiro de uma figa.”

Toda essa arenga do pobre sobrinho não comovia nem um pouco a madeira da porta; ele gastava suas palavras à toa, como o venerável Bede pregando para um monte de pedras.
Mas quando as portas são surdas, as janelas não são cegas, e há um modo muito simples de fazê-las enxergar; de repente o soldado teve esse raciocínio, saiu da galeria escura das arcadas, recuou até o meio da rua De la Tonnellerie e, apa- nhando um caco a seus pés, jogou-o tão bem que deixou caolha uma das janelinhas da sobreloja. Foi um incidente em que Eustache nem tinha pensado, um formidável ponto de interrogação para aquela pergunta que resumia todo o monólogo do militar: mas, afinal, por que você não abre a porta?…

De súbito, Eustache tomou uma decisão, pois um covarde que ergueu a cabeça parece um vilão que começa a gastar dinheiro e sempre exagera nas coisas; mas, além disso, era questão de honra impor-se, ao menos uma vez, diante de sua nova esposa, que podia ter perdido um pouco de respeito por ele ao vê-lo há vários dias servir de alveiro para o militar, com a diferença de que às vezes o alveiro, por ricochete dos dardos, dá bons golpes em troca dos que leva continuamente. Portanto, botou seu chapéu de feltro, de banda, e se despencou pela escada estreita da sobreloja antes que Javotte pensasse em detê-lo. Nos fundos da loja, tirou da parede sua espada e só quando sentiu na mão escaldante o frio punho de cobre parou um instante para andar em passo arrastado até a porta, cuja chave estava na outra mão. Mas o barulhão de uma segunda vidraça quebrada e os passos de sua mulher, que ele ouviu atrás de si, restituíram-lhe toda a sua energia: abriu de repente a porta maciça e plantou-se na soleira com a espada desembainhada, como o arcanjo às portas do paraíso terrestre.

“O que é que esse bicho da noite quer? Esse bêbado vagabundo que não vale um tostão? Esse sujeito que só quebra pratos rachados?…”, gritou, num tom que seria de estremecer se ele tivesse baixado a voz duas notas. “Isso é jeito de se comportar com gente decente?… Ora bolas; dê o pira daqui sem demora e vá dormir com a carniça, junto com gente da sua laia, senão eu chamo os vizinhos e a patrulha para pegar você!”

“Oh! Oh! Olhe como o galinho está cantando agora! Assobiaram para você com uma trombeta?… Ah!, está bem diferente… Gosto de vê-lo falar tragicamente como Tranchemontagne, e tenho um xodó por gente corajosa… Venha cá para um abraço, Picrochole!…”

“Vá embora, seu patife! Está ouvindo os vizinhos, que acordaram com o barulho? E que eles vão levar você até a primeira patrulha para ser preso como um descarado e um ladrão? Vá embora daqui, ande, sem mais escândalo e não volte mais!”
Mas o soldado, ao contrário, avançava entre as pilastras, o que enfraqueceu um pouco o final da réplica de Eustache:

“Muito bem dito!”, ele exclamou para Eustache. O aviso é honesto e merece ser pago…”

Num abrir e fechar de olhos, já estava bem pertinho e tascava no nariz do jovem comerciante de roupas um piparote de deixá-lo escarlate.
”Guarde tudo, se não tiver troco!”, exclamou. “E sem adeus, meu tio!”
Eustache não podia tolerar pacientemente essa afronta, ainda mais humilhante que uma bofetada, na frente de sua nova esposa, e, apesar dos esforços que ela fazia para detê-lo, lançou-se em cima de seu adversário, que estava indo embora, e deu- lhe um golpe com a espada que teria honrado o braço de Roger, o Cruzado, se a espada tivesse um gume; mas desde as guerras de religião ela não cortava mais nada, e portanto nem penetrou na roupa de couro do soldado. Este logo agarrou as duas mãos nas suas, de tal modo que, primeiro, a espada caiu, e depois o paciente começou a gritar tão forte que ele não aguentava mais, dando furiosos pontapés nas botas moles de seu perseguidor.

Ainda bem que Javotte os desapartou, pois, de suas janelas, os vizinhos olhavam a luta mas não pensavam em descer para acabar com ela, e Eustache, puxando seus dedos azulados do alicate natural que os havia apertado, teve de esfregá-los muito tempo para que perdessem a forma quadrada com que ficaram.

“Não tenho medo de você”, exclamou, “e voltaremos a nos ver! Se você tem pelo menos a dignidade de um cachorro, apareça amanhã de manhã no Pré-aux- Clercs!… Às seis horas, seu vagabundo! E vamos lutar até a morte, seu bandido!”
”O lugar é bem escolhido, meu campeãozinho, e vamos nos comportar como fidalgos! Então, até amanhã. Juro por São Jorge que você vai achar a noite curta!”

O militar proferiu essas palavras num tom de consideração que até então não tinha demonstrado. Eustache se virou orgulhoso para sua mulher; com o seu desafio para um duelo, ele crescera seis palmos. Apanhou a espada e empurrou a porta fazendo barulho.

IX. O Château-Gaillard

Ao acordar, o jovem comerciante de roupas estava num desânimo total, que não se comparava com a coragem da véspera. Não foi difícil confessar a si mesmo que tinha sido extremamente ridículo ao propor um duelo ao arcabuzeiro, ele que não sabia manejar outra arma além da meia vara, com que tinha esgrimado muitas vezes, na época de seu aprendizado, com os companheiros no campo dos Cartuxos. Portanto, não custou a tomar a firme resolução de ficar em casa e deixar seu adversário exibir sua empáfia no Pré-aux-Clercs, balançando-se de um pé para outro como um ganso amarrado.
Quando passou a hora do encontro ele se levantou, abriu a loja e não falou mais com a mulher sobre a cena da véspera, a que ela, de seu lado, evitou fazer a menor alusão. Tomaram café em silêncio; depois Javotte foi, como de costume, se instalar sob o toldo vermelho, deixando o marido a examinar, junto com a empregada, uma peça de tecido para marcar os defeitos. É bom dizer que volta e meia ele virava os olhos para a porta e tremia a todo instante ao pensar que seu parente terrível fosse criticá-lo por sua covardia e por ter faltado com a palavra. Ora, perto das oito e meia viu de longe o uniforme do arcabuzeiro surgir na galeria das arcadas ainda banhada de sombras; parecia um soldado alemão de Rembrandt, reluzindo em três pontos, no capacete, no elmo e no nariz; funesta aparição que logo foi ficando maior e mais nítida, e cujo passo metálico parecia bater cada minuto da última hora do comerciante.
Mas o mesmo uniforme não cobria o mesmo corpo, e, para falar mais simplesmente, foi um militar colega do outro quem parou defronte da loja de Eustache, refeito a duras penas de seu pavor, e dirigiu-lhe a palavra num tom muito calmo e muito civilizado.
Primeiro comunicou-lhe que seu adversário, tendo-o esperado por duas horas no lugar do encontro sem vê-lo chegar, e imaginando que um acidente imprevisto o impedira de ir, retornaria no dia seguinte, na mesma hora, ao mesmo lugar, lá ficaria o mesmo tempo e, se fosse uma espera inútil, em seguida se transferiria para a sua loja, cortaria suas duas orelhas e as guardaria no bolso, como fizera em 1605 o famoso Brusquet com um escudeiro do duque de Chevreuse pelo mesmo motivo, gesto que angariou os aplausos da corte e foi em geral considerado de bom gosto.
A isso Eustache respondeu que seu adversário ofendia sua coragem com uma ameaça dessas, e que agora ele teria um duplo motivo para o duelo; acrescentou que o obstáculo não tinha outra causa senão o fato de ainda não ter conseguido encontrar alguém para lhe servir de segundo.
O outro pareceu satisfeito com a explicação e achou por bem informar ao comerciante que ele encontraria excelentes segundos na Pont-Neuf, defronte da Samaritaine, onde em geral perambulava toda a gente que não tinha outra profissão e que, por um escudo, se encarregava de abraçar qualquer causa que fosse e até mesmo de levar as espadas. Depois dessas observações, fez uma profunda reverência e se retirou.
Ao ficar só, Eustache começou a pensar e ficou muito tempo nesse estado de perplexidade; seu espírito se atrapalhava diante de três decisões principais: ora queria alertar o magistrado sobre a intempestividade do militar e suas ameaças e pedir-lhe autorização para portar armas de autodefesa; mas isso sempre terminava num combate. Ora se decidia a ir ao local, avisando aos policiais, de modo a que eles chegassem no mesmo instante em que o duelo começasse; mas era possível que só chegassem quando o duelo tivesse acabado. Por fim, também pensava em consultar o cigano da Pont-Neuf, e foi essa a decisão final que tomou.
Ao meio-dia, a empregada substituiu sob o toldo vermelho Javotte, que foi almoçar com o marido; este não lhe falou, durante a refeição, da visita que tinha recebido, mas pediu-lhe em seguida que tomasse conta da loja enquanto ele iria apresentar sua mercadoria na casa de um fidalgo recém-chegado, que queria fazer roupas. De fato, pegou seu saco de amostras e se dirigiu para a Pont-Neuf.
O Château-Gaillard, situado na beira do rio, na extremidade sul da ponte, era um pequeno edifício tendo ao alto uma torre redonda, que nos velhos tempos havia servido de prisão, mas agora começava a cair em ruínas e a rachar e só era habitável para quem não tinha outro abrigo. Eustache, depois de andar algum tempo com passo inseguro entre as pedras que cobriam a terra, deparou com uma portinhola no centro da qual havia um morcego espetado. Bateu devagarinho, e o macaco de mestre Gonin logo abriu levantando um trinco, serviço para o qual estava treinado, como estão às vezes os gatos domésticos.
O ilusionista estava sentado diante de uma mesa e lia. Virou-se com gravidade, fez sinal ao jovem para se sentar numa escadinha. Quando ele lhe contou sua aventura, garantiu-lhe que era a coisa menos preocupante do mundo, e que Eustache tinha feito bem de se dirigir a ele.
O que você está querendo é um feitiço”, acrescentou, “um feitiço mágico para vencer com absoluta certeza o seu adversário; não é disso que precisa?”
”É, se for possível.”
”Se bem que todo mundo se meta a fazê-los, você não encontrará em lugar nenhum feitiços tão seguros como os meus; e não são, como os outros, feitos por arte diabólica, mas resultam de um conhecimento aprofundado da magia branca, e não podem de modo algum comprometer a salvação da alma.”

“Isso é bom”, disse Eustache, “senão eu evitaria usá-lo. Mas quanto custa a sua obra mágica? Pois ainda preciso saber se poderei pagá-la.”
”Lembre-se de que é a vida que você está comprando, e a glória, ainda por cima. Isso posto, acha que por essas duas coisas excelentes seja possível cobrar menos de cem escudos?”

“Que cem diabos o carreguem!”, resmungou Eustache, cujo rosto se fechou. “É mais do que possuo!… E o que me será a vida sem pão e a glória sem roupas? E ainda é possível que isso seja uma falsa promessa de charlatão para tapear os crédulos.” “Você só pagará depois.”

“Já é alguma coisa… Afinal, que garantia você quer?”
”Só a sua mão.”
”Bem, quer dizer… Eu sou mesmo um grande bobalhão de ficar aqui escutando a sua conversa fiada! Você não previu que eu acabaria com a corda no pescoço?” “Sem dúvida, e não me desdigo.”
”Ora, então, se é assim, o que tenho a temer nesse duelo?”
”Nada, a não ser algumas estocadas e uns cortes, para abrir na sua alma as portas maiores… Depois disso, porém, você será recolhido e içado no alto da meia cruz, vivo ou morto, como reza a lei; e assim o seu destino será cumprido. Está entendendo?”
O comerciante entendeu tão bem que tratou de oferecer sua mão ao ilusionista, como forma de consentimento, pedindo-lhe dez dias para juntar a quantia, com o que o outro concordou depois de anotar na parede o dia exato em que expirava o prazo. Depois, pegou o livro de Alberto Magno, comentado por Cornélio Agripa e pelo abade Trithêmio, abriu-o no artigo dos “Combates singulares”, e, para tranquilizar ainda mais Eustache de que sua operação nada teria de diabólica, disse- lhe que, enquanto isso, poderia recitar suas preces, sem medo de que elas fossem um impedimento. Então levantou a tampa de um baú, tirou um vaso de terra não envernizado, ali dentro fez a mistura de vários ingredientes que lhe pareciam ser indicados por seu livro, proferindo em voz baixa uma espécie de encantamento. Quando terminou, pegou a mão direita de Eustache, que, com a outra, fazia o sinal- da-cruz, e a ungiu até o pulso com a mistura que acabava de fabricar.
Em seguida tirou também do baú um frasco velhíssimo e todo engordurado e, despejando-o devagar, espalhou umas gotas nas costas da mão, pronunciando palavras em latim que se aproximavam da fórmula que os padres empregam nos batizados.
Só então Eustache sentiu em todo o braço uma espécie de comoção elétrica que muito o assustou; sua mão pareceu dormente, e, no entanto, coisa muito estranha, ela se retorceu e se esticou várias vezes fazendo as articulações estalarem, como um animal que desperta, e depois ele não sentiu mais nada, a circulação foi se restabelecendo, e mestre Gonin exclamou que estava tudo terminado, e que agora ele podia desafiar com a espada os mais duros soldados da corte e do exército, e neles abrir casas para todos os botões inúteis que, seguindo a moda, sobrecarregavam seus uniformes.

X. O Pré-Aux-Clercs

Na manhã seguinte, quatro homens atravessaram as alamedas verdes do Pré-aux- Clercs procurando um lugar adequado e suficientemente afastado. Chegando ao pé da pequena elevação que bordejava o lado sul, pararam no campo de jogo de bochas, que lhes pareceu um terreno muito apropriado para se duelarem con- fortavelmente. Então Eustache e o adversário tiraram seus gibões e as testemunhas os examinaram, segundo a praxe, debaixo da camisa e dentro das calças. O comerciante estava emocionado, mas tinha confiança no feitiço do cigano; pois, como se sabe, nunca as operações mágicas, feitiços, filtros e sortilégios mereceram tanto crédito como naquele tempo, quando deram lugar a tantos processos que lotam os registros dos tribunais, e os próprios juizes partilhavam da credulidade geral.

A testemunha de Eustache, que ele pegara na Pont-Neuf e a quem pagara um escudo, cumprimentou o amigo do arcabuzeiro e perguntou se ele pretendia lutar também; como o outro respondeu que não, ele cruzou os braços com indiferença e recuou para ver os campeões em ação.

O alfaiate não conseguiu evitar uma certa náusea quando seu adversário lhe fez a saudação de armas, que ele não retribuiu. Permanecia imóvel, segurando a espada na sua frente como uma vela e com as pernas tão bambas que o militar, que no fundo não era um mau coração, prometeu a si mesmo fazer-lhe apenas um arranhão. Mas assim que as espadas se tocaram, Eustache percebeu que sua mão arrastava seu braço para a frente e se agitava de um modo brusco.

Mais exatamente, só a sentia pelo repuxo forte que a mão exercia nos músculos de seu braço; seus movimentos tinham uma força e uma elasticidade fantásticas, comparáveis às de uma mola de aço; assim, o militar quase deslocou o punho ao se desviar de um golpe de terceira posição; mas o golpe de quarta jogou sua espada a dez passos, enquanto a de Eustache, sem pausa e com o mesmo movimento com que tinha sido lançada, trespassou seu corpo tão violentamente que a concha protetora dos punhos ficou engastada no peito do militar. Eustache, que não havia baixado a guarda e fora arrastado por um safanão imprevisto de sua mão, teria, ao cair, quebrado a cabeça se ela não tivesse ido parar em cima da barriga do adversário.

“Santo Deus, que punho!”, exclamou a testemunha do soldado. “Esse sujeito aí daria uma lição no cavaleiro Torce-Carvalho! A seu favor ele não tem a graça nem o físico, mas em matéria de força no braço é pior que um arqueiro do País de Galles!” Enquanto isso Eustache tinha se levantado com a ajuda de sua testemunha, e por um instante ficou absorto diante do que acabava de acontecer; mas quando conseguiu distinguir claramente o arcabuzeiro estirado a seus pés e preso à terra pela espada, como um sapo preso num círculo mágico, deu no pé com tanta rapidez que esqueceu na relva seu gibão domingueiro, com bordados abertos para se ver o forro e enfeitado com passamanarias de seda.

Ora, como sem a menor dúvida o soldado estava morto, as duas testemunhas não tinham nada a lucrar se ficassem no terreno, e se afastaram depressa. Tinham andado uns cem passos quando a de Eustache exclamou, batendo na testa:
”E minha espada, que eu tinha emprestado e estou esquecendo!”

Deixou o outro seguir seu caminho e, voltando ao local da luta, começou a revistar curioso os bolsos do morto, nos quais só encontrou chaves, um pedaço de corda e um baralho de tarô sujo e maltratado.
”Trapaceiro! Que trapaceiro!”, murmurou. “Mais um sacripanta que não tem erva nem relógio! Que o mafarrico o carregue, seu soprador de pavios!”

A educação enciclopédica do século nos dispensa explicar, nessa frase, outra coisa além do último termo, que fazia alusão à profissão de arcabuzeiro do defunto.
Nosso homem, não se atrevendo a levar nada do uniforme, cuja venda poderia comprometê-lo, limitou-se a tirar as botas do militar, enrolou-as em sua capa junto com o gibão de Eustache e se afastou xingando.

XI. Obsessão

O alfaiate ficou vários dias sem sair de casa, com o coração partido por aquela morte trágica que causara devido a ofensas tão leves e com um método condenável e daninho, neste mundo como no outro. Havia momentos em que considerava tudo aquilo um sonho e, não fosse o gibão esquecido na relva, testemunha irrefutável que brilhava por sua ausência, teria desmentido a exatidão de sua memória.
Finalmente, uma noite quis queimar os olhos diante da evidência e foi ao Pré-aux- Clercs como quem vai passear. Sua visão se turvou ao reconhecer o campo do jogo de bochas onde ocorrera o duelo, e ele teve de se sentar. Ali jogavam os procuradores, como é costume deles, antes do jantar; e Eustache, assim que se dissipou a névoa que embaçava seus olhos, teve a impressão de ver no terreno liso, entre os pés afastados de um deles, uma grande mancha de sangue.
Levantou-se convulsivamente e apertou o passo para sair daquele lugar, tendo sempre diante dos olhos a mancha de sangue que, conservando sua forma, pousava sobre todos os objetos em que seu olhar se fixava ao passar, como essas manchas lívidas que vemos voltear muito tempo em torno de nós quando fixamos os olhos no sol.
Ao voltar para casa teve a impressão de que estava sendo seguido; só então pensou que alguém do palacete da rainha Margarida, diante do qual ele tinha passado na outra manhã e naquela própria tarde, talvez o tivesse reconhecido; e embora nessa época as leis sobre o duelo não fossem cumpridas à risca, refletiu que alguém poderia muito bem achar conveniente mandar para a forca um pobre comerciante, para dar o exemplo aos cortesãos, que, nesse tempo, ninguém ousava atacar, como ocorreria mais tarde.
Esses e muitos outros pensamentos resultaram numa noite agitada; ele não conseguia pregar o olho um instante sem ver mil forcas de dedo em riste para ele, e em cada uma delas pendia da corda um morto se torcendo de rir, horrível, ou um esqueleto cujas costelas se desenhavam nitidamente na face redonda da lua.
Mas uma feliz idéia varreu todas essas visões distorcidas: Eustache se lembrou do oficial de justiça, velho freguês de seu sogro e que já o havia recebido com muita simpatia; prometeu a si mesmo ir encontrá-lo no dia seguinte e confiar-se inteiramente a ele, convencido de que o protegeria, quando nada em consideração a Javotte, que ele acariciara desde criança, e a mestre Goubard, que tinha em grande estima. O pobre comerciante dormiu enfim e, com essa boa resolução, descansou no travesseiro até de manhã.
No dia seguinte, por volta das nove horas, batia à porta do magistrado. O mordomo, supondo que ele vinha tirar as medidas para uma roupa, ou para propor alguma compra, logo o introduziu até o seu patrão, que, meio recostado numa grande poltrona de almofadinhas, fazia uma leitura deliciosa. Tinha nas mãos o antigo poema de Merlin Cocai e se deliciava especialmente com o relato das proezas de Baldo, o valente protótipo de Pantagruel, e mais ainda com sutilezas e ladroagens sem igual de Cingar, aquele modelo grotesco que inspirou, de um modo tão feliz, o nosso Panurgo.
Mestre Chevassut estava na história dos carneiros, que Cingar põe para fora da nau jogando no mar o carneiro que ele pagou, e que logo é seguido por todos os outros. Foi quando reparou na visita que estava chegando e, pondo o livro em cima da mesa, virou-se para seu alfaiate com cara de ótimo humor.
Perguntou-lhe sobre a saúde da mulher e do sogro e fez todo tipo de brincadeiras banais quanto à sua nova situação de casado. O jovem aproveitou a oportunidade para falar de sua aventura, e, tendo recitado todo o episódio da briga com o arcabuzeiro, e encorajado pelo ar paterno do magistrado, fez-lhe também a confissão do triste desfecho que ela tivera.
O outro o olhou com o mesmo espanto com que olharia o bom gigante Fracasse, de seu livro, ou o fiel Falquet, que tinha a traseira de um lebréu, e não mestre Eustache Bouteroue, comerciante das arcadas: pois embora já soubesse que o dito Eustache era um dos suspeitos, foi incapaz de dar o menor crédito a esse relatório, a essa proeza de armas de uma espada que imobiliza no chão um soldado do rei, atribuída a um caixeiro de loja, não mais alto do que Gribouille ou Triboulet.

Mas quando não foi mais possível duvidar do fato, garantiu ao pobre alfaiate que faria tudo o que estivesse a seu alcance para abafar o caso e despistar os homens da justiça, prometendo-lhe que brevemente ele poderia viver descansado e com toda a confiança, contanto que as testemunhas não o acusassem.

Mestre Chevassut o acompanhou até a porta reiterando-lhe suas garantias, e foi quando, na hora de se despedir humildemente dele, Eustache resolveu lhe tascar um tabefe de demolir o rosto do homem, um glorioso tabefe que deixou uma face do magistrado igual ao escudo de Paris, metade vermelha e metade azul, e o fez ficar tão espantado como se tivesse visto uma assombração, de boca escancarada, e tão incapaz de falar como um peixe que perdeu a língua.

O pobre Eustache ficou tão apavorado com esse gesto que se jogou aos pés de mestre Chevassut e pediu-lhe perdão por sua irreverência nos termos mais su- plicantes e com os mais consternados protestos, jurando que tinha sido um mo- vimento convulsivo imprevisto, independente de sua vontade, e para o qual esperava misericórdia, tanto dele como de nosso bom Deus. O velho se levantou, mais espantado que irado; mas, mal ficou em pé, Eustache lhe deu, com as costas da mão, mais um tabefe, na outra face, na qual seus cinco dedos deixaram uma marca tão funda que seria possível fazer um molde deles.

Dessa vez o negócio ficou insuportável, e mestre Chevassut correu até a sineta para chamar seus criados; mas o alfaiate o perseguiu, continuando a sua dança, o que formava uma cena singular, pois a cada bruto tabefe com que ele gratificava o seu protetor, o pobre coitado se atrapalhava todo em desculpas lacrimejantes e em súplicas abafadas, cujo contraste com o gesto era dos mais divertidos; em vão tentava parar esses impulsos para os quais sua mão o arrastava: parecia uma criança que segura uma grande ave por uma corda presa em sua pata. A ave puxa para todos os cantos do quarto a criança apavorada, que não se atreve a deixá-la voar e não tem mais força para detê-la. Assim, o infeliz Eustache era puxado por sua mão que ia atrás do magistrado, que rodava em volta das mesas e das cadeiras e tocava a sineta e gritava, indignado de raiva e sofrimento. Por fim os mordomos entraram, agarraram Eustache Bouteroue e o jogaram no chão, sem fôlego e desfalecendo. Mestre Chevassut, que não acreditava em magia branca, não devia pensar em outra coisa senão que tinha sido abusado e mal-tratado pelo jovem por algum motivo que era incapaz de explicar; assim, mandou chamar os policiais, a quem abandonou o homem sob a dupla acusação de homicídio em duelo e ofensas gestuais contra um magistrado dentro de sua própria casa. Eustache só voltou a si com o rangido das trancas abrindo a solitária que lhe era destinada.

“Sou inocente!…”, gritou para o carcereiro que o empurrava.
”Ai, meu Jesus Cristo!”, replicou-lhe o homem com gravidade, “onde é que você pensa que está? Nós sempre temos aqui gente desse tipo!”

XII. Sobre Alberto Magno e a Morte

Eustache tinha sido trancado numa dessas celas do Châtelet a respeito da qual Cyrano dizia que quem o visse ali dentro o confundiria com uma vela debaixo de uma ventosa.
”Se estão me dando”, acrescentou depois de ter visitado todos os recantos só com uma pirueta, “se estão me dando essa vestimenta de pedra como roupa, ela é larga demais; se é para um túmulo, é estreita demais. Os piolhos aqui têm dentes mais compridos que o corpo, e aqui se sofre incessantemente com a pedra, que não é menos dolorosa por ser externa.”

Ali nosso herói teve todo o tempo de fazer reflexões sobre sua má sorte e amaldiçoar o auxílio fatal recebido do escamoteador, que assim havia isolado um de seus membros da autoridade natural de sua cabeça; daí deviam resultar neces- sariamente desordens de todo tipo. Foi portanto grande a sua surpresa ao vê-lo um dia descer até a sua solitária e perguntar em tom calmo como ele ia.

“Que o diabo o enforque com as suas tripas! Seu gabola malvado e mandingueiro”, ele lhe disse, “pelos seus feitiços desgraçados!”
”Mas, afinal”, respondeu o outro, “de que sou culpado, se no décimo dia você não foi me levar a quantia combinada para eu remover o feitiço?”

“Ei!… E eu sabia que você precisava desse dinheiro tão depressa”, disse Eustache um pouco mais baixo, “você, que fabrica ouro à vontade, igual ao escritor Flamel?” “Qual o quê!”, disse o outro. “É justamente o contrário. Sem a menor dúvida chegarei a essa grande obra hermética, já que estou perfeitamente no bom caminho; mas até agora só consegui transformar ouro fino num ferro muito bom e muito puro: segredo que o grande Raymond Lulle também descobriu no final da vida…

“Que bela ciência!”, disse o alfaiate. “É isso! Você vem então me tirar daqui, finalmente! Por Deus pai! Já é hora! E eu não contava mais com isso…”
“Aí é que são elas, meu amigo! De fato, é isso que espero conseguir brevemente, e também abrir as portas sem chaves, para entrar e sair; e você vai ver como é a operação para se conseguir isso.”

Ao dizer isso, o cigano tirou do bolso seu livro de Alberto Magno e, na claridade da lanterna que tinha levado, leu o parágrafo que se segue:

MEIO HERÓICO DE QUE SE SERVEM OS CELERADOS PARA SE INTRODUZIREM NAS CASAS

Pega-se a mão cortada de um enforcado, que é preciso ter comprado dele antes da morte, mergulha-se a mão, tendo o cuidado de mantê-la quase fechada, num vaso de cobre contendo zímase e salitre, com gordura de spondillis. Expõe-se o vaso a um fogo claro feito de samambaia e verbena, de modo que a mão fique, depois de quinze minutos, perfeitamente seca e própria para ser conservada muito tempo. Depois, tendo fabricado uma vela com gordura de foca e gergelim da Lapônia, usa- se a mão como um abano para manter essa vela acesa; e a todos os lugares aonde formos, segurando-a diante de nós, as barras cairão, as fechaduras se abrirão, e todas as pessoas que encontrarmos ficarão imóveis.

Essa mão assim preparada recebe o nome de mão de glória.

“Que bela invenção!”, exclamou Eustache Bouteroue.
”Mas, espere; mesmo que você não tenha me vendido a sua mão, ela me pertence, porque você não a liberou no dia combinado, e a prova disso é que, quando o prazo expirou, ela se comportou, pelo espírito de que está possuída, de modo a que eu pudesse desfrutá-la o quanto antes. Amanhã, o tribunal o condenará a forca; depois de amanhã, a sentença se cumprirá, e na mesma noite colherei esse fruto tão cobiçado e o prepararei seguindo a receita.”
Ah, não!”, exclamou Eustache. “E quero, já amanhã, contar todo o mistério àqueles senhores.”
”Ah, é bom! Faça isso… e será simplesmente queimado vivo por ter recorrido a magia, o que o habituará de antemão ao espeto do senhor Diabo… Mas isso jamais acontecerá, pois o seu horóscopo mostra a forca, e nada pode desviá-lo dela!”
Então o miserável Eustache começou a gritar tão alto e a chorar tão amargamente que dava uma grande pena.
”Puxa vida!, meu caro amigo”, disse-lhe suavemente mestre Gonin, “por que se revoltar assim contra o destino?”
”Minha mãe do céu! Falar é fácil”, Eustache soluçou, “mas quando a morte está aí bem perto…”
”Ora essa! Afinal, o que é que é a morte, que a gente deve se espantar tanto?… Considero que a morte não vale um tostão furado! ‘Ninguém morre antes da hora!’, disse Sêneca, o Trágico. Será que você é o único vassalo dessa dama da foice? Eu também sou, e aquele ali, e um terceiro, um quarto, Martin, Philippe! A morte não tem respeito por ninguém. É tão atrevida que condena, mata, e pega indistintamente papas, imperadores e reis, assim como prebostes, policiais e outros canalhas do gênero. Portanto, não se aflija por fazer o que todos os outros farão mais tarde; a situação deles é mais deplorável que a sua; pois, se a morte é um mal, só é mal para aqueles que têm de morrer. Assim, você só sofrerá mais um dia desse mal, e a maioria dos outros sofrerá vinte ou trinta anos, e ainda mais. Um antigo dizia: ‘A hora que lhe deu a vida já a diminuiu’. Você está na morte enquanto está na vida, pois quando não está mais em vida você está depois da morte; ou, melhor dizendo, e para melhor terminar: a morte não lhe concerne nem morto nem vivo, vivo porque você existe, morto porque não existe mais! Que esses argumentos lhe bastem, meu amigo, para encorajá-lo a beber esse absinto sem fazer careta, e daqui até lá medite ainda sobre um belo verso de Lucrécio, cujo sentido é o seguinte: ‘Viva tanto tempo quanto puder, você nada tirará da eternidade da sua morte!’.”
Depois dessas belas máximas, a quintessência dos antigos e dos modernos, todas sutis e sofisticadas segundo o gosto desse século, mestre Gonin levantou sua lanterna, bateu na porta da solitária, que o carcereiro foi abrir, e as trevas tornaram a cair sobre o prisioneiro como uma chapa de chumbo.

XIII. Quando o Autor Toma a Palavra

As pessoas que desejarem saber todos os detalhes do processo de Eustache Bouteroue encontrarão os autos nos Arrêts mémorables du Parlement de Paris, que estão na biblioteca dos manuscritos, cuja pesquisa o senhor Paris facilitará com sua solicitude de praxe. Seguindo a ordem alfabética, esse processo está imediatamente antes do processo do barão de Bouteville, muito curioso também por causa da singularidade de seu duelo com o marquês de Bussi, no qual, para melhor desafiar os éditos, ele foi expressamente da Lorena a Paris e duelou na própria Place Royale, às três horas da tarde, e no próprio dia de Páscoa (1627). Mas não é disso que se trata aqui. No processo de Eustache Bouteroue só se fala do duelo e das ofensas ao oficial de justiça, e não do feitiço mágico que ocasionou toda essa desordem. Entretanto, uma nota anexada aos outros documentos remete ao Recueil des histoires tragiques de Belleforest (edição publicada em Haia, pois a de Rouen está incompleta); e é aí que estão os detalhes que nos resta fornecer sobre essa aventura, a que Belleforest intitula de modo muito feliz: A mão possuída.

XIV. Conclusão

Na manhã de sua execução, Eustache, transferido para uma cela mais iluminada que a outra, recebeu a visita de um confessor, que lhe resmungou algumas consolações espirituais de tão bom gosto quanto as do cigano, e que não pro- duziram efeito melhor. Era um clérigo dessas boas famílias em que um dos filhos é sempre um abade que usa o próprio sobrenome familiar; usava uma grande gola bordada, tinha a barba encerada e torta, em forma de ponta de fuso, e um desses bigodes que se chamam ganchos, elegantemente levantado para cima; seus cabelos eram muito crespos e ele afetava uma fala meio melosa, para realçar sua linguagem empolada. Eustache, ao vê-lo tão superficial e engalanado, não teve coragem de confessar toda a sua culpa e confiou em suas próprias orações para conseguir o perdão.
O padre lhe deu a absolvição, e, para passar o tempo, pois tinha de ficar até duas horas ao lado do condenado, apresentou-lhe um livro chamado As lágrimas da alma penitente, ou o Retorno do pecador ao seu Deus. Eustache abriu o volume na primeira página, na qual se via o “Privilégio do Rei” que autorizava a publicação, e começou a lê-lo, muito compungido, a partir de “Henrique, rei de França e de Navarra, aos nossos amados e devotados” etc, até a frase “considerando essas cau- sas, desejando tratar favoravelmente o exponente supracitado…”. Aqui, não agüentou e se debulhou em lágrimas, e devolveu o livro dizendo que era muito emocionante e que ele tinha muito medo de se enternecer caso prosseguisse a leitura. Então o confessor tirou do bolso um baralho muito bem pintado, e propôs a seu penitente jogarem umas partidas, nas quais ele ganhou um pouco do dinheiro que Javotte tinha passado a Eustache a fim de que pudesse ter algum consolo. O pobre homem não pensava muito no jogo, mas é verdade que também não se sensibilizou com a perda.
Às duas horas saiu do Châtelet, tremendo de medo enquanto dizia os pai-nossos do padre, e foi conduzido à praça Des Augustins, entre as duas arcadas que formam a entrada da rua Dauphine e a cabeça da Pont-Neuf, onde foi honrado com um patíbulo de pedra. Mostrou bastante firmeza ao subir a escada, pois muita gente o olhava, já que aquela praça de execução era uma das mais frequentadas. Só que, como qualquer pessoa que protela ao máximo o momento de dar esse grande salto no vazio, no instante em que o carrasco se preparava para lhe passar a corda no pescoço, com tanta pompa como se fosse o velocino de ouro, pois as pessoas desse tipo, que exercem sua profissão diante do público, em geral fazem as coisas com muita destreza e até com muita graça, Eustache lhe pediu que esperasse um instante, a fim de que ainda rezasse duas orações a santo Inácio e a são Luís Gonzaga, santos que, entre todos os outros, tinha reservado para o fim, pois haviam sido beatificados naquele próprio ano de 1609, mas a resposta daquele homem foi que o público que lá estava tinha seus afazeres e que era de mau gosto fazê-los esperar por um espetáculo tão pequeno como um simples enforcamento; a corda que, nesse meio-tempo, ele ia apertando, ao empurrar Eustache para fora da escada cortou no meio a sua resposta.
Garante-se que, quando tudo parecia terminado e o carrasco estava indo para casa, mestre Gonin apareceu num vão de janela do Château-Gaillard, que dava para o lado da praça. Embora o corpo do alfaiate estivesse perfeitamente pendurado e inanimado, na mesma hora seu braço se levantou e sua mão se agitou alegremente, como o rabo de um cachorro que revê seu dono. Isso fez subir da multidão um longo grito de surpresa, e os que já estavam andando para ir embora voltaram às pressas, como essas pessoas que imaginam que a peça terminou quando ainda resta um ato.

O carrasco recolocou sua escada, apalpou os pés do enforcado atrás dos cal- canhares: o pulso não batia mais; cortou uma artéria, o sangue não jorrou, e, no entanto, o braço continuava seus movimentos desordenados…
O homem, embora rubro, não se assustava com pouca coisa; fez questão de subir nos ombros de seu morto, enquanto a platéia dava gritos; mas a mão tratou seu rosto cheio de espinhas com a mesma irreverência que demonstrara com mestre Chevassut, de tal modo que, xingando Deus, o homem puxou um facão que sempre usava debaixo da roupa e com dois golpes ceifou a mão possuída.

Ela deu um pulo extraordinário e caiu, ensanguentada, no meio da multidão, que se afastou apavorada; então, dando vários outros pulos, graças à elasticidade de seus dedos, e como todos lhe abrissem passagem, em pouco tempo foi parar ao pé da torrinha do Château-Gaillard; depois, agarrando-se com seus dedos, como um caranguejo, nas asperezas e rachaduras da muralha, subiu até o vão da janela onde o cigano a aguardava.

Belleforest termina sua conclusão singular nesses termos: “Essa aventura anotada, comentada e ilustrada foi durante muito tempo o assunto de conversas da boa sociedade como também dos populares, sempre ávidos por relatos estranhos e sobrenaturais; mas talvez ainda hoje seja uma dessas boas histórias para divertir as crianças ao pé do fogo e que não devem ser levadas na brincadeira por pessoas graves e ponderadas”.