A História de Willie, O Vagabundo – Walter Scott

A História de Willie, O Vagabundo

Walter Scott

Vocês já devem ter ouvido falar daquele tal Robert Redgauntlet, um sujeito que viveu por estes lados há bastante tempo. O país ainda vai se lembrar muito dele; nossos pais costumavam prender a respiração com força apenas ao ouvir esse nome. Ele estava fora de Highlanders no tempo de Montrose; e também estava nas montanhas com Glencairn em 1622; e quando o rei Carlos II subiu ao trono; quem gozava mais de seus favores que o lorde Redgauntlet? Ele tinha sido ordenado cavaleiro na corte de Londres, com a espada do próprio rei; e como era um grande defensor da prelazia, veio para cá, comportando-se com a violência de um leão, com a moral da ordenação a tenente (e, pelo que sei, com uma loucura) para afastar os whigs e os covenanters da região. Mas a coisa foi dura; pois os whigs eram tão corajosos quanto a cavalaria era cruel, e o negócio era ver quem se cansaria primeiro. Redgauntlet gostava de usar a força; e seu nome era tão conhecido aqui quanto o de Claverhouse ou de Tam Dalyell. Nem uma escarpa ou um vale, nem uma colina ou uma caverna podiam esconder o pobre povo da montanha quando Redgauntlet saía com a trompa e os bravos cães de caça atrás dele. Como se estivessem caçando uma manada de cervos. E, verdade, quando alcançavam alguém, não faziam mais cerimônia do que os montanheses com uma corça — e bastava: “Quer fazer o juramento?”; — se não, “Pronto — agora fogo!” —, e ali mesmo o covarde ficava estendido.

Sir Robert era odiado e temido em toda a região. Os homens acreditavam que ele tinha um pacto com o próprio demônio, e que ele era à prova de aço, e que as balas se derretiam na sua armadura como pedras de gelo no fogo, e que ele tinha uma égua capaz de virar lebre lá para os lados de Carrifra — e outras coisas do mesmo tipo que contarei mais adiante. A maldição mais suave que já se lançou a ele foi: “O diabo que chicoteie Redgauntlet”. Seu povo não o achava um mau senhor, e seus homens inclusive gostavam dele; os intendentes e os cavaleiros que saíam com ele atrás dos whigs naqueles tempos terríveis faziam um brinde, a hora que fosse, à sua saúde.

Agora vocês podem saber que meu avô morava nas terras de Redgauntlet — em um lugar conhecido como Primrose-Knowe. Minha família vivia nas propriedades dos Redgauntlet desde os tempos dos bandoleiros, e bem antes até. Era um lugar agradável, o ar era mais fresco do que em qualquer outra região. Agora está abandonado, estive há três dias sentado no umbral da porta e me sinto feliz por não ver mais a ruína em que se converteu; mas estou me desviando da história. Ali vivia meu avô, Steenie Steenson, um pândego, ator na juventude; tocava bem gaita e fazia sucesso com a “Hoopers e Girders”. E em Cumberland ninguém podia competir com ele na “Jockie Latin” — o seu era o mais belo dedo para a “back-lilt” entre Berwick e Carlisle. Os whigs não tinham o mesmo gosto que Steenie. E ele acabou se tornando um tóri, como eles chamavam os que agora conhecemos por jacobitas, simplesmente porque sentia necessidade de fazer parte de um dos bandos. Ele não queria mal aos whigs e não gostava de ver sangue correndo; no entanto, como era obrigado a acompanhar o senhor Robert em caçadas e batalhas, observando e protegendo, viu muita coisa errada, e talvez, por não ter conseguido evitar, tenha feito algumas também.

Steenie acabou sendo uma espécie de favorito de seu amo e acabou conhecendo todo o pessoal ao redor do castelo. Freqüentemente era chamado para tocar gaita nas festas. O velho Dougal MacCallum, o mordomo, que acompanhava o senhor Robert na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na felicidade e na tristeza, gostava especialmente do instrumento, de onde vinha o bom cartaz de meu avô, porque Dougal tinha o que queria de seu amo.

Bom, a revolução estourou por todo canto, e deixou tanto Dougal quanto seu amo arrasados. No entanto, a mudança não foi tão grande quanto eles temiam e outros desejavam. Os whigs falaram muito sobre o que queriam fazer com seus velhos inimigos, e em especial com sir Robert Redgauntlet. Mas eram tantos os nomes importantes metidos na coisa que era impossível passar por cima de tudo e começar o mundo de novo do zero. Então o Parlamento fez vista grossa, e sir Robert, salvo a permissão para caçar raposas e não covenanters, continuou o mesmo de sempre. Suas festas ainda eram muito animadas, e seu salão bem iluminado, como sempre fora, mesmo que talvez ele tivesse começado a sentir falta dos tributos dos insatisfeitos que vinham se encher nas suas despensas e celeiros; pois é certo que ele começou a ser mais atento aos arrendamentos de seus vassalos e eles se esforçavam para pagar no prazo, pois, do contrário, ele se desagradava muito. E ele era mesmo tão bravo que ninguém queria provocar sua ira; lançava maldições e, às vezes, entrava em tal delírio e olhava de tal jeito que os homens pensavam estar na presença do próprio demônio.

Bom, meu avô não cuidava bem dos negócios, mas também não era um perdido é que ele não tinha o dom da economia e estava com dois pagamentos atrasados. No domingo de Pentecostes, conseguiu se livrar de um tocando gaita e Proferindo um belo discurso; mas quando chegou o dia de San Martin, o administrador avisou que o aluguel deveria ser pago no dia combinado, ou então Steenie teria de ir embora. O dinheiro custou-lhe muito esforço. Mas como tinha muitos amigos, acabou conseguindo reunir a importância — mil moedas de prata. Quase tudo veio de um vizinho conhecido como Laurie Lapraik, uma raposa velha. Laurie sabia como devia andar — pronto para caçar com os cachorros ou correr com as lebres — e ser whig ou tóri, santo ou pecador conforme o vento mudava. Era um esperto nesse mundo que se seguiu à revolução, mas gostava muito de um sopro de ar mundano às vezes e de uma ou outra canção de gaita; e, acima de tudo, achou que seria bom negócio emprestar o dinheiro para meu avô, tendo como garantia todos os bens de Primrose-Knowe.
E lá se foi meu avô ao castelo de Redgauntlet com o fardo pesado e o coração leve, feliz por escapar da ira de seu amo. Bom, a primeira coisa que ele soube no castelo foi que sir Robert estava muito nervoso por causa de um acesso de gota, e de fato só deu sinal de vida ao meio-dia. A questão talvez nem fosse o dinheiro, acreditava Dougal; mas talvez ele não quisesse fazer meu avô esperar. Dougal estava feliz por ver Steenie e o guiou até a sala de estar onde o lorde estava sentado em completa solidão, acompanhado apenas por um enorme e mal-encarado macaco, o seu animal preferido; um bicho maldoso e dado a brincadeiras estranhas — muito difícil de agradar e raivoso. O bicho corria ao redor do castelo, urrando e guinchando, abocanhando e mordendo quem aparecesse, especialmente quando se anunciavam intempéries ou desordens na região. Sir Robert o chamava de Major Weir, um traidor que fora queimado; poucas pessoas gostavam do nome ou do jeito do bicho — pensavam que havia nele alguma coisa de anormal. Meu avô não estava exatamente tranquilo quando a porta bateu e ele se viu no salão apenas na companhia do lorde, de Dougal MacAllum, e de Major, uma coisa que nunca lhe acontecera antes.
Sir Robert estava sentado, ou melhor, esticado em uma grande cadeira de braços, com sua melhor toga de veludo, e os pés em um apoio, pois tinha gota e pedra nos rins. Seu rosto parecia tão doído e cadavérico quanto o do demônio. Major Weir estava sentado à sua frente, com uma casaca de renda vermelha, e com a peruca do lorde na cabeça; e sempre que sir Robert gemia de dor, o macaco gemia também — eram uma dupla terrível, aterradora mesmo. A armadura do lorde estava pendurada em um gancho atrás dele, e a espada e a pistola ficavam ao seu alcance, pois ele tinha a velha mania de ter as armas prontas, e um cavalo selado dia e noite, do jeito que costumava fazer quando era capaz de montar e sair atrás de algum montanhês de que tivera informação. Alguns diziam que era por temor da vingança dos whigs, mas eu acho que ele estava acostumado com aquilo — aquele não era homem que temesse alguma coisa. O livro-caixa, com sua capa preta e fivelas de cobre, estava ao lado dele, e um caderno de canções obscenas, colocado entre as folhas, mantendo-o aberto no lugar onde estava a informação de que o bom homem de Primrose-Knowe estava atrasado no pagamento de suas rendas e impostos. O olhar que sir Robert dirigiu ao meu avô parecia ter a intenção de congelar o coração dele no peito. Dizem que ele franzia o cenho de tal maneira que aparecia a marca de uma ferradura na testa, era como se ela tivesse sido gravada ali.
”Veio de mãos abanando, seu filho de uma cadela? Brrrr… se for assim…”
Meu avô, com a máxima bondade e prudência, deu um passo à frente e colocou a bolsa de dinheiro na mesa, com movimentos ligeiros, como alguém que tem muita segurança no que faz. O lorde pegou-a de imediato.
”Está tudo aqui, Steenie?”
”Está tudo na mais perfeita ordem, senhor”, disse meu avô.
”Venha, Dougal”, disse o lorde, “dê a Steenie uma taça de brandy lá embaixo, enquanto eu conto o dinheiro e faço um recibo.”
Eles mal tinham saído da sala quando sir Robert deu um grito que fez até as paredes do castelo tremerem. Dougal voltou correndo, os lacaios vieram voando e o lorde continuou gritando, e de um jeito cada vez mais alucinado. Meu avô não sabia para onde ir e acabou arriscando voltar para o salão, onde a confusão era tão grande que ninguém mais se preocupava com quem entrava ou saía. O lorde urrava terrivelmente, pedindo água fria para os pés e vinho para refrescar a garganta; e, inferno, inferno, inferno, e todas as suas chamas, eram essas as palavras que saíam da sua boca. Trouxeram água, e quando enfiaram aqueles pés inchados na bacia, ele gritou que estava queimando; e muita gente diz que de fato borbulhava e fazia fumaça como um caldeirão fervente. Ele atirou a bacia na cabeça de Dougal e falou que lhe tinham dado sangue em vez de borgonha; e de fato a criadagem teve de lavar o sangue coagulado no carpete no dia seguinte. O macaco que eles chamavam de Major Weir deu um passo para trás e começou a urrar feito seu dono. Meu avô só queria sair daquele lugar e acabou esquecendo tanto o dinheiro como o recibo. Ele bateu a porta e, enquanto corria, percebeu que os urros iam ficando cada vez mais débeis, até que houve um suspiro e correu pelo castelo a notícia de que o lorde estava morto.

Bom, meu avô se foi com a esperança de que Dougal tivesse visto a sacola de dinheiro e ouvido o lorde falar que ia escrever um recibo. O jovem lorde, agora sir John, veio de Edimburgo para acertar as coisas. Sir John e seu pai nunca tinham se dado bem. Sir John tinha estudado para ser advogado e depois ocupou uma cadeira no último Parlamento escocês, tendo votado pela União e recebido, foi o que todo mundo pensou, um punhado de compensações — se seu pai pudesse sair do túmulo, talvez lhe quebrasse a cabeça com as pedras da própria lápide por causa daquilo. Algumas pessoas achavam mais fácil tratar com o velho e rude cavalheiro do que com o jovem de maneiras suaves, mas falaremos disso mais adiante.

Dougal MacCallum, pobre homem, nem chorava nem se lamentava, apenas vagava pela casa feito um morto, mas dirigindo, como era seu dever, o grande funeral. Conforme a noite ia caindo, Dougal ficava de pior aspecto e era sempre o último a ir para a cama, em um pequeno cômodo oposto ao aposento que o lorde ocupava quando ainda estava vivo e onde agora jazia. Dougal, na noite anterior ao funeral, não conseguiu sustentar seu orgulhoso espírito e pediu ao velho Hutcheon que lhe fizesse companhia por uma hora em seus aposentos. Logo que entraram, Dougal serviu-se de uma taça de brandy, deu outra a Hutcheon, e lhe desejou saúde e longa vida, dizendo que já não tinha mais vontade de viver neste mundo, porque todas as noites, desde a morte de sir Robert, ele ouvia o apito de prata chamando-o à câmara mortuária, tal como o lorde fazia enquanto estava vivo, para que Dougal o ajudasse a se virar na cama. Dougal disse que com a morte rondando ele nunca tinha ousado responder ao chamado, mas agora a sua consciência o reprimia por estar negligenciando seu dever, pois, “ainda que a morte interrompa o serviço”, disse, “eu nunca falhei no meu dever para com sir Robert; e responderei a seu próximo chamado, e você virá comigo, Hutcheon”.

Hutcheon não sentia nenhuma vontade de fazer aquilo, mas tinha sido companheiro de Dougal em batalhas e tumultos, e não falharia nessa emergência; então os amigos se serviram de um jarro de brandy, e Hutcheon, que era meio religioso, poderia ter lido um capítulo da Bíblia; mas Dougal não quis ouvir nada além de um fragmento de David Lindsay que falava de preparativos para a guerra.

Quando bateu a meia-noite, e a casa estava quieta como um túmulo, o apito de prata soou tão claro e penetrante que parecia que sir Robert estava realmente assoprando-o. Os dois velhos criados ouviram e cambalearam para o quarto onde o homem morto jazia. Hutcheon na mesma hora viu o que tinha de ver, pois as tochas no quarto mostraram-lhe aquele demônio horrível, no seu aspecto habitual, sentado no túmulo do lorde! Não dá para falar quanto tempo ele ficou em transe na porta, mas, quando voltou a si, chamou seu amigo e não ouviu resposta, e Dougal foi achado morto a dois passos da cama onde o caixão do seu amo estava colocado. O apito desapareceu por completo, ainda que tivesse sido ouvido outras vezes no cimo do castelo, entre a velha chaminé e as pequenas torres, no lugar onde as corujas faziam seus ninhos. Sir John acalmou as coisas, e o funeral transcorreu sem maiores problemas.
Mas quando tudo acabou e o lorde estava começando a acertar os negócios, cada vassalo foi convocado por suas dívidas, e meu bom avô pela soma inteira que estava no livro-caixa. Bom, lá foi ele cavalgando para o castelo, para contar sua história e ser apresentado a sir John, sentado na cadeira de seu pai, em rigoroso luto, com bracelete e gravata negros e uma pequena bengala de passeio junto de si, no lugar do velho sabre, que com a lâmina, a bainha e os acessórios devia pesar uma tonelada. Ouvi a história tantas vezes que parece mesmo que estive lá, mas eu não tinha nascido naquela época. (Na verdade Alan, meu bem-humorado e alegre companheiro de palco, imitava o tom do locatário com a melancólica e hipócrita resposta do lorde. Seu avô, ele disse, olhava fixamente para o livro-caixa, como se fosse um cão mastim que pudesse pular e mordê-lo.)

“Desejo-lhe felicidade, meu senhor, fartura e sorte. Seu pai era um homem gentil com os amigos e admiradores; muito agradável da sua parte, sir John, usar os sapatos dele — as sapatilhas, melhor dizendo, pois ele raramente usava sapatos, seria demais por causa da gota.”

“Certo, Steenie”, disse o lorde, sorrindo profundamente e colocando um guardanapo nos olhos, “sua morte foi repentina, e ele será lembrado no país inteiro; ainda não tivemos tempo nem sequer de arrumar a casa — o trabalho de Deus foi bem preparado, sem dúvida, é o que interessa — mas vamos deixar os problemas de lado, Steenie, e cuidemos dos negócios, temos muito a fazer e pouco tempo para fazê-lo.”

Com isso, ele abriu o fatídico volume. Ouvi falar de algo que se conhece como o Livro do Juízo Final — tenho certeza de que se trata de um livro de vassalos devedores.
Stephen”, disse sir John com o mesmo tom de voz calmo e meloso, “Stephen Stevenson, ou Steenson, você está aqui pelo atraso de um ano de aluguel. Venceu no trimestre passado.”

Stephen. “Por favor, senhor, sir John, eu paguei para o seu pai.”
Sir John. “Você tem um recibo, sem dúvida, Stephen; você pode me mostrar?” Stephen. “Não tive tempo, senhor; logo que entreguei o dinheiro e sir Robert, que Deus o guarde, quando ia contá-lo, ele começou a sentir aquelas dores terríveis que o mataram.”
”É, foi muito azar”, disse sir John, depois de uma pausa. “Mas você talvez tenha pagado na presença de alguém. Só preciso de uma prova, Stephen, não quero me aproveitar de um pobre homem.”
Stephen. “Em verdade, sir John, não havia ninguém no quarto além de Dougal MacCallum, o mordomo da adega. Mas, como Vossa Excelência sabe, ele teve o mesmo destino que seu velho senhor.”
”É, outro azar, Stephen”, disse sir John, sem alterar sua voz nem numa simples nota. “O homem para quem você pagou o dinheiro está morto, e o homem que testemunhou o pagamento está morto também, e o dinheiro, que deveria estar por aqui, não chegou perto dos cofres. Como eu posso acreditar nisso?”
Stephen. “Eu não sei, Excelência, mas tenho anotadas aqui cada uma das moedas; sim, Deus me ajude! Fiz um empréstimo a vinte pessoas, e estou certo de que todos terão a coragem de testemunhar que o dinheiro foi mesmo emprestado.”
Sir John. “Eu não tenho dúvida de que você pegou emprestado o dinheiro, Steenie. Eu gostaria de ter alguma prova do pagamento a meu pai.”
Stephen. “O dinheiro deve estar em algum lugar da casa, sir John. E como Vossa Excelência não o pegou, e como Sua Excelência, que descanse em paz, não podia mesmo levá-lo consigo, talvez alguém da família o tenha visto.”
Sir John. “Perguntaremos aos criados, Stephen; é o mais razoável.”
Mas mordomos e criadas, pajens e cavalariços, todos negaram veementemente que tinham visto uma sacola de dinheiro como a que meu avô descrevia. Para piorar, ele não tinha mencionado a nenhuma alma viva o propósito de pagar seu aluguel. Uma donzela tinha visto algo sob seu braço, mas achou que fosse uma gaita.

Sir John Redgauntlet ordenou que os criados saíssem e então disse ao meu avô: “Agora, Steenie, você tem que jogar limpo; e, como não tenho dúvidas de que você sabe onde achar o dinheiro, eu peço, em termos justos e para seu próprio bem, que você termine com esse constrangimento; Stephen, ou você paga ou vai embora das minhas terras”.

“O lorde que me perdoe”, disse Stephen, procurando um final razoável, “sou um homem honesto.”
”Eu também, Stephen”, disse o senhor; “e também toda a gente da casa, espero. Mas se houver um patife entre nós, é aquele que conta uma história que não pode provar.”

Fez uma pausa, e então acrescentou, de maneira mais cortante:
”Se entendi sua estratégia, meu caro, você está querendo tirar vantagem de alguma notícia maliciosa a respeito da minha família e em especial da repentina morte do meu pai, para me privar do dinheiro, e talvez desconfie do meu caráter, insinuando que já recebi o aluguel que estou cobrando. Onde você acha que está esse dinheiro? Insisto em saber.”
As coisas estavam ficando pretas para o lado do meu avô, o que por pouco não o deixava desesperado. Contudo, ele se mexeu, olhou para cada canto da sala, e não respondeu.
”Fale, homem”, disse o lorde, assumindo o olhar muito particular que seu pai tinha quando estava bravo — as rugas de seu rosto pareciam formar aquela mesma figura terrível de ferradura. “Fale, homem! Quero saber o que você está pensando; você acha que estou com esse dinheiro?”
”Longe de mim uma coisa dessas”, disse Stephen.
”Você acha que um de meus empregados está com ele?”
”Eu detestaria acusar um inocente”, disse meu avô; “e se houver um culpado, não tenho provas.”
”Em algum lugar o dinheiro tem de estar, se existe uma palavra de verdade na sua história.”
”No inferno, se você quer mesmo saber o que estou pensando”, disse meu avô, louco de raiva, “no inferno! Com o seu pai, o macaco e aquele apito de prata.” Steenie correu escada abaixo (depois daquilo, a sala de estar não era um lugar adequado para ele) e ouviu o lorde praguejando atrás dele, surpreendentemente veloz, e berrando pelo administrador e pelo guarda.
Meu avô cavalgou até seu principal credor (a quem chamavam Laurie Lapraik), para ver se ele não poderia fazer alguma coisa; mas quando contou sua história, ouviu as piores palavras de sua vida — ladrão, esmoleiro e caloteiro foram os termos mais leves; e Laurie de novo começou a contar a história de que meu avô tinha as mãos manchadas pelo sangue dos justos, como se um vassalo pudesse se negar a cavalgar com o seu amo, ainda mais um como sir Robert Redgauntlet.
Meu avô já não tinha mais paciência e, quando estavam a ponto de se pegar, teve a desfaçatez de insultá-lo, tanto a ele quanto ao que ele dizia, e falou coisas que empalideceram todos que estavam ouvindo; estava fora de si e ademais tinha convivido com gente que não mordia a língua.
Finalmente eles se separaram, e meu avô voltou para casa cavalgando através da floresta de Pitmurkie, que era tomada de abetos negros, como diziam — e, sabe, eu conheço a floresta, mas não saberia dizer se os abetos são negros ou brancos. Na entrada da floresta há uma clareira, e na extremidade, uma estrebaria pequenina e solitária, que estava a cargo de uma mulher conhecida como Tibbie Faw, e lá o pobre Steenie pediu por meia dose de brandy, pois não molhara a garganta o dia inteiro. Tibbie insistiu para que comesse algo, mas ele nem quis ouvir falar disso, nem se dispôs a descer do cavalo, e tomou todo o brandy em dois tragos, fazendo um brinde com cada um: o primeiro à memória de sir Robert Redgauntlet, que ele jamais descansasse tranquilo no túmulo até que tudo estivesse certo com seu pobre vassalo; e o segundo à saúde do Inimigo do homem, para que lhe devolvesse o dinheiro, ou lhe falasse o que tinha acontecido, pois o mundo inteiro o olhava como um ladrão ou um trapaceiro, e ele achava aquilo ainda pior que a perda de todos os seus bens.
Ele cavalgou sem muita direção. A noite tinha se tornado escura, e as árvores faziam-na ainda mais negra, e ele deixou o animal tomar seu próprio caminho através da floresta; quando, muito surpreendentemente, de cansado e enfastiado que estava, o cavalo começou a pular, correr e empinar, meu avô quase não conseguiu se manter na sela. De repente um cavaleiro se pôs a cavalgar ao lado dele e disse:
”Um animal de valor, o seu; quer vendê-lo?” E dizendo isso tocou o pescoço do cavalo com seu bastão, e ele voltou de pronto ao seu antigo trote cansado e vacilante. “Mas sua vivacidade vai logo se acabar, eu acho”, continuou o forasteiro; “é o mesmo que ocorre a muitos homens, que se acreditam muito capazes até que chega o momento de se colocarem à prova.”
Meu avô, mal ouviu isso, esporeou seu cavalo com um “Boa noite, amigo”.
Mas o forasteiro não era desses que dão logo o braço a torcer; cavalgando como cavalgava Steenie, estava sempre a seu lado. Por fim meu avô, Steenie Steenson, começou a enfadar-se; e, para dizer a verdade, a sentir um pouco de medo.
”O que é que você quer de mim, amigo?”, ele disse. “Se você for um ladrão, não tenho dinheiro, se for um homem honesto, querendo companhia, não tenho ânimo para rir ou falar; e se você quer conhecer a estrada, eu mesmo mal a conheço.”
”Se alguma coisa o está atormentando”, disse o forasteiro, “conte-me. Sou alguém que, mesmo muito caluniado neste mundo, não tem igual se a questão for ajudar os amigos.”
Então meu avô, para aliviar o próprio coração mais do que esperando por ajuda, contou-lhe a história do começo ao fim.
”É um caso complicado”, disse o forasteiro, “mas acho que posso ajudá-lo.”
”Se puder me emprestar o dinheiro, senhor, sem esperar que eu o devolva tão cedo, confesso que não preciso de nenhuma outra ajuda na terra”, disse meu avô.
”Pode ser que haja algo debaixo dela”, disse o forasteiro. “Escute, vou ser franco com você; posso recuperar o seu dinheiro, mas você talvez não aceite meus termos. Posso garantir que seu velho senhor está perturbado na cova com essas coisas e lastima por sua família, e se você ousar ir vê-lo ele vai lhe dar o recibo.”
Os pêlos do meu avô se arrepiaram com aquilo; ele pensou que sua companhia pudesse ser algum tipo de trapaceiro bem-humorado que estava tentando assustá- lo, e pudesse terminar pegando-lhe o dinheiro. Além disso, ele estava alto com o brandy e desesperado de preocupação; e disse que tinha coragem de ir ao portão do inferno, e mais ainda, por aquele recibo. O forasteiro se pôs a rir.

Eles cavalgaram floresta adentro, quando, surpreendentemente, o cavalo parou na porta de uma grande casa; e, pelo que ele sabia, se o lugar não estivesse dez milhas adiante, meu avô poderia ter pensado que estava no castelo Redgauntlet. Atravessando os arcos do velho portão, entraram no pátio; viram a frente da casa toda iluminada, e ouviram flautas e violinos, e notaram que havia muita dança e bagunça como era costume na casa de sir Robert no Natal, na Páscoa ou em outras ocasiões especiais. Apearam dos cavalos, e meu avô achou que estava prendendo o seu na mesma argola que usara pela manhã, quando fora atender ao chamado de sir John.

Deus!”, disse meu avô, “e se a morte de sir Robert não for mais que um sonho?”
Ele bateu na porta como costumava fazer, e o velho mordomo, Dougal MacCallum, exatamente como antes também, veio abri-la e disse:
Steenie, o gaiteiro, é você que está aí, meu caro? Sir Robert tem chamado por você.”
A meu avô aquilo parecia ser um delírio. Procurou o forasteiro, mas ele tinha desaparecido. Por fim, tratou simplesmente de dizer:
”Olá, Dougal, você está vivo? Eu pensei que estivesse morto”.
”Não faça caso de mim”, disse Dougal, “mas cuide de si mesmo; e veja se não toca em nada, nem em carne, bebida ou dinheiro, exceto no seu recibo.”
Dito isso, ele guiou meu avô pelas paredes e corredores que lhe eram bem conhecidos, até o velho salão de estar; e havia ainda mais canto de músicas pro- fanas, e vinho tinto, e blasfêmia e obscenidades, como acontecia no castelo de Redgauntlet nos melhores tempos. Mas, que Deus nos ajude!, que grupo de foliões cadavéricos estava ao redor da mesa! Meu avô reconheceu vários, pois tocara para eles no salão de Redgauntlet.
Lá estavam o cruel Middleton, e o dissoluto Rothes, e o astuto Lauderdale; e Dalyell, com a cabeça careca e a barba até a cintura; e Earlshall, com sangue de Cameron nas mãos; e o selvagem Bonshaw, que mutilou o senhor Cargill; e Dumbarton Douglas, o reincidente traidor tanto do país como do rei. Lá estava o sangrento advogado MacKenye, que, por sua propalada inteligência e sabedoria, era um deus para os outros. E também Claverhouse, tão belo como quando vivo, com suas mechas longas, escuras e cacheadas caindo pela capa entrelaçada, e a mão esquerda sempre sobre a bainha do ombro direito, para esconder o ferimento que a bala de prata tinha feito. Ele se sentara longe de todos e olhava para eles com um semblante melancólico e arrogante, enquanto os outros se divertiam, e cantavam, e riam de um jeito que a casa tremia. Mas de vez em quando o sorriso deles se contraía de um modo tão horrível e as risadas eram tão selvagens que as unhas do meu avô tinham ficado azuis e a medula de seus ossos quase congelara.
Quem servia a mesa eram os mesmos criados e soldados que tinham executado suas ordens quando eles ainda eram vivos. Também estava presente o lorde de Nethertown, que ajudou a prender Argyle e intimidou o bispo, eles o chamavam de Enviado do Demônio; e os cruéis soldados em suas armaduras; e os ferozes Amoritas das Terras Altas, que derramavam sangue como se fosse água; e muitos vassalos orgulhosos, de coração arrogante e mão ensanguentada, bajulando os ricos e fazendo-os ainda mais perniciosos do que tinham sido, maltratando os pobres até que desaparecessem feito pó, despedaçados pelos ricos. E muitos, muitos outros entravam e saíam como se estivessem vivos.
Sir Robert Redgauntlet, no meio daquele escândalo terrível, gritou, com uma voz de trovão, que o gaiteiro Steenie fosse à ponta da mesa onde ele estava sentado com as pernas estendidas e enfaixadas com uma flanela; as pistolas estavam ao lado, e a grande espada na cadeira, exatamente como meu avô o vira pela última vez, a grande almofada do macaco estava também em seu lugar, mas a própria criatura não — é provável que ainda não fosse sua hora; pois ele os ouvira dizer quando se aproximava:

“O Major ainda não veio?”
E outro respondeu:
”Chega antes do amanhecer.”
E quando meu avô se aproximou, sir Robert, ou o seu fantasma, ou o diabo sob aquela forma, disse:

“Bom, gaiteiro, você esteve com meu filho para tratar do aluguel anual?”
Meu avô respirou fundo para dizer que sir John exigia um recibo do lorde.
”Você o terá em troca de alguma música, Steenie”, disse o espectro de sir Robert. “Toque para nós a ‘Weel Hoddled, Luckie’.”
Era uma melodia que meu avô aprendera com um bruxo, que por sua vez a ouvira enquanto estava adorando o demônio em um de seus trabalhos; e meu avô a tinha tocado algumas vezes nos extravagantes jantares no castelo de Redgauntlet, mas nunca muito animadamente; e agora, só de ouvir o nome, ele sentia um frio na barriga. Steenie desculpou-se e disse que não tinha sua gaita consigo.
”MacCallum, seu molenga do Belzebu”, disse o temeroso sir Robert, “traga uma gaita a Steenie, pois eu estou esperando!”
MacCallum trouxe uma gaita que poderia até ser usada por Donald de Isles. Mas, ao entregá-la, deu um cutucão no meu avô; e olhando de soslaio, Steenie viu que o bocal era de ferro e couro e que tinha sido aquecido em brasas. Por isso, ele teve o cuidado de não tocar nele com os dedos. De novo ele se desculpou e disse que de tão cansado e assustado não tinha fôlego suficiente para tocar.
”Então, Steenie, coma e beba”, disse o espectro; “nós ficaremos aqui e a conversa de um ébrio com um abstêmio é chata.”
Mas aquelas eram as mesmíssimas palavras que o sanguinário conde de Douglas dissera para entreter o mensageiro do rei enquanto cortava a cabeça de McLellan de Bombie no castelo de Threave; o que deixou Steenie ainda mais alerta. Então ele falou como um homem e disse que não fora ali para comer, beber ou farrear, mas simplesmente por seu interesse, para saber o que tinha acontecido com o dinheiro com que pagara e conseguir um recibo; ele se sentiu tão valente naquele momento que chegou a apelar para a consciência de sir Robert (não teve coragem para dizer o nome sagrado) para, se quisesse descansar em paz, que não o deixasse com problemas e lhe desse o que era seu.
O espectro batia os dentes e ria, mas pegou o recibo em um grande livro-arquivo e o passou a Steenie.
”Aqui está o seu recibo, desgraçado; e, sobre o dinheiro, o lazarento do meu filho pode ir procurá-lo na Casa do Gato.”
Meu avô agradeceu muito, e estava para sair quando sir Robert gritou:
”Pare aí, seu grandessíssimo filho-de-uma-puta! Eu não estou satisfeito com você. aqui nada sai de graça; e você deve voltar daqui a dois meses para prestar a homenagem que me deve por conta da minha proteção.”
A língua do meu avô soltou-se de repente, e ele disse em voz alta:
”Sirvo a Deus, e não ao senhor.”
Mal tinha acabado de dizer isso quando tudo escureceu ao seu redor; e ele caiu na terra em tal estado que perdeu a respiração e os sentidos.
Quanto tempo Steenie ficou ali, não sei dizer; mas quando voltou a si, estava caído no velho cemitério da paróquia de Redgauntlet, bem na porta da capela da família, e sua cabeça estava amparada no escudo de um velho cavaleiro, sir Robert. Havia uma espessa neblina matinal na grama e ao redor das lápides, e seu cavalo estava pastando calmamente ao lado de duas vacas do pároco. Steenie teria pensado que tudo não passara de um sonho, mas o recibo estava nas suas mãos, comprovadamente escrito e assinado pelo velho lorde; somente as últimas letras de seu nome estavam desordenadas, como se tivessem sido escritas por alguém vítima de uma dor repentina.

Profundamente perturbado, meu avô deixou aquele lugar lúgubre, caminhando pela neblina para o castelo de Redgauntlet, e com muita dificuldade conseguiu falar com o lorde.
”Bom, seu caloteiro”, foram as primeiras palavras, “você trouxe o meu aluguel?” “Não”, respondeu meu avô, “eu não o trouxe, mas trouxe o recibo de Sua Excelência, sir Robert.”

“Como, homem? O recibo de sir Robert! Você me falou que ele não tinha lhe dado.” “Vossa Excelência poderia fazer a gentileza de conferi-lo?”
Sir John observou cada palavra e cada linha com muita atenção, e por último deteve-se na data, que meu avô nem tinha notado — “Com a minha autoridade”, ele leu, “em vinte e cinco de novembro”. “O quê? É a data de ontem! Canalha, você vai para o inferno por causa disso!”

“Peguei-a de seu honrado pai — se ele está no céu ou no inferno, não sei”, disse Steenie.
”Vou denunciá-lo por bruxaria ao Conselho!”, disse sir John. “Vou enviá-lo para o seu senhor, o diabo, com a ajuda de um tronco e uma tocha!”

“Pretendo falar com o Presbitério”, disse Steenie, “e contar a eles tudo o que vi na última noite, que são coisas mais urgentes para serem julgadas do que um homem simplório como eu.”
Sir John fez uma pausa, recompondo-se, querendo ouvir toda a história, e meu avô contou-lhe de ponta a ponta, como estou falando para você — palavra por palavra, nem mais, nem menos.

Sir John ficou em silêncio por um longo tempo, e por fim disse, muito compenetrado: “Steenie, essa sua história diz respeito à honra de várias famílias nobres além da minha; e se você a conta apenas para se ver livre de mim, o mínimo que o espera é um ferro quente atravessado na língua, o que será tão ruim quanto ter os dedos escaldados em um cântaro fervendo. Mas se o dinheiro aparecer, será verdade. Não vou saber o que pensar. Mas onde acharemos a tal Casa do Gato? Há gatos suficientes ao redor da velha casa, mas acho que são filhotes sem o luxo de uma cama ou uma moradia.”

“O melhor seria perguntar a Hutcheon”, disse meu avô. “Ele conhece qualquer canto das redondezas tão bem como um outro mordomo que agora está morto e que eu não gostaria de nomear.”
Hutcheon, quando foi indagado, contou-lhes que uma pequena torre em ruínas, havia muito abandonada, próxima à torre do relógio e somente acessível por uma escada, pois a abertura estava para o lado de fora sobre as muralhas, era chamada de Casa do Gato.

Vou até lá agora mesmo”, disse sir John, pegando (com que propósito, só Deus sabe) uma das pistolas de seu pai no depósito, onde elas tinham ficado desde a noite em que ele morreu, e se precipitando para as muralhas.
O lugar era perigoso, pois a escada estava velha, carcomida e com alguns degraus a menos. Contudo sir John subiu e entrou na porta da torre, onde seu corpo cobriu o débil feixe de luz que escapava dali. Alguma coisa se lançou sobre ele e quase o atirou ao chão; a pistola disparou e Hutcheon, que segurava a escada, e meu avô, em pé ao seu lado, ouviram um forte alarido. Um minuto depois, sir John jogou o corpo do macaco na direção deles, e gritou que achara o dinheiro, e que eles deveriam subir e ajudá-lo. Com efeito, lá estava o dinheiro, além de muitas outras coisas estranhas, que tinham sumido havia muito tempo.

Depois de limpar bem a pequenina torre, sir John levou meu avô ao salão, pegou-o pelas mãos, e falou gentilmente com ele, dizendo que lamentava ter duvidado de sua palavra, e que dali em diante seria um bom senhor, para compensar. “E agora, Steenie”, disse sir John, “dê crédito à honra de meu pai, um homem honesto mesmo depois de sua morte, que deseja ver a justiça feita a um pobre homem como você, ainda mais você, que sabe que homens mal-intencionados podem fazer conjecturas ruins sobre isso, a respeito da honestidade da alma dele. Então, acho que devemos pôr a culpa naquela criatura horrenda, Major Weir, e não dizer nada sobre o seu sonho na floresta de Pitmurkie. Você tinha tomado brandy demais para ter certeza de qualquer coisa; e, Steenie, esse recibo (sua mão tremia enquanto o segurava) não é mais do que um documento bizarro, o melhor que temos a fazer é colocá-lo no fogo sem alarde.”

“Certo, mas por mais bizarro que seja, é um comprovante de que paguei o meu aluguel”, disse meu avô, que estava com medo de perder a prova de que tinha pagado a sir Robert.
”Vou anotar o seu pagamento no livro-caixa, e dar a você um comprovante de meu próprio punho”, disse sir John. “E, Steenie, se você for capaz de ficar com a boca fechada, diminuo o valor do seu aluguel.”

“Muito obrigado, senhor”, disse Steenie, que viu na mesma hora para que lado o vento estava soprando; “sem dúvida vou estar em boas mãos sob a sua proteção; mas gostaria de conversar com alguém da Igreja sobre o assunto, pois não queria que a exigência do senhor seu pai…”

“Não evoque o fantasma de meu pai!”, disse Sir John, interrompendo-o. “Certo, então é o seguinte”, disse meu avô. “Ele me pediu que voltasse lá depois de exatamente dois meses, e isso é um peso para a minha consciência.”
”Bom, então”, disse sir John, “se você está tão perturbado, fale com o pastor da nossa paróquia; é um bom homem, considera a honra da minha família, e ademais acredito que ele deseje a minha proteção.”

Com aquilo, meu avô prontamente concordou que o recibo deveria ser queimado, e o lorde jogou-o no fogo com suas próprias mãos. Um lume voou, com uma longa série de faíscas na cauda e o ruído sibilante de um busca-pé.
Meu avô foi à casa do pároco, que, quando ouviu a história, disse a sua verdadeira opinião, que pensava que meu avô tinha ido muito longe com assuntos perigosos, ainda que, como recusara as ofertas do diabo (como a comida e a bebida) e não quisera prestar homenagem tocando a gaita ao receber uma ordem, fosse de esperar que, se ele se mantivesse em um caminho sério dali em diante, seria bom para o demônio que tudo se encerrasse daquele jeito. E meu avô, de livre e espontânea vontade, jurou a si mesmo que não tocaria por muito tempo nem na gaita nem em um copo de brandy; só depois de passado o ano e o dia fatídico, ele ousou pôr de novo as mãos na gaita, ou beber uísque ou cerveja.

Sir John espalhou a história do macaco conforme lhe interessava; e as pessoas acreditaram na inclinação do animal pelo roubo. Inclusive há quem afirme que não foi o Velho Inimigo que Dougal e Hutcheon viram na casa do amo, mas sim esse animal, Major Weir, brincando sobre o esquife; e quanto ao apito do senhor, ouvido depois de sua morte, era o tenebroso animal que o tocava tão bem quanto seu dono,

se não melhor ainda.
Mas Deus sabe a verdade, que se revelou primeiro pela boca da esposa do pároco, depois que seu marido e sir John estavam ambos enterrados. E meu avô, a quem faltavam as pernas, mas não a memória e o juízo — ao menos não tanto que se pudesse notar —, foi obrigado a contar a verdade para seus amigos, para crédito de seu bom nome. De outro modo, poderiam acusá-lo de bruxaria.